domingo, 19 de abril de 2026

Duas caixas

             “Caixa de ferramentas” e “caixa de brinquedos”. É preciso que eu explique por que esses dois conceitos são a base da minha filosofia de educação e de vida. Resumindo: são duas, apenas duas, as tarefas da educação, representadas por duas caixas que o corpo carrega. Na mão direita, mão da destreza e do trabalho, ele leva uma caixa de ferramentas. E na mão esquerda, mão do coração e da sensibilidade, ele leva uma caixa de brinquedos. Ferramentas são melhorias do corpo. Os animais não precisam de ferramentas ­porque seus corpos já são ferramentas. Seus corpos lhes dão todas a ferramentas de que necessitam para sobreviver. Como são desajeitados os seres humanos quando com­parados com os animais! Veja, por exemplo, os macacos. Sem nenhum treinamento especial, eles tirariam medalhas de ouro na ginástica olímpica. E os saltos das pulgas e dos gafanhotos! Já prestou atenção na velocidade das formigas? Mais velozes a pé, proporcionalmente, que os bóli­dos de Fórmula Um! O voo dos urubus, os buracos dos ta­tus, as teias das aranhas, as conchas dos moluscos, a língua saltadora dos sapos, o veneno das taturanas, os dentes dos castores... Nossa inteligência se desenvolveu para compensar a deficiência das ferramentas que o corpo nos dá, por nascimento. Assim, ela inventou melhorias para o corpo: porretes, pilões, facas, flechas, redes, barcos, bicicletas, casas, aviões, computadores... Disse Marshal MacLuhan corretamente que todos os “meios” são extensões do corpo. É isto que são as ferramentas: meios para se viver. Ferramentas aumentam a nossa força, nos dão poder: uma agulha, um pau de fósforo, um par de óculos... A ideia de que o corpo carrega duas caixas – uma caixa de ferramentas, na mão direita, e uma caixa de brinquedos, na mão esquerda – me apareceu quando me dedicava a entender santo Agostinho. Pois ele, resumindo o seu pensamento, disse que todas as coisas que existem se dividem em duas ordens distintas. A ordem do uti (ele escrevia em latim) e a ordem do frui. Uti, “o que é útil, utilizável, utensílio”. Usar uma coisa é utilizá­-la para se obter uma outra coisa. Frui, “fruir, usufruir, desfrutar, amar uma coisa por causa dela mesma”. A ordem do uti é o lugar do po­der. Todos os utensílios, ferramentas, são inventados para aumentar o poder do corpo. A ordem do frui, ao contrário, é a ordem do amor – coisas que não são utilizadas, que não são ferramentas, que não servem para nada. Elas não são úteis; são inúteis. Porque não são para ser usadas, mas para ser gozadas. A tradição cristã tem medo das coisas que são guardadas na caixa dos brinquedos. Nessa caixa se guarda a origem do pecado: o prazer…

Rubem Alves, em Do universo à jabuticaba

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