19/11/2015

Caso de amor

undefined
Estrada Parque Pantanal (Google Imagens)

Uma estrada é deserta por dois motivos: por abandono
ou por desprezo. Esta que eu ando nela agora é por
abandono. Chega que os espinheiros a estão abafando
pelas margens. Esta estrada melhora muito de eu ir
sozinho nela. Eu ando por aqui desde pequeno. E sinto
que ela bota sentido em mim. Eu acho que ela manja
que eu fui para a escola e estou voltando agora para
revê-la. Ela não tem indiferença pelo meu passado.
Eu sinto mesmo que ela me reconhece agora, tantos
anos depois. Eu sinto que ela melhora de eu ir sozinho
sobre seu corpo. De minha parte eu achei ela bem
acabadinha. Sobre suas pedras agora raramente um
cavalo passeia. E quando vem um, ela o segura com
carinho. Eu sinto mesmo hoje que a estrada é carente
de pessoas e de bichos. Emas passavam sempre por ela
esvoaçantes. Bando de caititus a atravessavam para ver
o rio do outro lado. Eu estou imaginando que a estrada
pensa que eu também sou como ela: uma coisa bem
esquecida. Pode ser. Nem cachorro passa mais por nós.
Mas eu ensino para ela como se deve comportar na
solidão. Eu falo: deixe deixe meu amor, tudo vai acabar.
Numa boa: a gente vai desaparecendo igual quando
Carlitos vai desaparecendo no fim de uma estrada…
Deixe, deixe, meu amor.
Manoel de Barros

Nenhum comentário:

Postar um comentário