No
quintal, no lugar onde Félix Ventura enterrou o corpo estreito de
Edmundo Barata dos Reis, floresce agora a rubra glória de uma
buganvília. Cresceu depressa. Cobre já uma boa parte do muro.
Debruça-se para o passeio, lá fora, numa exaltação – ou numa
denúncia – à qual ninguém presta atenção. Há dias atrevi-me,
pela primeira vez, a sair para o quintal. Escalei o muro com o
coração aos saltos. O sol refulgia nos cacos de vidro. Deslizei
entre eles, cautelosamente, e espreitei o mundo. Vi uma rua muito
larga, em barro vermelho, e casas velhas, fatigadas, desarrumando a
outra margem. Pessoas passavam alheias aos gritos da buganvília.
Aterrorizou-me o largo céu sem nuvens, o silêncio pesado de luz, um
bando de pássaros voando em círculos. Regressei, correndo, à
segurança da casa. Talvez volte a sair se entretanto o tempo turvar
um pouco. O sol atordoa-me, magoa-me a pele, mas gostaria de observar
mais demoradamente esse povo que passa.
Félix
anda triste. Quase não fala comigo. Hoje, todavia, quebrou o
silêncio. Entrou em casa, tirou os óculos escuros, guardou-os no
bolso interior do casaco, depois despiu o casaco e pendurou-o nas
costas de uma cadeira. A seguir abriu a pasta e mostrou-me um
envelope pequeno, quadrado, em papel amarelo.
–
Chegou outra fotografia, vês meu amigo?,
ela ainda não se esqueceu de nós.
Abriu
o envelope, cuidadosamente, procurando não o rasgar. Era uma
polaroide. Um arco-íris iluminando um rio. No canto superior direito
vê-se a silhueta de um rapaz nu a mergulhar nas águas. Ângela
Lúcia escreveu a tinta azul, na margem da fotografia: Plácidas
Águas, Pará, e a data. Félix foi buscar uma caixinha de alfinetes,
desses pequenos, com cabeças redondas e coloridas. Escolheu um, de
um verde intenso, absurdo, e prendeu a fotografia na parede. Depois
afastou-se três passos para estudar o efeito. A parede da sala de
estar, oposta às janelas, está quase toda coberta por fotografias.
O conjunto forma uma espécie de vitral que a mim me recorda as
experiências de David Hockney com polaroides. Predominam os tons de
azul.
Félix
Ventura voltou para a parede o grande cadeirão de verga e sentou-se
nele. Ficou assim muito tempo, imóvel, mudo, vendo morrer a fina luz
da tarde de encontro à luz imortal das polaroides. Os olhos
encheram-se-lhe de lágrimas. Limpou-as ao lenço. Disse-me:
– Eu
sei. Gostarias que lhe perdoasse. Lamento muito, meu amigo, mas não
posso. Acho que não sou capaz.
José
Eduardo Agualusa, in O vendedor de passados
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