Em "As neves do Kilimanjaro",
o famoso conto de Hemingway, o protagonista, que está morrendo,
relembra todas as histórias que agora jamais escreverá. "Ele
sabia pelo menos vinte histórias boas dali e jamais escrevera
nenhuma delas. Por quê?" Ele menciona algumas, mas a lista,
evidentemente, deve ser interminável. As estantes dos livros que não
escrevemos, assim como as dos livros que não lemos, estendem-se pela
escuridão do espaço remoto da biblioteca universal. Estamos sempre
no começo do começo da letra A.
Entre os livros que não escrevi -
entre os livros que não li, mas gostaria de ler - está A
história da leitura. Posso vê-lo, logo ali, no ponto exato em
que acaba a luz desta seção da biblioteca e começa a escuridão da
próxima. Sei exatamente qual é a sua aparência.
Posso conceber sua capa e imaginar a
sensação de suas ricas páginas cor de creme.
Posso adivinhar, com acuidade lasciva,
a sensualidade da encadernação de pano escuro sob a sobrecapa e as
letras gravadas em dourado. Conheço sua página de rosto sóbria,
sua epígrafe espirituosa, sua dedicatória comovente. Sei que possui
um índice abundante e curioso que me dará grande prazer, com
tópicos (caio por acaso na letra T) como Tântalo para leitores;
Tartaruga (ver Conchas e peles de animais); Tarzan,
biblioteca de; Traças; Tradução; Tolstoi, cânone de; Tormento: e
recitação; Transmigração de almas de leitores (ver Empréstimo
de livros); Túmulos, inscrições em. Sei que o livro
possui, como veios no mármore, cadernos de ilustrações que jamais
vi: um mural do século VII representando a biblioteca de Alexandria,
tal como vista por um artista da época; uma fotografia da poeta
Sylvia Plath lendo em voz alta num jardim, sob a chuva; um esboço da
sala de Pascal em Port-Royal, mostrando os livros que ele
mantinha sobre sua escrivaninha; uma fotografia dos livros
encharcados salvos por uma passageira do Titanic, sem os quais
ela não abandonaria o navio; a lista de Natal de Greta Garbo para
1933, escrita por seu próprio punho, mostrando que entre os livros
que compraria estava Miss Corações Solitários, de Nathanael
West; Emily Dickinson na cama, com um gorro cheio de babados amarrado
de um modo confortável sob o queixo, e, espalhados em torno dela,
seis ou sete livros cujos títulos mal posso adivinhar.
Tenho o livro aberto diante de mim,
sobre a minha mesa. E escrito de forma amistosa (tenho a sensação
exata de seu tom), acessível e erudito ao mesmo tempo, informativo
e, contudo, reflexivo. O autor, cujo rosto vi no belo frontispício,
está sorrindo com satisfação (não posso dizer se é homem ou
mulher; a face barbeada poderia ser de ambos os sexos, o mesmo
podendo acontecer com as iniciais do nome) e sinto que estou em boas
mãos.
Sei que, à medida que avançar pelos
capítulos, serei apresentado àquela antiga família de leitores,
alguns famosos, muitos obscuros, da qual faço parte. Aprenderei suas
maneiras e as mudanças nessas maneiras, e as transformações que
sofreram enquanto levaram consigo, como os magos de outrora, o poder
de transformar signos mortos em memória viva. Lerei sobre seus
triunfos e perseguições, sobre suas descobertas quase secretas. E,
no final, compreenderei melhor quem eu - o leitor - sou.
Que um livro não exista (ou não
exista ainda) não é motivo para ignorá-lo mais do que ignoraríamos
um livro sobre um tema imaginário. Há volumes escritos sobre o
unicórnio, sobre Atlântida, sobre igualdade dos gêneros, sobre a
Dama Negra dos Sonetos e a igualmente negra Juventude. Mas a história
que este livro registra foi particularmente difícil de agarrar; ele
é feito, por assim dizer, de suas digressões. Um assunto chama
outro, uma anedota traz à mente outra história aparentemente sem
relação, e o autor se comporta como se estivesse alheio
à causalidade lógica ou à continuidade histórica, como se
definisse a liberdade do leitor no próprio ato de escrever sobre
esse ofício.
Contudo, nessa aparente
aleatoriedade, há um método: este livro que vejo diante de mim não
é somente a história da leitura - é também a história de
leitores comuns, dos indivíduos que, ao longo dos séculos,
escolheram certos livros em detrimento de outros, aceitaram em alguns
casos o veredicto dos antepassados, mas em outras ocasiões
resgataram títulos esquecidos do passado ou puseram na estante os
eleitos entre seus contemporâneos. Esta é a história de seus
pequenos triunfos e de seus sofrimentos secretos, e da maneira como
essas coisas aconteceram. A crônica de como tudo ocorreu está
minuciosamente registrada neste livro, na vida cotidiana de umas
poucas pessoas comuns descoberta aqui e ali em memórias de família,
histórias de aldeias, relatos de vida em lugares distantes, há
muito tempo. Mas fala sempre de indivíduos, nunca de vastas
nacionalidades ou gerações cujas escolhas não pertencem à
história da leitura, mas à da estatística. Rilke uma vez
perguntou: "É possível que toda a história do mundo tenha
sido mal compreendida? É possível que o passado seja falso, porque
sempre falamos sobre suas massas como se estivéssemos contando sobre
uma reunião de gente, em vez de falar sobre aquela pessoa em torno
da qual se reuniram, porque era um estranho e estava morrendo? Sim, é
possível". Esse mal-entendido, o autor de A história da
leitura certamente a reconheceu.
Eis então, no capítulo 14, Richard
de Bury, bispo de Durham, tesoureiro e chanceler do rei Eduardo II,
nascido a 24 de janeiro de 1287 numa pequena aldeia próxima de Bury;
St. Edmund's, em Suffolk, e que em seu quinquagésimo oitavo
aniversário terminou um livro explicando que, "porque trata
principalmente do amor aos livros, escolhemos, conforme a moda dos
antigos romanos, intitulá-lo afetuosamente com a palavra grega
Philobiblon".
Quatro meses depois, morreu. De Bury
colecionara livros com paixão; tinha, dizia-se, mais livros que
todos os outros bispos da Inglaterra juntos, e tantos empilhavam-se
em torno de sua cama que era quase impossível andar pelo quarto sem
tropeçar neles. De Bury, graças a Deus, não era um erudito e lia
apenas o que lhe apetecia. Achava o Hermes Trismegisto (um
volume neoplatônico de alquimia egípcia do século III) um
excelente livro científico "de antes do Dilúvio",
atribuía erradamente obras a Aristóteles e citava versos horríveis
como se fossem de Ovídio. Não importava. "Nos livros",
escreveu ele, "encontro os mortos como se estivessem vivos; nos
livros, prevejo coisas que irão acontecer; nos livros, negócios de
guerra são relatados; dos livros saem as leis da paz.
Todas as coisas são corrompidas e
degeneram com o tempo; Saturno não cessa de devorar os filhos que
gera: toda a glória do mundo estaria enterrada no olvido, se Deus
não tivesse provido os mortais com o remédio dos livros. (Nosso
autor não menciona isso, mas Virginia Woolf, em um trabalho lido na
escola, fez eco à asserção de Bury: "Tenho sonhado às vezes
que, quando chegar o Dia do Juízo e os grandes conquistadores,
advogados e estadistas forem receber suas recompensas - suas coroas,
lauréis, nomes gravados indelevelmente em mármore imperecível , o
Todo-Poderoso irá se voltar para Pedro e dirá, não sem uma certa
inveja quando nos vir chegando com nossos livros embaixo do braço:
'Veja, esses não precisam de recompensa. Não temos nada para lhes
dar. Eles amaram a leitura.'”)
O capítulo 8 é devotado a uma
leitora quase esquecida que santo Agostinho, numa carta, louva como
uma escriba formidável e a quem dedicou um de seus livros. Seu nome
era Melanía, a Jovem (para distingui-la de sua avó, Melania, a
Anciã), e ela viveu em Roma, no Egito e no Norte da Africa. Nasceu
por volta de 385 e morreu em Belém, em 439. Era apaixonada por
livros e copiou para si mesma tantos quantos pôde encontrar,
reunindo assim uma importante biblioteca. O erudito Gerôncio, do
século V, descreveu-a como "naturalmente dotada" e tão
aficionada pela leitura que "percorria as Vidas dos padres como
se estivesse comendo uma sobremesa". "Lia livros que eram
comprados, bem como livros que encontrava por acaso, e o fazia com
tal diligência que nenhuma palavra ou pensamento permanecia
desconhecido para ela. Tão avassaladora era sua paixão pelo
aprendizado que, quando lia em latim, parecia a todos que não sabia
grego, e, por outro lado, quando lia em grego, pensava-se que não
sabia latim." Brilhante e transitória, Melania, a Jovem, é
vista perambulando na - A história da leitura como uma das
muitas pessoas que buscaram conforto nos livros.
De um século mais próximo de nós
(mas o autor de A história da leitura não dá importância a
essas convenções arbitrárias e o convida a comparecer no capítulo
6), outro leitor eclético, o genial Oscar Wilde, apresenta-se.
Seguimos seu progresso nas leituras, dos contos de fada celtas que
sua mãe lhe deu aos volumes eruditos que leu no Magdalen College, em
Oxford. Foi num exame em Oxford que lhe pediram que traduzisse a
versão grega da Paixão no Novo Testamento. Como avançou no
trabalho com muita facilidade e correção, os examinadores
disseram-lhe que já bastava. Wilde continuou a traduzir, e uma vez
mais disseram-lhe que parasse. "Oh, deixem-me continuar, quero
ver como acaba”, disse Wilde.
Para ele, era tão importante saber do
que gostava quanto o que deveria evitar. Em beneficio dos assinantes
da Pal Mall Gazette, publicou, em 8 de fevereiro
de 1886, estas palavras de advertência sobre o que "Ler ou não
ler": Livros que não devem ser lidos de forma alguma, como
Seasons, de Thomson, Italy, de Rogers, Evidences, de Paley, todos os
Pais da Igreja, exceto santo Agostinho, todo o John Stuart Mill,
exceto o ensaio sobre a liberdade, todas as peças de Voltaire, sem
exceção, Analogy, de Butler, Aristotle, de Grant, England, de Hume,
History of philosophy, de Lewes, todos os livros argumentativos e
todos os livros que tentam provar alguma coisa [...] Dizer às
pessoas o que ler é, como regra, inútil ou prejudicial, pois a
verdadeira apreciação da literatura é uma questão de
temperamento, não de ensino, ao Parnaso não há cartilha
introdutória, e nada do que alguém pode aprender vale a pena ser
aprendido. Mas dizer às pessoas o que não ler é uma questão muito
diferente, e aventuro-me a recomendá-lo, como missão, ao Programa
de Extensão Universitária.
Os gostos de leitura privados e
públicos são discutidos bem no início do livro, no capítulo 4. O
papel do leitor como antologista é examinado, como coletor de
material para si mesmo (o livro de Jean-Jacques Rousseau, um
lugar-comum, é o exemplo dado) ou para os outros (Golden treasury
[Tesouro dourado] de Palgrave), e nosso autor, com muita graça,
mostra como os conceitos de público modificam as escolhas dos
antologistas. Para apoiar essa "micro-história das antologias",
nosso autor cita o professor Jonathan Rose a propósito das "cinco
falácias comuns da resposta do leitor":
- primeira, toda literatura é
política, no sentido de que sempre influencia a consciência
política do leitor;
- segunda, a influência de
determinado texto é diretamente proporcional à sua circulação;
- terceira, a cultura "popular"
tem muito mais adeptos do que a "alta" cultura e, portanto,
reflete com mais precisão as atitudes das massas;
- quarta, a "alta"
cultura tende a reforçar a aceitação da ordem social e política
existente (suposição largamente compartilhada tanto pela direita
como pela esquerda); e
- quinta, o “cânone dos grandes”
livros é definido somente pelas elites sociais. Os leitores comuns
não reconhecem o cânone, ou aceitam-no apenas por deferência à
opinião da elite.
Como nosso autor deixa bastante claro,
nós, os leitores, somos normalmente culpados de aceitar pelo menos
algumas, senão todas, essas falácias. O capítulo menciona também
antologias ready-made coligidas e encontradas por acaso, tais
como os 10 mil textos reunidos em um curioso arquivo judeu no Cairo
Velho, chamado Geniza e descoberto em 1890 num quarto de despejo
lacrado de uma sinagoga medieval. Por causa da reverência judaica em
relação ao nome de Deus, nenhum papel foi jogado fora por medo de
que contivesse seu nome; portanto, tudo, de contratos de casamento a
listas de compras, de formas de amor a catálogos de livreiros (um
dos quais incluía a primeira referência conhecida às Mil e uma
noites), foi reunido ali para um leitor futuro.
Não apenas um, mas três capítulos
(31, 32 e 33) são dedicados ao que o autor chama de "A invenção
do leitor". Cada texto supõe um leitor Quando Cervantes começa
sua introdução à primeira parte do Dom Quixote com o
vocativo "Desocupado leitor”, sou eu que desde as primeiras
palavras me torno uma personagem na ficção, uma pessoa com tempo
suficiente para me comprazer com a história que está para começar.
A mim Cervantes dedica o livro, a mim explica os fatos de sua
composição, a mim confessa as falhas da obra. Seguindo o conselho
de um amigo, ele próprio escreveu alguns poemas laudatórios
recomendando o livro (a versão menos inspirada de hoje é pedir a
personalidades conhecidas que elogiem e colem seus panegíricos na
sobrecapa do livro).
Cervantes solapa sua própria
autoridade ao me fazer penetrar em seu segredo. Eu, o leitor, fico em
guarda e, no mesmo ato, sou desarmado. Como posso reclamar do que me
foi exposto de forma tão clara'? Concordo em participar do jogo.
Aceito a ficção. Não fecho o livro.
Minha decepção indisfarçada
continua. Oito capítulos adiante, fico sabendo que esse é o tamanho
da história de Cervantes e que o resto do livro é uma tradução do
árabe feita pelo historiador Cide Hamete Benengeli. Por que o
artificio? Porque eu, o leitor, não me convenço facilmente e
porque, embora não acredite na maioria dos truques com os quais o
autor jura veracidade, gosto de entrar num jogo em que os níveis de
leitura mudam constantemente. Leio um romance, leio uma aventura
real, leio a tradução de uma aventura real, leio uma versão
correta dos fatos.
A história da leitura é
eclética. A invenção do leitor segue-se um capítulo sobre a
invenção do escritor, outra personagem de ficção. “Tive a
infelicidade de começar um livro com a palavra eu", escreveu
Proust, "e imediatamente pensou-se que, em vez de tentar
descobrir leis gerais, eu estava analisando a mim mesmo, no sentido
individual e detestável da palavra." Isso conduz nosso autor a
discutir o uso da primeira pessoa do singular e do modo como esse eu
fictício força o leitor a uma aparência de diálogo, do qual,
entretanto, ele é excluído pela realidade física da página.
"Somente quando o leitor lê para além da autoridade do
escritor é que o diálogo acontece", diz nosso autor, e tira
seus exemplos do nouveau roman, em especial de A
modificação, de Michel Butor, escrito inteiramente na segunda
pessoa. "Aqui", diz nosso autor, "as cartas estão na
mesa e o escritor não espera que acreditemos no eu nem presume que
vamos assumir o papel do condescendente 'prezado leitor'."
Numa fascinante digressão (capítulo
40 de A história da leitura), nosso autor apresenta a sugestão
original de que a forma pela qual o livro se dirige ao leitor leva à
criação dos principais gêneros literários - ou pelo menos à sua
classificação. Em 1948, em Das Sprachliche Kunstwerk [Análise e
interpretação da obra de arte literária], o crítico alemão
Wolfgang Kayser propôs que o conceito de gênero derivava das três
pessoas que existem em todas as línguas conhecidas: eu, tu e
ele ou ela. Na literatura lírica, o eu
expressa-se emocionalmente; no drama, o eu torna-se uma
segunda pessoa, tu, e trava com outro tu um diálogo
apaixonado. Por fim, na epopeia, o protagonista é a terceira pessoa,
ele ou ela, que narra objetivamente. Ademais, cada
gênero exige do leitor três atitudes distintas: uma atitude lírica
(a da caução), uma atitude dramática (que Kayser chama de
apóstrofe) e uma atitude épica, ou enunciação. Nosso autor acolhe
com entusiasmo esse argumento e ilustra-o com três leitores: Éloise
Bertrand, uma colegial francesa do século XIX cujo diário
sobreviveu à guerra franco-prussiana de 1870 e que registrou
fielmente sua leitura de Nerval; Douglas Hyde, que foi ponto na
representação de The vicar of Wakefield [O vigário de
Wakefield] no Court Theatre de Londres, com Ellen Terry no papel de
Olívia; e a criada de Proust, Céleste, que leu (em parte) o extenso
romance de seu patrão.
No capítulo 68 (essa História da
leitura é um volume reconfortante-mente grosso), nosso autor
levanta a questão de como (e por que) certos leitores preservam uma
leitura depois que a maioria já a relegou ao passado. O exemplo dado
é o de um jornal de Londres publicado em algum momento de 1855,
quando a maioria dos jornais ingleses estava abarrotada de notícias
da guerra na Criméia:
John Challis, um homem idoso de cerca
de sessenta anos, vestido com os trajes pastoris de uma pastora da
idade de ouro, e George Campbell, de 35 anos, que descreveu a si
mesmo como advogado e apareceu completamente equipado em trajes
femininos atuais, foram postos no tribunal diante de sir R. W.
Carden, sob a acusação de terem sido encontrados disfarçados de
mulher no Druids'-hal , em Turnagain Lane, um salão de danças sem
licença, com o propósito de incitar outros a cometerem uma ofensa
antinatural.
"Uma pastora da idade de ouro":
em 1855, o ideal bucólico literário era coisa do passado.
Codificado nos Idílios de
Teócrito no terceiro século antes de Cristo, atraindo os escritores
de uma forma ou de outra até o século XVII, tentando escritores tão
disparatados como Milton, Garcilaso de la Vega, Giambattista Marino,
Cervantes, Sidney e Fletcher, o bucolismo encontrou um reflexo muito
diferente em romancistas como George Eliot e Elizabeth Gaskel , Émile
Zola e Ramón del Val e Inclán, em seus livros que davam aos
leitores outra visão menos ensolarada da vida no campo: Adam Bede
(1859), Cranford (1853), La Terre (1887), Tirano
Banderas (1926). Essas reconsiderações não eram novas.
Já no século XIV o escritor espanhol
Juan Ruiz, arcipreste de Hita, em seu Libro de buen amor,
subvertera a convenção na qual um poeta ou cavaleiro solitário
encontra uma bela pastora a quem seduz gentilmente, fazendo com que o
narrador encontre nas colinas de Guadarrama quatro pastoras
selvagens, corpulentas e voluntariosas. As duas primeiras o estupram,
da terceira ele escapa com promessas falsas de casar com ela e a
quarta lhe oferece abrigo em troca de roupas, joias, um casamento ou
dinheiro vivo. Duzentos anos depois, havia poucos como o velho sr.
Challis que ainda acreditavam no apelo simbólico do pastor adorável
e suas pastoras ou do amoroso cavalheiro e sua inocente donzela do
campo. Segundo o autor de A história da leitura, essa é uma das
maneiras (extrema, sem dúvida) pelas quais os leitores preservam e
recontam o passado.
Vários capítulos, em diferentes
partes do livro, tratam dos deveres da ficção, em oposição ao que
o leitor aceita como fato. Os capítulos sobre a leitura de fatos
constituem um toque árido, indo das teorias de Platão às críticas
de Hegel e Bergson; ainda que tragam o possivelmente apócrifo
viajante-escritor inglês do século XIV sir John Mandevil e, são um
tanto densos para se deixar resumir Os capítulos sobre leitura de
ficção, no entanto, são mais concisos. Duas opiniões, igualmente
prescritivas e totalmente opostas, são apresentadas. Segundo uma
delas, o leitor deve acreditar nas personagens do romance e agir como
elas. De acordo com a outra, o leitor deve desconsiderar essas
personagens como meras fabricações sem nenhuma relação com o
"mundo real". Henry Tilney, em A abadia de Northanger,
de Jane Austen, dá voz à primeira opinião quando interroga
Catherine depois do rompimento da amizade com Isabel a; ele espera
que os sentimentos dela sigam as convenções da ficção:
- Imagino que, perdendo Isabel a,
deve estar com a sensação de ter perdido metade de si mesma. Sente
no coração um vazio que nada encherá. Tudo lhe parece enfadonho, e
a simples idéia dos prazeres que compartilhava com ela - bailes,
teatros, concertos lhe é odiosa. Está persuadida de que já não
terá, de agora em diante, uma amiga em quem confiar sem reservas,
uma amiga com quem contar. Está sentindo tudo isto?
- Não disse Catherine depois de
refletir. - Devia?
O tom do leitor e o modo como ele
afeta o texto são discutidos no capítulo 51, por meio da personagem
de Robert Louis Stevenson lendo histórias para seus vizinhos na
Samoa.
Stevenson atribuía o senso dramático
e musical de sua prosa às histórias para dormir que lhe contava sua
babá Alison Cunningham, "Cummie". Ela lia histórias de
fantasmas, hinos religiosos, panfletos calvinistas e romances
escoceses, tudo o que acabou penetrando em sua ficção. "Foi
você quem me deu a paixão pelo teatro, Cummie", confessou-lhe
quando já era homem feito. “Eu, senhor Lou? Nunca pus o pé num
teatro em toda a minha vida.'”
Ao que ele respondeu: "Ah,
mulher! Mas foi aquela magnífica forma dramática que você tinha de
recitar os hinos". Stevenson aprendeu a ler somente aos sete
anos, não por preguiça, mas porque queria prolongar as delícias de
ouvir as histórias ganharem vida. A isso nosso autor chama de
"síndrome de Scherazade".
Ler ficção não é a única
preocupação do nosso autor. A leitura de textos científicos,
dicionários, partes de um livro com índices, notas e dedicatórias,
mapas, jornais, tudo merece (e recebe) seu próprio capítulo. Há um
retrato curto mas revelador do romancista Gabriel García Márquez,
que lê todas as manhãs um par de páginas de um dicionário
(qualquer dicionário, exceto o pomposo Diccionario de la Real
Academia Española) - hábito que nosso autor compara ao de
Stendhal, que lia com atenção o Código Napoleônico para aprender
a escrever com um estilo conciso e exato.
O tópico da leitura de livros
emprestados ocupa o capítulo 15. Jane Carlyle (esposa de Thomas
Carlyle e famosa epistológrafa) nos conduz pelas complexidades de
ler livros que não nos pertencem, "como se tivéssemos um caso
ilícito", e de retirar de bibliotecas livros que podem afetar
nossa reputação. Uma certa tarde de 1843, tendo escolhido da
respeitável London Library vários romances "ousados" do
escritor francês Paul de Kock, ela descaradamente preencheu a ficha
de empréstimo com o nome de Erasmus Darwin, o descarnado avô
inválido do famoso Charles, para espanto dos bibliotecários.
Aqui estão também as cerimônias de
leitura da nossa época e de tempos passados (capítulos 43 e 45).
Aqui estão as maratonas de leitura de Ulisses no Bloomsday,
as nostálgicas leituras radiofônicas de um livro antes de dormir,
as leituras em grandes salões de biblioteca lotados e em lugares
longínquos, desertos e bloqueados pela neve, leituras à cabeceira
dos doentes, leituras de histórias de fantasmas ao pé do fogo no
inverno. Aqui está a ciência curiosa da biblioterapia (capítulo
21), definida no Webster como "o uso de material de leitura
selecionado como coadjuvante terapêutico na medicina e na
psiquiatria", com o qual certos médicos afirmam poder curar os
doentes do corpo e do espírito, administrando-lhes The wind in
the wil ows [O vento nos salgueiros] ou Bouvard e Pécuchet.
Aqui estão as maletas de livros, o
sine qua non de toda viagem vitoriana. Nenhum viajante saía de casa
sem uma mala cheia de leitura apropriada. fosse para a Côte d'Azur
ou para a Antártida. (Pobre Amundsen: nosso autor nos conta que, a
caminho do Pólo Sul, a maleta de livros do explorador afundou sob o
gelo e ele foi obrigado a passar muitos meses na companhia do único
volume que conseguiu resgatar: The portraiture of His Sacred Majesty
in his solitudes and sufferings [O retrato de Sua Sagrada Majestade
em seus sofrimentos e solidões], do dr John Gauden.) Um dos
capítulos finais (mas não o último) trata do reconhecimento
explícito pelo escritor do poder do leitor. Aqui estão os livros
deixados abertos para a construção do leitor, como uma caixa de
Lego: o Tristram Shandy de Laurence Sterne, evidentemente, que
nos permite ler de qualquer jeito, e O jogo da amarelinha, de
Júlio Cortázar, romance construído com capítulos intercambiáveis
cuja seqüência o leitor determina à vontade.
Sterne e Cortázar conduzem
inevitavelmente aos romances da Nova Era, os hipertextos.
O termo (conta-nos nosso autor) foi
cunhado na década de 1970 pelo especialista em computação Ted
Nelson, para descrever o espaço narrativo não sequencial
possibilitado pelos computadores. Nosso autor cita o romancista
Robert Coover, que descreveu assim o hipertexto num artigo publicado
no New York Times: "Não há hierarquias nessas redes sem
parte de cima (e sem parte de baixo), na medida em que parágrafos,
capítulos e outras divisões convencionais do texto são
substituídas por blocos de texto e elementos gráficos do tamanho da
janela, de valor semelhante e igualmente efêmeros". O leitor de
um hipertexto pode entrar no texto praticamente em qualquer ponto,
pode mudar o curso da narrativa, exigir inserções, corrigir,
expandir ou apagar. Esses textos também não têm fim, pois o leitor
(ou o escritor) sempre pode continuar ou recontar um texto: "Se
tudo está no meio, como saber que acabou, seja você o leitor ou o
escritor?" - pergunta Coover "Se a qualquer momento o autor
é livre para levar a história a qualquer lugar e em quantas
direções quiser, não se torna uma obrigação fazê-lo?"
Entre parênteses, nosso autor questiona a liberdade implícita nessa
obrigação.
A história da leitura,
felizmente, não tem fim. Depois do último capítulo e antes do já
mencionado índice copioso, nosso autor deixou várias páginas em
branco para o leitor acrescentar mais pensamentos sobre a leitura,
temas obviamente esquecidos, citações pertinentes, eventos e
personagens ainda no futuro. Há algum consolo nisso. Imagino deixar
o livro na mesinha-de-cabeceira, imagino abri-lo hoje à noite,
amanhã à noite ou depois de amanhã, imagino que direi a mim mesmo:
"Não acabou".
Alberto Manguel, em Uma História da Leitura

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