Existe uma contradição na índole da
literatura russa. De Púchkin a Pasternak, os mestres da ficção e
poesia russas pertencem ao mundo como um todo. Mesmo em traduções
medíocres, seus poemas, contos e romances são indispensáveis. Não
conseguimos imaginar o repertório de nossa humanidade e de nossos
sentimentos sem eles. A literatura russa, historicamente breve e
estreita em termos do gênero, compartilha essa universalidade
obrigatória com a da Grécia antiga. E no entanto o leitor não
russo de Púchkin, de Gogol, de Dostoiévski ou de Mandelstam sempre
será um forasteiro. Em certo sentido fundamental, ele está
bisbilhotando um discurso interior que, por mais óbvias que sejam
sua força de comunicação e sua aplicabilidade universal, nem mesmo
os mais perspicazes estudiosos e críticos ocidentais entendem
direito. O significado se mantém obstinadamente nacional e
refratário a exportações. É claro que, em parte, trata-se de uma
questão de linguagem ou, para ser mais exato, da gama desconcertante
de linguagens que vão desde a regional e a demótica até a
altamente literária e mesmo europeizada em que se movem os autores
russos. Os obstáculos postos por um Púchkin, um Gogol, uma
Akhmátova a uma plena tradução são incontáveis. Mas o mesmo se
pode dizer dos clássicos de muitas outras línguas e, afinal, há um
nível — na verdade, um nível imensamente amplo e transformador —
em que os grandes textos russos realmente se permitem traduzir.
(Imagine-se nossa paisagem sem Pais e filhos, Guerra e paz,
Os irmãos Karamázov ou As três irmãs.) Mas, se ainda
assim a pessoa tem a impressão de não entender bem, de que o foco
ocidental distorce seriamente o que o escritor russo está dizendo,
não pode ser apenas por uma razão de distância linguística.
É uma observação corriqueira — os
russos são os primeiros a fazê-la — que toda a literatura russa
(à óbvia exceção dos textos litúrgicos) é essencialmente
política. Ela é escrita e publicada, até onde é possível, sob os
olhos de uma censura ubíqua. Mal se consegue contar um ano durante o
qual poetas, romancistas ou dramaturgos russos tenham trabalhado em
algo minimamente próximo das condições normais, e quem dirá
positivas, de liberdade intelectual. Uma obra-prima russa existe
apesar do regime. Ela realiza uma subversão, uma circunlocução
irônica, uma contestação direta ou uma concessão ambígua ao
aparato dominante da opressão, seja czarista e eclesiástica
ortodoxa ou leninista-stalinista. Como diz a expressão russa, o
grande escritor é “o estado alternativo”. Seus livros são o
principal e, em muitos aspectos, o único gesto de oposição
política. Num complicado jogo de gato e rato, que se mantém
inalterado na prática desde o século XVIII, o Kremlin permite a
criação e até a divulgação de obras literárias de cuja natureza
essencialmente rebelde tem plena ciência. Com o decorrer das
gerações, essas obras — de Púchkin, Turguêniev, Tchecov —
passam a ser clássicos nacionais: são válvulas de escape que
liberam no campo do imaginário algumas daquelas enormes pressões
pela reforma, pela mudança política responsável, que a realidade
não permitiria. A perseguição, o encarceramento, a expulsão de
escritores faz parte da negociação.
Até aí o estrangeiro pode entender.
Olha os tormentos de Púchkin, o desespero de Gogol, o período de
Dostoiévski na Sibéria, a luta gigantesca de Tolstói contra a
censura ou o longo catálogo dos mortos e desaparecidos que compõe o
registro da história literária russa no século XX, e capta o
mecanismo subjacente. O escritor russo tem enorme importância. Muito
maior do que a de seu equivalente no Ocidente tolerante e entediado.
Muitas vezes a totalidade da consciência russa parece aflorar em seu
poema. Em troca, ele percorre seu caminho por entre um astuto
inferno. Mas essa inflexível dialética não contém toda a verdade,
ou melhor, esconde dentro de si outra verdade instintivamente
evidente para o artista russo e seu público, mas quase impossível
de avaliar de forma correta do lado de fora.
A história russa tem sido de
sofrimentos e humilhações quase inconcebíveis. Mas o tormento e a
degradação alimentam as raízes de uma visão messiânica, de um
sentimento de exclusividade ou de um destino radiante. Esse
sentimento pode se traduzir no idioma do eslavófilo ortodoxo, com
sua convicção de que a terra russa é sagrada de uma maneira
absolutamente concreta, de que apenas ela Cristo palmilhará em seu
retorno. Ou pode se metamorfosear no secularismo messiânico da
pretensão comunista a uma sociedade perfeita, ao alvorecer milenar
da absoluta justiça e igualdade humanas. Há um sentimento de
eleição pela dor e para a dor comum aos mais variados matizes da
sensibilidade russa. E isso significa que existe uma cumplicidade
fundamental na relação triangular entre o escritor russo, seus
leitores e o Estado onipresente. Tive meu primeiro relance disso
quando visitei a União Soviética algum tempo depois da morte de
Stálin. As pessoas comentavam sua sobrevivência com um estupor e um
assombro que nenhum estrangeiro conseguiria realmente partilhar. Mas,
ao mesmo tempo, havia em suas reflexões sobre Stálin uma estranha,
uma sutil nostalgia. Nostalgia, com quase toda a certeza, é uma
palavra errada. Eles não sentiam falta dos horrores insanos pelos
quais tinham passado. Mas insinuavam que esses horrores, ao menos,
tinham sido perpetrados por uma figura portentosa, não por essa ralé
desprezível que agora estava no governo. E sugeriam que o mero fato
da sobrevivência da Rússia sob um Stálin, tal como sob um Ivan, o
Terrível, demonstrava alguma magnificência apocalíptica ou uma
criativa excentricidade do destino. A discussão entre eles e o
terror era interna, privada. Um estrangeiro, ouvindo por cima e
respondendo rápido demais, aviltava as questões.
E assim é com os grandes escritores
russos. Seus brados de libertação, seus apelos à consciência
letárgica do Ocidente são estridentes e genuínos. Mas nem sempre
esperam ser ouvidos ou respondidos de maneira direta. As soluções
só podem vir de dentro, de uma interioridade de dimensões étnicas
e visionárias únicas. O poeta russo odeia seu censor, despreza os
informantes e os rufiões da polícia que o perseguem. Mas sua
posição em relação a eles é de angustiada necessidade, seja ela
de fúria ou de compaixão. O perigoso conceito de que existe um
vínculo magnético entre torturador e vítima é grosseiro demais
para caracterizar o ambiente espiritual-literário russo. Mas é mais
adequado do que a inocência liberal. E ajuda a explicar por que o
pior destino que pode caber a um escritor russo não é a prisão e
nem mesmo a morte, mas o exílio para o limbo ocidental da mera
sobrevivência.
É exatamente esse exílio, esse
ostracismo longe da compactação da dor, que agora obceca
Soljenítsin. Para esse homem forte e perseguido, sob certo aspecto é
verdade que o reencarceramento no gulag seria preferível à glória
e à imunidade no Ocidente. Soljenítsin detesta o Ocidente, e as
bobagens de tipo oracular que ele declarou sobre o Ocidente indicam
não só ignorância, mas também indiferença. Sua interpretação
teocrático-eslavófila da história é perfeitamente clara. A
Revolução Francesa de 1789 cristalizou as ilusões seculares do
homem, sua revolta frívola contra Cristo e contra uma escatologia
messiânica. O marxismo é a consequência inevitável do liberalismo
agnóstico. É um bacilo caracteristicamente ocidental que foi
inoculado por intelectuais sem raízes, em sua maioria judeus, na
corrente sanguínea da Santa Rússia. A infecção ocorreu devido às
condições de terrível vulnerabilidade e desordem em que se
encontrava a Rússia depois dos primeiros grandes desastres militares
de 1914. O comunismo é um arremedo dos verdadeiros ideais de
sofrimento e fraternidade que fizeram da Rússia a eleita de Cristo.
Mas 1914 encontrou a Mãe Rússia fatalmente despreparada e indefesa
contra a praga do racionalismo ateu. Daí a tremenda importância que
Soljenítsin atribui ao primeiro ano da guerra mundial, e sua decisão
de explorar todos os aspectos materiais e espirituais de 1914 e dos
acontecimentos que levaram a março de 1917 numa sequência de
volumosos “romances verídicos”.
Mas Lênin coloca um problema para
essa demonologia, do qual Soljenítsin está ciente faz muito tempo.
O marxismo pode ter sido uma enfermidade ocidental e hebraica, mas
Lênin é uma figura eminentemente russa e a vitória bolchevique foi
em essência obra sua. Já em textos anteriores de Soljenítsin,
havia traços de certa identificação antagônica do autor com a
figura de Lênin. Num sentido que apenas em parte é alegórico,
Soljenítsin parece ter sentido que sua misteriosa força de vontade
e de visão era similar à de Lênin e que a luta pela alma e pelo
futuro da Rússia se desenrolava entre ele e o criador do regime
soviético. Então, numa guinada do destino ao mesmo tempo irônica e
simbolicamente inevitável, Soljenítsin se viu em Zurique, na mesma
arcádia afetada e protegida do exílio onde Lênin, exasperado,
sentia desperdiçar seu tempo antes do apocalipse de 1917. Ele tinha
escrito um capítulo sobre Lênin em “Agosto de 1914” e dispunha
de muito material sobre Lênin para outros volumes — ou “nódulos”,
como diz agora. Mas a coincidência de Zurique era rica demais para
ser deixada de lado. Por isso surge neste ínterim a trama de Lenin
in Zurich (Farrar, Straus & Giroux, 1976).
O resultado não é um romance nem um
ensaio político, e sim um conjunto de vinhetas trabalhadas em
profundidade. Soljenítsin pretende demonstrar a falibilidade de
Lênin. A notícia da Revolução Russa toma o líder bolchevique
totalmente de surpresa. Ele vinha concentrando seu gênio conspirador
num projeto loucamente tortuoso e temerário para envolver a Suíça
na guerra e criar insatisfação social. Lênin fica preocupado com
seu desjejum. Intromete-se de maneira detalhista em todo e qualquer
artifício que possa assegurar fundos para seu movimento em embrião.
Suspira pela outra mulher em sua vida austera, a fascinante Inessa
Armand, e aceita desvios ideológicos da parte dela que acarretariam
anátema para qualquer outro discípulo. Acima de tudo, a tolerância
antisséptica de seus anfitriões suíços lhe parece, como também
ao próprio Soljenítsin, enlouquecedora:
Toda Zurique, provavelmente um
quarto de milhão de pessoas, locais ou vindas de outras partes da
Europa, se aglomerava ali, trabalhando, fazendo negócios, trocando
câmbio, vendendo, comprando, comendo em restaurantes, comparecendo a
reuniões, andando a pé ou de carro pelas ruas, cada qual seguindo
seu caminho, todos com a cabeça cheia de pensamentos sem disciplina
nem rumo. E lá ficava ele na montanha, sabendo como seria capaz de
guiá-los e unir todas as suas vontades.
Só que lhe faltava o poder
necessário. Podia continuar ali no alto de Zurique ou estendido
naquele túmulo, mas não podia mudar Zurique. Estava morando aqui
fazia mais de um ano, e todos os seus esforços tinham sido inúteis,
não se fizera nada.
E, para piorar as coisas, os
respeitáveis moradores da cidade estão prestes a realizar mais um
daqueles seus carnavais idiotas.
Lênin voltará à Rússia na famosa
“carruagem selada”, com a conivência do governo imperial e do
comando-maior alemão (ansioso em manter a Rússia fora da guerra).
Mas essa fuga gloriosamente ambígua não resulta dos meios políticos
ou da astúcia de Lênin. Ela brota do cérebro fervilhante de
Parvus, aliás dr. Auxílio, aliás Alexander Israel Lazarévitch.
Apesar de uma extensa biografia de Z. A. Zeman e W. B. Scharlau, The
Merchant of Revolution [O mercador da revolução], muitas coisas
sobre Parvus continuam obscuras. Era um revolucionário diletante às
vezes mais clarividente do que Lênin. Foi grande arrecadador de
fundos para os bolcheviques, mas também era um agente duplo ou
triplo, atuando como intermediário para os turcos, os alemães e os
russos. Era um dândi e um cosmopolita, que se sentia fascinado por
Lênin, mas também se divertia com o ascetismo fanático de suas
atitudes. A mansão luxuosa que Parvus construiu para si em Berlim, e
onde morreu em 1924, foi mais tarde usada por Himmler para planejar
“a solução final”.
O encontro entre Parvus e Lênin é o
ponto central do livro de Soljenítsin. Tem algumas pinceladas
primorosas, ao descrever dois tipos de corrupção, o da intriga
mundana e o de uma vontade agnóstica de poder, rodeando-se e dando
voltas um no outro. Há também sugestões dissonantes. Parvus é o
judeu errante encarnado, o supremo mestre em dar jeito nas coisas.
Investe no caos como investe na bolsa. Sem Parvus, insinua
Soljenítsin, talvez Lênin não tivesse conseguido êxito. Lênin,
com seu vigor tártaro, se converte no portador de um vírus
estrangeiro. No original, essas alusões étnico-simbólicas são
ressaltadas, imagino eu, pelas analogias entre o diálogo de Lênin e
Parvus e os grandes diálogos sobre a metafísica do mal em Os
irmãos Karamázov, de Dostoiévski. Com efeito, se podemos dizer
que “Agosto de 1914” ilustra, embora não com plena coerência, o
lado tolstoiano de Soljenítsin, seu veio épico, Lenin in Zurich
é uma obra francamente dostoievskiana, abeberando-se tanto na
política eslavófila de Dostoiévski quanto em seu estilo
intensamente panfletário. É muito interessante, mas um tanto
incongruente e, sob vários aspectos, muito pessoal.
O caráter pessoal de A Voice from
the Chorus [Uma voz do coro], de Abram Tertz (Farrar, Straus &
Giroux, 1976), é de ordem totalmente diversa. Tertz é o pseudônimo
literário de Andrei Siniávski, que ficou famoso com a publicação
no Ocidente de uma série de contos fantásticos e ensaios críticos,
mesclando surrealismo e uma corrosiva sátira sociopolítica, entre
1959 e 1966. Foi a obra e o exemplo de Pasternak, de cujo enterro em
maio de 1960 ele participou com destaque, que parecem ter levado
Siniávski para a oposição e a arriscada via da publicação no
estrangeiro. Como muitos de sua geração, ele tinha começado como
um idealista comunista ou mesmo utópico. Doutor Jivago, as
revelações sobre a verdadeira natureza do stalinismo no discurso de
Kruschev durante o xx Congresso do Partido e suas próprias
observações pessoais da realidade soviética, com um olhar arguto,
desiludiram Siniávski. Pela análise crítica e pela invenção
poética, ele procurou outro sentido da existência russa.
Por algum tempo, “Abram Tertz” —
é o nome do herói de uma balada do submundo, no bairro dos ladrões
judeus de Odessa — protegeu Andrei Siniávski. Mas o segredo
transpirou, e Siniávski, junto com seu colega dissidente, o escritor
Yuli Daniel, foi preso em setembro de 1965. O julgamento, em
fevereiro de 1966, foi ao mesmo tempo farsesco e de extrema
importância. O crime dos acusados consistia em seus escritos. Esse
fato, somado ao rigor brutal das sentenças impostas, desencadeou uma
onda de protestos internacionais. Mais importante, deu impulso à
ampla dissidência intelectual e à distribuição clandestina de
textos proibidos (samizdat) que agora são elementos tão
vitais do cenário soviético.
De 1966 a 1971, Siniávski cumpriu sua
pena numa série de campos de trabalhos forçados. Duas vezes por
mês, ele tinha autorização de escrever uma carta à esposa.
Curiosamente, as cartas podiam ser de qualquer tamanho (tendo o
prisioneiro de usar toda a astúcia e a boa vontade alheia para
conseguir papel). Referências a temas políticos ou aos horrores
literais da vida no campo seriam imediatamente punidas. Mas, dentro
desses limites, o prisioneiro podia escrever à vontade. A Voice
from the Chorus se baseia nas cartas de Siniávski escritas na
casa dos mortos.
Mas não é um diário da prisão. São
poucas as datas ou os pormenores circunstanciais. O que Siniávski
reservou para nós é uma grinalda de reflexões pessoais sobre a
arte, a literatura, o significado do sexo e, principalmente, a
teologia. O alcance literário de Siniávski é prodigioso: ele faz
suas reflexões sobre muitas das grandes figuras da literatura russa,
mas também sobre Defoe, cujo Robinson Crusoé adquire uma
relação evidente e direta com sua condição pessoal, e sobre
Swift. Com os olhos de uma afetuosa memória, ele invoca o Retorno
do filho pródigo, de Rembrandt, e os ícones sagrados, cujos
reflexos mágicos do sofrimento se tornam cada vez mais claros para
ele. Embora os detalhes concretos da peça já se confundam um pouco
em sua lembrança, Siniávski escreve um ensaio em miniatura sobre o
que considera o cerne de Hamlet — o que ele chama de “a
música interior de sua imagem”. Reflete incessantemente sobre a
natureza criativa e ficcional da fala humana, sobre sua capacidade de
criar mundos.
Nos campos, Siniávski encontra
membros de várias seitas religiosas perseguidas e quase exterminadas
pela repressão soviética. Vão desde a ortodoxia estrita até o
fundamentalismo cristão (ele registra a fala dos prisioneiros em
suas línguas) e a fé islâmica praticada entre os tchetchenos da
Crimeia. Esses contatos e sua sensibilidade pessoal levam Siniávski
a uma religiosidade crescente. Estuda as crônicas dos mártires e da
Igreja eslava; reflete sobre o lugar único que a ortodoxia atribui à
Assunção da Mãe do Senhor; procura entender as possíveis relações
entre o caráter nacional russo e o foco especial da teologia
ortodoxa sobre o Espírito Santo. Mais do que tudo, Siniávski
afirma:
O texto dos Evangelhos explode de
sentidos. Irradia significado e, se deixamos de ver alguma coisa, não
é porque seja obscuro, mas porque é excessivo e o sentido é
fulgurante demais — ele nos cega. Pode-se voltar a ele durante toda
a vida. Sua luz nunca diminui. Como a do sol. Seu brilho assombrou os
gentios e eles acreditaram.
Sem dúvida, foi essa devoção
arrebatada e seu sabor especificamente russo ortodoxo de aceitação
do sofrimento que permitiram a Siniávski cumprir sua sentença com
algo que se assemelha a um deleite. Ele vem a apreciar a lentidão da
vida no campo: ali, “a existência abre ainda mais seus olhos
azuis”. O esplendor da revelação espiritual é tal que, “ao fim
e ao cabo, um campo dá o sentimento de máxima liberdade”. Onde
mais as matas, vistas adiante do arame farpado, cintilam com tal
chama pentecostal ou as estrelas arremessam seus dardos antecedendo
Sua vinda?
Pontuam essas homilias as literais
“vozes do coro” — breves interjeições, trechos de canções,
juras e pragas, anedotas, malapropismos escolhidos entre a balbúrdia
de falas na linguagem do campo. Max Hayward, que com Kyril Fitzlyon
realizou uma tradução que é visivelmente brilhante, conta que
esses fragmentos são dos mais fascinantes entre os existentes na
Rússia moderna. Acrescenta que apenas um ouvido russo é capaz de
captar a qualidade deles. Sem dúvida é a impressão que temos. Há
exceções memoráveis (“Compre um belo par de sapatos — e você
vai se sentir o rei Lear” ou “Até o dia da morte de nossos
filhos!”), mas, na maioria, as expressões são de uma banalidade
confrangedora.
É o testemunho profundamente
comovente de um homem de força, sutileza, compaixão, fé
excepcionais. Talvez de modo intencional, ele deixa uma impressão um
tanto vaga, como um sonho. Siniávski leu muito nos campos. De fato,
enquanto estava preso, escreveu um estudo deslumbrante sobre Púchkin.
Como foi possível? Teria lido os textos proibidos de Pasternak, de
Akhmátova e de Mandelstam, aos quais faz longas referências? Um
apontamento menciona o que deve ter sido uma discussão ideológica
entre um comandante do campo e os condenados. Terá sido um lapso
excepcional na disciplina vigente? Uma das vozes do coro faz um
comentário extremamente significativo: “Nos velhos tempos o campo
costumava ser mais divertido. Sempre tinha alguém sendo espancado ou
enforcado. Todos os dias havia um acontecimento especial”. Quais
são as metamorfoses na política do inferno? São tantas as coisas
que gostaríamos que uma testemunha da estatura de Siniávski nos
contasse… Mas, aqui também, sua mensagem se destina a ouvidos
russos. Bisbilhotamos. E o exílio de Siniávski — ele agora mora
em Paris — torna esse processo ainda mais desconfortável.
O romance Going Under [Indo
para baixo], de Lidia Tchukovskaia (Quadrangle, 1972), é muito mais
acessível ao leitor ocidental do que o fragmento polêmico de
Soljenítsin ou as memórias de Siniávski. O paradoxo é que
Tchukovskaia ainda está “dentro”, na zona de penumbra destinada
aos escritores, artistas e pensadores que ofenderam o regime e estão
impedidos de levar uma vida profissional normal. Na União Soviética,
os escritos de Tchukovskaia circulam, quando circulam, em cópias
mimeografadas clandestinas. Assim, em certo sentido Going Under
— cristalinamente traduzido por Peter Weston — se destina ao
exterior. Somos nós que temos de abrir a garrafa e tirar a mensagem.
A época é fevereiro de 1949, e está
se iniciando a zhdanovshchina ou zdanovismo, o expurgo dos
intelectuais por obra de Andrei Zdánov, o capanga brutal de Stálin.
A ação transcorre numa casa de descanso para escritores na
Finlândia russa. A tradutora Nina Sergeievna é uma das raras
afortunadas que foi agraciada pela União dos Escritores com um mês
de idílico repouso longe das tensões de Moscou. Para todos os
efeitos, ela está lá para descansar ou dar andamento a suas
traduções. Na verdade, o que Nina pretende fazer é escrever um
relato do desaparecimento do marido durante as caçadas humanas de
Stálin em 1938, e se libertar, pelo menos em parte, de um longo
pesadelo. Não acontece muita coisa em Litvinovka. Nina se envolve um
pouco com a vida de Bilibin, um escritor que tenta se reconciliar com
as exigências de seus senhores stalinistas depois de um período de
trabalhos forçados, e de Veksler, poeta judeu e herói de guerra. Os
intelectuais entram e saem da sala de estar, destilam veneno contra
Pasternak, vibram suas narinas ao último boato de repressão em
Moscou. A neve cintila entre as bétulas, e logo além dos limites
ordeiros da casa de descanso estendem-se a miséria desumana e o
profundo atraso da Rússia camponesa após a guerra total. Os sonhos
inquietos reconduzem Nina às terríveis filas dos anos 1930, dezenas
de milhares de mulheres esperando em vão na frente das delegacias
para ter alguma notícia sobre os maridos, filhos, irmãos
desaparecidos. (Aqui há ressonâncias do grande poema de Akhmátova,
“Réquiem”.) Bilibin, triste e gentil, faz amor com ela. A nkvd
vem buscar Veksler. Os heróis de guerra — em particular os heróis
de guerra judeus — não são mais necessários. Logo chega março e
é hora de voltar para Moscou.
Em chave menor, esse breve romance
soa e ressoa na mente do leitor. Todo incidente é totalmente natural
e, ao mesmo tempo, carregado de conotações. Passeando pelos bosques
brancos, Nina percebe que os alemães estiveram ali, que a neve
disfarça um ossuário literal. Combater os nazistas para salvar e
consolidar o stalinismo — as ironias são insolúveis. Quando o
afável escriba de aluguel Klokov critica a obscuridade de Pasternak,
o espírito de Nina se convulsiona. Mas, na solidão, ela sente
melancolicamente que a grande arte só pode pertencer a uma pequena
minoria, que às vezes há na mais excelsa poesia uma exigência que
aparta o indivíduo das necessidades e do andamento normal da
humanidade. A narrativa é despojada e ao mesmo tempo ressonante.
Púchkin, Akhmátova, Mandelstam, Pasternak e Turguêniev estão
indiretamente presentes — em especial Turguêniev, cuja peça Um
mês no campo parece ser o contraponto das cenas de Tchukovskaia.
É um clássico.
Sob os olhos do Oriente —
Soljenítsin insiste incansavelmente neste ponto —, grande parte de
nossas preocupações e de nossa literatura parece trivial. Vistas do
gulag, nossas desordens urbanas, nossas tensões raciais ou
oscilações econômicas parecem edênicas. As dimensões de
crueldade e resistência em que trabalha a imaginação russa são,
para a maioria de nós, quase inconcebíveis. Igualmente
inconcebíveis, e de maneira ainda mais admirável, são os
mecanismos de esperança, de refinada percepção moral, de
encantamento vital que criam obras como as memórias de Nadeja
Mandelstam ou os contos de Tchukovskaia. De fato, não entendemos o
hálito diário do terror, e não entendemos a alegria. Isso porque,
para nós, a ligação indissolúvel entre eles é, na melhor das
hipóteses, uma abstração filosófica. “Encerrada numa jaula”,
escreve Siniávski, “a mente é obrigada a fugir para os espaços
abertos mais amplos do universo pela porta dos fundos. Mas, para que
isso aconteça, primeiro ela precisa ser perseguida e acuada.” A
“jaula” vem a ser o nome do compartimento com barras de ferro nos
vagões dos trens russos que levam os prisioneiros aos campos. Dentro
dela, os Soljenítsins, os Siniávskis, as Tchukovskaias parecem
encontrar a liberdade, como Púchkin, Dostoiévski e Mandelstam antes
deles. Não gostariam, somos levados a imaginar, de trocar de lugar
conosco. E tampouco nós conseguiríamos nos imaginar capazes de
entrar, e quem dirá romper, na prisão dos dias deles.
11 de outubro de 1976
George Steiner, em Tigres no Espelho e Outros Textos

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