Se vende gente
– Caminha!
– Corre!
– Canta!
– E esse, que defeito tem?
– Abre essa boca!
– Esse é bêbado, ou brigão?
– Quanto oferece, senhor?
– E doenças?
– Mas vale o dobro!
– Corre!
– O senhor não trate de me enganar,
que devolvo ele!
– Salta, cachorro!
– Uma peça assim não se dá de
presente!
– Que levante os braços!
– Que cante forte!
– Essa negra, é com cria ou sem
cria?
– Vamos ver esses dentes!
São levados pela orelha. O nome do
comprador será marcado em sua bochecha ou em sua testa e serão
instrumentos de trabalho nas plantações, nas minas e na pesca, e
armas de guerra nos campos de batalha. Serão parteiras e amas de
leite, dando vida, e tomando-a serão verdugos e sepultureiros. Serão
trovadores e carne de cama.
Está o curral de escravos em pleno
centro de Lima, mas o cabildo acaba de votar pela mudança. Os negros
em oferta serão alojados em um barracão do outro lado do rio Rímac,
junto ao matadouro de São Lázaro. Lá estarão bastante afastados
da cidade, para que os ventos levem seus ares corrompidos e
contagiosos.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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