quinta-feira, 28 de maio de 2026

1624 – Lima



A endiabrada”

Luz de lua à uma, anuncia o sino da igreja, e dom Juan de Mogrovejo de la Cerda sai da taverna e se põe a caminhar pela noite de Lima, cheirosa de flores de laranjeira.
Ao chegar no cruzamento da rua do Trato, escuta vozes estranhas ou ecos; para e estica a orelha.
Um tal de Asmodeu está dizendo que mudou várias vezes de residência desde que saiu de Sevilha Ao chegar a Portobelo habitou os corpos de vários mercadores que chamam o engano de trato, o furto de lucro e a gazua de vara de medir; e no Panamá mudou-se e passou a viver dentro de um hipócrita da cavalaria, de nome falso, que sabia de memória a cópia dos duques, o calendário dos marqueses e a ladainha los condes...
Conta uma coisa, Asmodeu. Guardava esse sujeito os mandamentos da cavalaria moderna?
Todos, Amonio. Mentia e não pagava as dívidas nem dava importância ao sexto mandamento; se levantava sempre tarde, falava na missa e sentia frio o tempo inteiro, o que dizem ser de bom gosto. E olha que é difícil sentir frio no Panamá, com aqueles calores que o inferno gostaria de ter. No Panamá as pedras suam e dizem as pessoas: “Depressa com a sopa, que vai esquentar”.
O indiscreto dom Juan de Mogrovejo de la Cerda não pode ver Asmodeu nem Amonio, que se falam de longe, mas basta saber que tais nomes não figuram no santoral e sentir o cheiro do inconfundível bafo de enxofre, que invadiu o ar, como se não bastasse o tema de conversa tão eloquente. Dom Juan esmaga suas costas contra a alta cruz da esquina do Trato, cuja sombra impede, através da rua, que Asmodeu e Amonio se aproximem; faz o sinal da cruz e imediatamente convoca toda uma esquadra de santos para sua proteção e socorro. Mas não pode rezar, porque quer escutar. Não vai perder uma palavra disto.
Asmodeu conta que saiu do corpo daquele cavaleiro para meter-se em um clérigo renegado e depois, na viagem ao Peru, encontrou pousada nas entranhas de uma beata especializada em vender donzelas.
Assim cheguei a Lima, em cujos labirintos muito norte me serão tuas advertências. Dê-me notícias destas dilatadas províncias... São bem ganhados os dinheiros?
Se o fossem, mais desocupado estaria o inferno.
Por que caminho hei de tentar os mercadores?
Procurando que o sejam, e deixando-os.
Pelos superiores, têm aqui amor ou respeito?
Medo.
Pois o que haverá de fazer o que queira prêmio?
Não merecê-lo.
Dom Juan invoca a Virgem de Atocha, busca o rosário, que esqueceu, e aperta o pomo da espada, enquanto continua o questionário sobre Lima que Amonio, depressinha, responde.
E quanto aos presumidos de gala, te pergunto se vestem bem.
Poderiam, pelo muito que todo o ano cortam.
Tanto murmuram?
De maneira que em Lima todas as horas são críticas.
Diz-me agora, por que chamam os Francisco de Panchos, os Luises de Luchos e as Isabelas de Chabelas?
Primeiro para não dizer a verdade, segundo, para não dizer os nomes dos santos.
Sofre então dom Juan um inoportuno ataque de tosse. Escuta gritar: Fujamos, fujamos!, e ao final de um longo silêncio se desgruda da cruz que o protegia. Com os joelhos tremendo, dá uma olhada na rua dos Mercadores e nos postais da Província. Dos boquirrotos, não sobra nem sombra.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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