domingo, 6 de novembro de 2016

Mau menino

Ignoro se peguei a faca na cozinha e fui até a garagem já com a ideia na cabeça. Talvez, sabe-se lá por quê, estivesse perambulando pela casa com a faca na mão, fui parar na garagem e, por curiosidade — como quem enfia um grampo na tomada ou bolas de gude num escapamento —, resolvi golpear a parede. Sei é que, quando dei por mim, estava ali, admirando o pequeno risco branco, a reentrância de massa corrida recém-surgida na grande tela terracota. Um segundo antes ele não existia, agora parecia brilhar como um único Starfix na imensidão de um quarto escuro.
Senti-me orgulhoso: ao chegar ao mundo, já o havia encontrado pronto, cabia a mim somente descobrir do que era feito e como funcionava, olhando embaixo dos vãos, levantando os tacos, cavoucando a terra entre os paralelepípedos. Desenhos em papéis, colagens de sucata ou as esculturas de argila que fazia na escola não eram uma intervenção no mundo — papéis, sucata e argila não eram o mundo, eram coisas do mundo. Parede era mundo, casa era mundo, e a satisfação por ter impresso nele minha primeira marca foi tanta que não demorei a deixar a segunda, a terceira, a quarta, a décima sétima, a trigésima nona e só quando cheguei esbaforido ao canto da garagem percebi o estrago: uma faixa de três metros de risquinhos brancos, a cinquenta centímetros do chão; uma Via Láctea de destruição percorrendo, de ponta a ponta, a frente da nossa casa. Algo me dizia que, quando minha mãe chegasse do trabalho e o farol da Brasília iluminasse aquela lambança, meu frenesi estético não seria capaz de atenuar sua ira: o mundo havia sido violado por mim, era preciso repará-lo.
Corri até meu quarto e peguei o estojo de canetinhas. Tentei pintar as reentrâncias com o vermelho, o marrom, o rosa, mas nenhuma das cores batia. Experimentei tons sobrepostos, vermelho com laranja, amarelo com roxo, rosa com cinza: nada, porém, chegava perto da tal terracota. Pior: se antes o que se via ali era uma Via Láctea, agora contemplava uma nebulosa, uma extensa mancha multicolor serpenteando pela parede.
Voltei ao quarto, peguei o tubo de Pritt. Tentei colar de volta as casquinhas de tinta caídas no chão, mas elas se esfarelavam ao toque, a cola lambuzava a parede e, como se não bastasse, as marcas das minhas mãos ficaram impressas junto aos riscos feitos à faca, como uma assinatura. A desgraça era inevitável. Sem opção, enterrei a faca no jardim e parti para a clandestinidade.
A clandestinidade era um canto no lavabo, entre a pia e a parede. A porta, quando aberta, projetava uma sombra sobre o vão, deixando-o ainda mais protegido. Já havia recorrido àquele refúgio em vários esconde-escondes e, vez por outra, fugindo do banho: não seria agora, no sufoco, que ele me deixaria na mão.
Apesar do frio e da umidade, estar ali era prazeroso: eu não fazia mais parte do mundo, estava fora dele, observando-o pelas coxias, invisível e onisciente. Assim permaneci por algumas horas, o tique-taque de uma goteira marcando a passagem do tempo.
Anoiteceu. Ouvi o carro da minha mãe chegando à garagem, o motor sendo desligado, a porta batendo, mas não escutei o som habitual da chave no trinco ou os passos sala adentro. Como eu temia, ela agora devia estar lá fora, agachada diante da parede, aterrorizada com meu ato de vandalismo, meu crime de lesa-pátria (lesa-mátria?). Primeiro, gritou meu nome. Depois, chamou a Vanda. “Vou ter que repintar a casa inteira! Vai custar uma fortuna! Onde se enfiou esse menino? Vai ver só!”
Eu ia “ver só”, mas só se, antes, elas me vissem — o que nunca aconteceria, pois ao escutar a voz irada da minha mãe, decidi levar a cabo a ideia que vinha ruminando desde que compreendera a dimensão da minha obra na parede: permaneceria escondido para sempre.
O.k., eu sabia que “para sempre” seria impossível, em dois ou três anos eu não caberia mais entre a pia e a parede, mas até lá já haveria encontrado uma forma de reparar meu erro, fugir de casa ou, ao menos, me mudar definitivamente para um socavão.
Pensando bem, não era assim tão ruim. Beberia água da pia quando quisesse, me alimentaria das maçãs e bananas roubadas da fruteira da cozinha, de madrugada. (Abrir a geladeira estava fora de cogitação: a porta rangia, as garrafas se chocavam umas contra as outras, eu acabaria acordando alguém.) Se estivesse disposto a correr riscos, mais valia me esgueirar até o quarto e resgatar uns Playmobils para brincar nos 24 ou 36 meses seguintes.
Enquanto divagava sobre meu futuro na clandestinidade, as duas seguiam me procurando pela casa, me chamando vez após outra — e foi nas vozes de minhas perseguidoras que, surpreendentemente, vislumbrei uma possível salvação. Cada vez que repetiam meu nome, a braveza ia minguando um pouquinho, dando lugar à preocupação: quem sabe, quando o desespero trouxesse para o seu lado a última gota de raiva, eu poderia surgir em segurança? Não seria a alegria por me verem vivo um habeas corpus, capaz de fazê-las esquecer os eventos relativos à garagem? Impossível ter certeza, mas era a única chance: Vanda começou a ligar para os vizinhos, minha mãe foi me procurar na rua e decidi que, quando ela voltasse, faria a dramática aparição.
Minutos mais tarde, minha mãe entrou pela sala quase chorando: “Não tá lá! Ninguém sabe. Ninguém viu. Deus do céu!”. Era chegado o momento. Respirei fundo, deixei as pupilas se acostumarem à luz vinda de fora e estava quase saindo do banheiro quando uma palavra pronunciada por minha mãe me empurrou de volta ao esconderijo: talvez eu tivesse superestimado seu amor por mim, talvez tivesse menosprezado seu apreço pela parede da garagem ou, quem sabe, os dois juntos, o fato é que — eu havia ouvido claramente — ela estava prestes a chamar a “polícia”.
Eu conhecia a polícia pela TV: eles tinham cachorros treinados, lanternas, óculos para enxergar no escuro, era evidente que me encontrariam ali, depois achariam a faca enterrada no jardim, me poriam algemas e me levariam para a cadeia. Melhor me entregar antes que chegassem. Dizer que estava dormindo no lavabo, isso, que eu adorava dormir naquele cantinho, bem fresco, que não tinha ouvido ninguém me chamar. Quanto à parede da garagem: que que tem? Deixa eu ver… Nossa, que que foi isso?! Será que foi um gato, com as unhas? Um gato grande consegue, ué, ou dois gatos, um em cima do outro, sabia que eles fazem isso quando querem arranhar mais alto? Fazem sim, eu juro, eu já vi mil vezes!
Mãe?
Antonio Prata, in Nu, de botas

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