Muidinga pousou os cadernos,
pensageiro. A morte do velho Siqueleto o seguia, em estado de dúvida.
Não era o puro falecimento do homem que lhe pesava. Não nos vamos
habituando mesmo ao nosso próprio desfecho? A gente vai chegando à
morte como um rio desencorpa no mar: uma parte está nascendo e,
simultânea, a outra já se assombra no sem-fim. Contudo, no
falecimento de Siqueleto havia um espinho excrescente. Com ele todas
as aldeias morriam. Os antepassados ficavam órfãos da terra, os
vivos deixavam de ter lugar para eternizar as tradições. Não era
apenas um homem mas todo um mundo que desaparecia.
Tuahir parecia alheio a estas
tristezas. Estavam ambos sentados na sombra de uma massaleira. Um
vento soprava e os frutos se embatiam, em múltiplos batuques. Uma
vez mais, a paisagem mudara seus tons e tamanhos. O arvoredo era mais
baixo embora mais cheio. A humidade crescia, devia haver uma aguinha
a correr perto. Tinham saído do autocarro na madrugada desse dia mas
andaram apenas em círculos para não se afastarem muito da sua
moradia. O velho fez sinal para retomarem caminho. Seguia à frente,
suave como ave. Era seu jeito de calcorrear, pés matreiros,
felinamente. Dessa vez, porém, ele se dispunha com boa qualidade,
lembrando seus antigos namoros.
— Se um dia se casar-se,
Muidinga, escolha mulher feiona, dessas que os outros nunca invejam.
Nem que fizesse como Rafaelão, seu
primo familiar, que escolheu a moça mais bela e, depois, lhe foi
pondo defeito por cima de defeito. Um dia lhe riscava o rosto, outro
lhe cortava os cabelos, outro ainda lhe queimava a pele. A pobre
mulher era de divulgar sustos.
— Deus, tanta maldade!
— É, a mulher lhe dava trabalhos
muito diários.
Súbitos ruídos os interrompem, mais
diante. Parecem vozear de gente, nas traseiras de um pequenito monte.
Sobem, com cuidado. Era um homem que, do outro lado da encosta, abria
um imenso buraco, facholando com afinco. A cova era tão funda e
comprida que parecia que a intenção dele era partir o mundo em
dupla metade.
Gritam, pedindo-lhe atenção. Do
fundo do buraco o desconhecido faz sinais com a mão, mostrando que
deveriam esperar. Vai subindo com vagares, demorado como se fosse
cobra procurando os pés. Ao chegar perto, se afina e, sem mais nem
porquê, corre para Tuahir. Se abraçam, amistosos. Muidinga olha,
sem compreensão.
— Este é Nhamataca. Trabalhámos
juntos, no tempo colonial.
Se cumprimentam rodando as mãos sobre
os polegares, à maneira da terra. Os dois velhos amigos se sentam,
fiando conversa, recordando os tempos.
— Sabe, Muidinga? Nós dois
éramos empregados do mesmo patrão.
Cada um puxa a sua lembrança, em
suave escorrer, rindo mesmo dos mais tristes momentos. O miúdo lhes
chama ao presente. Quer saber o que animava Nhamataca, covando assim.
— Estou a fazer um rio, responde
o outro.
Riem-se, o rapaz e Tuahir. Mas o homem
insiste, no sério. Sim, por aquele leito fundo haveria de cursar um
rio, fluviando até ao infinito mar. As águas haveriam de nutrir as
muitas sedes, confeitar peixes e terras. Por ali viajariam
esperanças, incumpridos sonhos. E seria o parto da terra, do lugar
onde os homens guardariam, de novo, suas vidas.
Estava tão seguro que começara por
escavar no chão da própria casa. Ruíram as paredes, desabou-se o
tecto. Os seus se retiraram em dúvida da sua sanidade. Idos os
próximos, irados os distantes. O sujeito desafiava os deuses que
aprontaram o mundo para os viventes dele só se servirem, sem ousarem
mudar a sua obra. Mas Nhamataca não desistiu, covando no dia a
noite. Foi seguindo, serpenteando entre vales e colinas, suas mãos
deitando e renovando mil vezes as sangradas e calejadas peles. E
agora, sentado na ribanceira, guarda com vaidade a sua construção.
Aponta o fundo:
— Vejam: já esponta um
fioziozito de água.
Tal aguinha nem se via. Havia, quando
muito, um suor na areia do fundo. Mas os visitantes não contrariam.
— E nome que ele vai ter?
Nome que dera ao rio: Mãe-água.
Porque o rio tinha vocação para se tornar doce, arrastada criatura.
Nunca subiria em fúrias, nunca se deixaria apagar no chão. Suas
águas serviriam de fronteira para a guerra. Homem ou barco
carregando arma iriam ao fundo, sem regresso. A morte ficaria
confinada ao outro lado. O rio limparia a terra, cariciando suas
feridas.
— Você, Muidinga, não se
admire. Afinal, Nhamataca cumpre destino igual ao pai dele.
Com a licença do outro, Tuahir
recorda a estoriazinha do pai do fazedor de rios. O homem vivia só,
se lamentando: antes mal acompanhado! Habitava na esteira de um rio
largo, tão largo que deitava a pequeno qualquer tamanho da outra
margem. Lhe doía a vida, indevida em um só indivíduo. Não haveria
outra humanidade neste extenso mundo? Até que um dia, do outro lado
das águas, lhe pareceu chegar uma voz. Havia um cacimbo cheio, era a
estação das brumas. O velho se ergueu e espreitou a lonjura. Lá
estava: do outro lado, o esbatente vulto de um gentículo. Deste
lado, o pai gritou também. Não entendia rabisco que o outro dizia.
Mas ripostava, com ânsia, antes que a miragem, desiludida,
desaparecesse. Durante dias, se repetiu a troca de berros, até ao
arrebatamento das vozes se converterem uma em outra, sem nenhuma
palavra se ter tornado entendível. O velho todo o dia suspirava pelo
momento de gritar. Um dia, contudo, o outro se demorou. Um
estremecimento lhe arrepiou a tristeza. Ele já sofria de afeição
demasiada pelo desconhecido, fosse a saudade de um irmão ainda por
nascer. Manobrou, então, um pressentimento: e se, nos anteriores
dias, o outro lhe tivesse tentado avisar de qualquer tragédia que
estivesse por acontecer? Ou se o outro estivesse doente, necessitado
de um braço amigo?
Decidiu então improvisar uma jangada,
depressou-se na sua construção. E se lançou nas vagas,
transversando a corrente. Em meio da jornada reparou como havia sido
grande sua ousadia. E as ondas cresceram, grandes que ele nunca vira.
A barcaça não resistia, o caudal do rio a ver com quantos paus se
desfaz uma canoa. A água já embarcara, aos bocejos, na almadia. O
pai de Nhamataca afundava, sem remédio. Nesse instante, porém, ele
viu que um outro barquito avançava em sua direcção. Olhou: era o
vulto da outra margem que acorria em rumo avesso, direito a o salvar.
Braços fortes o puxaram e ele se anichou, encharquilhado na outra
embarcação. Foi então que, desfeitas bruma e lonjura, descobriu
que o personagem do outro lado era uma mulher, dona de incendiada
beleza. Tudo o resto se passou em silêncio como se perto já não se
escutassem. O amor que trocaram é assunto para duas vidas inteiras,
abandonadas para sempre num barquito sem rumo.
— Nasci num barco, sou filho das
águas, sorri Nhama-taca a fechar a estória.
E adianta lição: nenhum rio separa,
antes costura os destinos dos viventes. A prova era o seu nascimento.
Agora, ao gerar um rio, Nhamataca paga uma dívida para com um tempo
mais antigo que o passado. Talvez que um novo curso, nascido a golpes
de sua vontade, traga de volta o sonho àquela terra mal amada.
— Nós te ajudamos, Nhamataca.
Para Muidinga aquele é um projecto
demasiado louco. Melhor é virarem costas às razões de Nhamataca,
pouco importando que fossem ou não verdade. Ele e o velho tinham
outras intenções, não se podiam desviar por irrealidades. Tuahir
negou. Ele acha que devem juntar braços com o fazedor de rios.
Tuahir tinha argumento de uma vantagem: quem sabe pudessem aproveitar
o nascente rio? A viagem deles se tornaria curta, menos custosa.
— Em vez de esperarmos na
estrada, fazemos o nosso caminho.
Muidinga acede. Durante dias covam no
consistente chão. Não avançam muito porque uma zona pedregosa se
entrepõe. O miúdo já tem as palmas da mão a sangrar e lhe
despontam dúvidas para um tal sacrifício. Fazer um rio? Esperto é
o mar que, em vez da briga, prefere abraçar o rochedo. Muidinga
volta a mudar de ideias sobre o empreendimento. Fala com Tuahir, à
parte. Lhe faz ver a loucura de Nhamataca. Mas seu companheiro se
nega a dar audição.
— Desculpa, Muidinga. Nhamataca
não está maluco, não. O homem é como a casa: deve ser visto por
dentro!
Nessa noite, uma trovoada estoura, com
rebentações jamais vistas. A tempestade cresce como o pão na
quentura do forno. Os relâmpagos circuitam a noite, tricotando a
noite com súbitos fios de luz. Começa uma chuva torrencial, parecia
o universo se dissolvia. Os três se perdem em correrias a procurar a
impossível direcção de um abrigo. O rapaz grita para que se
juntem. Ficam, tremendo, trocando os braços, comunhando um
descontrolado medo. De repente, Nhamataca se alerta, apontando o
intermitente chão. Havia um sulco que se enchia.
— O rio, é o rio!
Nhamataca festeja o nascimento como se
fosse um fruto de sua carne. Larga o abraço dos outros, se acerca do
febrilhante ribeiro. Ergue os braços ao céu, pedindo luz. Ele quer
afagar sua nascente obra. Muidinga e Tuahir clamam para que preste
cuidado mas ele se ocupa dando vivas ao vindouro. Seu corpo convulso
é visível apenas nos breves e entrecortados instantes dos raios. A
memória do acontecido se fará assim por soluços, Nhamataca
tombando na torrente do furioso regato. O velho e o moço querem
segurar o corpo do covador, mas a corrente, redemoníaca, cresce em
fúrias desordenadas. E Nhamataca desaparece, misturado nas súplicas
dos outros, o trovejar dos céus e o gorgolejar do rio, seu
descendente. Tuahir ainda segue a tentar vislumbrar sua reaparição
mas as margens se esboroam, fareladas. O leito se iguala ao resto da
savana, as terras fugindo na torrente. Se houve obra de um homem foi
apenas um rio de pouca dura.
Chove toda a manhã com tal empenho
que, para não se perderem, Muidinga e Tuahir vagueiam de mãos
dadas. Ao meio-dia a chuva pára. O sol se empina no céu, com
tamanha vingança que, num instante, chupa os excessos de água sobre
a savana. A terra sorve aquele dilúvio, enxugando o mais discreto
charco. No inacreditável mudar de cenário, a seca volta a imperar.
Onde a água imperara há escassas horas, a poeira agora esfuma os
ares. Ouve-se o tempo raspando seus ossos sobre as pedras. Em toda a
savana o chão está deitado, sem respirar. A cauda do vento se
enrosca longe. Até o capim que nunca tem nenhuns pedidos, até o
capim vai miserando.
Muidinga olha a paisagem e pensa.
Morreu um homem que sonhava, a terra está triste como uma viúva.
Tuahir vagueia em roda procurando encontrar um modo de regressar à
estrada. O rapaz confia no entendimento que o velho tem sobre as
pedras, em seu atento ler nas folhagens. Tuahir é capaz de saudar um
carreiro onde ninguém mais descobre caminho. O mato é a sua cidade.
Agora, porém, os dois parecem
vagabundear sem direcção. A fome começa a pedir deferimento. Dia
após dia, avançam num círculo, rodopeões. Muidinga começa a
desconfiar das certezas do seu guia.
— Nos perdemos, Tuahir?
— Perder? Nunca, miúdo.
Ele pensamenta, fiando conversa. O que
é perder-se, ao fim ao cabo? Muita gente, acreditando ter a certeira
direcção, nasce já equivocada. E continua barateando prosa. Quem
sabe desejasse só distrair o jovem, para que ele não tomasse a
sério o destino. O tempo passa, cai a noite. Os dois viajantes se
deitam no relento. O velho não alcança o sono.
— Não dorme, tio?
— Não. Desconsigo de dormir.
— É por causa do homem do rio.
— Nada. Nem lembro isso. É que
sinto falta das estórias.
— Quais estórias?
— Essas que você lê nesses
caderninhos. Esse fidamãe desse Kindzu já vive quase connosco.
— Deixei os cadernos lá no
machimbombo. Mas eu já li outro caderno, mais à frente. Lhe posso
contar o que diz, quase sei tudo de cabeça, palavra por palavra.
— Fala devagarinho para eu
compreender. Se adormecer, não pára. Eu lhe ouço mesmo dormindo.
Mia Couto, em Terra Sonâmbula

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