domingo, 22 de fevereiro de 2026

Roberto Carlos | Canzone Per Te

 

Choro a capela

O poder que eu quisera é dominar meu medo.
Por este grande dom troco meu verso, meu dedo,
meus anéis e colar.
Só meu colo não ponho no machado,
porque a vida não é minha.
Com um braço só, uma só perna,
ou sem os dois de cada um, vivo e canto.
Mas com todos e medo, choro tanto
que temo dar escândalo a meus irmãos.
Mas venho e vou,
os ‘lobos tristes’ a seu modo louvam.
Nasci vacum, berro meu
era só por montar, parir, a boa fome,
os júbilos ferozes.
As vacas velhas têm os olhos tristes?
Tristeza é o nome do castigo de Deus
e virar santo é reter a alegria.
Isto eu quero.

Adélia Prado, em O Coração Disparado

Armandinho

Maria chorando ao telefone

O telefone toca aqui em casa, atendo, uma voz de mulher estranhíssima pergunta por mim, e antes que eu tome providências para dizer que é minha irmã que fala, ela me diz: é você mesma. O jeito foi eu ficar sendo eu própria. Mas... ela chorava? ou o quê? Pois a voz era claramente de choro contido. “Porque você escreveu dizendo que não ia mais escrever romances.” “Não se preocupe, meu bem, talvez eu escreva mais uns dois ou três, mas é preciso saber parar. Que é que você já leu de mim?” “Quase tudo, só faltam A cidade sitiada e A legião estrangeira.” “Não chore, venha aqui buscar os dois livros.” “Não vou não, vou comprar.” “Você está bobeando, eu estou oferecendo de graça dois livros autografados e mais um cafezinho ou um uísque.” “Então você pode fazer uma coisa por mim — autografe os dois livros e entregue-os ao seu cunhado, dizendo que é para Maria.” “Maria de quê?” “Só Maria.” “Está bem, não chore mais e cuide dessa gripe.” Pois é, meu Deus. Depois, através de meu cunhado, soube que é uma médica (ginecologista) chamada Dra. Maria B. Que depois me mandou as rosas mais lindas do mundo, que eu misturei com as vermelho-sangue mandadas por H. M. Minha casa está linda e perfumada, tenho o prazer de ter feito, com o auxílio dos outros e de minha amiga S. M., um verdadeiro lar para mim e para os meus filhos.
Quanto às rosas de H. M., que me telefonou depois para desejar que eu dormisse bem, vieram com um bilhete muito bonito: “Aqui é a casa de flores. Era só para confirmar que dona Clarice não está viajando. Não, está aqui em casa. Obrigado, disse eu vermelho e mal suportando tanto amor sozinho. (É que acabara de ler A legião estrangeira.) Obrigado, Clarice Lispector. No momento só preciso que você me sobreviva. Obrigado também pela minha convicção quanto ao seu amor por rosas. Agradeço-lhe ainda a certeza que me vem dando de que existo. Tanto que posso me lembrar de você, sem remorso por ter mentido ao telefone. A necessidade de oferecer rosas foi minha mas quero que a alegria seja inteirinha sua.”
Obrigada, H. M. Minha alegria foi tão completa e tenho tanta confiança na sua. Que vou lhe pedir um favor: ando atrás de rosas brancas em botão para dar a uma amiguinha que nasceu há dias e cujo nome é Letícia, o que quer dizer, Alegria. Se você souber onde se encontram, me dê um telefonema, eu agradeço.

Clarice Lispector, em Crônicas para jovens: de escrita e vida

Diário de Bernardo Soares

93.

Em mim foi sempre menor a intensidade das sensações que a intensidade da consciência  delas. Sofri sempre mais com a consciência de estar sofrendo que com o sofrimento de que tinha consciência.
A vida das minhas emoções mudou-se, de origem, para as salas do pensamento, e ali vivi sempre mais amplamente o conhecimento emotivo da vida.
E como o pensamento, quando alberga a emoção, se torna mais exigente que ela, o regime de consciência, em que passei a viver o que sentia, tornava-me mais quotidiana, mais epidérmica, mais titilante a maneira como sentia.
Criei-me eco e abismo, pensando. Multipliquei-me aprofundando-me. O mais pequeno episódio — uma alteração saindo da luz, a queda enrolada de uma folha seca, a pétala que se despega amarelecida, a voz do outro lado do muro ou os passos de quem a diz juntos aos de quem a deve escutar, o portão entreaberto da quinta velha, o pátio abrindo com um arco das casas aglomeradas ao luar — todas estas coisas, que me não pertencem, prendem-me a meditação sensível com laços de ressonância e de saudade. Em cada uma dessas sensações sou outro, renovo-me dolorosamente em cada impressão indefinida. Vivo de impressões que me não pertencem, perdulário de renúncias, outro no modo como sou eu.

Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego

Roubo de livros



Estou prestes a me mudar novamente. Em torno de mim, na poeira secreta de cantos insuspeitos, revelados agora pelo deslocamento dos móveis, elevam-se pilhas instáveis de livros, como rochas desgastadas pelo vento numa paisagem desértica. Enquanto ergo pilha após pilha de volumes familiares (reconheço alguns pela cor, outros pela forma, muitos por detalhes nas capas, cujos títulos tento ler de cabeça para baixo ou de um ângulo esquisito), pergunto-me, como já fiz tantas vezes, por que guardo tantos livros que sei que não lerei novamente. Digo a mim mesmo que, sempre que me desfaço de um livro, descubro dias depois que era exatamente aquele que estava procurando. Digo a mim mesmo que, não existem livros (ou poucos, muito poucos) em que eu não tenha achado alguma coisa que me interessasse. Digo a mim mesmo que os trouxe para dentro de casa por algum motivo e que esse motivo pode surgir novamente no futuro. Invoco desculpas: meticulosidade, raridade, uma vaga erudição. Mas sei que a razão principal de me apegar a esse tesouro sempre crescente é uma espécie de ganância voluptuosa.
Adoro olhar para minhas prateleiras lotadas, cheias de nomes mais ou menos familiares.
Delicio-me ao saber que estou cercado por uma espécie de inventário da minha vida, com indicações do meu futuro. Gosto de descobrir, em volumes quase esquecidos, traços do leitor que já fui – rabiscos, passagens de ônibus, pedaços de papel com nomes e números misteriosos, às vezes uma data e um local na guarda do livro, levando-me de volta a um certo café, a um quarto de hotel distante, a um verão longínquo. Eu poderia, se precisasse, abandonar esses livros e começar de novo, em outro lugar; já fiz isso antes, várias vezes, por necessidade. Mas então tive de reconhecer também uma perda grave, irreparável. Sei que algo morre quando abandono meus livros e que minha memória insiste em voltar a eles com uma nostalgia pesarosa. E agora, com os anos, minha memória relembra cada vez menos e parece-me uma biblioteca saqueada: muitas das salas foram fechadas, e, nas que ainda continuam abertas para consulta, há enormes vazios nas estantes. Pego um dos livros remanescentes e percebo que várias páginas foram arrancadas por vândalos. Quanto mais decrépita minha memória, mais quero proteger esse repositório do que li, essa coleção de texturas, vozes e odores. A posse desses livros tornou-se fundamental para mim, porque agora sinto ciúme do passado.
A Revolução Francesa tentou abolir a noção de que o passado era propriedade de uma única classe. Teve sucesso pelo menos em um aspecto: de divertimento aristocrático, colecionar coisas antigas tornou-se um passatempo burguês, primeiro com Napoleão e seu amor pelos adornos da Roma Antiga, depois com a república. Na tirada do século XIX, a exibição de bricabraques bolorentos, de pinturas de mestres antigos, dos primeiros livros tornou-se uma moda europeia. Floresceram as lojas de curiosidades. Negociantes de antiguidades acumularam pilhas de tesouros pré-revolucionários que eram comprados e depois exibidos nos museus caseiros dos nouveaux riches. "O colecionador", escreveu Walter Benjamin, "sonha que está não apenas em um mundo distante ou passado, mas também, ao mesmo tempo, em um mundo melhor, onde os homens se acham tão desprovidos daquilo que necessitam quanto no mundo cotidiano, mas onde as coisas estão livres da obrigação de ser úteis".
Em 1792, o palácio do Louvre foi transformado em museu para o povo. Dando voz a uma arrogante queixa contra a noção de um passado comum, o romancista visconde François-René de Chateaubriand protestou que as obras de arte assim reunidas "não tinham mais nada a dizer à imaginação nem ao coração". Quando, poucos anos depois, o artista e antiquário Alexandre Lenoir fundou o Museu dos Monumentos Franceses para preservar as estátuas e as pedras de mansões, mosteiros, palácios e igrejas que a revolução saqueara, Chateaubriand descreveu-o com desprezo, como “uma coleção de ruínas e túmulos de todos os séculos, reunidos sem rima ou razão no claustro dos Petits-Augustins”. Tanto no mundo oficial como no mundo privado dos colecionadores de ruínas do passado, as críticas de Chateaubriand foram solenemente ignoradas.
Os livros estavam entre os restos mais copiosos deixados para trás pela Revolução. As bibliotecas particulares da França no século XVIII eram tesouros familiares que a nobreza preservara e ampliara de geração em geração, e os livros que continham eram tanto símbolos de posição social quanto de refinamento e postura. Pode-se imaginar o conde d'Hoym, um dos mais famosos bibliófilos de sua época (morreu aos quarenta anos, em 1736), tirando de uma de suas estantes abarrotadas um volume das Orações de Cícero, que ele olharia não como mais um entre as centenas ou milhares de exemplares idênticos impressos e espalhados por numerosas bibliotecas, mas como um objeto único, encadernado segundo suas especificações, anotado por seu próprio punho e marcado pelo brasão da família gravado em ouro.
A partir do final do século XII, os livros tornaram-se reconhecidos como objetos de comércio, e na Europa o valor comercial deles estava suficientemente estabelecido para que os emprestadores de dinheiro os aceitassem como caução; encontram-se notas registrando tais garantias em numerosos livros medievais, em especial os pertencentes a estudantes. No século XV, o negócio tornara-se importante a ponto de os livros serem incluídos no rol de bens vendidos nas feiras comerciais de Frankfurt e Nördligen.
Devido à sua raridade, alguns livros evidentemente eram únicos e alcançavam preços exorbitantes (o raro Epistolae de Petrus Delphinus, de 1524, foi vendido por mil livres em 1719 cerca de 30 mil dólares em moeda de hoje), mas a maioria tinha o valor de objeto pessoal - heranças familiares, objetos que somente as mãos do dono e de seus filhos jamais tocariam. Por esse motivo, as bibliotecas tornaram-se um dos alvos automáticos da Revolução.
As bibliotecas pilhadas do clero e da aristocracia, símbolos dos “inimigos da república”, acabaram em enormes depósitos em várias cidades francesas – Paris, Lyon, Dijon e outras, onde esperavam, sob o ataque da umidade, da poeira, de insetos e outras pragas, que as autoridades revolucionárias decidissem seus destinos. O problema de armazenar tamanha quantidade de livros tornou-se tão sério que as autoridades começaram a organizar vendas para se livrar de parte do butim. Porém, pelo menos até a criação do Banco da França como instituição privada, em 1800, a maioria dos bibliófilos franceses (os que não se encontravam mortos ou exilados) estava empobrecida demais para comprar os livros e somente estrangeiros, sobretudo ingleses e alemães, puderam lucrar com a situação.
Para satisfazer essa clientela de fora, os livreiros começaram a atuar como exploradores e agentes. Em uma das últimas vendas expurgatórias, feita em Paris em 1816, o livreiro e editor Jacques-Simon Merlin comprou livros suficientes para encher do porão ao sótão as duas casas de cinco andares que adquirira especialmente com esse objetivo. Os volumes, em muitos casos preciosos e raros, foram vendidos por peso, numa época em que os livros novos ainda eram muito caros. Por exemplo, nas primeiras décadas do século XIX, um romance recém-publicado custava um terço do salário mensal de um trabalhador rural, enquanto uma primeira edição de Le roman comique, de Paul Scarron (1651), poderia ser obtida por um décimo dessa quantia.
Os livros que a Revolução confiscara e que não foram destruídos ou vendidos no exterior acabaram distribuídos pelas bibliotecas públicas, mas poucos leitores faziam uso deles.
Durante a primeira metade do século XIX, as horas de acesso a essas bibliothèques publiques eram restritas, havia exigências quanto à maneira de trajar de seus frequentadores – e os livros preciosos novamente acumularam poeira nas estantes," esquecidos e fechados.
Mas não por muito tempo.
Guglielmo Bruto Icilio Timoleone, conde Libri-Carucci del a Sommaia, nasceu em Florença, em 1803, numa antiga e nobre família toscana. Estudou direito e matemática e tornou-se tão bem-sucedido nessa última matéria que, quando tinha vinte anos, ofereceram-lhe a cadeira de matemática na Universidade de Pisa. Em 1830, supostamente sob ameaças da organização nacionalista dos carbonários, emigrou para Paris e, pouco depois, tornou-se cidadão francês. Com seu nome retumbante reduzido então para conde Libri, foi recebido pelos acadêmicos franceses, eleito membro do Instituto da França, indicado como professor de ciências na Universidade de Paris e distinguido com a Legião de Honra por suas credenciais eruditas e intelectuais. Mas Libri tinha outros interesses além da ciência: desenvolvera uma paixão por livros; em 1840, já possuía uma coleção notável e comerciava com manuscritos e livros raros impressos.
Duas vezes tentou sem sucesso obter um cargo na Biblioteca Real. Então, em 1841, foi nomeado secretário de uma comissão encarregada de supervisionar oficialmente o “catálogo geral e detalhado de todos os manuscritos, em idiomas antigos e modernos, existentes hoje em todas as bibliotecas públicas departamentais”.
Sir Frederic Madden, curador do Departamento de Manuscritos do Museu Britânico, descreveu assim seu primeiro encontro com Libri, a 6 de maio de 1846, em Paris: “Pela aparência externa [ele], parecia jamais ter usado água, sabão ou escova. A sala na qual fomos introduzidos não tinha mais de cinco metros de largura, mas estava repleta de manuscritos em prateleiras que subiam até o teto. As janelas tinham vidraças duplas e um fogo de carvão e coque queimava na lareira, cujo calor, acrescentado ao cheiro das pilhas de pergaminhos em volta, era tão insuportável que me deixou ofegante. O sr. Libri percebeu o incômodo que sofríamos e abriu uma das janelas, mas dava para perceber que um sopro de ar lhe era desagradável, e seus ouvidos estavam cheios de algodão, como para protegê-los dele! O sr. Líbri é uma pessoa um tanto corpulenta, de feições bem-humoradas mas largas”. O que sir Frederic não sabia – na época – é que o conde Libri era um dos mais rematados ladrões de livros de todos os tempos.
De acordo com o mexeriqueiro do século XVII Tallemant des Réaux, roubar livros não é um crime, exceto se os livros forem vendidos. O prazer de segurar um volume raro nas mãos, de virar as páginas que ninguém virará sem nossa permissão, com certeza movia Libri até certo ponto. Se foi a visão de tantos livros lindos que inesperadamente tentou o culto bibliófilo, ou se foi antes o desejo incontrolável por livros que o levou a almejar o cargo, jamais saberemos. Armado das credenciais oficiais, vestindo uma enorme capa sob a qual escondia seus tesouros, Libri ganhou acesso a bibliotecas de toda a França, onde seu conhecimento especializado lhe permitia descobrir e colher as maravilhas escondidas. Em Carpentras, Dijon, Grenoble, Lyon, Montpellier, Orléans, Poitiers e Tours, não somente roubou volumes inteiros, como cortou páginas que depois exibiu e, às vezes, vendeu. Somente em Auxerre não concretizou a pilhagem. O obsequioso bibliotecário, ansioso por agradar o funcionário cujos documentos anunciavam-no como Monsieur le Secrétaire e Monsieur l'Inspecteur Général, autorizou de bom grado que Libri trabalhasse à noite na biblioteca, mas insistiu em colocar um guarda ao seu lado para atender a qualquer necessidade do cavalheiro.
As primeiras acusações contra Libri datam de 1846, mas – talvez porque parecessem tão improváveis – foram ignoradas, e Libri continuou a atacar as bibliotecas. Começou também a organizar vendas importantes de alguns dos livros roubados, vendas para as quais preparava catálogos excelentes e detalhados. Por que esse bibliófilo apaixonado vendia os livros que roubara correndo tantos riscos? Talvez acreditasse, como Proust, que “o desejo faz todas as coisas florescerem, a posse as faz murchar”. Talvez precisasse apenas de alguns poucos e preciosos, selecionados como as pérolas raras de seu butim. Talvez os tenha vendido por pura ganância – mas essa é uma suposição muito menos interessante. Quaisquer que fossem seus motivos, a venda de livros roubados não podia mais ser ignorada. As acusações acumularam-se e, um ano depois, o promotor público iniciou investigações discretas - que foram abafadas pelo presidente do Conselho Ministerial, o sr Guizot, amigo de Libri e testemunha de seu casamento. É provável que o assunto tivesse morrido se a Revolução de 1848, que acabou com a Monarquia de Julho e proclamou a Segunda República, não tivesse descoberto o dossiê de Libri escondido na escrivaninha de Guizot. Libri foi avisado e fugiu com a esposa para a Inglaterra, não sem levar consigo dezoito caixas de livros avaliados em 25 mil francos. Na época, um trabalhador especializado ganhava cerca de quatro francos por dia.
Muitos políticos, artistas e escritores manifestaram-se (em vão) em defesa de Libri.
Alguns haviam lucrado com suas maquinações e não queriam se comprometer no escândalo; outros tinham reconhecido nele um estudioso honrado e não queriam passar por bobos. O escritor Prosper Mérimée, em particular, foi um defensor ardente de Libri. O conde mostrara-lhe, no apartamento de um amigo, o famoso Pentateuco de Tours, um volume iluminado do século VII; Mérimée, que viajara muito pela França e visitara inúmeras bibliotecas, observou que viu aquele Pentateuco em Tours; Libri mais que depressa explicou ao escritor que o que vira fora uma cópia francesa do original adquirido por ele na Itália. Mérimée acreditou; escrevendo a Edouard Delessert em 5 de junho de 1848, insistiu: "Para mim, que sempre disse que o amor por colecionar leva as pessoas ao crime, Libri é o mais honesto dos colecionadores, e não conheço ninguém, exceto Libri, que devolveria às bibliotecas os livros que outros roubaram.” Por fim, dois anos depois que Libri foi julgado culpado, Mérimée publicou na Revue des Deux Mondes, uma defesa tão ruidosa de seu amigo que o tribunal o convocou, acusando-o de desacato.
Sob o peso das provas, Libri foi condenado in absentia a dez anos de prisão e à perda de seus cargos públicos. Lorde Ashburnham, que comprara de Libri, por intermédio do livreiro Joseph Barrois, outro raro Pentateuco iluminado (este roubado da biblioteca pública de Lyon), aceitou as provas da culpa de Libri e devolveu o livro ao embaixador francês em Londres. O Pentateuco foi o único livro que lorde Ashburnham devolveu.
Porém, os cumprimentos que chegaram de todos os lados ao autor de ato tão liberal não o impeliram a repetir a experiência com outros manuscritos de sua biblioteca”, comentou Léopold Delisle, que em 1888 organizou um catálogo do espólio de Libri.
Mas então Libri já virara havia muito tempo a página final de seu último livro roubado. Da Inglaterra foi para a Itália e instalou-se em Fiesole, onde morreu em 28 de setembro de 1869, não reabilitado e pobre. Contudo, no final, teve sua vingança contra os que o acusavam. No ano de sua morte, o matemático Michel Chasles, que fora eleito para ocupar a cadeira de Libri no Instituto, comprou uma incrível coleção de autógrafos que, não tinha dúvida, causariam inveja e lhe dariam fama. Ela incluía cartas de Júlio César.
Pitágoras, Nero, Cleópatra e da esquiva Maria Madalena – todas falsas, revelou-se mais tarde: eram obra do famoso falsificador Vrain-Lucas, a quem Libri pedira que fizesse uma visita ao seu sucessor.
O roubo de livros não era novidade na época de Libri. Escreve Lawrence S. Thompson: “A história da bibliocleptomania remonta aos primórdios das bibliotecas na Europa ocidental e indiscutivelmente pode ser aprofundada no tempo até as bibliotecas gregas e orientais.”
As primeiras bibliotecas romanas eram compostas em larga medida por volumes gregos, pois os romanos haviam saqueado totalmente a Grécia. A Biblioteca Real Macedônia, a biblioteca de Mitridates do Ponto, a de Apelicão de Teos (mais tarde usada por Cícero) foram todas pilhadas pelos romanos e transferidas para solo romano. Os primeiros séculos cristãos não foram poupados: o monge copta Pacômio, que montara uma biblioteca em seu mosteiro de Tabennisi, no Egito, nas primeiras décadas do século III, fazia um inventário todas as noites para conferir se todos os livros tinham sido devolvidos.
Em seus ataques à Inglaterra anglo-saxônica, os vikings roubavam manuscritos iluminados dos monges, provavelmente por causa do ouro nas encadernações. Um desses volumes, o Codex aureus, roubado em algum momento do século XI, foi resgatado pelos seus donos originais porque os ladrões não encontraram mercado para aquela preciosidade. Ladrões de livros eram uma praga na Idade Média e na Renascença; em 1752, o papa Benedito XIV lançou uma bula segundo a qual os ladrões de livros seriam excomungados.
Outras ameaças eram mais correntes, como prova esta advertência inscrita num valioso tomo renascentista:

O nome de meu senhor acima vês,
Cuida portanto para que não me roubes;
Pois, se o fizeres, sem demora
Teu pescoço... me pagará.
Olha para abaixo e verás
A figura da árvore da forca;
Cuida-te portanto em tempo,
Ou nesta árvore subiras!

Ou esta, inscrita na biblioteca do mosteiro de São Pedro, em Barcelona.

Para aquele que rouba ou toma emprestado e não devolve um livro de seu dono, que o livro se transforme em semente em suas mãos e o envenene.
Que seja atingido por paralisia e todos os seus membros murchem. Que definhe de dor, chorando alto por demência, e que não haja descanso em sua agonia até que mergulhe na desintegração. Que as traças corroam suas entranhas como sinal do Verme que não morreu. E quando finalmente for ao julgamento final, que as chamas do Inferno o sumam para sempre.

Contudo, nenhuma praga parece deter aqueles leitores que, como amantes enlouquecidos, estão decididos a se apropriar de certo livro. A ânsia de possuir um livro, ser seu único dono, é uma espécie de cobiça diferente de todas as outras. “Lemos melhor”, confessou Charles Lamb, contemporâneo de Libri, “um livro que é nosso e que nos é conhecido há tanto tempo que sabemos a topografia de suas manchas e de suas orelhas, e lembramos que ele se sujou quando o lemos durante o chá com bolinhos amanteigados.”
O ato de ler estabelece uma relação íntima, física, da qual todos os sentidos participam: os olhos colhendo as palavras na página, os ouvidos ecoando os sons que estão sendo lidos, o nariz inalando o cheiro familiar de papel, cola, tinta, papelão ou couro, o tato acariciando a página áspera ou suave, a encadernação macia ou dura, às vezes até mesmo o paladar, quando os dedos do leitor são umedecidos na língua (que é como o assassino envenena suas vítimas em O nome da rosa, de Umberto Eco). Tudo isso, muitos leitores não estão dispostos a compartilhar – e se o livro que desejam ler está em posse de outra pessoa, as leis da propriedade tornam-se difíceis de obedecer, assim como as da fidelidade no amor. Ocorre também que a posse física torna-se às vezes sinônimo de um sentimento de apreensão intelectual. Acabamos achando que os livros que possuímos são os livros que conhecemos, como se a posse fosse, em bibliotecas como nas cortes, nove décimos da lei; acabamos achando que olhar para a lombada dos livros que chamamos de nossos, os quais obedientemente montam guarda nas paredes de nossa sala, prontos a falar conosco e somente conosco ao mero adejar das páginas, nos permitisse dizer “tudo isso é meu”, como se a simples presença deles já nos enchesse de sabedoria, sem que precisássemos abrir caminho por seus conteúdos.
Nisso, tenho sido tão culpado quanto o conde Libri. Ainda hoje, afogados como somos em dezenas de edições e milhares de exemplares idênticos do mesmo livro, sei que o volume que tenho nas mãos, aquele volume e nenhum outro, torna-se o Livro. Anotações, manchas, marcas de um tipo ou de outro, um certo momento e lugar caracterizam aquele volume como se fosse um manuscrito inestimável. Podemos relutar em justificar os roubos de Libri, mas o desejo subjacente, o anseio de ser, ao menos por um momento, o único capaz de chamar um livro de meu, é comum a mais homens e mulheres honestos do que talvez estejamos dispostos a reconhecer.

Alberto Manguel, em Uma História da Leitura

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Tears for Fears | Everybody Wants to Rule the World

Factótum



4

Ele era um homem atrás da mesa com um aparelho auditivo, o fio corria pela lateral do rosto e para dentro da camisa, onde ele escondia a bateria. O escritório era escuro e confortável. O homem vestia um terno marrom puído, uma camisa branca amassada e uma gravata desfiada nas bordas. O nome dele era Heathercliff.
Eu tinha visto o anúncio no jornal local e o lugar ficava perto de onde eu estava.

Procura-se jovem ambicioso com visão de futuro. Não é necessário experiência. Comece nas entregas e suba de cargo.

Esperei do lado de fora com cinco ou seis jovens, todos se esforçando para parecerem ambiciosos. Preenchemos nossas fichas de emprego e aguardamos. Fui o último a ser chamado.
Sr. Chinaski, o que te fez deixar os pátios das ferrovias?
Bom, eu não vejo futuro nelas.
É um emprego com bons sindicatos, convênio e aposentadoria.
Na minha idade, a aposentadoria pode quase ser considerada supérflua.
Por que o senhor veio para Nova Orleans?
Tinha muitos amigos em Los Angeles, amigos que eu sentia que estavam atrapalhando minha carreira. Queria ir para onde eu pudesse me concentrar sem ser amolado.
Como sabemos que o senhor ficará conosco por algum tempo?
Talvez eu não fique.
Por quê?
Seu anúncio afirmava que havia futuro para um homem ambicioso. Se não há futuro aqui, então eu vou embora.
Por que o senhor não fez a barba? Perdeu uma aposta?
Ainda não.
Ainda não?
Não. Apostei com meu senhorio que conseguiria um emprego em um dia, mesmo com esta barba.
Tudo bem, entraremos em contato.
Eu não tenho telefone.
Está certo, então, sr. Chinaski.
Saí e voltei para meu quarto. Desci pelo corredor sujo e tomei um banho quente. Vesti de novo minhas roupas e fui comprar uma garrafa de vinho. Voltei para o quarto, sentei perto da janela, bebendo e observando as pessoas no bar, vendo outras passarem. Bebi devagar e voltei ao pensamento de arrumar uma arma e acabar com tudo de uma vez, sem falatório e ponderação. Uma questão de intuição. Eu me perguntava sobre a minha. Terminei a garrafa, fui para a cama e dormi. Acordei por volta das quatro da tarde, com uma batida na porta. Era um garoto de entregas da Western Union*. Abri o telegrama:
sr. h. chinaski, apresente-se ao trabalho amanhã, às 8h. r.m. heathercliff co..

Charles Bukowski, em Factótum

Téo e o Mini Mundo

 

Umbigo

Honra lhe seja, ao poeta Vinicius. Coube-lhe, por volta de 1945, a iniciativa de lançar o grito meio esportivo meio libertário:
 
Meninas, soltai as alças,
bicicletai, seios nus!
 
As meninas acataram-lhe imediatamente a recomendação, na primeira parte; quanto à segunda, estão (suas filhas) ensaiando ainda. Tanto tempo assim para cumprir a ordem do poeta? Ocorreram fatores vários que justificam a demora. Em 1945, positivamente não dava pé; nos anos seguintes, e nos seguintes aos seguintes, também não. Ultimamente, as coisas vêm mudando, umas em ritmo de tartaruga, outras em ritmo de cápsula espacial. A bicicleta voltou. Este verão é bicicleta pura. Alças, não foi preciso soltá-las; desapareceram. Apareceu o bustier, e o próprio busto oferece fatias laterais generosas, prenúncio da auroral exposição plena. Executado, afinal, o mandamento viniciano? Uma coisa é certa: o verbo bicicletar foi lançado por ele, e hoje, quando as garotas bicicleteiam em bloco, ou a uma, é o verso de Moraes que circula por aí.
O poeta não previu o umbigo em expô, mas que poeta pode prever tudo? Digamos que seu poema de 45 pode ser lido de várias maneiras, e uma delas seria:
 
Meninas, livrai o umbigo,
bicicletai, seios nus!
 
Com ou sem bicicleta, o umbigo feminino, particularmente o juvenil, é hoje uma festa da cidade. Os olhos pousam nele antes de tudo; não mais no rosto, ou nas pernas, e isso está certo e conforme às leis do ser humano, pois no umbigo se localiza o centro, o ponto fundamental da figura, na estética da natureza. Dele se irradiam as outras partes do corpo, os outros elementos da “paisagem viva”: “No cânon ideal, a altura do umbigo divide exatamente a altura total, segundo o corte de ouro” (Constable, The Curves of Life).
E não se veja malícia no olhar que vai direto a esse acidente anatômico, pois é o umbigo que o chama, o intima, o imantiza. Ele quer ser visto e considerado em suas variantes de flor, que não se encontram duas iguais. Uns são recolhidos em si mesmos, por assim dizer secretos à luz do sol, misteriosos, exigindo código. Outros, ofertantes, radiosos, públicos, democráticos, comunicantes. Há os retorcidos como certos vegetais que nasceram para lutar contra o vento e renunciam à postura comum. Quem ousa dizer que o umbigo é cicatriz, memória da gestação uterina? Estrela, sim, de ocultos raios, a iluminar a abóbada corporal; botão de flor ou de secreta campainha, que domina com seu timbre a orquestra dos membros; microlaguna onde boia, não um barquinho, mas o princípio de toda vida… Tudo isso e mais o que o obstetra, esse escultor, fez dele, ou a imaginação lhe acrescenta escolhendo entre as infinitas virtualidades da forma.
Umbigos andam por aí, desafiando tua capacidade de curtir o novo dentro do eterno. Se na praia eles nem são percebidos, porque se inserem no quadro global, na rua, no coletivo, na loja, no escritório, são uma presença nova, uma graça diferente acrescentada ao espetáculo feminino, um dom sem destinatário certo, que é a bonificação de um ano em que tantos perderam na Bolsa mas acabam lucrando na vista.
O umbigo deixa-se conversar, responde naturalmente. Há um diálogo novo entre ele e o transeunte. Certos umbigos parecem rir da piada que anda no ar, outros sorriem com discrição, e há os que se mostram sérios mas urbanos. De poucos sei que podem ser chamados de antipáticos, e esses, seria melhor que continuassem guardados. Receio que os mais pretensiosos acabem se ostentando em moldura barroca, cercados por um cordão de ouro ou pintura a óleo, quem sabe se com um diamante na cavidade? Nada de artifícios. O umbigo em si, casto e cantante, esse é que merece todo o poder e glória neste morrer de ano de 1972, em que precisamos ansiosamente contemplar alguma coisa pura, repousante: um umbigo que seja.

Carlos Drummond de Andrade, em De Notícias e Não Notícias Faz-se A Crônica

O inventor de sabores




Se eu pudesse escolher um outro homem para ser, seria um inventor de novos sabores para fábricas de sorvetes. Sei que decisões deste tipo são tomadas por frios (no caso, gelados) e impessoais departamentos de marketing de acordo com pesquisas científicas e estratégias de venda, mas nada me impede de imaginar que as grandes fábricas de sorvete empreguem especialistas exclusivamente para pensar em novos sabores. Profissionais muito bem pagos cuja única função consiste em, vez por outra, invadir a sala da diretoria e anunciar:
Bolei um novo sabor!
Grande alvoroço. Todos os chefes de departamento são convocados enquanto o inventor do novo sabor escreve sua criação num papel, para não haver o risco de esquecer. Finalmente, com todos reunidos, com uma unidade inteira da fábrica parada e esperando, ela revela a ideia.
— “Chucruva”! Chocolate por fora, uma camada de crocante, e uva por dentro!
Aplausos. Vivas. Ele se superou outra vez. Produção e promoção são postas em marcha frenética enquanto o bolador de sabores volta para a sua sala, entre tapinhas nas costas, para pensar em outro.
Ele teria que ter um talento especial, ao mesmo tempo malévolo — só quem está de dieta sabe como dói resistir ao apelo de cada novo sabor cuidadosamente lançado para ser irresistível — e infantil, inocente e calculista. E seria um profissional valorizadíssimo.
Sabe quem é aquele ali?
Quem?
O criador do “Nhaque”!
Do quê?
Do “Nhaque”. Caramelo, morango, nata e um núcleo de mel e amêndoas. Um clássico. Ele é uma legenda viva no ramo. Acaba de recusar uma proposta milionária da Kibon.
Olhe, ele está de olhos fechados... e sorrindo como um anjo!
Deve estar pensando num novo sabor.

Luís Fernando Veríssimo, em A mesa voadora

“Rai-a-puta-pô!"



[…]

Mas, aquilo de ruim-querer carecia de dividimento ― e não tinha; o demo então era eu mesmo? Desordenei quase, de minhas ideias. Eu matava um tiquinho, só? Em nome de mim, eu não matava? Só forcejei por sobrenadar alto em mente o mando daquela vozinha. Rú, eh, masquei meus beiços, eu arrebentasse. Vi que acabava tendo de matar, e era o que eu mesmo queria. Como que tivessem espalhado, ombro com ombro, pelos inteiros cabíveis do Chapadão, os diabinhos, mil e mil, tocando lindas violas ― para acabar com o que eu mesmo me falasse, e de mim quisesse por valia me entender, contra o que o demônio-mestre tinha determinado... Sendo que mal resisti, nas últimas, saiba o senhor. Ah, mas. E é preciso, por aí, o senhor ver! quem é que era e que foi aquele jagunço Riobaldo! Pois em instantâneo eu achei a doçura de Deus! eu clamei pela Virgem... Agarrei tudo em escuros ― mas sabendo de minha Nossa Senhora! O perfume do nome da Virgem perdura muito; às vezes dá saldos para uma vida inteira...
Súbito sendo ― pois, pois ― que um recurso eu tive, e por uma greta me saí, levando a salvo comigo o desgraçado nhô Constâncio Alves. O conforme foi! que isto eu espiritei! que fazia a ele uma pergunta. Respondesse a mal, morresse; mas, de outro jeito, recebia perdão. Aí a pergunta seguinte:
Se sendo que o senhor é de minha terra, a pois: conheceu um homem que se chamava Gramacêdo? Será, o senhor é parente dele?
Só esperei. Ele dissesse que tinha conhecido o outro, e, aí, morria, por eu não poder não-matar; por quanto a salvação dele mermava, que nem morrão de candeia. E assim, com obrigação minha mesma, eu tinha para sempre combinado.
Mas nhó Constâncio Alves era para ganhar, no azo daquilo, pelo que deu, de resposta:
Gramacêdo? Sinto dizer, mas esse eu nunca vi, nem dele ouvi falar. Tenho parentescos com ninguém de tal nome...
A minha mão já tinha estado para o revólver, brandamente. Nhó Constâncio Alves percebeu o mal-amém. Confuso como se rebaixou um pouquinho no tamanho: ele devia de estar abrindo os joelhos, por tremor de medo nas pernas. Aí ele mesmo então achasse que carecia de muito morrer? ― num pingo eu pensei, traiçoeiro. O medo mostrado chama castigo de ira; e só para isso é que serve. Ah , mas ― ah, não! ―; eu tinha decidido. Tinha ou não tinha. Eu? Assim, noutro repingo: arejei que toda criatura merecia tarefa de viver, que aquele homem merecia viver ― por causa de uma grande beleza no mundo, à repentina. Um anjo voou dali? Eu tinha resistido a terceira vez. Agora, nhó Constâncio Alves estava delivrado de perigo. Só que eu gritei:
O senhor tem seu dinheiro?
Ligeiro, novo, o homem caçou com suas mãos o surrãozinho, que abriu: estava cheio de notas, bem enroladas e embrulhadas num pano; e assim me dava, me presenteava. Mirei aquele triste pescoço. O que em seco ele foi engulindo: que podiam ser as contas todas dum terço.
Aproximei o cobre. O ele, nhô Constâncio Alves, deixei que fosse embora. Nem espiei ― para dele não ver as costas. Mas, aí, então, para me pacificar e enterter o Outro, eu tive de falar alto!
Perdoei este; mas, o primeiro que se surgir, destas estradas, paga!
Eu disse. Eu ia cumprir?
De seguida, o primeiro veio, logo mais adiante; quase no se inteirarem três léguas. Conforme houve fatos, coisa que se passou. E foi numa várzea, com uns boizinhos ali bem pastando. Demos com um sujeito, aparecido viajor. Ele vinha numa égua. Essa égua era acastanhada, com alguma altura. Aqueles arreios, de velhos, era que desfaziam. Um cabo da rédea estava sendo de couro, mas o outro de sedenho. A égua também cambaiava. O homem tinha cara de focinho, avançando o formato dos ossos da boca! não tinha queixo. Desgraçado desse homem, pelo que em sua vida ia ser, pelo que seus aspectos indicavam. Nem merecia dó, assim achei. Mas, na companhia dele, atrás, vinha também um cachorrinho.
Eles esbarraram. O cachorrinho pegou a latir, nesse ofício que quase todo cão tem, de ser presumido valente. O homem bambeou de si, em cima da égua, ele estava pecando de pavor. Como que, num só relance ele transformou três caras. E para o pretinho Guirigó me virei, por perguntar!
Aqui, este, deveras eu mato?
Senhor mata? Senhor vai matar? ― o pretinho só se saíu pelos olhos.
Ao que escutei queixos e dentes do homem bater. Súdito indivíduo assim não tinha ação de voz nem tirava um suplicar. Tudo o que não sabia, ele adivinhava. Previsse que ia morrer só para indenizar do perdão dum outro, só por preencher o lugar que devia de ser o do nhô Constâncio Alves?
Ah, não. Agora, a vontade de matar tinha se acabado! Sei e soube: por certo que o demo, agora, escondia sua intenção, por desconfiar de que eu não fosse querer cumprir. Com ele, meu senhor, assim é: sempre escolhe seus estilos. Ao mais, dessa vez, ele sabia que não carecesse de me azuretar. Sabia que eu estava até com enjóo da situação daquele homem da égua, meu gosto era permitir que ele fosse s embora, forro de qualquer castigo. Mas sabia igual que eu estava na estrita obrigação de matar ― porque eu não podia voltar atrás na promessa da minha palavra declarada, que os meus cabras tinham escutado e glosado. Ah, o demo bem me conhecia! Devia de estar no astuto, ali por perto, feitor, se pagodeando de mim: querendo ver bem boa execução, do meu dever de crime. E o homem da égua o nada de tudo espiava, por mais inteiriço não se ser se forcejava, e um espírito de silêncio ele gemia. Aí onde era que estava o anjo-da-guarda dele? Aí tinha de morrer. Carecia de morrer, porque o diabo, por novas voltas, no nó de compromisso tinha me pegado; e porque outro ao-menos-remédio não havia. O cachorrinho por sua vez entendia isso, e latiu, cainhava, ganiz; mais conseguido do que o dono ele sabia dar de gemer. Mas eu estava pensando redobrado.
Como era que eu ia matar aquele sujeito, anunciado de pobre, e matar em vez de um outro, sadio em bojo, e rico? Aquilo era justiça? Vai ver, ele nem conhecesse o nhó Constâncio Alves, nem soubesse quem fosse. Era justiça? Era possível? Eu pensei. O que era que Zé Bebelo, numa urgência assim, no arco, inventava de fazer? Eu tinha a preguiça de falar perguntas.
Os outros, parados em volta, esperavam, por apreciar. Ninguém não tinha pena do homem da égua, mirei e vi. Consideravam de espreitar meu procedimento. A aflêima de assim loguinho ter de botar e ouvir minhas palavras no ar, me agravou. E foi então, para retardar os momentos, que ao cego Borromeu eu indaguei!
Seja o que, companheiro velho? E eh lá isso?...
Atabafado. Até porque, de pedir avisos a um cego, assim, em públicas varas, eu tivesse de me vexar.
Se é se é, Chefe? A-hem? Se é o que mecê sumeteu, enhém? Senhor quer que seja que se mate um tal? ― sem-termo do cego me respondeu, sem-razão. Ao que eu tinha trazido aquele comigo, para a nenhuma utilidade. ― Senhor mesmo é que vai matar? ― o menino Guirigó suputou, o diabo falou com uma flauta. ― Te acanha, dioguim, não-sei-que-diga!Vai sêbo... ― eu ralhei. Onde os outros riram rabo.
Mas, entre isso, o homem condenável, em cima da égua, amontado sempre, chorava por si mesmo, sensato sério; chorava, decerto, o ter crescido de sua longe meninice. Nem perguntei o nome dele, nem donde era que era. Um naqueles casos, de nada carecia nem necessitava. A cara dele, pelo malaventurar, se quebrava das formas e cor, e perpassava ― ele era um ser com a cara desmanchada. Aí o Acauã, por um gesto de aviso meu, assestava nele, sobrestante; porque, mesmo no magoar do terror, por vez um se assopra de adôido, dá bote, dá nas armas. Agarrado todo na égua, só encolhido, encarapitado ― o pobre.
Vai sêbo! ― eu tornei a xingar o menino-de-infância.
Adforma que eu tinha de resolver. Antes ligeiro, para os meus homens não me acharem aparvo. Ou o demo. O demo? Ainda que muito eu sei. Agora esse se prespiritava por lá, sabível mas invisível; e ele estava se rindo de mim, meu próximo.
Ah, não! Somei que tive pena do homem? A cachorrinha se latia. Mas, como era que eu podia atirar numa triste pessoa daquelas, que semelhava com os ombros debaixo de todas ventanias? A cachorrinha perturbava os cavalos. Aperto do dever que eu tinha de cumprir, de editada palavra. Ou eu temi também o Tranjão, oTibes, o Cujo, que eu mesmo ajustara por meu vigiador? Sej a o que; hoje mais rezo. O homem nas costas da égua, desinquieta, que agora dava debate. Decerto porque, animal de montada, no que percebe aquele humano pavor alheio, o todo desprezo ao cavaleiro está obrigado a demonstrar. Conseguinte que, sobre assim, todos riram mais: ― Oé, eh, ele já está se deixando! ― algum reparou. Se via? Se o homem dera de obrar, mesmo permeando para a sela, que se sujava? As caçoadas, constavam de querer ver aquilo. Daí, o cachorro, por resguardo de seu dono, agrediu os cavaleiros ― com o qual a latição dele, e os arreganhos, os cavalos de uns desgostavam e se empinavam, por reboliz. O homem, mesmo, era que se franzia, no não dizer, não desbobeava. Ah, e Zé Bebelo! ― repentino relembrei, as remotas vezes. Os cavalos saltando assim, os cavaleiros bramando: recordação de Zé Bebelo. Só Zé Bebelo servia para apurar um impedimento desses, no deslindar. Onde ele? Ah! Ah e foi aí ― então ― que estouradamente achei: fortes ideias! Rapatrás, fazendo meu cavalo também se arquear e empinar, às as patas ― eu disse. Disse, que bradei ― num entusiasmamento daqueles mesmos de Zé Bebelo ― a fala igual à de Zé Bebelo, na baralhada em pompa dos animais, arre crinas, na arroubagem de arruaça. Eu pronunciei:
Rai-a-puta-pô! Não tenho que matar este desgraçado, porque minha palavra prenhada não foi com ele: quem eu vi, primeiro, e avistei, foi esse cachorrinho!...
Só um assarapanto de silêncio. Daí, me vivavam. Todos entenderam, me admiraram. A tanto que sei. Agora, eu, digo ao senhor: dele, do Demo ― naquele instante ― agora era eu quem ria!
Ei-ei, gente, segura o cão! ― dei ordem. Num três-tempo a cachorrinha estava pega, se esbrabejava. No que uma peia, um laço, ou um cabresto, eram desconformes para isso, então o Pacamã-de-Presas e o Jiribibe arrumaram uma jarda de fina corda, com ela se amarrou o bichinho num pé de assa-leitão.
Não deixem ela uivar... Não deixem ela uivar... ― foi o que o cego Borromeu disse, pelo modo ele tinha medo de uivado de cachorro. ― A bom, cachorro a gente enforca... ― o menino Guirigó deu atrevimento de ensinar. Mandei que esse menino fosse para mais longe, perder as influências. Deram uma palmada na anca do cavalo dele, que o João Vaqueiro puxou, para ir exilar os dois em boa conveniente distância.
Um cachorro, quando se enforca, chora lágrimas ― os olhos dele regulam com os de gente... ― foi o que o Alaripe disse, com simples voz. A tudo, pensei. Agora, matar aquela cachorrinha? O que menos eu pudesse, só mesmo por pragas. Pelo tanto que a cachorrinha se prezava correta, latindo tão relatado. Ah, não! Ah, não, não matava. Mais, por aí, eu também já tinha aprendido ― das sutilezas. Tornei a transdizer!
Adonde!... E nem não foi essa cadela. A égua, essa é que foi ― a que primeiro deu nas minhas vistas!
[…]

Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A ternura

Pureza de coração é desejar uma só coisa.” Foi assim que Kierkegaard definiu, a pureza. Puro é aquilo em que não há misturas; é uma coisa só.
A paixão é pura porque vive de uma coisa só: a imagem da pessoa amada. Não se trata de uma imagem mais bonita que as outras. É uma única imagem que apaga todas as outras. O apaixonado só pensa na pessoa amada. Sempre. Os assuntos que fazem as conversas do cotidiano não lhe interessam. Bem que ele gostaria de falar sobre o seu amor, mas se cala sabendo que ririam dele. Camões, no episódio de Inês de Castro, escreveu que ela caminhava

Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.

Se não havia ouvidos humanos a quem pudesse dizer o nome que tinha gravado no peito, que as árvores, a relva e as pedras fossem depositárias do seu segredo – um único nome.

A raposa pediu que o Pequeno Príncipe a cativasse.
Que quer dizer “cativar”? — ele perguntou.
A raposa explicou:
Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim, assim, na relva. Eu te olharei com o canto do olho e tu não dirás nada. A linguagem é uma fonte de mal-entendidos. Mas, a cada dia, te sentarás mais perto... Se tu vens, por exemplo, às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz. Quanto mais a hora for chegando, mais eu me sentirei feliz. Às quatro horas, então, estarei inquieta e agitada: descobrirei o preço da felicidade!

Aconteceu então que o Pequeno Príncipe cativou a raposa. O tempo passou e chegou o dia em que ele precisou partir. A raposa disse:

Ah! Eu vou chorar.
A culpa é tua; eu não te queria fazer mal, mas tu quiseste que eu te cativasse...
Quis — disse a raposa.
Mas tu vais chorar!
Vou — ela respondeu.
Então, não sais lucrando nada!
Eu lucro — disse ela — por causa da cor do trigo. — E acrescentou: – Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos cor de ouro. O trigo, que é dourado, fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo...

O amor começa quando colocamos uma metáfora poética no rosto da pessoa amada. A paixão é uma experiência estética. Está ligada à contemplação da beleza. A pessoa pela qual se está apaixonado é bela. Não é que ela seja bela – é o olhar apaixonado que a torna assim. Porque não vemos o que vemos, vemos o que somos. Uma mulher é bela quando nos vemos belos ao seu olhar. Quem, ao olhar para uma mulher, pensa em sexo não é um apaixonado.
O apaixonado sorri ao contemplar a amada dormindo, sem tocá-la. O corpo de lado, o rosto sobre o travesseiro, os olhos fechados, o suave ressonar, a camisola suspensa deixando ver a calcinha – é uma imagem de paz, de tranquilidade. E um momento de ternura. Há um desejo de acariciá-la, mas a mão se contém; nenhum movimento dele deverá interromper a beleza da cena. Nela, os impulsos sexuais estão proibidos.
O sexo dos adolescentes e dos jovens se parece com um furúnculo inchado – túrgido, vermelho, dolorido, que busca se livrar do incômodo. O que se busca não é a experiência amorosa, é rasgar o furúnculo para que o pus saia, trazendo alívio. E o esperma não se parece com pus? Quando o orgasmo acontece, numa mistura de dor e prazer, o furúnculo se esvazia e o corpo fica em paz. Pode até ser que nesse momento o parceiro se esqueça da mulher ao seu lado, vire as costas para ela e durma.
Foi sobre esse sexo que Freud escreveu. Era o único que ele conhecia. Era o sexo que Tomas, personagem de A insustentável leveza do ser, fazia com suas namoradas. Mas uma delas protestava: “não procuro o prazer, procuro a alegria...”.
O sexo-furúnculo prescinde da ternura. Tomas não sentia ternura por suas amantes. Elas eram objetos para seu alívio. Ele as usava. Não as amava. O amor mora no olhar terno que sorri ao contemplar o rosto da pessoa amada.

Rubem Alves, em Cantos do Pássaro Encantado

Beijo Partido | Toninho Horta e Arismar do Espírito Santo

Cai chuva. É noite.

Cai chuva. É noite. Uma pequena brisa
Substitui o calor.
P’ra ser feliz tanta coisa é precisa.
Este luzir é melhor.

O que é a vida? O espaço é alguém para mim.
Sonhando sou eu só.
A luzir, em quem não tem fim
E, sem querer, tem dó.

Extensa, leve, inútil passageira,
Ao roçar por mim traz
Uma ilusão de sonho, em cuja esteira
A minha vida jaz.

Barco indelével pelo espaço da alma,
Luz da candeia além
Da eterna ausência da ansiada calma,
Final do inútil bem.

Que se quer, e, se veio, se desconhece
Que, se for, seria
O tédio de o haver... E a chuva cresce
Na noite agora fria.

Fernando Pessoa, em Poesias inéditas e poemas dramáticos 

O impagável Quino

Cântico dos cânticos

Maria, com um vinco entre as sobrancelhas, escolhe o segundo prato. Depois sorri-me deliciosamente. Como não encantar-me? Como não comparar-me a Salomão? “Sustentai-me (diz-lhe a Sulamita), sustentai-me com passas, confortai-me com maçãs, que desfaleço de amor.”

Mário Quintana, em Sapato Florido

Capítulo 35 – O Caminho de Damasco



Ora aconteceu, que, oito dias depois, como eu estivesse no caminho de Damasco, ouvi uma voz misteriosa, que me sussurrou as palavras da Escritura (Act., IX, 7): “Levanta-te, e entra na cidade.” Essa voz saia de mim mesmo, e tinha duas origens: a piedade, que me desarmava ante a candura da pequena, e o terror de vir a amar deveras, e desposá-la. Uma mulher coxa! Quanto a este motivo da minha descida, não há duvidar que ela o achou e mo disse. Foi na varanda, na tarde de uma segunda-feira, ao anunciar-lhe que na seguinte manhã viria para baixo. – Adeus, suspirou ela estendendo-me a mão com simplicidade; faz bem. – E como eu nada dissesse, continuou: – Faz bem em fugir ao ridículo de casar comigo. Ia dizer-lhe que não; ela retirou-se lentamente, engolindo as lágrimas. Alcancei-a a poucos passos, e jurei-lhe por todos os santos do céu que eu era obrigado a descer, mas que não deixava de lhe querer e muito; tudo hipérboles frias, que ela escutou sem dizer nada.
Acredita-me? perguntei eu no fim.
Não, e digo-lhe que faz bem.
Quis retê-la, mas o olhar que me lançou não foi já de súplica, senão de império. Eu desci da Tijuca, na manhã seguinte, um pouco amargurado, outro pouco satisfeito; e vinha dizendo a mim mesmo que era justo obedecer a meu pai, que era conveniente abraçar a carreira política.., que a constituição… que a minha noiva.., que o meu cavalo…

Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

O guardador de águas

V

Eles enverdam jia nas auroras.
São viventes de ermo. Sujeitos
Que magnificam moscas — e que oram
Devante uma procissão de formigas…
São vezeiros de brenhas e gravanhas.
São donos de nadifúndios.
(Nadifúndio é lugar em que nadas
Lugar em que osso de ovo
E em que latas com vermes emprenhados na boca.
Porém.
O nada destes nadifúndios não alude ao infinito menor de ninguém.
Nem ao Néant de Sartre.
E nem mesmo ao que dizem os dicionários: coisa que não existe.
O nada destes nadifúndios existe e se escreve com letra minúscula.)
Se trata de um trastal.
Aqui pardais descascam larvas.
Vê-se um relógio com o tempo enferrujado dentro.
E uma concha com olho de osso que chora.
Aqui, o luar desova…Insetos umedecem couros
E sapos batem palmas compridas…
Aqui, as palavras se esgarçam de lodo.

Manoel de Barros, em O guardador de águas

A arte naif da alagoana Tânia Pedrosa

Sertão Sempre Vivo (S.D.), de Tânia Pedrosa