segunda-feira, 18 de maio de 2026

“A vida é muito discordada. Tem partes. Tem artes”


[…]

Achava. Adiante, dias de caminho, achei de querer e não querer, em contrários instantes! que rezassem por mim, a rogo e paga. Reza boa, de outros, singela, que mais me valesse ― essas avemariazinhas, novenas. Assim conforme Diadorim tinha expedido o recado, para minha Otacília, mediante o arrieiro de uma tropa. Pelejei por afirmar a ideia nisso, que próprio depois eu enxotava. As vezes as melhores haviam de ser as rezas de mais longe, desconhecidamente. Me lembrei de um homem, de minha meninice. Um do outro lado do rio. O sujeito que escondia uma oração tão entremunhada, desguisada, que duvido mesmo um padre aquilo entendesse, e desse licença. Pois, ora, me servia. Ou a mulher que teve seu meninozinho parido no chão do rancho, no povoado dos papudos; ela me devia mercês, então não podia encaminhar a Deus, por mim, nem um louvamém? ― Só será que o arrieiro passa e vai, na Santa Catarina?... Isso perguntei a Diadorim. O que perguntei era por uma opinião. Eu queria pensar nisso, de tarde, nos repontos. De assento. Mas logo esse sossego manso me largava ― nuvenzinha dele.Vaqueiro pode laçar o lugar do ar? As voltas e revoltas, eu pelejava contra o meu socôrro. Hoje, eu sei; pois sei, por que. Mas eu não falava sozinho. Figuro que estava em meu são juízo. Só que andava às tortas, num lavarinto.Tarde foi que entendi mais do que meus olhos, depois das horrorosas peripécias, que o senhor vai me ouvir. Só depois, quando tudo encurtou. Dei decreto de fim em essas esquisitices.
No que não perguntei, Diadorim me respondeu? ― ...A muita coragem, Riobaldo... Se carece de ter muita coragem... Ah, eu sabia. A coragem, eu? Aí quem era que me vencesse, nesse dever, alirolé, quem podia afrontar minha presença, feito môrro padastro? Tinha mãos e ações, que davam para lavar meus trajes. Mas, o que Diadorim disse, não me fez mossa. Dou exemplo. Do que houve e se passou, uma vez, no Carujo, um arraial triste, em antigos tempos. O povo dali fugiu, por alguma guerra ou pressa, fecharam a igrejinha com um morto lá dentro, entre as velas... Eu gostava de Diadorim corretamente; gostava aumentado, por demais, separado de meus sobejos. Aquilo, davandito, ele tinha falado solto e sem serviço, era só uma recordação, assim um fraseado verdadeiro, ditado da vida. O que não fosse destinado para ele nem para mim, mas que era para todos. Ou, então, sendo para mim, mas em outros passados, de primeiro. Ali naquele lugar, o Carujo, no reabrirem, depois de uns mêses, a igreja, o defunto tinha se secado sozinho... Ao por tanto, que se ia, conjuntamente, Diadorim e eu, nós dois, como já disse. Homem com homem, de mãos dadas, só se a valentia deles for enorme. Aparecia que nós dois já estávamos cavalhando lado a lado, par a par, a vai-a-vida inteira. Que: coragem ― é o que o coração bate; se não, bate falso. Travessia ― do sertão ― a toda travessia.
Só aquele sol, a assaz claridade ― o mundo limpava que nem um tremer dágua. Sertão foi feito é para ser sempre assim: alegrias! E fomos. Terras muito deserdadas, desdoadas de donos, avermelhadas campinas. Lá tinha um caminho novo. Caminho de gado.
Arte que eu achei o meu projeto.
Só digo como foi: do prazer mesmo sai a estonteação, como que um perde o bom tino. Porque, viver é muito perigoso... Diadorim, o rosto dele era fresco, a boca de amor; mas o orgulho dele condescendia uma tristeza. Matéria daquilo que me desencontrava; motivo esse que me entristeceu? A nenhum. Eu já estava chefe de glórias. Nem Diadorim não duvidava do meu roteiro ― que fosse para encontrar o Hermógenes. Desse jeito a gente ia descendo ladeiras. Ladeiras areentas e com pedras, com os abismos dos lados; e tão a pique, que podiam rebentar os rabichos dos arreios, no despenhado; no ali descer os cavalos muito se agachavam de ancas, feito se os pescoços deles se encompridassem; e montões de pedras para baixo rolavam. Até ri. Diadorim ainda cria mais no meu fervor em se ir perseguir o Hermógenes. Essas ladeiras era que me atrasavam. Depois dali, eu ia ter muita pressa demais.
Agora, o senhor saiba qual era esse o meu projeto! eu ia traspassar o Liso do Sussuarão!
Senhor crê, sem estar esperando? Tal que disse. Ainda hoje, eu mesmo, disso, para mim, eu peço espantos. Qu é que me acuava? Agora, eu velho, vejo! quando cogito, quando relembro, conheço que naquele tempo eu girava leve demais, e assoprado. Deus deixou. Deus é urgente sem pressa. O sertão é dele. Eh! ― o que o senhor quer indagar, eu sei. Porque o senhor está pensando alto, em quantidades. Eh. Do demo? Se é como corujão que se vôa, de silêncio em silêncio, pegando rato-mestre, o qual carrega em mão curva... No nada disso não pensei; como é que pudesse? A invenção minha era uma, os minutos todos, tivesse um relógio. A atravessar o Liso do Sussuarão. Ia. Indo, fui ficando airoso.
Por forma como a gente rodeou outra volta, não se passando no Vespê e no Bambual-do-Boi, nenhum de meus homens não tirou palpite desse propósito. Pasmo deles ia ser. Daí, uns desconfiavam, de se estar onde estávamos. Donde a perto dele umas poucas cinco léguas! o desmenso, o raso enorme ― por detrás dos môrros. E a gente dava a banda da mão esquerda ao Vão-do-Oco e aoVão-do-Cúio! esses buracões precipícios ― grotão onde cabe o mar, e com tantos enormes degraus de florestas, o rio passa lá no mais meio, oculto no fundo do fundo, só sob o bolo de árvores pretas de tão velhas, que formam mato muito matagal. Isto é um vão. E num vão desses o senhor fuja de descer e ir ver, aindas que não faltem as boas trilhas de descida, no barranco matoso escalavrado, entre as moitarias de xaxim. Ao certo que lá em baixo dá onças ― que elas vão parir e amamentar filhos nas sorocas; e anta velhusca moradora, livre de arma de caçador. Mas o que eu falo é por causa da maleita, da pior: febre, ali no oco, é coisa, é grossa, mesma. Terçã maligna, pega o senhor; a terçã brava, que pode matar perfeito o senhor, antes do prazo de uma semana.
No que eu no meu destino não pensei. Diadorim, em sombra de amor, foi que me perguntou aquilo:
Riobaldo, tu achasses que, uma coisa mal principiada, algum dia pode que terá bom fim feliz?
Ao que eu, abirado, reagi:
Mano meu mano, te desconheço?! Me chamo não é Urutú-Branco? Isto, que hei-de já, maximé!
Diadorim persistiu calado, guardou o fino de sua pessoa. Se escondeu; e eu não soubesse. Não sabia que nós dois estávamos desencontrados, por meu castigo. Hoje, eu sei; isto é: padeci. O que era uma estúrdia queixa, e que fosse sobrôsso eu pensei. Assim ele acudia por me avisar de tudo, e eu, em quentes me regendo, não dei tino. Homem, sei? A vida é muito discordada. Tem partes. Tem artes. Tem as neblinas de Siruiz. Tem as caras todas do Cão, e as vertentes do viver.
[...]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

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