domingo, 22 de fevereiro de 2026
Choro a capela
O poder que eu quisera é dominar meu
medo.
Por este grande dom troco meu verso,
meu dedo,
meus anéis e colar.
Só meu colo não ponho no machado,
porque a vida não é minha.
Com um braço só, uma só perna,
ou sem os dois de cada um, vivo e
canto.
Mas com todos e medo, choro tanto
que temo dar escândalo a meus irmãos.
Mas venho e vou,
os ‘lobos tristes’ a seu modo
louvam.
Nasci vacum, berro meu
era só por montar, parir, a boa fome,
os júbilos ferozes.
As vacas velhas têm os olhos tristes?
Tristeza é o nome do castigo de Deus
e virar santo é reter a alegria.
Isto eu quero.
Adélia Prado, em O Coração Disparado
Maria chorando ao telefone
O telefone toca aqui em casa, atendo,
uma voz de mulher estranhíssima pergunta por mim, e antes que eu
tome providências para dizer que é minha irmã que fala, ela me
diz: é você mesma. O jeito foi eu ficar sendo eu própria. Mas...
ela chorava? ou o quê? Pois a voz era claramente de choro contido.
“Porque você escreveu dizendo que não ia mais escrever romances.”
“Não se preocupe, meu bem, talvez eu escreva mais uns dois ou
três, mas é preciso saber parar. Que é que você já leu de mim?”
“Quase tudo, só faltam A cidade sitiada e A legião
estrangeira.” “Não chore, venha aqui buscar os dois livros.”
“Não vou não, vou comprar.” “Você está bobeando, eu estou
oferecendo de graça dois livros autografados e mais um cafezinho ou
um uísque.” “Então você pode fazer uma coisa por mim —
autografe os dois livros e entregue-os ao seu cunhado, dizendo que é
para Maria.” “Maria de quê?” “Só Maria.” “Está bem,
não chore mais e cuide dessa gripe.” Pois é, meu Deus. Depois,
através de meu cunhado, soube que é uma médica (ginecologista)
chamada Dra. Maria B. Que depois me mandou as rosas mais lindas do
mundo, que eu misturei com as vermelho-sangue mandadas por H. M.
Minha casa está linda e perfumada, tenho o prazer de ter feito, com
o auxílio dos outros e de minha amiga S. M., um verdadeiro lar para
mim e para os meus filhos.
Quanto às rosas de H. M., que me
telefonou depois para desejar que eu dormisse bem, vieram com um
bilhete muito bonito: “Aqui é a casa de flores. Era só para
confirmar que dona Clarice não está viajando. Não, está aqui em
casa. Obrigado, disse eu vermelho e mal suportando tanto amor
sozinho. (É que acabara de ler A legião estrangeira.)
Obrigado, Clarice Lispector. No momento só preciso que você me
sobreviva. Obrigado também pela minha convicção quanto ao seu amor
por rosas. Agradeço-lhe ainda a certeza que me vem dando de que
existo. Tanto que posso me lembrar de você, sem remorso por ter
mentido ao telefone. A necessidade de oferecer rosas foi minha mas
quero que a alegria seja inteirinha sua.”
Obrigada, H. M. Minha alegria foi tão
completa e tenho tanta confiança na sua. Que vou lhe pedir um favor:
ando atrás de rosas brancas em botão para dar a uma amiguinha que
nasceu há dias e cujo nome é Letícia, o que quer dizer, Alegria.
Se você souber onde se encontram, me dê um telefonema, eu agradeço.
Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida
Diário de Bernardo Soares
93.
Em mim foi sempre menor a intensidade
das sensações que a intensidade da consciência delas. Sofri
sempre mais com a consciência de estar sofrendo que com o sofrimento
de que tinha consciência.
A vida das minhas emoções mudou-se,
de origem, para as salas do pensamento, e ali vivi sempre mais
amplamente o conhecimento emotivo da vida.
E como o pensamento, quando alberga a
emoção, se torna mais exigente que ela, o regime de consciência,
em que passei a viver o que sentia, tornava-me mais quotidiana, mais
epidérmica, mais titilante a maneira como sentia.
Criei-me eco e abismo, pensando.
Multipliquei-me aprofundando-me. O mais pequeno episódio — uma
alteração saindo da luz, a queda enrolada de uma folha seca, a
pétala que se despega amarelecida, a voz do outro lado do muro ou os
passos de quem a diz juntos aos de quem a deve escutar, o portão
entreaberto da quinta velha, o pátio abrindo com um arco das casas
aglomeradas ao luar — todas estas coisas, que me não pertencem,
prendem-me a meditação sensível com laços de ressonância e de
saudade. Em cada uma dessas sensações sou outro, renovo-me
dolorosamente em cada impressão indefinida. Vivo de impressões que
me não pertencem, perdulário de renúncias, outro no modo como sou
eu.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
Roubo de livros
Estou prestes a me mudar novamente. Em
torno de mim, na poeira secreta de cantos insuspeitos, revelados
agora pelo deslocamento dos móveis, elevam-se pilhas instáveis de
livros, como rochas desgastadas pelo vento numa paisagem desértica.
Enquanto ergo pilha após pilha de volumes familiares (reconheço
alguns pela cor, outros pela forma, muitos por detalhes nas capas,
cujos títulos tento ler de cabeça para baixo ou de um ângulo
esquisito), pergunto-me, como já fiz tantas vezes, por que guardo
tantos livros que sei que não lerei novamente. Digo a mim mesmo que,
sempre que me desfaço de um livro, descubro dias depois que era
exatamente aquele que estava procurando. Digo a mim mesmo que, não
existem livros (ou poucos, muito poucos) em que eu não tenha achado
alguma coisa que me interessasse. Digo a mim mesmo que os trouxe para
dentro de casa por algum motivo e que esse motivo pode surgir
novamente no futuro. Invoco desculpas: meticulosidade, raridade, uma
vaga erudição. Mas sei que a razão principal de me apegar a esse
tesouro sempre crescente é uma espécie de ganância voluptuosa.
Adoro olhar para minhas prateleiras
lotadas, cheias de nomes mais ou menos familiares.
Delicio-me ao saber que estou cercado
por uma espécie de inventário da minha vida, com indicações do
meu futuro. Gosto de descobrir, em volumes quase esquecidos, traços
do leitor que já fui – rabiscos, passagens de ônibus, pedaços de
papel com nomes e números misteriosos, às vezes uma data e um local
na guarda do livro, levando-me de volta a um certo café, a um quarto
de hotel distante, a um verão longínquo. Eu poderia, se precisasse,
abandonar esses livros e começar de novo, em outro lugar; já fiz
isso antes, várias vezes, por necessidade. Mas então tive de
reconhecer também uma perda grave, irreparável. Sei que algo morre
quando abandono meus livros e que minha memória insiste em voltar a
eles com uma nostalgia pesarosa. E agora, com os anos, minha memória
relembra cada vez menos e parece-me uma biblioteca saqueada: muitas
das salas foram fechadas, e, nas que ainda continuam abertas para
consulta, há enormes vazios nas estantes. Pego um dos livros
remanescentes e percebo que várias páginas foram arrancadas por
vândalos. Quanto mais decrépita minha memória, mais quero proteger
esse repositório do que li, essa coleção de texturas, vozes e
odores. A posse desses livros tornou-se fundamental para mim, porque
agora sinto ciúme do passado.
A Revolução Francesa tentou abolir a
noção de que o passado era propriedade de uma única classe. Teve
sucesso pelo menos em um aspecto: de divertimento aristocrático,
colecionar coisas antigas tornou-se um passatempo burguês, primeiro
com Napoleão e seu amor pelos adornos da Roma Antiga, depois com a
república. Na tirada do século XIX, a exibição de bricabraques
bolorentos, de pinturas de mestres antigos, dos primeiros livros
tornou-se uma moda europeia. Floresceram as lojas de curiosidades.
Negociantes de antiguidades acumularam pilhas de tesouros
pré-revolucionários que eram comprados e depois exibidos nos museus
caseiros dos nouveaux riches. "O colecionador",
escreveu Walter Benjamin, "sonha que está não apenas em um
mundo distante ou passado, mas também, ao mesmo tempo, em um mundo
melhor, onde os homens se acham tão desprovidos daquilo que
necessitam quanto no mundo cotidiano, mas onde as coisas estão
livres da obrigação de ser úteis".
Em 1792, o palácio do Louvre foi
transformado em museu para o povo. Dando voz a uma arrogante queixa
contra a noção de um passado comum, o romancista visconde
François-René de Chateaubriand protestou que as obras de arte assim
reunidas "não tinham mais nada a dizer à imaginação nem ao
coração". Quando, poucos anos depois, o artista e antiquário
Alexandre Lenoir fundou o Museu dos Monumentos Franceses para
preservar as estátuas e as pedras de mansões, mosteiros, palácios
e igrejas que a revolução saqueara, Chateaubriand descreveu-o com
desprezo, como “uma coleção de ruínas e túmulos de todos os
séculos, reunidos sem rima ou razão no claustro dos
Petits-Augustins”. Tanto no mundo oficial como no mundo privado dos
colecionadores de ruínas do passado, as críticas de Chateaubriand
foram solenemente ignoradas.
Os livros estavam entre os restos mais
copiosos deixados para trás pela Revolução. As bibliotecas
particulares da França no século XVIII eram tesouros familiares que
a nobreza preservara e ampliara de geração em geração, e os
livros que continham eram tanto símbolos de posição social quanto
de refinamento e postura. Pode-se imaginar o conde d'Hoym, um dos
mais famosos bibliófilos de sua época (morreu aos quarenta anos, em
1736), tirando de uma de suas estantes abarrotadas um volume das
Orações de Cícero, que ele olharia não como mais um entre
as centenas ou milhares de exemplares idênticos impressos e
espalhados por numerosas bibliotecas, mas como um objeto único,
encadernado segundo suas especificações, anotado por seu próprio
punho e marcado pelo brasão da família gravado em ouro.
A partir do final do século XII, os
livros tornaram-se reconhecidos como objetos de comércio, e na
Europa o valor comercial deles estava suficientemente estabelecido
para que os emprestadores de dinheiro os aceitassem como caução;
encontram-se notas registrando tais garantias em numerosos livros
medievais, em especial os pertencentes a estudantes. No século XV, o
negócio tornara-se importante a ponto de os livros serem incluídos
no rol de bens vendidos nas feiras comerciais de Frankfurt e
Nördligen.
Devido à sua raridade, alguns livros
evidentemente eram únicos e alcançavam preços exorbitantes (o raro
Epistolae de Petrus Delphinus, de 1524, foi vendido por mil
livres em 1719 cerca de 30 mil dólares em moeda de hoje), mas a
maioria tinha o valor de objeto pessoal - heranças familiares,
objetos que somente as mãos do dono e de seus filhos jamais
tocariam. Por esse motivo, as bibliotecas tornaram-se um dos alvos
automáticos da Revolução.
As bibliotecas pilhadas do clero e da
aristocracia, símbolos dos “inimigos da república”, acabaram em
enormes depósitos em várias cidades francesas – Paris, Lyon,
Dijon e outras, onde esperavam, sob o ataque da umidade, da poeira,
de insetos e outras pragas, que as autoridades revolucionárias
decidissem seus destinos. O problema de armazenar tamanha quantidade
de livros tornou-se tão sério que as autoridades começaram a
organizar vendas para se livrar de parte do butim. Porém, pelo menos
até a criação do Banco da França como instituição privada, em
1800, a maioria dos bibliófilos franceses (os que não se
encontravam mortos ou exilados) estava empobrecida demais para
comprar os livros e somente estrangeiros, sobretudo ingleses e
alemães, puderam lucrar com a situação.
Para satisfazer essa clientela de
fora, os livreiros começaram a atuar como exploradores e agentes. Em
uma das últimas vendas expurgatórias, feita em Paris em 1816, o
livreiro e editor Jacques-Simon Merlin comprou livros suficientes
para encher do porão ao sótão as duas casas de cinco andares que
adquirira especialmente com esse objetivo. Os volumes, em muitos
casos preciosos e raros, foram vendidos por peso, numa época em que
os livros novos ainda eram muito caros. Por exemplo, nas primeiras
décadas do século XIX, um romance recém-publicado custava um terço
do salário mensal de um trabalhador rural, enquanto uma primeira
edição de Le roman comique, de Paul Scarron (1651), poderia
ser obtida por um décimo dessa quantia.
Os livros que a Revolução confiscara
e que não foram destruídos ou vendidos no exterior acabaram
distribuídos pelas bibliotecas públicas, mas poucos leitores faziam
uso deles.
Durante a primeira metade do século
XIX, as horas de acesso a essas bibliothèques publiques eram
restritas, havia exigências quanto à maneira de trajar de seus
frequentadores – e os livros preciosos novamente acumularam poeira
nas estantes," esquecidos e fechados.
Mas não por muito tempo.
Guglielmo Bruto Icilio Timoleone,
conde Libri-Carucci del a Sommaia, nasceu em Florença, em 1803, numa
antiga e nobre família toscana. Estudou direito e matemática e
tornou-se tão bem-sucedido nessa última matéria que, quando tinha
vinte anos, ofereceram-lhe a cadeira de matemática na Universidade
de Pisa. Em 1830, supostamente sob ameaças da organização
nacionalista dos carbonários, emigrou para Paris e, pouco depois,
tornou-se cidadão francês. Com seu nome retumbante reduzido então
para conde Libri, foi recebido pelos acadêmicos franceses, eleito
membro do Instituto da França, indicado como professor de ciências
na Universidade de Paris e distinguido com a Legião de Honra por
suas credenciais eruditas e intelectuais. Mas Libri tinha outros
interesses além da ciência: desenvolvera uma paixão por livros; em
1840, já possuía uma coleção notável e comerciava com
manuscritos e livros raros impressos.
Duas vezes tentou sem sucesso obter um
cargo na Biblioteca Real. Então, em 1841, foi nomeado secretário de
uma comissão encarregada de supervisionar oficialmente o “catálogo
geral e detalhado de todos os manuscritos, em idiomas antigos e
modernos, existentes hoje em todas as bibliotecas públicas
departamentais”.
Sir Frederic Madden, curador do
Departamento de Manuscritos do Museu Britânico, descreveu assim seu
primeiro encontro com Libri, a 6 de maio de 1846, em Paris: “Pela
aparência externa [ele], parecia jamais ter usado água, sabão ou
escova. A sala na qual fomos introduzidos não tinha mais de cinco
metros de largura, mas estava repleta de manuscritos em prateleiras
que subiam até o teto. As janelas tinham vidraças duplas e um fogo
de carvão e coque queimava na lareira, cujo calor, acrescentado ao
cheiro das pilhas de pergaminhos em volta, era tão insuportável que
me deixou ofegante. O sr. Libri percebeu o incômodo que sofríamos e
abriu uma das janelas, mas dava para perceber que um sopro de ar lhe
era desagradável, e seus ouvidos estavam cheios de algodão, como
para protegê-los dele! O sr. Líbri é uma pessoa um tanto
corpulenta, de feições bem-humoradas mas largas”. O que sir
Frederic não sabia – na época – é que o conde Libri era um dos
mais rematados ladrões de livros de todos os tempos.
De acordo com o mexeriqueiro do século
XVII Tallemant des Réaux, roubar livros não é um crime, exceto se
os livros forem vendidos. O prazer de segurar um volume raro nas
mãos, de virar as páginas que ninguém virará sem nossa permissão,
com certeza movia Libri até certo ponto. Se foi a visão de tantos
livros lindos que inesperadamente tentou o culto bibliófilo, ou se
foi antes o desejo incontrolável por livros que o levou a almejar o
cargo, jamais saberemos. Armado das credenciais oficiais, vestindo
uma enorme capa sob a qual escondia seus tesouros, Libri ganhou
acesso a bibliotecas de toda a França, onde seu conhecimento
especializado lhe permitia descobrir e colher as maravilhas
escondidas. Em Carpentras, Dijon, Grenoble, Lyon, Montpellier,
Orléans, Poitiers e Tours, não somente roubou volumes inteiros,
como cortou páginas que depois exibiu e, às vezes, vendeu. Somente
em Auxerre não concretizou a pilhagem. O obsequioso bibliotecário,
ansioso por agradar o funcionário cujos documentos anunciavam-no
como Monsieur le Secrétaire e Monsieur l'Inspecteur
Général, autorizou de bom grado que Libri trabalhasse à noite
na biblioteca, mas insistiu em colocar um guarda ao seu lado para
atender a qualquer necessidade do cavalheiro.
As primeiras acusações contra Libri
datam de 1846, mas – talvez porque parecessem tão improváveis –
foram ignoradas, e Libri continuou a atacar as bibliotecas. Começou
também a organizar vendas importantes de alguns dos livros roubados,
vendas para as quais preparava catálogos excelentes e detalhados.
Por que esse bibliófilo apaixonado vendia os livros que roubara
correndo tantos riscos? Talvez acreditasse, como Proust, que “o
desejo faz todas as coisas florescerem, a posse as faz murchar”.
Talvez precisasse apenas de alguns poucos e preciosos, selecionados
como as pérolas raras de seu butim. Talvez os tenha vendido por pura
ganância – mas essa é uma suposição muito menos interessante.
Quaisquer que fossem seus motivos, a venda de livros roubados não
podia mais ser ignorada. As acusações acumularam-se e, um ano
depois, o promotor público iniciou investigações discretas - que
foram abafadas pelo presidente do Conselho Ministerial, o sr Guizot,
amigo de Libri e testemunha de seu casamento. É provável que o
assunto tivesse morrido se a Revolução de 1848, que acabou com a
Monarquia de Julho e proclamou a Segunda República, não tivesse
descoberto o dossiê de Libri escondido na escrivaninha de Guizot.
Libri foi avisado e fugiu com a esposa para a Inglaterra, não sem
levar consigo dezoito caixas de livros avaliados em 25 mil francos.
Na época, um trabalhador especializado ganhava cerca de quatro
francos por dia.
Muitos políticos, artistas e
escritores manifestaram-se (em vão) em defesa de Libri.
Alguns haviam lucrado com suas
maquinações e não queriam se comprometer no escândalo; outros
tinham reconhecido nele um estudioso honrado e não queriam passar
por bobos. O escritor Prosper Mérimée, em particular, foi um
defensor ardente de Libri. O conde mostrara-lhe, no apartamento de um
amigo, o famoso Pentateuco de Tours, um volume iluminado do século
VII; Mérimée, que viajara muito pela França e visitara inúmeras
bibliotecas, observou que viu aquele Pentateuco em Tours; Libri mais
que depressa explicou ao escritor que o que vira fora uma cópia
francesa do original adquirido por ele na Itália. Mérimée
acreditou; escrevendo a Edouard Delessert em 5 de junho de 1848,
insistiu: "Para mim, que sempre disse que o amor por colecionar
leva as pessoas ao crime, Libri é o mais honesto dos colecionadores,
e não conheço ninguém, exceto Libri, que devolveria às
bibliotecas os livros que outros roubaram.” Por fim, dois anos
depois que Libri foi julgado culpado, Mérimée publicou na Revue
des Deux Mondes, uma defesa tão ruidosa de seu amigo que o
tribunal o convocou, acusando-o de desacato.
Sob o peso das provas, Libri foi
condenado in absentia a dez anos de prisão e à perda de seus
cargos públicos. Lorde Ashburnham, que comprara de Libri, por
intermédio do livreiro Joseph Barrois, outro raro Pentateuco
iluminado (este roubado da biblioteca pública de Lyon), aceitou as
provas da culpa de Libri e devolveu o livro ao embaixador francês em
Londres. O Pentateuco foi o único livro que lorde Ashburnham
devolveu.
“Porém, os cumprimentos que
chegaram de todos os lados ao autor de ato tão liberal não o
impeliram a repetir a experiência com outros manuscritos de sua
biblioteca”, comentou Léopold Delisle, que em 1888 organizou um
catálogo do espólio de Libri.
Mas então Libri já virara havia
muito tempo a página final de seu último livro roubado. Da
Inglaterra foi para a Itália e instalou-se em Fiesole, onde morreu
em 28 de setembro de 1869, não reabilitado e pobre. Contudo, no
final, teve sua vingança contra os que o acusavam. No ano de sua
morte, o matemático Michel Chasles, que fora eleito para ocupar a
cadeira de Libri no Instituto, comprou uma incrível coleção de
autógrafos que, não tinha dúvida, causariam inveja e lhe dariam
fama. Ela incluía cartas de Júlio César.
Pitágoras, Nero, Cleópatra e da
esquiva Maria Madalena – todas falsas, revelou-se mais tarde: eram
obra do famoso falsificador Vrain-Lucas, a quem Libri pedira que
fizesse uma visita ao seu sucessor.
O roubo de livros não era novidade na
época de Libri. Escreve Lawrence S. Thompson: “A história da
bibliocleptomania remonta aos primórdios das bibliotecas na Europa
ocidental e indiscutivelmente pode ser aprofundada no tempo até as
bibliotecas gregas e orientais.”
As primeiras bibliotecas romanas eram
compostas em larga medida por volumes gregos, pois os romanos haviam
saqueado totalmente a Grécia. A Biblioteca Real Macedônia, a
biblioteca de Mitridates do Ponto, a de Apelicão de Teos (mais tarde
usada por Cícero) foram todas pilhadas pelos romanos e transferidas
para solo romano. Os primeiros séculos cristãos não foram
poupados: o monge copta Pacômio, que montara uma biblioteca em seu
mosteiro de Tabennisi, no Egito, nas primeiras décadas do século
III, fazia um inventário todas as noites para conferir se todos os
livros tinham sido devolvidos.
Em seus ataques à Inglaterra
anglo-saxônica, os vikings roubavam manuscritos iluminados dos
monges, provavelmente por causa do ouro nas encadernações. Um
desses volumes, o Codex aureus, roubado em algum momento do
século XI, foi resgatado pelos seus donos originais porque os
ladrões não encontraram mercado para aquela preciosidade. Ladrões
de livros eram uma praga na Idade Média e na Renascença; em 1752, o
papa Benedito XIV lançou uma bula segundo a qual os ladrões de
livros seriam excomungados.
Outras ameaças eram mais correntes,
como prova esta advertência inscrita num valioso tomo renascentista:
O nome de meu senhor acima vês,
Cuida portanto para que não me
roubes;
Pois, se o fizeres, sem demora
Teu pescoço... me pagará.
Olha para abaixo e verás
A figura da árvore da forca;
Cuida-te portanto em tempo,
Ou nesta árvore subiras!
Ou esta, inscrita na biblioteca do
mosteiro de São Pedro, em Barcelona.
Para aquele que rouba ou toma
emprestado e não devolve um livro de seu dono, que o livro se
transforme em semente em suas mãos e o envenene.
Que seja atingido por paralisia e
todos os seus membros murchem. Que definhe de dor, chorando alto por
demência, e que não haja descanso em sua agonia até que mergulhe
na desintegração. Que as traças corroam suas entranhas como sinal
do Verme que não morreu. E quando finalmente for ao julgamento
final, que as chamas do Inferno o sumam para sempre.
Contudo, nenhuma praga parece deter
aqueles leitores que, como amantes enlouquecidos, estão decididos a
se apropriar de certo livro. A ânsia de possuir um livro, ser seu
único dono, é uma espécie de cobiça diferente de todas as outras.
“Lemos melhor”, confessou Charles Lamb, contemporâneo de Libri,
“um livro que é nosso e que nos é conhecido há tanto tempo que
sabemos a topografia de suas manchas e de suas orelhas, e lembramos
que ele se sujou quando o lemos durante o chá com bolinhos
amanteigados.”
O ato de ler estabelece uma relação
íntima, física, da qual todos os sentidos participam: os olhos
colhendo as palavras na página, os ouvidos ecoando os sons que estão
sendo lidos, o nariz inalando o cheiro familiar de papel, cola,
tinta, papelão ou couro, o tato acariciando a página áspera ou
suave, a encadernação macia ou dura, às vezes até mesmo o
paladar, quando os dedos do leitor são umedecidos na língua (que é
como o assassino envenena suas vítimas em O nome da rosa, de
Umberto Eco). Tudo isso, muitos leitores não estão dispostos a
compartilhar – e se o livro que desejam ler está em posse de outra
pessoa, as leis da propriedade tornam-se difíceis de obedecer, assim
como as da fidelidade no amor. Ocorre também que a posse física
torna-se às vezes sinônimo de um sentimento de apreensão
intelectual. Acabamos achando que os livros que possuímos são os
livros que conhecemos, como se a posse fosse, em bibliotecas como nas
cortes, nove décimos da lei; acabamos achando que olhar para a
lombada dos livros que chamamos de nossos, os quais obedientemente
montam guarda nas paredes de nossa sala, prontos a falar conosco e
somente conosco ao mero adejar das páginas, nos permitisse dizer
“tudo isso é meu”, como se a simples presença deles já nos
enchesse de sabedoria, sem que precisássemos abrir caminho por seus
conteúdos.
Nisso, tenho sido tão culpado quanto
o conde Libri. Ainda hoje, afogados como somos em dezenas de edições
e milhares de exemplares idênticos do mesmo livro, sei que o volume
que tenho nas mãos, aquele volume e nenhum outro, torna-se o Livro.
Anotações, manchas, marcas de um tipo ou de outro, um certo momento
e lugar caracterizam aquele volume como se fosse um manuscrito
inestimável. Podemos relutar em justificar os roubos de Libri, mas o
desejo subjacente, o anseio de ser, ao menos por um momento, o único
capaz de chamar um livro de meu, é comum a mais homens e mulheres
honestos do que talvez estejamos dispostos a reconhecer.
Alberto Manguel, em Uma História da Leitura
sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026
Factótum
4
Ele era um homem atrás da mesa com um
aparelho auditivo, o fio corria pela lateral do rosto e para dentro
da camisa, onde ele escondia a bateria. O escritório era escuro e
confortável. O homem vestia um terno marrom puído, uma camisa
branca amassada e uma gravata desfiada nas bordas. O nome dele era
Heathercliff.
Eu tinha visto o anúncio no jornal
local e o lugar ficava perto de onde eu estava.
Procura-se jovem ambicioso com
visão de futuro. Não é necessário experiência. Comece nas
entregas e suba de cargo.
Esperei do lado de fora com cinco ou
seis jovens, todos se esforçando para parecerem ambiciosos.
Preenchemos nossas fichas de emprego e aguardamos. Fui o último a
ser chamado.
— Sr. Chinaski, o que te fez deixar
os pátios das ferrovias?
— Bom, eu não vejo futuro nelas.
— É um emprego com bons sindicatos,
convênio e aposentadoria.
— Na minha idade, a aposentadoria
pode quase ser considerada supérflua.
— Por que o senhor veio para Nova
Orleans?
— Tinha muitos amigos em Los
Angeles, amigos que eu sentia que estavam atrapalhando minha
carreira. Queria ir para onde eu pudesse me concentrar sem ser
amolado.
— Como sabemos que o senhor ficará
conosco por algum tempo?
— Talvez eu não fique.
— Por quê?
— Seu anúncio afirmava que havia
futuro para um homem ambicioso. Se não há futuro aqui, então eu
vou embora.
— Por que o senhor não fez a barba?
Perdeu uma aposta?
— Ainda não.
— Ainda não?
— Não. Apostei com meu senhorio que
conseguiria um emprego em um dia, mesmo com esta barba.
— Tudo bem, entraremos em contato.
— Eu não tenho telefone.
— Está certo, então, sr. Chinaski.
Saí e voltei para meu quarto. Desci
pelo corredor sujo e tomei um banho quente. Vesti de novo minhas
roupas e fui comprar uma garrafa de vinho. Voltei para o quarto,
sentei perto da janela, bebendo e observando as pessoas no bar, vendo
outras passarem. Bebi devagar e voltei ao pensamento de arrumar uma
arma e acabar com tudo de uma vez, sem falatório e ponderação. Uma
questão de intuição. Eu me perguntava sobre a minha. Terminei a
garrafa, fui para a cama e dormi. Acordei por volta das quatro da
tarde, com uma batida na porta. Era um garoto de entregas da Western
Union*. Abri o telegrama:
sr. h. chinaski, apresente-se ao
trabalho amanhã, às 8h. r.m. heathercliff co..
Charles Bukowski, em Factótum
Umbigo
Honra lhe seja, ao poeta
Vinicius. Coube-lhe, por volta de 1945, a iniciativa de lançar o
grito meio esportivo meio libertário:
Meninas, soltai as alças,
bicicletai, seios nus!
As meninas acataram-lhe imediatamente
a recomendação, na primeira parte; quanto à segunda, estão (suas
filhas) ensaiando ainda. Tanto tempo assim para cumprir a ordem do
poeta? Ocorreram fatores vários que justificam a demora. Em 1945,
positivamente não dava pé; nos anos seguintes, e nos seguintes aos
seguintes, também não. Ultimamente, as coisas vêm mudando, umas em
ritmo de tartaruga, outras em ritmo de cápsula espacial. A bicicleta
voltou. Este verão é bicicleta pura. Alças, não foi preciso
soltá-las; desapareceram. Apareceu o bustier, e o próprio busto
oferece fatias laterais generosas, prenúncio da auroral exposição
plena. Executado, afinal, o mandamento viniciano? Uma coisa é certa:
o verbo bicicletar foi lançado por ele, e hoje, quando as garotas
bicicleteiam em bloco, ou a uma, é o verso de Moraes que circula por
aí.
O poeta não previu o umbigo em expô,
mas que poeta pode prever tudo? Digamos que seu poema de 45 pode ser
lido de várias maneiras, e uma delas seria:
Meninas, livrai o umbigo,
bicicletai, seios nus!
Com ou sem bicicleta, o umbigo
feminino, particularmente o juvenil, é hoje uma festa da cidade. Os
olhos pousam nele antes de tudo; não mais no rosto, ou nas pernas, e
isso está certo e conforme às leis do ser humano, pois no umbigo se
localiza o centro, o ponto fundamental da figura, na estética da
natureza. Dele se irradiam as outras partes do corpo, os outros
elementos da “paisagem viva”: “No cânon ideal, a altura do
umbigo divide exatamente a altura total, segundo o corte de ouro”
(Constable, The Curves of Life).
E não se veja malícia no olhar que
vai direto a esse acidente anatômico, pois é o umbigo que o chama,
o intima, o imantiza. Ele quer ser visto e considerado em suas
variantes de flor, que não se encontram duas iguais. Uns são
recolhidos em si mesmos, por assim dizer secretos à luz do sol,
misteriosos, exigindo código. Outros, ofertantes, radiosos,
públicos, democráticos, comunicantes. Há os retorcidos como certos
vegetais que nasceram para lutar contra o vento e renunciam à
postura comum. Quem ousa dizer que o umbigo é cicatriz, memória da
gestação uterina? Estrela, sim, de ocultos raios, a iluminar a
abóbada corporal; botão de flor ou de secreta campainha, que domina
com seu timbre a orquestra dos membros; microlaguna onde boia, não
um barquinho, mas o princípio de toda vida… Tudo isso e mais o que
o obstetra, esse escultor, fez dele, ou a imaginação lhe acrescenta
escolhendo entre as infinitas virtualidades da forma.
Umbigos andam por aí, desafiando tua
capacidade de curtir o novo dentro do eterno. Se na praia eles nem
são percebidos, porque se inserem no quadro global, na rua, no
coletivo, na loja, no escritório, são uma presença nova, uma graça
diferente acrescentada ao espetáculo feminino, um dom sem
destinatário certo, que é a bonificação de um ano em que tantos
perderam na Bolsa mas acabam lucrando na vista.
O umbigo deixa-se conversar, responde
naturalmente. Há um diálogo novo entre ele e o transeunte. Certos
umbigos parecem rir da piada que anda no ar, outros sorriem com
discrição, e há os que se mostram sérios mas urbanos. De poucos
sei que podem ser chamados de antipáticos, e esses, seria melhor que
continuassem guardados. Receio que os mais pretensiosos acabem se
ostentando em moldura barroca, cercados por um cordão de ouro ou
pintura a óleo, quem sabe se com um diamante na cavidade? Nada de
artifícios. O umbigo em si, casto e cantante, esse é que merece
todo o poder e glória neste morrer de ano de 1972, em que precisamos
ansiosamente contemplar alguma coisa pura, repousante: um umbigo que
seja.
Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica
O inventor de sabores
Se eu pudesse escolher um outro homem
para ser, seria um inventor de novos sabores para fábricas de
sorvetes. Sei que decisões deste tipo são tomadas por frios (no
caso, gelados) e impessoais departamentos de marketing de
acordo com pesquisas científicas e estratégias de venda, mas nada
me impede de imaginar que as grandes fábricas de sorvete empreguem
especialistas exclusivamente para pensar em novos sabores.
Profissionais muito bem pagos cuja única função consiste em, vez
por outra, invadir a sala da diretoria e anunciar:
— Bolei um novo sabor!
Grande alvoroço. Todos os chefes de
departamento são convocados enquanto o inventor do novo sabor
escreve sua criação num papel, para não haver o risco de esquecer.
Finalmente, com todos reunidos, com uma unidade inteira da fábrica
parada e esperando, ela revela a ideia.
— “Chucruva”! Chocolate por
fora, uma camada de crocante, e uva por dentro!
Aplausos. Vivas. Ele se superou outra
vez. Produção e promoção são postas em marcha frenética
enquanto o bolador de sabores volta para a sua sala, entre tapinhas
nas costas, para pensar em outro.
Ele teria que ter um talento especial,
ao mesmo tempo malévolo — só quem está de dieta sabe como dói
resistir ao apelo de cada novo sabor cuidadosamente lançado para ser
irresistível — e infantil, inocente e calculista. E seria um
profissional valorizadíssimo.
— Sabe quem é aquele ali?
— Quem?
— O criador do “Nhaque”!
— Do quê?
— Do “Nhaque”. Caramelo,
morango, nata e um núcleo de mel e amêndoas. Um clássico. Ele é
uma legenda viva no ramo. Acaba de recusar uma proposta milionária
da Kibon.
— Olhe, ele está de olhos
fechados... e sorrindo como um anjo!
— Deve estar pensando num novo
sabor.
Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora
“Rai-a-puta-pô!"
[…]
Mas, aquilo de ruim-querer carecia de
dividimento ― e não tinha; o demo então era eu mesmo? Desordenei
quase, de minhas ideias. Eu matava um tiquinho, só? Em nome de mim,
eu não matava? Só forcejei por sobrenadar alto em mente o mando
daquela vozinha. Rú, eh, masquei meus beiços, eu arrebentasse. Vi
que acabava tendo de matar, e era o que eu mesmo queria. Como que
tivessem espalhado, ombro com ombro, pelos inteiros cabíveis do
Chapadão, os diabinhos, mil e mil, tocando lindas violas ― para
acabar com o que eu mesmo me falasse, e de mim quisesse por valia me
entender, contra o que o demônio-mestre tinha determinado... Sendo
que mal resisti, nas últimas, saiba o senhor. Ah, mas. E é preciso,
por aí, o senhor ver! quem é que era e que foi aquele jagunço
Riobaldo! Pois em instantâneo eu achei a doçura de Deus! eu clamei
pela Virgem... Agarrei tudo em escuros ― mas sabendo de minha Nossa
Senhora! O perfume do nome da Virgem perdura muito; às vezes dá
saldos para uma vida inteira...
Súbito sendo ― pois, pois ― que
um recurso eu tive, e por uma greta me saí, levando a salvo comigo o
desgraçado nhô Constâncio Alves. O conforme foi! que isto eu
espiritei! que fazia a ele uma pergunta. Respondesse a mal, morresse;
mas, de outro jeito, recebia perdão. Aí a pergunta seguinte:
― Se sendo que o senhor é de minha
terra, a pois: conheceu um homem que se chamava Gramacêdo? Será, o
senhor é parente dele?
Só esperei. Ele dissesse que tinha
conhecido o outro, e, aí, morria, por eu não poder não-matar; por
quanto a salvação dele mermava, que nem morrão de candeia. E
assim, com obrigação minha mesma, eu tinha para sempre combinado.
Mas nhó Constâncio Alves era para
ganhar, no azo daquilo, pelo que deu, de resposta:
― Gramacêdo? Sinto dizer, mas esse
eu nunca vi, nem dele ouvi falar. Tenho parentescos com ninguém de
tal nome...
A minha mão já tinha estado para o
revólver, brandamente. Nhó Constâncio Alves percebeu o mal-amém.
Confuso como se rebaixou um pouquinho no tamanho: ele devia de estar
abrindo os joelhos, por tremor de medo nas pernas. Aí ele mesmo
então achasse que carecia de muito morrer? ― num pingo eu pensei,
traiçoeiro. O medo mostrado chama castigo de ira; e só para isso é
que serve. Ah , mas ― ah, não! ―; eu tinha decidido. Tinha ou
não tinha. Eu? Assim, noutro repingo: arejei que toda criatura
merecia tarefa de viver, que aquele homem merecia viver ― por causa
de uma grande beleza no mundo, à repentina. Um anjo voou dali? Eu
tinha resistido a terceira vez. Agora, nhó Constâncio Alves estava
delivrado de perigo. Só que eu gritei:
― O senhor tem seu dinheiro?
Ligeiro, novo, o homem caçou com suas
mãos o surrãozinho, que abriu: estava cheio de notas, bem enroladas
e embrulhadas num pano; e assim me dava, me presenteava. Mirei aquele
triste pescoço. O que em seco ele foi engulindo: que podiam ser as
contas todas dum terço.
Aproximei o cobre. O ele, nhô
Constâncio Alves, deixei que fosse embora. Nem espiei ― para dele
não ver as costas. Mas, aí, então, para me pacificar e enterter o
Outro, eu tive de falar alto!
― Perdoei este; mas, o primeiro que
se surgir, destas estradas, paga!
Eu disse. Eu ia cumprir?
De seguida, o primeiro veio, logo mais
adiante; quase no se inteirarem três léguas. Conforme houve fatos,
coisa que se passou. E foi numa várzea, com uns boizinhos ali bem
pastando. Demos com um sujeito, aparecido viajor. Ele vinha numa
égua. Essa égua era acastanhada, com alguma altura. Aqueles
arreios, de velhos, era que desfaziam. Um cabo da rédea estava sendo
de couro, mas o outro de sedenho. A égua também cambaiava. O homem
tinha cara de focinho, avançando o formato dos ossos da boca! não
tinha queixo. Desgraçado desse homem, pelo que em sua vida ia ser,
pelo que seus aspectos indicavam. Nem merecia dó, assim achei. Mas,
na companhia dele, atrás, vinha também um cachorrinho.
Eles esbarraram. O cachorrinho pegou a
latir, nesse ofício que quase todo cão tem, de ser presumido
valente. O homem bambeou de si, em cima da égua, ele estava pecando
de pavor. Como que, num só relance ele transformou três caras. E
para o pretinho Guirigó me virei, por perguntar!
― Aqui, este, deveras eu mato?
― Senhor mata? Senhor vai matar? ―
o pretinho só se saíu pelos olhos.
Ao que escutei queixos e dentes do
homem bater. Súdito indivíduo assim não tinha ação de voz nem
tirava um suplicar. Tudo o que não sabia, ele adivinhava. Previsse
que ia morrer só para indenizar do perdão dum outro, só por
preencher o lugar que devia de ser o do nhô Constâncio Alves?
Ah, não. Agora, a vontade de matar
tinha se acabado! Sei e soube: por certo que o demo, agora, escondia
sua intenção, por desconfiar de que eu não fosse querer cumprir.
Com ele, meu senhor, assim é: sempre escolhe seus estilos. Ao mais,
dessa vez, ele sabia que não carecesse de me azuretar. Sabia que eu
estava até com enjóo da situação daquele homem da égua, meu
gosto era permitir que ele fosse s embora, forro de qualquer castigo.
Mas sabia igual que eu estava na estrita obrigação de matar ―
porque eu não podia voltar atrás na promessa da minha palavra
declarada, que os meus cabras tinham escutado e glosado. Ah, o demo
bem me conhecia! Devia de estar no astuto, ali por perto, feitor, se
pagodeando de mim: querendo ver bem boa execução, do meu dever de
crime. E o homem da égua o nada de tudo espiava, por mais inteiriço
não se ser se forcejava, e um espírito de silêncio ele gemia. Aí
onde era que estava o anjo-da-guarda dele? Aí tinha de morrer.
Carecia de morrer, porque o diabo, por novas voltas, no nó de
compromisso tinha me pegado; e porque outro ao-menos-remédio não
havia. O cachorrinho por sua vez entendia isso, e latiu, cainhava,
ganiz; mais conseguido do que o dono ele sabia dar de gemer. Mas eu
estava pensando redobrado.
Como era que eu ia matar aquele
sujeito, anunciado de pobre, e matar em vez de um outro, sadio em
bojo, e rico? Aquilo era justiça? Vai ver, ele nem conhecesse o nhó
Constâncio Alves, nem soubesse quem fosse. Era justiça? Era
possível? Eu pensei. O que era que Zé Bebelo, numa urgência assim,
no arco, inventava de fazer? Eu tinha a preguiça de falar perguntas.
Os outros, parados em volta,
esperavam, por apreciar. Ninguém não tinha pena do homem da égua,
mirei e vi. Consideravam de espreitar meu procedimento. A aflêima de
assim loguinho ter de botar e ouvir minhas palavras no ar, me
agravou. E foi então, para retardar os momentos, que ao cego
Borromeu eu indaguei!
― Seja o que, companheiro velho? E
eh lá isso?...
Atabafado. Até porque, de pedir
avisos a um cego, assim, em públicas varas, eu tivesse de me vexar.
― Se é se é, Chefe? A-hem? Se é o
que mecê sumeteu, enhém? Senhor quer que seja que se mate um tal?
― sem-termo do cego me respondeu, sem-razão. Ao que eu tinha
trazido aquele comigo, para a nenhuma utilidade. ― Senhor mesmo é
que vai matar? ― o menino Guirigó suputou, o diabo falou com uma
flauta. ― Te acanha, dioguim, não-sei-que-diga!Vai sêbo... ― eu
ralhei. Onde os outros riram rabo.
Mas, entre isso, o homem condenável,
em cima da égua, amontado sempre, chorava por si mesmo, sensato
sério; chorava, decerto, o ter crescido de sua longe meninice. Nem
perguntei o nome dele, nem donde era que era. Um naqueles casos, de
nada carecia nem necessitava. A cara dele, pelo malaventurar, se
quebrava das formas e cor, e perpassava ― ele era um ser com a cara
desmanchada. Aí o Acauã, por um gesto de aviso meu, assestava nele,
sobrestante; porque, mesmo no magoar do terror, por vez um se assopra
de adôido, dá bote, dá nas armas. Agarrado todo na égua, só
encolhido, encarapitado ― o pobre.
― Vai sêbo! ― eu tornei a xingar
o menino-de-infância.
Adforma que eu tinha de resolver.
Antes ligeiro, para os meus homens não me acharem aparvo. Ou o demo.
O demo? Ainda que muito eu sei. Agora esse se prespiritava por lá,
sabível mas invisível; e ele estava se rindo de mim, meu próximo.
Ah, não! Somei que tive pena do
homem? A cachorrinha se latia. Mas, como era que eu podia atirar numa
triste pessoa daquelas, que semelhava com os ombros debaixo de todas
ventanias? A cachorrinha perturbava os cavalos. Aperto do dever que
eu tinha de cumprir, de editada palavra. Ou eu temi também o
Tranjão, oTibes, o Cujo, que eu mesmo ajustara por meu vigiador? Sej
a o que; hoje mais rezo. O homem nas costas da égua, desinquieta,
que agora dava debate. Decerto porque, animal de montada, no que
percebe aquele humano pavor alheio, o todo desprezo ao cavaleiro está
obrigado a demonstrar. Conseguinte que, sobre assim, todos riram
mais: ― Oé, eh, ele já está se deixando! ― algum reparou. Se
via? Se o homem dera de obrar, mesmo permeando para a sela, que se
sujava? As caçoadas, constavam de querer ver aquilo. Daí, o
cachorro, por resguardo de seu dono, agrediu os cavaleiros ― com o
qual a latição dele, e os arreganhos, os cavalos de uns desgostavam
e se empinavam, por reboliz. O homem, mesmo, era que se franzia, no
não dizer, não desbobeava. Ah, e Zé Bebelo! ― repentino
relembrei, as remotas vezes. Os cavalos saltando assim, os cavaleiros
bramando: recordação de Zé Bebelo. Só Zé Bebelo servia para
apurar um impedimento desses, no deslindar. Onde ele? Ah! Ah e foi aí
― então ― que estouradamente achei: fortes ideias! Rapatrás,
fazendo meu cavalo também se arquear e empinar, às as patas ― eu
disse. Disse, que bradei ― num entusiasmamento daqueles mesmos de
Zé Bebelo ― a fala igual à de Zé Bebelo, na baralhada em pompa
dos animais, arre crinas, na arroubagem de arruaça. Eu pronunciei:
― Rai-a-puta-pô! Não tenho
que matar este desgraçado, porque minha palavra prenhada não foi
com ele: quem eu vi, primeiro, e avistei, foi esse cachorrinho!...
Só um assarapanto de silêncio. Daí,
me vivavam. Todos entenderam, me admiraram. A tanto que sei. Agora,
eu, digo ao senhor: dele, do Demo ― naquele instante ― agora era
eu quem ria!
― Ei-ei, gente, segura o cão! ―
dei ordem. Num três-tempo a cachorrinha estava pega, se esbrabejava.
No que uma peia, um laço, ou um cabresto, eram desconformes para
isso, então o Pacamã-de-Presas e o Jiribibe arrumaram uma jarda de
fina corda, com ela se amarrou o bichinho num pé de assa-leitão.
― Não deixem ela uivar... Não
deixem ela uivar... ― foi o que o cego Borromeu disse, pelo modo
ele tinha medo de uivado de cachorro. ― A bom, cachorro a gente
enforca... ― o menino Guirigó deu atrevimento de ensinar. Mandei
que esse menino fosse para mais longe, perder as influências. Deram
uma palmada na anca do cavalo dele, que o João Vaqueiro puxou, para
ir exilar os dois em boa conveniente distância.
― Um cachorro, quando se enforca,
chora lágrimas ― os olhos dele regulam com os de gente... ― foi
o que o Alaripe disse, com simples voz. A tudo, pensei. Agora, matar
aquela cachorrinha? O que menos eu pudesse, só mesmo por pragas.
Pelo tanto que a cachorrinha se prezava correta, latindo tão
relatado. Ah, não! Ah, não, não matava. Mais, por aí, eu também
já tinha aprendido ― das sutilezas. Tornei a transdizer!
― Adonde!... E nem não foi essa
cadela. A égua, essa é que foi ― a que primeiro deu nas minhas
vistas!
[…]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
A ternura
“Pureza de coração é desejar uma
só coisa.” Foi assim que Kierkegaard definiu, a pureza. Puro é
aquilo em que não há misturas; é uma coisa só.
A paixão é pura porque vive de uma
coisa só: a imagem da pessoa amada. Não se trata de uma imagem mais
bonita que as outras. É uma única imagem que apaga todas as outras.
O apaixonado só pensa na pessoa amada. Sempre. Os assuntos que fazem
as conversas do cotidiano não lhe interessam. Bem que ele gostaria
de falar sobre o seu amor, mas se cala sabendo que ririam dele.
Camões, no episódio de Inês de Castro, escreveu que ela caminhava
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.
Se não havia ouvidos humanos a quem
pudesse dizer o nome que tinha gravado no peito, que as árvores, a
relva e as pedras fossem depositárias do seu segredo – um único
nome.
A raposa pediu que o Pequeno
Príncipe a cativasse.
– Que quer dizer “cativar”? —
ele perguntou.
A raposa explicou:
– Tu te sentarás primeiro um
pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do
olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de
mal-entendidos. Mas, a cada dia, te sentarás mais perto... Se tu
vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei
a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei
feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada:
descobrirei o preço da felicidade!
Aconteceu então que o Pequeno
Príncipe cativou a raposa. O tempo passou e chegou o dia em que ele
precisou partir. A raposa disse:
– Ah! Eu vou chorar.
– A culpa é tua; eu não te
queria fazer mal, mas tu quiseste que eu te cativasse...
– Quis — disse a raposa.
– Mas tu vais chorar!
– Vou — ela respondeu.
– Então, não sais lucrando
nada!
– Eu lucro — disse ela — por
causa da cor do trigo. — E acrescentou: – Eu não como pão. O
trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa
alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. O trigo,
que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do
vento no trigo...
O amor começa quando colocamos uma
metáfora poética no rosto da pessoa amada. A paixão é uma
experiência estética. Está ligada à contemplação da beleza. A
pessoa pela qual se está apaixonado é bela. Não é que ela seja
bela – é o olhar apaixonado que a torna assim. Porque não vemos o
que vemos, vemos o que somos. Uma mulher é bela quando nos vemos
belos ao seu olhar. Quem, ao olhar para uma mulher, pensa em sexo não
é um apaixonado.
O apaixonado sorri ao contemplar a
amada dormindo, sem tocá-la. O corpo de lado, o rosto sobre o
travesseiro, os olhos fechados, o suave ressonar, a camisola suspensa
deixando ver a calcinha – é uma imagem de paz, de tranquilidade. E
um momento de ternura. Há um desejo de acariciá-la, mas a mão se
contém; nenhum movimento dele deverá interromper a beleza da cena.
Nela, os impulsos sexuais estão proibidos.
O sexo dos adolescentes e dos jovens
se parece com um furúnculo inchado – túrgido, vermelho, dolorido,
que busca se livrar do incômodo. O que se busca não é a
experiência amorosa, é rasgar o furúnculo para que o pus saia,
trazendo alívio. E o esperma não se parece com pus? Quando o
orgasmo acontece, numa mistura de dor e prazer, o furúnculo se
esvazia e o corpo fica em paz. Pode até ser que nesse momento o
parceiro se esqueça da mulher ao seu lado, vire as costas para ela e
durma.
Foi sobre esse sexo que Freud
escreveu. Era o único que ele conhecia. Era o sexo que Tomas,
personagem de A insustentável leveza do ser, fazia com suas
namoradas. Mas uma delas protestava: “não procuro o prazer,
procuro a alegria...”.
O sexo-furúnculo prescinde da
ternura. Tomas não sentia ternura por suas amantes. Elas eram
objetos para seu alívio. Ele as usava. Não as amava. O amor mora no
olhar terno que sorri ao contemplar o rosto da pessoa amada.
Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado
Cai chuva. É noite.
Cai chuva. É noite. Uma pequena brisa
Substitui o calor.
P’ra ser feliz tanta coisa é
precisa.
Este luzir é melhor.
O que é a vida? O espaço é alguém
para mim.
Sonhando sou eu só.
A luzir, em quem não tem fim
E, sem querer, tem dó.
Extensa, leve, inútil passageira,
Ao roçar por mim traz
Uma ilusão de sonho, em cuja esteira
A minha vida jaz.
Barco indelével pelo espaço da alma,
Luz da candeia além
Da eterna ausência da ansiada calma,
Final do inútil bem.
Que se quer, e, se veio, se desconhece
Que, se for, seria
O tédio de o haver... E a chuva
cresce
Na noite agora fria.
Fernando Pessoa, em Poesias inéditas e poemas dramáticos
Cântico dos cânticos
Maria, com um vinco entre as
sobrancelhas, escolhe o segundo prato. Depois sorri-me
deliciosamente. Como não encantar-me? Como não comparar-me a
Salomão? “Sustentai-me (diz-lhe a Sulamita), sustentai-me com
passas, confortai-me com maçãs, que desfaleço de amor.”
Mário Quintana, em Sapato Florido
Capítulo 35 – O Caminho de Damasco
Ora aconteceu, que, oito dias depois,
como eu estivesse no caminho de Damasco, ouvi uma voz misteriosa, que
me sussurrou as palavras da Escritura (Act., IX, 7):
“Levanta-te, e entra na cidade.” Essa voz saia de mim mesmo, e
tinha duas origens: a piedade, que me desarmava ante a candura da
pequena, e o terror de vir a amar deveras, e desposá-la. Uma mulher
coxa! Quanto a este motivo da minha descida, não há duvidar que ela
o achou e mo disse. Foi na varanda, na tarde de uma segunda-feira, ao
anunciar-lhe que na seguinte manhã viria para baixo. – Adeus,
suspirou ela estendendo-me a mão com simplicidade; faz bem. – E
como eu nada dissesse, continuou: – Faz bem em fugir ao ridículo
de casar comigo. Ia dizer-lhe que não; ela retirou-se lentamente,
engolindo as lágrimas. Alcancei-a a poucos passos, e jurei-lhe por
todos os santos do céu que eu era obrigado a descer, mas que não
deixava de lhe querer e muito; tudo hipérboles frias, que ela
escutou sem dizer nada.
– Acredita-me? perguntei eu no fim.
– Não, e digo-lhe que faz bem.
Quis retê-la, mas o olhar que me
lançou não foi já de súplica, senão de império. Eu desci da
Tijuca, na manhã seguinte, um pouco amargurado, outro pouco
satisfeito; e vinha dizendo a mim mesmo que era justo obedecer a meu
pai, que era conveniente abraçar a carreira política.., que a
constituição… que a minha noiva.., que o meu cavalo…
Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas
terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
O guardador de águas
V
Eles enverdam jia nas auroras.
São viventes de ermo. Sujeitos
Que magnificam moscas — e que oram
Devante uma procissão de formigas…
São vezeiros de brenhas e gravanhas.
São donos de nadifúndios.
(Nadifúndio é lugar em que nadas
Lugar em que osso de ovo
E em que latas com vermes emprenhados
na boca.
Porém.
O nada destes nadifúndios não alude
ao infinito menor de ninguém.
Nem ao Néant de Sartre.
E nem mesmo ao que dizem os
dicionários: coisa que não existe.
O nada destes nadifúndios existe e se
escreve com letra minúscula.)
Se trata de um trastal.
Aqui pardais descascam larvas.
Vê-se um relógio com o tempo
enferrujado dentro.
E uma concha com olho de osso que
chora.
Aqui, o luar desova…Insetos umedecem
couros
E sapos batem palmas compridas…
Aqui, as palavras se esgarçam de
lodo.
Manoel de Barros, em O guardador de águas
Assinar:
Comentários (Atom)








