Estrada Parque Pantanal (Google Imagens)
Uma
estrada é deserta por dois motivos: por abandono
ou
por desprezo. Esta que eu ando nela agora é por
abandono.
Chega que os espinheiros a estão abafando
pelas
margens. Esta estrada melhora muito de eu ir
sozinho
nela. Eu ando por aqui desde pequeno. E sinto
que
ela bota sentido em mim. Eu acho que ela manja
que
eu fui para a escola e estou voltando agora para
revê-la.
Ela não tem indiferença pelo meu passado.
Eu
sinto mesmo que ela me reconhece agora, tantos
anos
depois. Eu sinto que ela melhora de eu ir sozinho
sobre
seu corpo. De minha parte eu achei ela bem
acabadinha.
Sobre suas pedras agora raramente um
cavalo
passeia. E quando vem um, ela o segura com
carinho.
Eu sinto mesmo hoje que a estrada é carente
de
pessoas e de bichos. Emas passavam sempre por ela
esvoaçantes.
Bando de caititus a atravessavam para ver
o
rio do outro lado. Eu estou imaginando que a estrada
pensa
que eu também sou como ela: uma coisa bem
esquecida.
Pode ser. Nem cachorro passa mais por nós.
Mas
eu ensino para ela como se deve comportar na
solidão.
Eu falo: deixe deixe meu amor, tudo vai acabar.
Numa
boa: a gente vai desaparecendo igual quando
Carlitos
vai desaparecendo no fim de uma estrada…
Deixe,
deixe, meu amor.
Manoel
de Barros
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