15/05/2026

O caso do trocador silencioso




O trocador é um modelo de instituição brasileira. Porque, fazendo jus ao título, não troca absolutamente coisa nenhuma. E quando troca, exemplifica de maneira esplêndida a expressão “dar o troco” atirando moedas e caraminguás nos cornes do freguês.
Aproveitando o rebote dos dias do mestre, do médico, da criança e outros bichos, eu, na qualidade de defensor dos fracos e oprimidos (por preços módicos e com direito a pechincha), sugiro aos nossos atarefados políticos a criação do Dia do Trocador. Nesta data querida, o citado profissional teria o direito de revidar, com um soco na cara, qualquer atrevimento do tipo nota de cinco, de dez etc... Bom etc. aí é meio sobre a retórica porque pobre quando vê nota de cinquenta pra cima, trata logo de se livrar dela, antes que os hôme arranjem alguma acusação em seu vasto repertório.
— Onde tu arranjou essa nota? Canta logo!
— Conceiçãããão...
PÔU!
Mas, como diz o Penteado, toda regra tem exceção e toda exceção caga regra.
O Tinoco, lá do Estácio, foi o único trocador que eu conheci que não só cumpria rigorosamente seu dever como, de quebra, distribuía agradecimentos e sorrisos. Aqui entre nós, o motivo dessa conduta insólita era a Janete. Platinada, graça ao conhecido tônico capilar Louramil, Janete lembrava um pouco a Marilim Monrôu — como gostava de dizer o Tinoco, o que, é bom frisar de passagem (já que falamos em trocador), engrandece a Janete. Tinoco detestava referências a coisas “do estrangeiro. O Brasil dá de zero em tudo”.
Toda sexta-feira, dia de folga do Tinoco, Janete melhorava o astral da
casa com o defumadorIndiano, e nosso herói andava atrás dela, de cueca, na maior bolinação.
— Peraí, Cocô! Parece que tem bicho-carpinteiro. Isso aqui é coisa séria...
Ah, o encanto de certos apelidos íntimos!
Acabavam na cama. Durante os chamados folguedos eróticos, Tinoco era silencioso e compenetrado, e Janete era penetrada com a maior gritaria.
— Agora, meu amor! Fala!Diz uma coisa daquelas no meu ouvidinho.
E o Tinoco hum, ai, hum, ai, hum, ai, e mais nada.
Depois, Janete ficava um pouquinho triste. Bem que disfarçava, mas seu rosto traía um pensamento oculto parecido com o dos compositores ao receberem direitos autorais do ECAD:(é como se faltasse alguma coisa).
Tinoco reparava na tristeza da Janete e, fazendo cafuné, prometia:
— Da próxima vez eu falo. Fica triste não, neguinha. Juro que da próxima vez eu falo.
E Ihufas. Na hora do lesco-lesco, Tinoco, que nem as Otoridades, não tinha nada a declarar.
Perturbada por esse silêncio, Janete decidiu ir a um afamado Centro Espírita na Travessa do Carneiro, a Tenda “Esperança e Ray-O-Vac” — a coisa tá tão preta que até os espíritos da luz estão de lanterna.
No tal centro, Janete contou o problema ao caboclo Pena Poluída, que, após prescrever o Pó Solta-a-Língua, deu-lhe uns passes contra mau-olhado e repetiu três vezes:
— O negoço tá mais pra palmito que pra beija-flor.
Em casa, Janete preparou a beberagem amaciada com a cachaça “Insumos Básicos” e explicou pro Tinoco:
— Bebe de uma vez só. O caboclo disse que é tiro e queda.
De fato, porém mais pra queda do que pra tiro. Entre huns e ais, o Tinoco deixou cair:
— Meus concidadãos! Ai... numa conjuntura econômica que... hum... se define por um aperto... ai... os elementos divisionistas... hum...
E por aí afora. Ou adentro.
Janete chorou a noite inteira, enquanto o Tinoco, desolado, fumava na sala, andando pra lá e pra cá.
Sexta-feira seguinte, Janete voltou ao centro com o Tinoco a tiracolo. O caboclo Pena Poluída ouviu tudo, recomendou que a dosagem do remédio fosse triplicada, e pediu que o casal repetisse com ele a exortação:
— Se falar não fosse fácil, onde estaria o José Bonifácio? Boca abre à toa que nem janela. Vide Petrônio Portela.
Pra encerrar, Pena Poluída ajoelhou-se, bateu três vezes com a testa no cimento e foi levado com fratura do frontal pro Souza Aguiar, saravá!
De alma lavada, os pombinhos esvoaçaram pro ninho no maior agarramento. A preliminar foi tremenda. Tinoco disse coisa de ruborizar a própria torcida do Curintia. Mas no jogo principal ficou ruço. Já tava na prorrogação e só pintava hum, ai, hum, ai, hum, ai... Janete, desesperada, sabendo que essas coisas não se resolvem em cobrança de pênalti, apelou pro patriotismo do Tinoco:
— Fala, desgraçado! Me xinga! Honra o trocador brasileiro!
Tinoco avermelhou como se fosse explodir e:
— F... f... f...
— Isso querido! Diz!
— F... f... favor dar um passinho a frente que o meio do carro tá vazio!

Aldir Blanc, em Rua dos Artista e Arredores

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