quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Os negrores e sóis

Uma mulher e um homem celebram, em Buenos Aires, trinta anos de casados. Convidam outros casais daqueles tempos, gente que não se via há anos, e sobre a toalha amarelenta, bordada para o casamento, todos comem, riem, brindam, bebem. Esvaziam umas quantas garrafas, contam piadas picantes, engasgam de tanto comer e rir e trocar tapinhas nas costas. Em algum momento, passada a meia-noite, chega o silêncio. O silêncio entra, se instala; vence. Não há frase que chegue até a metade, nem gargalhada que não soe como se estivesse fora do lugar. Ninguém se atreve a ir embora. Então, não se sabe como, começa o jogo. Os convidados brincam de quem leva mais anos morto. Perguntam-se entre si quantos anos faz que você está morto: não, não, se dizem, vinte anos não: você está diminuindo. Você leva vinte e cinco anos morto. E é isso.
Alguém me contou, na revista, esta estória de velhices e vinganças ocorridas em sua casa na noite anterior. Eu terminava de escutá-la quando tocou o telefone. Era uma companheira uruguaia que me conhecia pouco. De vez em quando vinha me ver para passar informação política, ou para ver o que se podia fazer por outros exilados sem teto nem trabalho. Mas agora não me telefonava para isso. Esta vez telefonava para me contar que estava apaixonada. Disse-me que finalmente tinha encontrado o que havia estado buscando sem saber que buscava e que precisava contar para alguém e que desculpasse o incômodo e que ela tinha descoberto que era possível dividir as coisas mais profundas e queria contar porque é uma boa notícia, não? e não tenho a quem contá-la e pensei.
Contou-me que tinham ido juntos ao hipódromo pela primeira vez na vida e ficaram deslumbrados pelo brilho dos cavalos e dos blusões de seda. Tinham uns poucos pesos e apostavam tudo, certos de que ganhariam, porque era a primeira vez, e tinham apostado nos cavalos mais simpáticos ou nos nomes mais engraçados. Perderam tudo e voltaram a pé e absolutamente felizes pela beleza dos animais e a emoção das corridas e porque eles também eram jovens e belos e capazes de tudo. Agora mesmo, me disse ela, morro de vontade de ir na rua, tocar corneta, abraçar as pessoas, gritar que eu amo e que nascer é uma sorte.
Eduardo Galeano, in Mulheres

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