[…]
Achava. Adiante, dias de caminho,
achei de querer e não querer, em contrários instantes! que rezassem
por mim, a rogo e paga. Reza boa, de outros, singela, que mais me
valesse ― essas avemariazinhas, novenas. Assim conforme Diadorim
tinha expedido o recado, para minha Otacília, mediante o arrieiro de
uma tropa. Pelejei por afirmar a ideia nisso, que próprio depois eu
enxotava. As vezes as melhores haviam de ser as rezas de mais longe,
desconhecidamente. Me lembrei de um homem, de minha meninice. Um do
outro lado do rio. O sujeito que escondia uma oração tão
entremunhada, desguisada, que duvido mesmo um padre aquilo
entendesse, e desse licença. Pois, ora, me servia. Ou a mulher que
teve seu meninozinho parido no chão do rancho, no povoado dos
papudos; ela me devia mercês, então não podia encaminhar a Deus,
por mim, nem um louvamém? ― Só será que o arrieiro passa e vai,
na Santa Catarina?... Isso perguntei a Diadorim. O que perguntei era
por uma opinião. Eu queria pensar nisso, de tarde, nos repontos. De
assento. Mas logo esse sossego manso me largava ― nuvenzinha
dele.Vaqueiro pode laçar o lugar do ar? As voltas e revoltas, eu
pelejava contra o meu socôrro. Hoje, eu sei; pois sei, por que. Mas
eu não falava sozinho. Figuro que estava em meu são juízo. Só que
andava às tortas, num lavarinto.Tarde foi que entendi mais do que
meus olhos, depois das horrorosas peripécias, que o senhor vai me
ouvir. Só depois, quando tudo encurtou. Dei decreto de fim em essas
esquisitices.
No que não perguntei, Diadorim me
respondeu? ― ...A muita coragem, Riobaldo... Se carece de ter
muita coragem... Ah, eu sabia. A coragem, eu? Aí quem era que me
vencesse, nesse dever, alirolé, quem podia afrontar minha presença,
feito môrro padastro? Tinha mãos e ações, que davam para lavar
meus trajes. Mas, o que Diadorim disse, não me fez mossa. Dou
exemplo. Do que houve e se passou, uma vez, no Carujo, um arraial
triste, em antigos tempos. O povo dali fugiu, por alguma guerra ou
pressa, fecharam a igrejinha com um morto lá dentro, entre as
velas... Eu gostava de Diadorim corretamente; gostava aumentado, por
demais, separado de meus sobejos. Aquilo, davandito, ele tinha falado
solto e sem serviço, era só uma recordação, assim um fraseado
verdadeiro, ditado da vida. O que não fosse destinado para ele nem
para mim, mas que era para todos. Ou, então, sendo para mim, mas em
outros passados, de primeiro. Ali naquele lugar, o Carujo, no
reabrirem, depois de uns mêses, a igreja, o defunto tinha se secado
sozinho... Ao por tanto, que se ia, conjuntamente, Diadorim e eu, nós
dois, como já disse. Homem com homem, de mãos dadas, só se a
valentia deles for enorme. Aparecia que nós dois já estávamos
cavalhando lado a lado, par a par, a vai-a-vida inteira. Que: coragem
― é o que o coração bate; se não, bate falso. Travessia ― do
sertão ― a toda travessia.
Só aquele sol, a assaz claridade ―
o mundo limpava que nem um tremer dágua. Sertão foi feito é para
ser sempre assim: alegrias! E fomos. Terras muito deserdadas,
desdoadas de donos, avermelhadas campinas. Lá tinha um caminho novo.
Caminho de gado.
Arte que eu achei o meu projeto.
Só digo como foi: do prazer mesmo sai
a estonteação, como que um perde o bom tino. Porque, viver é muito
perigoso... Diadorim, o rosto dele era fresco, a boca de amor; mas o
orgulho dele condescendia uma tristeza. Matéria daquilo que me
desencontrava; motivo esse que me entristeceu? A nenhum. Eu já
estava chefe de glórias. Nem Diadorim não duvidava do meu roteiro ―
que fosse para encontrar o Hermógenes. Desse jeito a gente ia
descendo ladeiras. Ladeiras areentas e com pedras, com os abismos dos
lados; e tão a pique, que podiam rebentar os rabichos dos arreios,
no despenhado; no ali descer os cavalos muito se agachavam de ancas,
feito se os pescoços deles se encompridassem; e montões de pedras
para baixo rolavam. Até ri. Diadorim ainda cria mais no meu fervor
em se ir perseguir o Hermógenes. Essas ladeiras era que me
atrasavam. Depois dali, eu ia ter muita pressa demais.
Agora, o senhor saiba qual era esse o
meu projeto! eu ia traspassar o Liso do Sussuarão!
Senhor crê, sem estar esperando? Tal
que disse. Ainda hoje, eu mesmo, disso, para mim, eu peço espantos.
Qu é que me acuava? Agora, eu velho, vejo! quando cogito, quando
relembro, conheço que naquele tempo eu girava leve demais, e
assoprado. Deus deixou. Deus é urgente sem pressa. O sertão é
dele. Eh! ― o que o senhor quer indagar, eu sei. Porque o senhor
está pensando alto, em quantidades. Eh. Do demo? Se é como corujão
que se vôa, de silêncio em silêncio, pegando rato-mestre, o qual
carrega em mão curva... No nada disso não pensei; como é que
pudesse? A invenção minha era uma, os minutos todos, tivesse um
relógio. A atravessar o Liso do Sussuarão. Ia. Indo, fui ficando
airoso.
Por forma como a gente rodeou outra
volta, não se passando no Vespê e no Bambual-do-Boi, nenhum de meus
homens não tirou palpite desse propósito. Pasmo deles ia ser. Daí,
uns desconfiavam, de se estar onde estávamos. Donde a perto dele
umas poucas cinco léguas! o desmenso, o raso enorme ― por
detrás dos môrros. E a gente dava a banda da mão esquerda ao
Vão-do-Oco e aoVão-do-Cúio! esses buracões precipícios ―
grotão onde cabe o mar, e com tantos enormes degraus de florestas, o
rio passa lá no mais meio, oculto no fundo do fundo, só sob o bolo
de árvores pretas de tão velhas, que formam mato muito matagal.
Isto é um vão. E num vão desses o senhor fuja de descer e
ir ver, aindas que não faltem as boas trilhas de descida, no
barranco matoso escalavrado, entre as moitarias de xaxim. Ao certo
que lá em baixo dá onças ― que elas vão parir e amamentar
filhos nas sorocas; e anta velhusca moradora, livre de arma de
caçador. Mas o que eu falo é por causa da maleita, da pior: febre,
ali no oco, é coisa, é grossa, mesma. Terçã maligna, pega o
senhor; a terçã brava, que pode matar perfeito o senhor, antes do
prazo de uma semana.
No que eu no meu destino não pensei.
Diadorim, em sombra de amor, foi que me perguntou aquilo:
― Riobaldo, tu achasses que, uma
coisa mal principiada, algum dia pode que terá bom fim feliz?
Ao que eu, abirado, reagi:
― Mano meu mano, te desconheço?! Me
chamo não é Urutú-Branco? Isto, que hei-de já, maximé!
Diadorim persistiu calado, guardou o
fino de sua pessoa. Se escondeu; e eu não soubesse. Não sabia que
nós dois estávamos desencontrados, por meu castigo. Hoje, eu sei;
isto é: padeci. O que era uma estúrdia queixa, e que fosse sobrôsso
eu pensei. Assim ele acudia por me avisar de tudo, e eu, em quentes
me regendo, não dei tino. Homem, sei? A vida é muito discordada.
Tem partes. Tem artes. Tem as neblinas de Siruiz. Tem as caras todas
do Cão, e as vertentes do viver.
[...]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

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