“A endiabrada”
Luz de lua à uma, anuncia o sino da
igreja, e dom Juan de Mogrovejo de la Cerda sai da taverna e se põe
a caminhar pela noite de Lima, cheirosa de flores de laranjeira.
Ao chegar no cruzamento da rua do
Trato, escuta vozes estranhas ou ecos; para e estica a orelha.
Um tal de Asmodeu está dizendo que
mudou várias vezes de residência desde que saiu de Sevilha Ao
chegar a Portobelo habitou os corpos de vários mercadores que chamam
o engano de trato, o furto de lucro e a gazua de vara de medir; e
no Panamá mudou-se e passou a viver dentro de um hipócrita da
cavalaria, de nome falso, que sabia de memória a cópia dos
duques, o calendário dos marqueses e a ladainha los condes...
– Conta uma coisa, Asmodeu. Guardava
esse sujeito os mandamentos da cavalaria moderna?
– Todos, Amonio. Mentia e não
pagava as dívidas nem dava importância ao sexto mandamento; se
levantava sempre tarde, falava na missa e sentia frio o tempo
inteiro, o que dizem ser de bom gosto. E olha que é difícil sentir
frio no Panamá, com aqueles calores que o inferno gostaria de ter.
No Panamá as pedras suam e dizem as pessoas: “Depressa com a sopa,
que vai esquentar”.
O indiscreto dom Juan de Mogrovejo de
la Cerda não pode ver Asmodeu nem Amonio, que se falam de longe, mas
basta saber que tais nomes não figuram no santoral e sentir o cheiro
do inconfundível bafo de enxofre, que invadiu o ar, como se não
bastasse o tema de conversa tão eloquente. Dom Juan esmaga suas
costas contra a alta cruz da esquina do Trato, cuja sombra impede,
através da rua, que Asmodeu e Amonio se aproximem; faz o sinal da
cruz e imediatamente convoca toda uma esquadra de santos para sua
proteção e socorro. Mas não pode rezar, porque quer escutar. Não
vai perder uma palavra disto.
Asmodeu conta que saiu do corpo
daquele cavaleiro para meter-se em um clérigo renegado e depois, na
viagem ao Peru, encontrou pousada nas entranhas de uma beata
especializada em vender donzelas.
– Assim cheguei a Lima, em cujos
labirintos muito norte me serão tuas advertências. Dê-me notícias
destas dilatadas províncias... São bem ganhados os dinheiros?
– Se o fossem, mais desocupado
estaria o inferno.
– Por que caminho hei de tentar
os mercadores?
– Procurando que o sejam, e
deixando-os.
– Pelos superiores, têm aqui
amor ou respeito?
– Medo.
– Pois o que haverá de fazer o
que queira prêmio?
– Não merecê-lo.
Dom Juan invoca a Virgem de Atocha,
busca o rosário, que esqueceu, e aperta o pomo da espada, enquanto
continua o questionário sobre Lima que Amonio, depressinha,
responde.
– E quanto aos presumidos de
gala, te pergunto se vestem bem.
– Poderiam, pelo muito que todo o
ano cortam.
– Tanto murmuram?
– De maneira que em Lima todas as
horas são críticas.
– Diz-me agora, por que chamam os
Francisco de Panchos, os Luises de Luchos e as Isabelas de Chabelas?
– Primeiro para não dizer a
verdade, segundo, para não dizer os nomes dos santos.
Sofre então dom Juan um inoportuno
ataque de tosse. Escuta gritar: Fujamos, fujamos!, e ao final
de um longo silêncio se desgruda da cruz que o protegia. Com os
joelhos tremendo, dá uma olhada na rua dos Mercadores e nos postais
da Província. Dos boquirrotos, não sobra nem sombra.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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