A
história é uma roda que gira. Ora estamos nas sombras, ora na luz.
“No momento em que vivemos, ela se acha mergulhada na sombra”,
diz, no ano de 1954, o escritor norte-americano William Faulkner. No
bar do Hotel Esplanada, em São Paulo, ele conversa com o romancista
brasileiro Lúcio Cardoso. O precioso diálogo ressurge na página 39
de Dias de Faulkner (Imprensa Oficial de São Paulo), romance do
carioca Antônio Dutra.
Relata
Dutra: Faulkner desembarcara em Congonhas, de um DC-6 da Braniff. Vem
cheio de temores e demonstra grande mau humor. Um clarão interior o
agita. É o convidado de honra do I Congresso Internacional de
Escritores. A literatura, porém, o aborrece. Nas entrevistas, não
se cansa de repetir: “O que interessa é o homem”.
Na
rota entre Lima e o Rio, onde fez a conexão para São Paulo, William
Faulkner viajou embalado por uma turbulência suave. Trepidação e
inconstância que não se estancaram em terra firme. Instabilidade
que, meio século depois, contamina (queima) o livro de Antônio
Dutra. Será mesmo um romance o que leio? Verdade? Mentira? Nenhum
dos dois: invenção. A narrativa de Dutra dispensa vínculos com a
realidade, embora deles tire partido. Não é uma reportagem, que
exige declarações, fatos e provas. Não é uma biografia, que se
baseia em versões e documentos. É – e isso, para a literatura,
basta.
Já
à entrada, está uma ideia abrasadora do escritor francês Claude
Simon: “Decida que foi desse modo que isso se passou e então isso
terá se passado realmente aqui”. Poucos escritores ousam sustentar
a afirmativa de Simon. Poucos leitores também. Nela, a roda do tempo
se inverte: é o presente que precede o passado e, desse modo, é ele
que cria o passado. A literatura se impõe, assim, como um ato de
inversão. Não é testemunho, não exige provas qualificadas ou
confirmações idôneas. É hipótese, é composição.
Deixo
de lado o livro de Dutra para pensar melhor. Encontro, então, outro
livro, O real e seu duplo, de Clément Rosset (José Olympio,
tradução de José Thomaz Brum). E nele a ideia de que a realidade
humana só existe em uma “segunda vez”. É a aposta na “segunda
vez” que leva o agricultor a sacrificar o primeiro alqueire de sua
colheita, os jovens romanos a fazerem a Júpiter o sacrifício de sua
primeira barba ou os supersticiosos a derramarem no chão o primeiro
gole da cachaça. Só na “segunda vez” o mundo se encorpa.
Quando? Só quando o confirmamos com palavras.
É
na segunda vez (quando escrito) que o mundo se torna real. As coisas
passam a existir quando são ditas, e não no momento em que
acontecem. Inverte-se, aqui, o antigo sonho de Platão. Para o
filósofo grego, a realidade era só um reflexo enganoso de um mundo
ideal. A literatura afirma o oposto: é nesse reflexo, nessa “segunda
vez”, que o real se apresenta. A ideia de Rosset, se a entendi bem,
me ajuda a desvendar a estratégia de Antô nio Dutra. Ele manobra as
palavras não como cópia ou evocação, mas como fundação.
Um
pesadelo que, ao acordar, esquecemos, não existe. Aquele nome que
deixamos de anotar e escapou da memória, também. As histórias
antigas que nossa avó nos contou e o tempo encobriu. Nada disso
existe, embora tenha ocorrido. Existir é subsistir, é durar. Ao
recriar a visita de William Faulkner a São Paulo, Antônio Dutra se
torna o autor de William Faulkner. O escritor é reduzido, assim, à
precária condição de personagem. E só assim o homem Bill, o
fazendeiro que preferia o campo aos livros, aparece.
Em
São Paulo, Faulkner foge dos compromissos oficiais, embriaga-se,
quase nunca está onde o esperam. Os diplomatas americanos lutam para
que ele conserve a compostura – “to get himself on his feet”,
como dizem. Literalmente: “mantenha-se dentro dos limites de seus
próprios pés”. Que mantenha a linha! Mas um homem como William
Faulkner tira sua potência, justamente, do desalinho. Na mente –
na escrita – de Faulkner não existe uma estrada principal, só
becos, vielas e vias vicinais.
William
Faulkner se embriaga para que seu corpo de alcoólatra corresponda a
seu espírito de escritor. Os dois cambaleiam em um mundo (o
literário) que é um inferno de perguntas. Repórteres, estudiosos,
leitores: todos buscam o que Faulkner supostamente sabe. No latim, um
amigo me ajuda, o verbo perguntar (praecunctare) remete a
“duvidar”, a “vacilar” e, um pouco mais além, a “cavar a
fundo”. Sim: perguntar é revolver. É também desdobrar-se –
avançar além das próprias forças. Logo ressoa em minha mente,
vinda lá sei eu de onde, uma ideia de Alberto Caeiro: “Tudo difere
de nós e por isso existe”. O Faulkner inventado por Dutra diverge
do Faulkner verdadeiro – e é justamente por isso que ele existe e
nos convence.
Quando
a palavra fisga o real, diz Caeiro, experimentamos “um choque
sísmico”. A literatura é esse choque. A leitura, o gozo desse
choque. Talvez por isso Faulkner dissesse que “o único mal do
homem é a escrita”. Nunca saberemos quem foi William Faulkner,
sugere o ensaísta Edouard Glissant, citado por Dutra. Só a
consciência da opacidade e do não saber autoriza Antônio Dutra a
inventar o escritor norte-americano. Toda a poética, acrescenta
Glissant, se indispõe (se estranha) com o outro. Em Dias de Faulkner
, a viagem do escritor a São Paulo aparece em uma luta de três
versões, que se guardam nas páginas 17, 25 e 33. Qual delas
escolher? Qual a confiável?
Dutra
vê Faulkner como um descendente do pintor italiano Caravaggio, o
gênio do claro-escuro, “um homem entre tantas sombras”. Ambos
estendem, entre as trevas, um tênue facho de luz. Por isso sua arte
arde. Antônio Dutra vê Faulkner como “um homem de 1,61 m
consumido ou ele próprio a vertigem”. Em uma vertigem, tudo gira
em torno de nós, ou nós mesmos giramos. Algo se consome. Retorno ao
ponto de partida: “A história é uma roda que gira”, William
Faulkner diz. O escritor habita um círculo de fogo. Em giros
sucessivos, sua presença queima. Resume Faulkner: “Quando meu
sangue começa a ferver, as ideias também fervem”.
José
Castello, in Sábados inquietos
Nenhum comentário:
Postar um comentário