sábado, 10 de dezembro de 2016

Faulkner em chamas

A história é uma roda que gira. Ora estamos nas sombras, ora na luz. “No momento em que vivemos, ela se acha mergulhada na sombra”, diz, no ano de 1954, o escritor norte-americano William Faulkner. No bar do Hotel Esplanada, em São Paulo, ele conversa com o romancista brasileiro Lúcio Cardoso. O precioso diálogo ressurge na página 39 de Dias de Faulkner (Imprensa Oficial de São Paulo), romance do carioca Antônio Dutra.
Relata Dutra: Faulkner desembarcara em Congonhas, de um DC-6 da Braniff. Vem cheio de temores e demonstra grande mau humor. Um clarão interior o agita. É o convidado de honra do I Congresso Internacional de Escritores. A literatura, porém, o aborrece. Nas entrevistas, não se cansa de repetir: “O que interessa é o homem”.
Na rota entre Lima e o Rio, onde fez a conexão para São Paulo, William Faulkner viajou embalado por uma turbulência suave. Trepidação e inconstância que não se estancaram em terra firme. Instabilidade que, meio século depois, contamina (queima) o livro de Antônio Dutra. Será mesmo um romance o que leio? Verdade? Mentira? Nenhum dos dois: invenção. A narrativa de Dutra dispensa vínculos com a realidade, embora deles tire partido. Não é uma reportagem, que exige declarações, fatos e provas. Não é uma biografia, que se baseia em versões e documentos. É – e isso, para a literatura, basta.
Já à entrada, está uma ideia abrasadora do escritor francês Claude Simon: “Decida que foi desse modo que isso se passou e então isso terá se passado realmente aqui”. Poucos escritores ousam sustentar a afirmativa de Simon. Poucos leitores também. Nela, a roda do tempo se inverte: é o presente que precede o passado e, desse modo, é ele que cria o passado. A literatura se impõe, assim, como um ato de inversão. Não é testemunho, não exige provas qualificadas ou confirmações idôneas. É hipótese, é composição.
Deixo de lado o livro de Dutra para pensar melhor. Encontro, então, outro livro, O real e seu duplo, de Clément Rosset (José Olympio, tradução de José Thomaz Brum). E nele a ideia de que a realidade humana só existe em uma “segunda vez”. É a aposta na “segunda vez” que leva o agricultor a sacrificar o primeiro alqueire de sua colheita, os jovens romanos a fazerem a Júpiter o sacrifício de sua primeira barba ou os supersticiosos a derramarem no chão o primeiro gole da cachaça. Só na “segunda vez” o mundo se encorpa. Quando? Só quando o confirmamos com palavras.
É na segunda vez (quando escrito) que o mundo se torna real. As coisas passam a existir quando são ditas, e não no momento em que acontecem. Inverte-se, aqui, o antigo sonho de Platão. Para o filósofo grego, a realidade era só um reflexo enganoso de um mundo ideal. A literatura afirma o oposto: é nesse reflexo, nessa “segunda vez”, que o real se apresenta. A ideia de Rosset, se a entendi bem, me ajuda a desvendar a estratégia de Antô nio Dutra. Ele manobra as palavras não como cópia ou evocação, mas como fundação.
Um pesadelo que, ao acordar, esquecemos, não existe. Aquele nome que deixamos de anotar e escapou da memória, também. As histórias antigas que nossa avó nos contou e o tempo encobriu. Nada disso existe, embora tenha ocorrido. Existir é subsistir, é durar. Ao recriar a visita de William Faulkner a São Paulo, Antônio Dutra se torna o autor de William Faulkner. O escritor é reduzido, assim, à precária condição de personagem. E só assim o homem Bill, o fazendeiro que preferia o campo aos livros, aparece.
Em São Paulo, Faulkner foge dos compromissos oficiais, embriaga-se, quase nunca está onde o esperam. Os diplomatas americanos lutam para que ele conserve a compostura – “to get himself on his feet”, como dizem. Literalmente: “mantenha-se dentro dos limites de seus próprios pés”. Que mantenha a linha! Mas um homem como William Faulkner tira sua potência, justamente, do desalinho. Na mente – na escrita – de Faulkner não existe uma estrada principal, só becos, vielas e vias vicinais.
William Faulkner se embriaga para que seu corpo de alcoólatra corresponda a seu espírito de escritor. Os dois cambaleiam em um mundo (o literário) que é um inferno de perguntas. Repórteres, estudiosos, leitores: todos buscam o que Faulkner supostamente sabe. No latim, um amigo me ajuda, o verbo perguntar (praecunctare) remete a “duvidar”, a “vacilar” e, um pouco mais além, a “cavar a fundo”. Sim: perguntar é revolver. É também desdobrar-se – avançar além das próprias forças. Logo ressoa em minha mente, vinda lá sei eu de onde, uma ideia de Alberto Caeiro: “Tudo difere de nós e por isso existe”. O Faulkner inventado por Dutra diverge do Faulkner verdadeiro – e é justamente por isso que ele existe e nos convence.
Quando a palavra fisga o real, diz Caeiro, experimentamos “um choque sísmico”. A literatura é esse choque. A leitura, o gozo desse choque. Talvez por isso Faulkner dissesse que “o único mal do homem é a escrita”. Nunca saberemos quem foi William Faulkner, sugere o ensaísta Edouard Glissant, citado por Dutra. Só a consciência da opacidade e do não saber autoriza Antônio Dutra a inventar o escritor norte-americano. Toda a poética, acrescenta Glissant, se indispõe (se estranha) com o outro. Em Dias de Faulkner , a viagem do escritor a São Paulo aparece em uma luta de três versões, que se guardam nas páginas 17, 25 e 33. Qual delas escolher? Qual a confiável?
Dutra vê Faulkner como um descendente do pintor italiano Caravaggio, o gênio do claro-escuro, “um homem entre tantas sombras”. Ambos estendem, entre as trevas, um tênue facho de luz. Por isso sua arte arde. Antônio Dutra vê Faulkner como “um homem de 1,61 m consumido ou ele próprio a vertigem”. Em uma vertigem, tudo gira em torno de nós, ou nós mesmos giramos. Algo se consome. Retorno ao ponto de partida: “A história é uma roda que gira”, William Faulkner diz. O escritor habita um círculo de fogo. Em giros sucessivos, sua presença queima. Resume Faulkner: “Quando meu sangue começa a ferver, as ideias também fervem”.
José Castello, in Sábados inquietos

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