20/12/2015

O grito da buganvília

No quintal, no lugar onde Félix Ventura enterrou o corpo estreito de Edmundo Barata dos Reis, floresce agora a rubra glória de uma buganvília. Cresceu depressa. Cobre já uma boa parte do muro. Debruça-se para o passeio, lá fora, numa exaltação – ou numa denúncia – à qual ninguém presta atenção. Há dias atrevi-me, pela primeira vez, a sair para o quintal. Escalei o muro com o coração aos saltos. O sol refulgia nos cacos de vidro. Deslizei entre eles, cautelosamente, e espreitei o mundo. Vi uma rua muito larga, em barro vermelho, e casas velhas, fatigadas, desarrumando a outra margem. Pessoas passavam alheias aos gritos da buganvília. Aterrorizou-me o largo céu sem nuvens, o silêncio pesado de luz, um bando de pássaros voando em círculos. Regressei, correndo, à segurança da casa. Talvez volte a sair se entretanto o tempo turvar um pouco. O sol atordoa-me, magoa-me a pele, mas gostaria de observar mais demoradamente esse povo que passa.
Félix anda triste. Quase não fala comigo. Hoje, todavia, quebrou o silêncio. Entrou em casa, tirou os óculos escuros, guardou-os no bolso interior do casaco, depois despiu o casaco e pendurou-o nas costas de uma cadeira. A seguir abriu a pasta e mostrou-me um envelope pequeno, quadrado, em papel amarelo.
Chegou outra fotografia, vês meu amigo?, ela ainda não se esqueceu de nós.
Abriu o envelope, cuidadosamente, procurando não o rasgar. Era uma polaroide. Um arco-íris iluminando um rio. No canto superior direito vê-se a silhueta de um rapaz nu a mergulhar nas águas. Ângela Lúcia escreveu a tinta azul, na margem da fotografia: Plácidas Águas, Pará, e a data. Félix foi buscar uma caixinha de alfinetes, desses pequenos, com cabeças redondas e coloridas. Escolheu um, de um verde intenso, absurdo, e prendeu a fotografia na parede. Depois afastou-se três passos para estudar o efeito. A parede da sala de estar, oposta às janelas, está quase toda coberta por fotografias. O conjunto forma uma espécie de vitral que a mim me recorda as experiências de David Hockney com polaroides. Predominam os tons de azul.
Félix Ventura voltou para a parede o grande cadeirão de verga e sentou-se nele. Ficou assim muito tempo, imóvel, mudo, vendo morrer a fina luz da tarde de encontro à luz imortal das polaroides. Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas. Limpou-as ao lenço. Disse-me:
Eu sei. Gostarias que lhe perdoasse. Lamento muito, meu amigo, mas não posso. Acho que não sou capaz.
José Eduardo Agualusa, in O vendedor de passados

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