terça-feira, 12 de maio de 2026

1624 – Lima

Se vende gente

Caminha!
Corre!
Canta!
E esse, que defeito tem?
Abre essa boca!
Esse é bêbado, ou brigão?
Quanto oferece, senhor?
E doenças?
Mas vale o dobro!
Corre!
O senhor não trate de me enganar, que devolvo ele!
Salta, cachorro!
Uma peça assim não se dá de presente!
Que levante os braços!
Que cante forte!
Essa negra, é com cria ou sem cria?
Vamos ver esses dentes!
São levados pela orelha. O nome do comprador será marcado em sua bochecha ou em sua testa e serão instrumentos de trabalho nas plantações, nas minas e na pesca, e armas de guerra nos campos de batalha. Serão parteiras e amas de leite, dando vida, e tomando-a serão verdugos e sepultureiros. Serão trovadores e carne de cama.
Está o curral de escravos em pleno centro de Lima, mas o cabildo acaba de votar pela mudança. Os negros em oferta serão alojados em um barracão do outro lado do rio Rímac, junto ao matadouro de São Lázaro. Lá estarão bastante afastados da cidade, para que os ventos levem seus ares corrompidos e contagiosos.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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