Nosso inquieto século seria muito
menos denso sem o testemunho de Simone de Beauvoir, sem o poder dessa
mulher prodigiosa em converter sua vida ardente numa crítica dos
sexos, da sociedade, da literatura e da política. E Hannah Arendt se
mantém como figura central na teoria política e social, e como uma
das vozes poderosas saídas das trevas totalitárias. Mas nenhuma
delas era filósofa no sentido estrito do termo. Aqui é
indispensável uma extrema precisão. O pensamento filosófico é
aquele que se detém mais nas perguntas do que nas respostas; quando
aparecem as respostas, elas revelam ser novas perguntas. A honra do
ofício é ser desinteressado, abster-se de qualquer rendimento
prático. A posição filosófica — notadamente em seu escopo
metafísico e onde toca o teológico (como deve ser, quer em
concordância, quer na negação) — é, no sentido rigoroso da
expressão, desapegada do mundo. Usualmente aloja-se na sensibilidade
filosófica certa indiferença ou mesmo um desagrado pelo corpo
humano. A essas luzes cruas, há na tradição ocidental apenas uma
filósofa de categoria: Simone Weil.
O preço que Simone Weil pagou por
essa posição chegou quase às raias do totalmente insuportável.
Ela consumiu sua saúde a ponto de sofrer uma morte prematura
deliberada. Habitou seu corpo como se fosse uma choça condenada.
Declarou detestar sua rudimentar feminilidade e sugeriu com veemência
que as realizações filosóficas e matemáticas de força duradoura
eram prerrogativas dos homens — que algum distúrbio ou fraqueza na
própria constituição feminina militava contra um exame da vida,
como o exigia Sócrates, Descartes ou Kant. (André, irmão de Simone
Weil, foi um dos mestres da geometria algébrica do século xx.) Em
tudo o que foi possível, e mesmo além, Simone Weil escolheu o
pensamento contra a vida, a lógica contra a prática, o laser da
análise e da dedução obrigatória contra a meia-luz vacilante, a
transigência e o emaranhado que permitem a nós restantes levar a
vida adiante. Como Pascal, como Kierkegaard, como Nietzsche, mas
isenta das vaidades retóricas que persistem mesmo nesses puristas,
Weil viveu sua curta vida (1909-1943) como uma provação cujo
significado — cuja única dignidade — consistia na derrota.
Os dados fatuais se fizeram conhecidos
em biografias como a de sua amiga Simone Pétrement (1973) e no
estudo minuciosamente documentado que Gabriella Fiori publicou em
1981. A edição crítica dos textos completos de Simone Weil está
em andamento, e quase todas as facetas de suas atividades —
religiosas, filosóficas, literárias, políticas, sociais — foram
ou estão sendo examinadas em detalhe. De uma maneira que ela teria
desprezado (embora ambiguamente), os acomodados do comentário e da
adulação estão se banqueteando com essa vida que tanto se emaciou
e buscou o próprio olvido.
Sabemos de sua infância no ambiente
privilegiado do judaísmo francês emancipado, das rivalidades e
intimidades conspiratórias que a uniam ao irmão. Existem análises
detalhadas do impacto formador que exerceu sobre Weil o mais
carismático e influente dos professores de liceu franceses, o
lendário “maître à penser” Émile Chartier, que
escrevia sob o nome de Alain. Simone Weil se envolveu em vários
movimentos operários marxistas, anarcomarxistas e trotskistas com a
mesma febril obsessão com que mergulhou na filosofia grega e
cartesiana. Deu aulas em várias escolas secundárias de província,
enquanto suas enxaquecas crônicas lhe permitiram. Visitou a Alemanha
para avaliar com os próprios olhos a revolução social de Hitler.
Seu engajamento na Guerra Civil espanhola terminou numa farsa
macabra. (Ela pisou sem querer dentro de uma frigideira de óleo
fervendo e teve de ser evacuada entre dores terríveis.) Durante o
regime de Vichy, Weil trabalhou em vinhedos, escreveu, se meteu a
fazer propaganda e recrutamento clandestino em Marselha e arredores.
Tendo acompanhado seus pais à segurança de Nova York (apenas o
Harlem lhe despertou alguma simpatia em seus olhos críticos), ela
mexeu todos os pauzinhos possíveis para ser aceita na França Livre
em Londres. Lá assediou De Gaulle e auxiliares com esquemas
heroicos. Pediu para ser lançada de paraquedas na França ocupada.
Insistiu num plano de enviar um grupo de moças rigorosamente
virginais para as linhas de batalha, para cuidar dos feridos e
moribundos. De Gaulle, muito impassível, considerava que Weil era
uma perturbada mental e lhe atribuiu a tarefa presumivelmente
inofensiva de fazer um planejamento social e político para a França
do pós-guerra. O volumoso projeto resultante continua a ser um
clássico de rematada inviabilidade. Esgotada física e mentalmente,
com a alma doente de ardor frustrado, Simone Weil teve um falecimento
literal num sanatório perto de Londres. Sua sepultura, embora não
se encontre em solo consagrado, se tornou local de peregrinação.
Em Simone Weil: Portrait of a
Self-Exiled Jew [Simone Weil: retrato de uma judia autoexilada]
(North Carolina, 1991), Thomas Nevin apresenta apenas um breve esboço
dessa via dolorosa. E não é sua intenção fazer uma
biografia intelectual de Simone Weil, sob qualquer forma direta. O
objetivo desse estudo denso é examinar e, até onde for possível,
validar as obsessões e a obra de Weil a partir do núcleo da
autodepreciação judaica o constante talento para o autobanimento
mostrado por judeus e judias importantes. A marca corrosiva do
antissemitismo intelectual e mesmo de orientação política na
consciência de Simone Weil, em seus textos e reflexos sociais, já
foi notada faz muito tempo. Tem sido relacionada de maneira
irrefutável com o tema geral da autopunição, e mesmo do
masoquismo, que tinge seus trabalhos e dias. Mas o exame que faz o
professor Nevin desse contexto ao mesmo tempo repulsivo e inescapável
é, até o momento, o mais exaustivo e persuasivo de que dispomos.
Além da erudição e da dúvida sensata, há neste livro coragem e
uma tristeza salutar.
As posições políticas de Simone
Weil eram extremamente peculiares. Ela procurou unir a um ideal em
parte platônico do estado orgânico o senso, ultrajado e ultrajante,
das humilhações e sofrimentos impostos ao trabalho industrial. Por
uma torção da lógica, essa jovem judia da esquerda paramarxista
francesa veio a fazer uma série de comentários favoráveis sobre
Hitler. Louvou sua grandeza romana, seu entendimento espiritual e
administrativo das esperanças e necessidades coletivas: “Ele
comanda um país tenso ao máximo, é dotado de uma vontade ardente,
incansável e implacável […] de uma imaginação que fabrica a
história em proporções grandiosas segundo uma estética
wagneriana, que se estende muito além do presente; e é um jogador
nato”. (Dostoiévski podia ter escrito isso, ou Trótski, em certos
momentos.) Para Weil, qualquer coisa era preferível às untuosas
hipocrisias, corrupções e materialismo fácil da democracia
capitalista burguesa. Suas ferocidades a respeito derivam do
radicalismo ardente de Amós e da condenação da riqueza feita por
Jesus. Vêm de Esparta e de Lênin. Mas no âmago de sua desolação
e de seus paradoxos encontra-se um texto pessoal de rara integridade.
Três vezes, entre dezembro de 1934 e final de agosto de 1935, essa
frágil intelectual trabalhou na indústria pesada, sob pressões e
humilhações que quase a levaram à loucura. Quando invocava
Robespierre, quando fantasiava uma revalorização e espiritualização
centralizada do trabalho, Weil falava por experiência própria. O
radical chique era um anátema para ela.
Como outros absolutistas do
pensamento, Simone Weil se sentia atraída pela violência. Seu
ensaio sobre a Ilíada, embora equivocado — ela simplesmente
não percebe o brilho festivo do heroísmo arcaico —, dá grande
relevo às brutalidades, ao desejo de sangue no épico. Às vezes
Weil era pacifista, às vezes ardia pela batalha. Seus planos de
intervenção feminina, de recrutamento na guerra ao grau de perigo
extremo, como uma oferenda em sacrifício, mostram a mesma
ambivalência. Quanto a seu engajamento na Espanha, ela escreveu:
“Norma: pavor e gosto pela matança. Evitar ambos — como? Na
Espanha, pareceu-me um esforço tremendo, impossível de sustentar
por muito tempo. Fazer-se tal, então, que se consiga mantê-lo”. A
possibilidade da tortura se impunha sombriamente a seu espírito.
Weil procurou se preparar para ela. Em certos momentos, era possuída
por uma inveja do sofrer. Sua “sensibilidade telescópica”
(expressão muito adequada de Nevin) isolava e ampliava a dor e o
terror em si e nos outros. Como Pascal, como alguns grandes pintores
e narradores da intensa dor (sofrida e infligida), ela imaginava
concretamente, refletia e analisava com os próprios nervos.
As posições políticas expressas em
seus últimos ensaios e em seu projeto para o renascimento da França
compõem um emaranhado assustador e, ao mesmo tempo, pungente
(“assustador” é, com efeito, o essencial). A sombra de Hegel,
que o professor Nevin tende a minimizar, está por toda parte. Ela
acreditava que a Necessidade, que é outro nome da condição humana
— dos operários da linha de montagem da história —, submete os
homens à sua finalidade despótica. Para resistir, para ter algum
acesso ao que há de divino nos processos do destino, homens e
mulheres precisam ter a oportunidade de disciplinar suas percepções,
de contemplar com a máxima concentração estoica os fatos e os
deveres de sua condição. O desiderato político-social é garantir
um espaço para essas ações e, de maneira ideal, para a
continuidade dessa concentração. (Mais de uma vez, Weil flertou
amorosamente com fantasias de encarceramento.) Ficou famoso o termo
com que ela designou essa atitude de atenção contemplativa:
l’enracinement, “o enraizamento”. Não lhe escapou, e
não deve escapar a nós, que esses critérios de reflexão enraizada
— os quais fascinaram T. S. Eliot, quando leu Weil — se
harmonizam muito facilmente com certas modalidades de autoridade
política comunitária, totalitária, sejam de esquerda ou de
direita. Em sua expressão mais lúcida, Weil aparece como um híbrido
bizarro, uma platônica anárquica que abdicaria em favor dos poderes
de Estado de tudo o que é necessário para dar alguma privacidade à
alma.
Esse mesmo híbrido determina os
ensaios e fragmentos filosóficos de Simone Weil. O objeto pelo qual
ela luta obsessivamente é um amálgama entre a Grécia antiga e a
cristologia — as lições de Sócrates e as lições de Jesus. Não
havia nada de novo nesse projeto. Desde o Evangelho de João,
defende-se e busca-se essa congruência, conhecida como
neoplatonismo, na teologia e na metafísica idealista do Ocidente.
Ainda se sonha com ela no Renascimento e entre os filósofos alemães
depois de Kant. É uma parte, talvez subconsciente, da busca e do
maravilhamento de todos os que recolhem uma concha marinha nas orlas
oceânicas sem fim (a imagem é de Coleridge) e ouvem em seu murmúrio
não só o eco físico do próprio sangue. O que havia de
tortuosamente idiossincrático era o procedimento de Weil. Ela
examinava os fragmentos filosóficos pré-socráticos, os diálogos
platônicos e os textos dos dramaturgos e poetas líricos gregos para
encontrar passagens que prefigurassem a vinda, os ensinamentos e a
Paixão de Cristo. A prefiguração dos Evangelhos no Antigo
Testamento (por exemplo nos Profetas, nos Salmos do Servo Sofredor e
mesmo no Cântico dos Cânticos), evidentemente, tem sido anunciada
pelo cristianismo desde a época dos Pais da Igreja. Mas não é aos
textos hebraicos que Simone Weil se refere em sua viagem de
peregrina; é a Pitágoras, Píndaro, Sófocles e Platão.
É uma busca ao mesmo tempo absurda e
misteriosa. Embora fosse arguta helenista, Weil não se eximia de
distorcer e quase falsificar a intenção explícita e o contexto das
palavras gregas antigas. Confunde deliberadamente o pouquíssimo que
sabemos dos cultos gregos de mistério e dos mitos órficos do
renascimento com os conceitos de batismo e ressurreição no
cristianismo. Suas leituras de Platão são tão seletivas que beiram
a caricatura. E mesmo assim suas sugestões de que existe um anseio
comum pela luz no outro lado da razão, racionalmente expresso e
transmissível de alguma maneira, dotado de sentido para o pensamento
e o discurso humano, não são de todo arbitrárias. Ela sentia na
própria medula o entrelaçamento muitas vezes tênue, subterrâneo,
de metáforas, de simbolismo, de gestos rituais que uniam a filosofia
grega arcaica e posterior, e mesmo o paganismo, ao cristianismo
nascente. Além disso, ao chegar a certos textos trágicos gregos, os
comentários de Weil são de uma imediaticidade lancinante. Ela
revive os insolúveis da justiça contraditória no matricídio de
Orestes. Identifica-se, ainda mais carnal e espiritualmente do que
Hegel e Kierkegaard, com a pessoa e o destino da Antígona de
Sófocles. Conhecia, ela também, o amor incondicional entre irmão e
irmã. Estava decidida, ela também, ao desafio ético e ao
sacrifício pessoal diante do terror político. Mas, aqui também,
não é por acaso que sua Antígona se erga com não poucos traços
de uma Joana d’Arc.
As relações de Weil com o
catolicismo romano (as conotações eróticas da palavra são
plenamente justificadas) datam pelo menos de 1935-36. Foi quando ela
começou a assistir à missa com frequência variável. Ao conhecer o
canto gregoriano, parece ter-se desencadeado um episódio de teor
místico, como uma revelação. Sob esse aspecto, Weil não é um
caso isolado. Outros judeus contemporâneos com espírito de
desenraizamento e busca se sentiram tentados pela solenidade estética
do culto católico e pela pura eloquência da mensagem católica
dentro da arte e da civilização europeias. Lembramos a imersão de
Walter Benjamin no barroco, o voltar-se para Cristo de Karl Kraus e —
mais complexo — o recurso de Proust ao mundo das catedrais e da
pintura cristã. Lembramos o papel determinante da mística católica
nas sinfonias de Mahler. Aproximando-se a devastação, era como se
muitos elementos da psique e da sensibilidade da elite judaica
europeia buscassem refúgio em algum lugar. Como sempre, Simone Weil
tomou um caminho mais profundo e mais tortuoso.
Ela se familiarizou com a liturgia,
com a Vulgata de são Jerônimo, com a doutrina e o simbolismo dos
sacramentos. Encontrou afinidades espirituais em santo Agostinho
(como, num plano totalmente diverso, ocorreu também com Hannah
Arendt). Procurou os tomistas franceses — os pensadores e
escritores que, na época, estavam renovando a abordagemcatólica da
principal fonte lógica e filosófica da Igreja, Tomás de Aquino.
Esses vários impulsos ganharam uma força quase irresistível
durante o exílio de Weil no sul da França. Seus textos mais
conhecidos e amados são as cartas ao padre dominicano quase cego
Joseph-Marie Perrin. Foi a ele que Weil, num veio confessional
apaixonado e argumentativo, ofereceu o mais íntimo de si. E Perrin
parecia destinado a receber essa alma atormentada na paz da Igreja.
Weil bateu várias vezes à porta, apenas para recuar quando a abriam
amorosamente para recebê-la. Havia a sombra de uma sombra entre seu
fervor, sua identificação constante entre as próprias dores
físicas e o sofrimento de Cristo, e aquele ato de batismo que agora
refulgia como a decisão mais natural.
Ela não deu esse passo final.
Censurava o apego católico ao mundo e a perseguição de hereges tão
inspirados como os cátaros. Considerava o catolicismo enfaticamente
romano, isto é, manchado com o imperialismo, as escravizações, a
pompa autoritária daquela civilização antiga que tanto abominava.
No final das contas, porém, Weil se vetou a conversão por razões
mais graves. Não esposaria uma Igreja cujas raízes estavam na
sinagoga.
Thomas Nevin tem razão, claro. Aqui
também o ponto crucial (imagem insidiosa) é a autonegação de
Simone Weil, o repúdio de seu próprio judaísmo. Numa atitude
nauseante, ela protestou às autoridades de Vichy que não devia ser
impedida de trabalhar sob as leis raciais — não era judia! Para
ela, o judaísmo era inaceitável. Apenas alguns judeus escapavam à
sua censura que às vezes beirava a histeria: Amós, que anuncia o
castigo sobre Israel; Jó; Spinoza, que a comunidade condenara ao
ostracismo. Os documentos correspondentes são nauseantes. Diante dos
sinais incipientes, mas inequívocos, do Holocausto em andamento, ela
se refugiou num silêncio hostil, num “olhar gélido”. Em seus
cadernos de anotações, ela refletiu sobre o desenraizamento e a
condição de pária do judeu. “A religião dita judaica é uma
idolatria nacional que perdeu qualquer realidade desde a destruição
da nação”; “É por isso que um ateu judeu é mais ateu do que
qualquer outro. É de maneira menos agressiva, porém mais profunda”.
Com raríssimas exceções, e em geral poéticas, “o Antigo
Testamento é um tecido de horrores”, celebrando uma divindade
tribal sedenta de sangue, cujos traços e atributos primitivos se
aproximam dos de uma Grande Besta satânica. Weil fincava suas garras
em qualquer coisa que achasse que havia dado esperança ao judaísmo:
“Se os hebreus, como povo, carregassem Deus dentro de si, teriam
preferido sofrer a escravidão imposta pelos egípcios — e causada
por seus próprios abusos anteriores — a ganhar a liberdade
massacrando todos os habitantes do território que deviam ocupar”.
Isso no negro auge dos crematórios.
Suas preferências em matéria de
literatura e de tonalidade teológica combinavam. Era em T. E.
Lawrence da Arábia que ela enxergava a modalidade mais autêntica do
heroísmo moderno. E era no catolicismo ascético e mendicante, que
denunciava mais brutalmente o alegado materialismo e empedernimento
dos judeus, que se sentia à vontade. De Paulo de Tarso até hoje, a
história do ódio do judeu por si mesmo é longa e desperta muita
perplexidade. É plenamente possível ler tanto o cristianismo quanto
o marxismo como grandes heresias judaicas nascidas das turvas
patologias de uma autorrejeição de tipo suicida. Embora
demonstrasse certa perturbação mental, o defensor mais engenhoso da
inferioridade e lepra racial judaica na polêmica moderna foi um
judeu, Otto Weininger. Se a contribuição de Simone Weil a esse lixo
era sintoma de alguma negação mais profunda da sexualidade e de seu
próprio sexo, se trazia elementos de auto-humilhação deliberada
diante do que julgava ser uma vida estragada, se traçava o caminho
para um lento suicídio, não há psicopatologia capaz de explicar
adequadamente. Ademais, tal explicação, pelos próprios imperativos
de integridade filosófica de Weil, seria de importância secundária.
Por que então nos incomodarmos com
isso? Simplesmente porque Simone Weil nos deixou um conjunto
fragmentado, mas substancial, de percepções teológicas,
filosóficas e políticas de raro vigor e iluminação. A resposta
gera tanta perplexidade porque nela uma inclemente honestidade mescla
o inspirado e o patológico. Afora Kierkegaard, quem mais, no momento
em que a França se rendia a Hitler, seria capaz de se sair com a
frase “Este é um grande dia para a Indochina”, na qual uma
pavorosa insensibilidade se equilibra à perfeição com uma genial
clarividência humana e política? De fato, a queda da metrópole era
uma notícia gloriosa para os povos submetidos que a França dominava
desde longa data em suas extensas colônias. Para Weil, os “crimes”
do colonialismo tinham relação direta, numa simetria religiosa e
política, com a degradação da terra natal. Constantemente um
aforismo weiliano, um marginalium a uma passagem dos clássicos ou
das Escrituras, atinge o cerne de um dilema tantas vezes mascarado
pelo tabu ou pela hipocrisia. Ela não fugia da contradição, do
insolúvel. Acreditava que a contradição “vivida até o mais
profundo recesso do ser significa laceração espiritual, significa a
Cruz”. E sem essa “crucialidade”, os debates teológicos e os
postulados filosóficos não passam de palavrório acadêmico. Levar
a sério, abordar existencialmente a questão do significado da vida
e morte humana num planeta embrutecido, devastado, examinar o valor
ou a futilidade da ação política e do desígnio social não é
apenas pôr em risco a saúde pessoal ou o consolo do amor comum: é
ameaçar a própria razão. Em nossos tempos, os dois indivíduos que
não só ensinaram, escreveram ou geraram conceitualmente intimações
filosóficas da mais alta categoria, mas também viveram esses seus
preceitos na dor, na autopunição, na rejeição do próprio
judaísmo, são Ludwig Wittgenstein e Simone Weil. Em inúmeros
pontos, caminharam nas mesmas sombras iluminadas.
Mas nenhuma analogia é suficiente.
Weil representa o que a física moderna chamaria de “singularidade”.
Alguns de seus melhores escritos — sobre Descartes, sobre a teoria
e a prática do marxismo — pertencem ao campo intelectual e
filosófico normal. Ela se debate com o mistério do amor de Deus
como faziam os santos e os doutores da Igreja, os visionários da
Idade Média e do barroco. Mas a um fio, por assim dizer, de sua
ardente retidão analítica, de sua escrupulosidade lógica, de seu
questionamento compassivo, sopram aquelas “fortes ventanias vindas
do subsolo” evocadas por Franz Kafka (outro primo espiritual).
Algum veio de loucura foi perfurado.
As indicações examinadas com extrema
paciência por Nevin neste livro perturbador apontam para um
sentimento retorcido, ao mesmo tempo agudo e fundamente enterrado. De
alguma maneira, essa “outsider eleita” sentia inveja de
Deus, de Seu infinito amor, que reconhecia mentalmente, mas não
conseguia aplicar à imagem que construíra de sua própria
identidade. Sentia inveja — como, talvez, santa Teresa d’Ávila e
são João da Cruz — das agonias que Deus sofrera na pessoa de Seu
filho supliciado. Terreno pantanoso. A isso talvez a resposta menos
inadequada venha de uma língua ao mesmo tempo triste e sardônica —
o iídiche, que ela desconhecia ou talvez desprezasse. Simone Weil
foi, sem dúvida, a primeira mulher entre os filósofos. Foi também
uma schlemiel transcendente.
2 de março de 1992
George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos

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