E
as ideias instruídas do senhor me fornecem paz. Principalmente a
confirmação, que me deu, de que o Tal não existe; pois é não? O
Arrenegado, o Cão, o Cramulhão, o Indivíduo, o Galhardo, o
Pé-de-Pato, o Sujo, o Homem, o Tisnado, o Côxo, o Temba, o Azarape,
o Coisa-Ruim, o Mafarro, o Pé-Preto, o Canho, o Duba-Dubá, o Rapaz,
o Tristonho, o Não-sei-que-diga, O-que-nunca-se-ri, o
Sem-Gracejos... Pois, não existe! E, se não existe, como é que se
pode se contratar pacto com ele? E a ideia me retorna. Dum mau
imaginado, o senhor me dê o lícito! que, ou então ― será que
pode também ser que tudo é mais passado revolvido remoto, no
profundo, mais crônico! que, quando um tem noção de resolver a
vender a alma sua, que é porque ela já estava dada vendida, sem se
saber; e a pessoa sujeita está só é certificando o regular dalgum
velho trato ― que já se vendeu aos poucos, faz tempo? Deus não
queira; Deus que roda tudo! Diga o senhor, sobre mim diga. Até
podendo ser, de alguém algum dia ouvir e entender assim! quem-sabe,
a gente criatura ainda é tão ruim, tão, que Deus só pode às
vezes manobrar com os homens é mandando por intermédio do diá?
Ou que Deus ― quando o projeto que ele começa é para muito
adiante, a ruindade nativa do homem só é capaz de ver o aproximo de
Deus é em figura do Outro? Que é que de verdade a gente
pressente? Dúvido dez anos. Os pobres ventos no burro da noite.
Deixa o mundo dar seus giros! Estou de costas guardadas, a poder de
minhas rezas. Ahã. Deamar, deamo... Relembro Diadorim. Minha mulher
que não me ouça. Moço, toda saudade é uma espécie de velhice.
Guimarães
Rosa, in Grande sertão: veredas
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