Sei que d'agora em
diante todos os meus escritos, bons ou maus, devem traduzir o
sentimento da mais desesperada esperança. Desesperada porque não
acreditando mais no tempo em que vivo, nem em suas possibilidades e
nem em sua sobrevivência, isto deve me causar pânico, como todas as
transformações essenciais; esperança, porque é o homem novo que
vislumbro além dessas ruínas. Do momento em que recomeço isto, é
criminoso da minha parte não precipitar o caos – é retardar o
começo e pactuar com a sobrevivência dos cadáveres. Minha mais
constante vontade deve ser a de um arrasamento contínuo. Porque aí
vem o tempo em que não subsistirá pedra sobre pedra, como diz o
Evangelho. E o homem novo que deve surgir me impregna de tal
entusiasmo, sua intuição me faz vibrar numa tão impetuosa corrente
de vida, que eu, muitas vezes hesitante ainda, não posso duvidar
mais e caminho no mundo conhecido como entre as formas de um universo
desvitalizado e sem arrimo.
Lúcio
Cardoso, in Diários
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