sexta-feira, 28 de julho de 2017

Lennie não é maldoso

Apesar de a claridade do anoitecer penetrar pelas janelas da casa dos peões, lá dentro estava escuro. Pela porta aberta vinham os ruídos abafados e os tinidos de um jogo de ferradura, e, de vez em quando, o som das vozes que se erguiam em sinal de aprovação ou de lamento.
Slim e George entraram juntos na casa dos peões escura. Slim esticou o braço por sobre a mesa de jogo e ligou o abajur elétrico de lata. Instantaneamente, a mesa se iluminou, e o cone da cúpula mandou a luz direto para baixo, deixando os cantos da casa dos peões ainda imersos na escuridão. Slim sentou-se em um caixote e George tomou o lugar na frente dele.
Num foi nada – Slim disse. – Eu ia tê memo que afogá a maioria. Nem precisa agradecê.
George disse:
Talveiz num tenha sido muita coisa pr’ocê, mas foi memo muito importante pra ele. Jesus Cristo, num sei como é que a gente vai consegui fazê ele dormi hoje. Ele vai querê dormi lá no celero com eles. A gente vai tê dificuldade de convencê ele a num entrá na caixa co’os cachorrinho.
Num foi nada – Slim repetiu. – Olha, ocê tava memo certo quando falô dele. Acho que ele num é memo muito isperto, mais eu nunca vi ninguém trabaiá que nem ele. Ele quase matô o sujeito que tava trabaiando co’ele. Ninguém consegue acompanhá o ritmo dele. Por Deus todo-poderoso, nunca vi um sujeito tão forte assim.
George falou cheio de orgulho:
É só falá pro Lennie o que ele tem que fazê e ele faiz, desde que ele num tenha que pensá muito. Ele num consegue pensá em nada sozinho, mais com certeza sabe obedecê ordem.
Ouviu-se uma ferradura bater contra um ferro lá fora, e a comemoração de vozes que veio a seguir.
Slim moveu-se um pouco para trás, para a luz não ficar em seu rosto.
É engraçado o jeito qu’ocê e ele anda junto. – Era a maneira calma de Slim de convidar a uma confidência.
O que que tem de ingraçado? – George quis saber, na defensiva.
Ah, sei lá. É difícil achá dois sujeito que viaja junto. Ocê sabe como esses trabaiadô é, eles chega na fazenda, pega uma cama e trabaia um meis, e daí larga o trabaio e vai embora sozinho. Parece que nunca se importa com ninguém. É meio engraçado um tonto que nem ele e um sujeito isperto que nem ocê viajando junto.
Ele num é tonto – George disse. – Ele é burro feito uma porta, mas num é loco. E eu também num sô tão isperto assim, se não num ia tá aqui carregando cevada pra ganhá cinquenta pau e a comida. Se eu fosse isperto, nem que fosse só um poco mais isperto, ia tê minha terra, e ia cuidá da minha própria plantação, em veiz de trabaiá tanto e não ficá com nada que sai da terra. – George ficou em silêncio. Queria falar.
Slim nem o incentivou nem o desencorajou. Só ficou lá sentado, quieto e receptivo.
Num tem nada assim de tão ingraçado nele e eu andando junto – George disse afinal. – Ele e eu, a gente nasceu em Auburn. Eu conhecia a tia Clara dele. Ela pegô ele quando era bebê e criô. Quando a tia Clara dele morreu, o Lennie acabô me acompanhando no trabaio. A gente meio que se acostumô um com o otro depois de um tempo.
Hmm – disse Slim.
George olhou para Slim e viu os olhos calmos e bondosos sobre si.
Ingraçado – disse George. – Eu costumava me diverti muito com ele. Costumava fazê piada porque ele era burro dimais pra cuidá dele memo. Mais ele era tão burro que nem entendia que a piada era com ele. Eu me divertia. Ficava me achando o maió isperto do lado dele. Porque ele fazia qualquer coisa que eu mandava ele fazê. Se eu mandasse ele pulá de um penhasco, pode dexá que ele pulava. Mais, depois de um tempo, ficô sem graça. E ele também nunca ficava bravo. Eu já dei muita surra nele, e ele podia tê esmagado cada osso do meu corpo só com as mão, mas nunca levantô nenhum dedo contra mim. – A voz de George estava assumindo um tom confessional. – Vô te dizê o que me feiz pará com isso tudo. Um dia, tava com uns sujeito ali por perto do rio Sacramento. Eu tava me sentindo o maió isperto. Virei pro Lennie e mandei ele pulá no rio. Ele pulô. Num conseguiu dá nem uma braçada. Quase se afogou antes da gente consegui tirá ele de lá. E ele ficô todo agradecido porque a gente tinha tirado ele de lá. Tinha isquecido até que era eu que tinha mandado ele pulá. Bom, depois disso, nunca mais fiz essas coisa.
Ele é um bom sujeito – disse Slim. – A gente num precisa sê inteligente pra sê bom. Às veiz, eu fico achando que é bem o contrário. Se a gente pega um sujeito bem isperto, ele quase nunca é um sujeito bom de verdade.
George juntou as cartas soltas e começou a colocar uma partida de paciência na mesa. As ferraduras faziam barulho lá fora. Nas janelas, a luz do anoitecer ainda deixava claros os quadrados de vidro.
Eu num tenho ninguém – George disse. – Já vi os sujeito que anda pelas fazenda sozinho. Isso num é nada bom. Eles num se diverte nada. Depois de um tempo, eles fica tudo maldoso. Fica querendo arrumá briga o tempo todo.
É, eles fica cheio de maldade memo – Slim concordou. – Tanto que nem qué sabê de conversá co’os otro.
Claro que o Lennie é um aborrecimento a maió parte do tempo – George disse. – Mais depois que a gente se acostuma a andar por aí com um sujeito, num dá mais pra dispensá ele.
Ele num é maldoso – Slim disse. – Dá pra vê que o Lennie num tem nem um pouquinho de maldade.
Claro que ele num é maldoso. Ele se mete em confusão o tempo todo porque é burro dimais. Tipo o que aconteceu em Weed... – Parou enquanto virava uma carta. Pareceu amedrontado e olhou para Slim: – Ocê num conta pra ninguém?
O que foi que ele aprontô em Weed? – Slim perguntou calmamente.
Ocê num conta memo?... Não, é claro que ocê num conta.
O que foi que ele aprontô em Weed? – Slim perguntou de novo.
Bom, ele viu uma menina de vestido vermelho. Imbecil e burro como ele é, qué pegá em tudo que gosta. Só queria pegá no tecido. Então, ele esticô o braço pra pegá no tecido vermelho e a moça soltô um grito, e o Lennie ficô todo atrapalhado, e ficô lá segurando porque só conseguia pensá naquilo. Bom, a moça começô a gritá sem pará. Eu só tava um pouco afastado, e ouvi a gritaria, então vim correndo, e quando cheguei o Lennie tava tão assustado que num conseguia pensá em largá. Bati na cabeça dele com um mourão de cerca pra ele soltá. Tava com tanto medo que não conseguiu largá o vestido. E ele é forte que nem o diabo, ocê sabe.
Os olhos de Slim estavam fixos e não piscavam. Assentiu com a cabeça, bem devagar.
Então, o que foi que aconteceu?
George montou sua fileira de cartas desparelhadas com cuidado.
Bom, a moça resolveu colocá a boca no trombone e falá prum guarda que tinha sido estuprada. O pessoal de Weed organizô um bando pra linchá o Lennie. Então a gente se enfiô em uma vala de irrigação embaixo d’água e ficô lá o resto do dia. A gente só ficô co’a cabeça pra fora, no cantinho da vala. E, na mesma noite, a gente fugiu de lá.
Slim ficou parado, em silêncio, por um instante.
E ele num machucô a moça memo, né? – acabou por perguntar.
Caramba, num machucô não. Só assustô ela. Eu também ia ficá morrendo de medo se ele tivesse me agarrado. Mas ele num machucô ela, não. Ele só queria pegá no vestido, igual ele sempre qué ficá agradando os filhotinho.
Ele num é maldoso – disse Slim. – Eu sei muito bem quando um sujeito é maldoso, percebo a um quilômetro de distância.
John Steinbeck, in Ratos e homens

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