[…]
Por feliz coincidência, a revolução
de fato irrompeu na semana da publicação do Manifesto, em
fevereiro de 1848, primeiro em Paris e depois, como um estopim, por
grande parte da Europa continental. Após a abdicação do rei Luís
Felipe e a proclamação da República francesa, o governo belga,
tomado de pânico, determinou que Karl Marx abandonasse o país em 24
horas e jamais retornasse. Felizmente ele havia recebido um convite
do novo governo provisório de Paris: “Bom e fiel Marx…. A
tirania o exilou, agora a França livre abre suas portas para você e
todos aqueles que lutam pela causa sagrada, a causa fraternal de
todos os povos.”
Contudo, depois de apenas um mês em
Paris, partiria para Colônia na esperança de levar a revolução à
Alemanha. A arma escolhida fora, como de costume, a palavra impressa:
fundou outro jornal, a Nova Gazeta Renana, que, ao longo de
sua breve existência, suportou constante assédio oficial. Em julho
do mesmo ano, Marx foi levado aos tribunais por “insultar e
caluniar o promotor-geral”; em setembro, depois da promulgação da
lei marcial, o comandante militar de Colônia suspendeu a publicação
do periódico por um mês; em fevereiro, quando qualquer
possibilidade de revolução estava completamente extinta,
acusaram-no de “incitação à revolta”. Marx, porém, convenceu
o júri a absolvê-lo com um brilhante discurso feito do banco dos
réus. Finalmente, em maio de 1849, as autoridades prussianas
processaram metade do corpo editorial e aconselharam a deportação
dos demais – incluindo Marx, que teve sua cidadania cassada.
Retornou a Paris em junho de 1849 e
encontrou a cidade sob o domínio de uma reação monarquista e uma
epidemia de cólera. Confrontado por uma ordem oficial que o bania
para o departamento de Morbiham, na região da Bretanha, então
infestado pela malária, refugiou-se no único país europeu ainda
disposto a abrigar revolucionários desarraigados. Seguiu de navio
para a Inglaterra em 27 de agosto daquele ano e ali permaneceu até
sua morte, em 1883. “Parta imediatamente para Londres”, escreveu
a Engels, que estava em visita à Suíça. “Lá nos entregaremos ao
que interessa.”
Alguns meses após chegar a Londres,
Karl Marx deparou com um trenzinho elétrico em movimento na vitrine
de uma loja em Regent Street. Ficou “extasiado e ansioso”, de
acordo com uma testemunha – não pela emoção da novidade, mas
pelas implicações econômicas. “O problema está resolvido – as
consequências são imprevisíveis”, disse ele a seus atônitos
camaradas. “No rastro de uma revolução econômica virá a
revolução política, pois esta é apenas uma expressão daquela.”
Parece improvável que qualquer outra pessoa em meio à multidão da
Regent Street tenha parado para considerar as consequências
políticas e econômicas desse cavalo-de-tróia ferroviário; para
Marx, era tudo o que importava.
Obteve acesso à sala de leitura do
Museu Britânico em junho de 1850 e passou o ano seguinte devorando
livros sobre economia e números atrasados da revista The
Economist. Em abril de 1851 declarava estar tão adiantado que
“terei concluído toda a parte econômica em um prazo de cinco
semanas”. “E, uma vez isso feito, finalizarei a economia política
em casa e me dedicarei no museu a outra área de conhecimento.”
Embora quase todas as noites ocupasse seu assento na sala de leitura,
a tarefa que se impusera parecia não ter fim. “O material em que
estou trabalhando é tão terrivelmente intricado que, não importa
quanto me esforce, não terminarei dentro das próximas seis ou oito
semanas”, escreveu em junho. “Há, além do mais, constantes
interrupções de todos os tipos, inevitáveis nas terríveis
circunstâncias em que vegetamos aqui…”
Desde o momento da chegada a Londres,
Karl e Jenny Marx viram-se acossados por constantes crises
domésticas. Eles já tinham três filhos pequenos, e o quarto
nasceria em novembro de 1849. Despejados de um apartamento em
Chelsea, em maio de 1850, por não pagarem o aluguel, encontraram
abrigo temporário na casa de um negociante de rendas judeu em Dean
Street, Soho, onde passaram o verão de maneira miserável, a
equilibrar-se no limiar da privação, antes de se mudarem para um
apartamento um pouco melhor mais acima, na mesma rua. Engels
veio-lhes em resgate, sacrificou as próprias ambições
jornalísticas em Londres e retornou ao escritório da Ermen &
Engels em Manchester, onde permaneceria pelos próximos 20 anos.
Embora a razão fosse em grande parte o intuito de sustentar um amigo
brilhante e necessitado, ele agiria como uma espécie de agente
infiltrado nas linhas inimigas, enviando a Marx detalhes
confidenciais sobre o comércio de algodão e análises
especializadas sobre a situação dos mercados internacionais –
além de remessas regulares de dinheiro surrupiado da caixa
registradora ou retirado de modo fraudulento da conta bancária da
companhia.
Mesmo com essas subvenções, a
família Marx vivia em grande miséria e iminente desespero. A
mobília do apartamento de dois cômodos estava totalmente quebrada,
esfarrapada ou rasgada e coberta por uma grossa camada de pó. A
família toda – pais, crianças e empregada – dormia em um
pequeno quarto nos fundos, enquanto o outro aposento servia de
gabinete de estudos, quarto de brincar e cozinha. Um espião da
polícia prussiana que conseguiu entrar no apartamento relatou a seus
superiores em Berlim:
Marx leva a vida de um verdadeiro
boêmio intelectual…. Embora frequentemente fique à toa durante um
bom tempo, trabalha dia e noite com persistência incansável ao se
defrontar com uma grande quantidade de afazeres. Não tem horário
fixo para dormir ou acordar. Em geral fica acordado a noite toda e
então se deita completamente vestido no sofá e dorme até a noite
seguinte, sem se incomodar com o vaivém dos demais.
Essa existência caótica era pontuada
por constantes tragédias familiares. O filho mais novo de Marx,
Guido, morreu subitamente de um ataque de convulsões em novembro de
1850; sua filha Franziska faleceu, com apenas um ano, na Páscoa de
1852, depois de um severo surto de bronquite. Outro filho, seu
querido Edgar, morreu de tuberculose em março de 1855. Atormentado
pela dor, Marx cambaleava à beira da cova, enquanto o caixão
baixava à terra, fazendo com que grande parte dos presentes se
convencesse de que tinha a intenção de atirar-se sobre o esquife.
Por precaução, um braço firme o amparou.
“Se ao menos”, escreveu Engels em
sua carta de condolências pelo falecimento de Franziska, “houvesse
uma maneira de você e sua família se mudarem para uma residência
mais espaçosa, em um distrito mais salubre.” Não é possível
afirmar que a penúria tenha matado Franziska, mas com certeza
dominava a vida de seus pais. Credores enfurecidos – açougueiros,
usurários e oficiais de justiça – batiam continuamente à porta
de entrada exigindo pagamento. “Há uma semana atingi o ponto
aprazível que me impossibilita de sair porque meus casacos estão
penhorados, e não mais posso comer carne pela falta de crédito”,
escreveu Marx em fevereiro de 1852. Ainda no mesmo ano, revelaria a
Engels: “Durante os últimos oito ou dez dias tenho alimentado
minha família unicamente com pão e batatas, e não é garantido que
consiga algo hoje…. Como poderei sair de toda essa desordem
infernal?” Naquele momento, Marx recebia uma remuneração regular
como correspondente do New York Daily Tribune, ao qual
submetia dois artigos por semana a duas libras cada. Isso, porém,
mesmo somado ao subsídio extra de Engels, não era suficiente – e,
é claro, proporcionava mais um motivo para os lapsos de concentração
em seu trabalho.
“Apesar de tudo, a coisa se aproxima
célere do fim”, escreveu em junho de 1851. “Chega uma hora em
que se deve forçosamente parar.” Isso mostra uma risível falta de
autoconhecimento: Marx podia com alegria romper com amigos e
associações políticas, mas não tinha a mesma facilidade para
abandonar o trabalho – em especial esta obra, um vasto compêndio
de estatísticas, história e filosofia que afinal desnudaria os
vergonhosos segredos do capitalismo. Quanto mais pesquisava e
escrevia, mais distante parecia do fim. “O principal”, Engels
alertou em novembro de 1851, “é que você possa outra vez fazer
uma aparição pública com um grande livro…. É absolutamente
essencial romper o silêncio provocado por sua prolongada ausência
do mercado editorial alemão.”
Contudo, o projeto foi mais uma vez
deixado de lado, vítima de outras “constantes interrupções”.
Imediatamente após o golpe de dezembro de 1851 na França, Marx
escreveu O 18 Brumário de Luís Bonaparte a pedido de um
semanário norte-americano que acabara de ser criado, o Die
Revolution. Os anos seguintes foram desperdiçados em contendas e
polêmicas contra companheiros de exílio. Marx argumentava que, mais
que manifestações de ressentimento, eram necessárias intervenções
políticas essenciais, uma vez que os falsos messias socialistas –
caso não desmascarados – seriam muito mais atraentes às massas
que os legítimos monarcas. “Estou engajado em uma luta de vida ou
morte contra os falsos liberais”, declarou.
O que eventualmente o trouxe de volta
aos estudos econômicos foi a aparente chegada do tão aguardado
cataclismo financeiro internacional no outono de 1857. A crise
começou com um colapso bancário em Nova York e depois espalhou-se
por Áustria, Alemanha, França e Inglaterra como um apocalipse
galopante. Engels, que convalescia de uma enfermidade, voltou às
pressas ao seu posto em Manchester para testemunhar a diversão –
preços em queda, falências diárias e pânico selvagem. “Aqui, a
aparência geral do comércio [do algodão] é verdadeiramente
agradável”, relatou ele. “Os colegas estão completamente
enfurecidos por meu súbito e inexplicável acesso de bom humor.”
Marx também estava infectado pelo espírito melodramático do
momento. Ao longo do inverno de 1857-58, sentava-se todas as noites
em seu gabinete até quatro horas da manhã examinando suas anotações
econômicas “para poder ao menos traçar claramente os contornos
antes do dilúvio”. A inundação jamais veio; Marx continuou a
construir sua arca, convencido de que, cedo ou tarde, ela seria
necessária. Quando sua aritmética rudimentar provou-se inadequada
para fórmulas econômicas complexas, fez um rápido curso de revisão
de álgebra explicando que, “para o benefício do público, é
absolutamente essencial examinar a matéria a fundo”.
Seus rabiscos noturnos, que chegavam a
mais de 800 páginas, permaneceram desconhecidos até que o Instituto
Marx-Engels de Moscou os divulgasse em 1939. E só se tornaram
amplamente disponíveis em 1953, com a publicação da edição alemã
dos Esboços de uma crítica da economia política. A despeito
de sua vasta extensão, os Esboços são uma obra fragmentária
– descrita por Marx como uma verdadeira mixórdia –, que pode no
entanto ser compreendida como o elo entre os manuscritos de Paris, de
1844, e o primeiro volume do Capital, de 1867. Há longas
seções sobre significado de dinheiro, alienação e dialética que
reverberam passagens dos manuscritos de 1844. A diferença que mais
chama a atenção é que ele passa a mesclar filosofia e economia,
enquanto antes ambas eram tratadas como disciplinas estanques. (Como
o escritor alemão Ferdinand Lassalle ressaltou, Marx era “um Hegel
que se tornou economista, um Ricardo que virou socialista”.) Em
determinada parte, a análise da força de trabalho e da mais-valia
parece um rascunho da completa exposição dessas teorias no Capital.
-Marx geralmente se referia a seu
trabalho nesse período como “a porcaria econômica”, uma frase
desdenhosa em que havia, sem dúvida, um resquício de culpa. Já em
1845 ele alegava que o tratado sobre economia política estava quase
terminado, mas ao longo dos 13 anos seguintes repetiu e enriqueceu a
mentira tantas vezes que a expectativa de seus amigos foi alçada a
um nível quase insuportável. A julgar pelo tempo despendido, eles
presumiam que a obra deveria de fato apresentar uma enorme carga
explosiva que destruiria instantaneamente os falsos alicerces do
edifício capitalista. Os comunicados regulares enviados a Engels em
Manchester mantinham o mito de que a conclusão estava próxima.
“Acabei de demolir a teoria do lucro tal como foi até agora
formulada”, anunciou radiante em janeiro de 1858. Na verdade,
porém, tudo que tinha a mostrar após aqueles dias inteiros no Museu
Britânico e as longas noites sentado à sua escrivaninha era uma
pilha instável de anotações não-publicáveis, repletas de
apontamentos fortuitos.
No início de 1858, Ferdinand Lassalle
se ofereceu para arranjar para Marx um contrato com um editor
berlinense chamado Duncker (cuja esposa era curiosamente uma das
amantes de Lassalle). Marx informou ao editor que sua “exposição
crítica do sistema da economia burguesa” se dividiria em seis
livros, que deveriam ser publicados em fascículos: “1. O capital
(com alguns capítulos introdutórios). 2. A propriedade territorial.
3. O trabalho assalariado. 4. O Estado. 5. O comércio internacional.
6. O mercado mundial.” O primeiro volume estaria pronto para
impressão em maio daquele ano, o segundo sairia em poucos meses e
assim por diante. Entretanto, como era comum acontecer ao enfrentar
prazos apertados para entregar seus escritos, o corpo de Marx
rebelava-se em protesto. “Estive tão doente esta semana por causa
do meu problema biliar que estou incapacitado de pensar, escrever ou,
na verdade, de fazer qualquer outra coisa”, confidenciou a Engels
em abril de 1858. Acossado por dores no fígado, descobriu que sempre
que se sentava e escrevia por algumas horas tinha de se deitar
completamente imóvel por alguns dias.
Aquela era uma lamúria já usual.
“Santo Deus, como estávamos acostumados àquelas desculpas para a
não-finalização da obra”, comentou Engels muitos anos depois ao
reler algumas cartas antigas. Como o próprio Marx admitiu: “Minha
doença sempre se origina na mente.” Mas as outras distrações em
nada eram psicológicas: uma tosse colossal prostrou sua filha
Eleanor; os nervos de sua esposa estavam “em ruínas”; o
penhorista e o cobrador reclamavam pagamento. Como afirmou Marx, com
irônica amargura, “não creio que alguém jamais tenha escrito
algo sobre ‘dinheiro’ com tão pouco dele a seu dispor”. Mesmo
sem ter escrito quase nada ao longo do verão, prometeu no final de
setembro de 1858 que o manuscrito estaria terminado “em duas
semanas” – mas confessou um mês depois: “Muitas semanas ainda
são necessárias para que eu esteja pronto a enviá-lo.” Tudo
conspirava contra. Até a crise econômica mundial, que fracassara
cedo demais, provocou-lhe uma indisposição que lhe deu, em
consequência, “a mais terrível dor de dente”.
Em meados de novembro, seis meses
depois do prazo proposto a princípio, Lassalle gentilmente
perguntou-lhe, em nome do editor berlinense, se o livro estava
próximo do final. Marx respondeu que o atraso “simplesmente
representava o esforço de retribuir com o melhor valor o seu
dinheiro”. Como explicou:
O estilo de tudo que escrevi
parecia manchado de problemas biliares. E tenho um duplo motivo para
não permitir que esta obra se estrague por razões médicas.
É o produto de mais de 15 anos de
pesquisa, isto é, os melhores anos de minha vida.
Nela, uma importante visão das
relações sociais é exposta pela primeira vez em termos
científicos. Não posso consentir, portanto, em respeito ao partido,
que seja desfigurada por essa espécie de estilo pesado e canhestro
tão próprio a um fígado doentio….
Dentro de quatro semanas terei
terminado, tendo só agora começado a escrever da maneira correta.
Isso deve ter sido uma surpresa para
Lassalle, a quem, ainda em fevereiro, assegurara que o texto estava
nos “estágios finais”. Engels também ficou chocado. Finalmente,
depois de enviar uma parte a Berlim em janeiro de 1859, Marx lhe
disse: “O manuscrito soma cerca de 12 folhas (192 páginas) de
impressão (três fascículos), e – não se espante com isso –,
embora intitulado ‘Capital em geral’, esses fascículos ainda
nada contêm sobre o tema do capital.” Depois de todas as ruidosas
e prolongadas bravatas, Marx produzira nada mais que um pequeno
volume. A metade era simplesmente um resumo das teorias de outros
economistas. A única parte de fato autêntica era um prefácio
autobiográfico que descrevia como a leitura de Hegel e a experiência
jornalística na Gazeta Renana o haviam levado à conclusão
de que “a anatomia da sociedade civil deve ser buscada na economia
política”.
À medida que se aproximava o dia da
publicação, Marx imaginava um exagerado sucesso de vendas, prevendo
que o livro – agora intitulado Contribuição à crítica da
economia política – seria traduzido e admirado em todo o mundo
civilizado. Mas seus amigos estavam perplexos: o socialista alemão
Wilhelm Liebknecht disse que nunca um livro o desapontara tanto.
Raras foram as resenhas. “As esperanças secretas que alentamos por
tanto tempo em relação ao livro de Karl foram todas reduzidas a pó
pelo silêncio conspiratório dos alemães”, queixou-se Jenny Marx.
“O segundo fascículo deverá demover os apáticos da letargia.”
O fascículo seguinte estava previsto
para alguns meses depois da publicação do primeiro. Marx agora
ajustara um pouco o prazo final, impondo dezembro de 1859 como
“limite máximo” para concluir sua tese sobre o capital, que fora
tão inexplicavelmente omitida da Crítica. Entretanto, seus
cadernos de economia permaneceriam fechados sobre a mesa pelos
próximos anos, enquanto ele persistia em sua contenda com Karl Vogt,
da Universidade de Berna, com artigos de jornal, ações difamatórias
e um livro inteiro. A contenda só chegaria a um termo quando o rei
da Prússia, que acabara de assumir, celebrou sua coroação com uma
anistia para emigrados políticos, despertando em Marx a esperança
de retornar à sua casa e encontrar um jornal nos moldes da Nova
Gazeta Renana. Isso motivou uma longa e infrutífera viagem à
Alemanha na primavera de 1861, financiada por Ferdinand Lassalle, com
o objetivo de angariar recursos. Marx depois retribuiu a
hospitalidade quando Lassalle decidiu retornar a Londres para a
segunda Exposição Internacional, em 1862. “O companheiro
desperdiçou meu tempo”, resmungou Marx durante a terceira semana
daquela provação, “e, além do mais, o palerma opinou que, como
não me engajei até agora em qualquer ‘negócio’, mas
simplesmente em uma ‘obra teórica’, posso gastar meu tempo com
ele!”
A zombaria de Lassalle sobre a
“teoria” representou a alfinetada que Marx precisava para
finalizar seu trabalho tão calamitosamente interrompido pelo duelo
com Vogt. Com poucos encargos jornalísticos para distraí-lo,
refugiou-se outra vez na sala de leitura do Museu Britânico e reuniu
munição para seu assalto final ao capitalismo. As anotações que
fez em 1862 e 1863 preenchiam mais de 1.500 páginas. “Estou
expandindo este volume, já que aqueles salafrários alemães estimam
o valor de um livro de acordo com sua capacidade cúbica”,
explicou. Os problemas teóricos que o haviam derrotado até aquele
momento eram agora tão claros e revigorantes como um copo de gim.
Tome-se, por exemplo, a questão dos arrendamentos fundiários – ou
o “imundo negócio dos arrendamentos”, como Marx chamava.
“Acalentei por muito tempo apreensões a respeito da absoluta
exatidão da teoria de Ricardo, e, ao final, cheguei à essência do
engano.” David Ricardo simplesmente confundiu valor e preço de
custo. Os preços dos produtos agrícolas eram maiores que os seus
valores verdadeiros (medidos pelo tempo de trabalho neles
cristalizado), e o grande proprietário rural embolsava a diferença
na forma de uma renda maior; mas, sob um sistema socialista, esse
excedente seria redistribuído em benefício dos trabalhadores. Ainda
que o preço de mercado fosse o mesmo, o valor dos bens – seu
“caráter social” – mudaria completamente.
O prazer de Marx com seu progresso
provocou um elevado otimismo. No final de 1862, um admirador de
Hanôver, o dr. Ludwig Kugelmann, escreveu-lhe para perguntar quando
se poderia esperar a sequência de Contribuição à crítica da
economia política. “A segunda parte está agora finalmente
concluída, a não ser pela falta de uma cópia legível e do
polimento final antes de seguir para a impressão”, respondeu Marx.
Ele também revelou pela primeira vez que o embaraçoso título do
trabalho, Para a crítica da economia política, volume II,
fora abandonado. Por alguma lógica inversa, grandes livros
mereceriam nomes curtos, e assim “aparecerá isoladamente com o
título O Capital”.
Na verdade, seria necessária ainda
muita carpintaria antes que a madeira bruta estivesse pronta para o
“polimento final”; e em breve uma nova distração o atrairia
para longe desse trabalho. Marx recusara todos os convites para
participar de novos grupos políticos desde o colapso da Liga
Comunista em 1850: “Convenci-me de que meus estudos teóricos eram
mais importantes para a classe trabalhadora que minha participação
em associações cuja hora já passara.” Mas em setembro de 1864 a
curiosidade levou a melhor sobre ele. Recebeu um convite para o
encontro inaugural da Associação Internacional de Trabalhadores,
uma aliança anglo-francesa de sindicalistas e socialistas. Embora
sua participação se restringisse a uma silenciosa observação, ao
final da noite ele foi cooptado para o Conselho Geral – e em 1865
se tornaria de facto o líder da organização.
Tal compromisso lhe consumia ainda
mais tempo. Uma carta a Engels em março de 1865 descreve uma típica
semana de trabalho de Marx naquele período: a noite de terça foi
dedicada ao Conselho Geral, que deliberou até depois da meia-noite;
no dia seguinte houve um comício em Covent Garden para assinalar o
aniversário da insurreição polonesa; sábado e domingo foram
devotados aos encontros do comitê, que se prolongaram até uma hora
da madrugada, para tratar “da questão francesa”; e assim até
terça, com outra longa altercação entre integrantes ingleses e
franceses no Conselho Geral. Em meio a todos esses compromissos,
havia pessoas que faziam tudo para vê-lo em uma conferência sobre o
sufrágio, a ser realizada na semana seguinte. “Que desperdício de
tempo!”, suspirava ele. Engels concordava. Por que seu amigo
despendia tantas horas assinando cartões de filiação e debatendo
com os irascíveis homens do comitê quando poderia estar na
escrivaninha escrevendo O Capital? “Sempre acreditei que a
fraternité ingênua na Associação Internacional não
duraria muito”, advertiu Engels pouco depois de outra destrutiva e
barulhenta disputa com os franceses. “Haverá muitos outros
momentos como este na associação que lhe tomarão uma grande
quantidade de tempo.”
Ao longo do verão de 1865, Marx
vomitava todos os dias (“pelo clima cálido e o consequente
problema biliar”) e encontrava-se infestado de furúnculos. Um
súbito influxo de hóspedes em casa – o irmão de Jenny veio da
Alemanha, o cunhado de Marx chegou da África do Sul, uma sobrinha
que morava em Maastricht apareceu – causava novas interrupções
que não eram bem-vindas. Havia também a já mencionada fila de
credores “batendo à porta, mais e mais insuportável a cada dia”.
No entanto, no núcleo desse redemoinho, sua obra-prima ignorada
estava próxima da conclusão. No final do mesmo ano, O Capital
era um manuscrito de 1.200 páginas, repleto de rasuras confusas e
rabiscos ininteligíveis que lhe davam a aparência de um borrão. No
ano-novo de 1866, sentou-se para passá-lo a limpo, “lambendo o
filhote após longas dores de parto”. Demorou quase um ano. Nem
mesmo o problema biliar e os furúnculos poderiam impedi-lo: quando
uma crise de hemorroidas o impediu de sentar-se, escreveu de pé
diante da escrivaninha as poucas páginas que faltavam. (O arsênico,
anestésico usual, “entorpece demais meu pensamento, e eu preciso
manter a cabeça no lugar”.) O olhar experiente de Engels de
imediato vislumbrava certas passagens no texto em que os furúnculos
deixavam suas marcas, e Marx concordava que eles talvez tivessem dado
à prosa uma tonalidade mais esmaecida. “Em todo caso, espero que a
burguesia se lembre de meus furúnculos até o dia de sua morte”,
praguejou. “Como são desprezíveis!”
Os furúnculos desapareceram tão logo
terminou a última página. “Sempre tive a sensação”,
afirmou-lhe Engels, de “que esse livro desgraçado, que o
acompanhou durante tanto tempo, estava por trás de seu infortúnio,
e que você não iria nem poderia jamais se desembaraçar de tudo até
que o tirasse de suas costas.” Sentindo-se “tão avidamente
disposto como 500 porcos”, Marx partiu para Hamburgo em abril de
1867 a fim de entregar o manuscrito e supervisionar a impressão. Nem
mesmo a notícia de que o editor aguardava os próximos dois volumes
antes do final do ano podia abalar sua boa disposição. “Espero e
confio que em um ano o terei finalizado”, previu. As reações
daqueles que tiveram a oportunidade de entrever algumas partes da
obra o encorajaram a esperar que seu nome ressoasse por toda a
Europa. Nas palavras de Johann Georg Eccarius, um antigo aliado da
Liga Comunista e da Associação Internacional de Trabalhadores: “O
profeta em pessoa vê publicada nesse exato momento a quintessência
de toda sua sabedoria.”
Francis Wheen, em O Capital de Marx – Uma Biografia

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