terça-feira, 25 de julho de 2017

Na cabeceira do rio

Ouviu a queixa do rio e prometeu salvá-lo. Dali por diante ninguém mais despejaria monturo em suas águas. Contratou vigilantes, e ele próprio não fazia outra coisa senão postar-se à margem, espingarda a tiracolo, defendendo a pureza da linfa.
Seus auxiliares denunciaram que alguém, nas nascentes, turvava a água. Foi lá e verificou que um casal de micos se divertia corrompendo de todas as maneiras o fio d’água. Os animais fugiram para reaparecer à noite. E explicaram, antes que levassem tiro na barriga:
Não fazemos por mal, apenas brincamos. Que pode um mico fazer para se divertir, senão imitar vocês?
A mim vocês não imitam, pois estou justamente lutando para proteger este rio.
Já não se pode nem imitar — observaram os micos, fugindo outra vez. — O homem é um animal impossível. Agora deu para fazer o contrário.
Carlos Drummond de Andrade, in Contos plausíveis

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