quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

1 | Gestação


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Por feliz coincidência, a revolução de fato irrompeu na semana da publicação do Manifesto, em fevereiro de 1848, primeiro em Paris e depois, como um estopim, por grande parte da Europa continental. Após a abdicação do rei Luís Felipe e a proclamação da República francesa, o governo belga, tomado de pânico, determinou que Karl Marx abandonasse o país em 24 horas e jamais retornasse. Felizmente ele havia recebido um convite do novo governo provisório de Paris: “Bom e fiel Marx…. A tirania o exilou, agora a França livre abre suas portas para você e todos aqueles que lutam pela causa sagrada, a causa fraternal de todos os povos.”
Contudo, depois de apenas um mês em Paris, partiria para Colônia na esperança de levar a revolução à Alemanha. A arma escolhida fora, como de costume, a palavra impressa: fundou outro jornal, a Nova Gazeta Renana, que, ao longo de sua breve existência, suportou constante assédio oficial. Em julho do mesmo ano, Marx foi levado aos tribunais por “insultar e caluniar o promotor-geral”; em setembro, depois da promulgação da lei marcial, o comandante militar de Colônia suspendeu a publicação do periódico por um mês; em fevereiro, quando qualquer possibilidade de revolução estava completamente extinta, acusaram-no de “incitação à revolta”. Marx, porém, convenceu o júri a absolvê-lo com um brilhante discurso feito do banco dos réus. Finalmente, em maio de 1849, as autoridades prussianas processaram metade do corpo editorial e aconselharam a deportação dos demais – incluindo Marx, que teve sua cidadania cassada.
Retornou a Paris em junho de 1849 e encontrou a cidade sob o domínio de uma reação monarquista e uma epidemia de cólera. Confrontado por uma ordem oficial que o bania para o departamento de Morbiham, na região da Bretanha, então infestado pela malária, refugiou-se no único país europeu ainda disposto a abrigar revolucionários desarraigados. Seguiu de navio para a Inglaterra em 27 de agosto daquele ano e ali permaneceu até sua morte, em 1883. “Parta imediatamente para Londres”, escreveu a Engels, que estava em visita à Suíça. “Lá nos entregaremos ao que interessa.”
Alguns meses após chegar a Londres, Karl Marx deparou com um trenzinho elétrico em movimento na vitrine de uma loja em Regent Street. Ficou “extasiado e ansioso”, de acordo com uma testemunha – não pela emoção da novidade, mas pelas implicações econômicas. “O problema está resolvido – as consequências são imprevisíveis”, disse ele a seus atônitos camaradas. “No rastro de uma revolução econômica virá a revolução política, pois esta é apenas uma expressão daquela.” Parece improvável que qualquer outra pessoa em meio à multidão da Regent Street tenha parado para considerar as consequências políticas e econômicas desse cavalo-de-tróia ferroviário; para Marx, era tudo o que importava.
Obteve acesso à sala de leitura do Museu Britânico em junho de 1850 e passou o ano seguinte devorando livros sobre economia e números atrasados da revista The Economist. Em abril de 1851 declarava estar tão adiantado que “terei concluído toda a parte econômica em um prazo de cinco semanas”. “E, uma vez isso feito, finalizarei a economia política em casa e me dedicarei no museu a outra área de conhecimento.” Embora quase todas as noites ocupasse seu assento na sala de leitura, a tarefa que se impusera parecia não ter fim. “O material em que estou trabalhando é tão terrivelmente intricado que, não importa quanto me esforce, não terminarei dentro das próximas seis ou oito semanas”, escreveu em junho. “Há, além do mais, constantes interrupções de todos os tipos, inevitáveis nas terríveis circunstâncias em que vegetamos aqui…”
Desde o momento da chegada a Londres, Karl e Jenny Marx viram-se acossados por constantes crises domésticas. Eles já tinham três filhos pequenos, e o quarto nasceria em novembro de 1849. Despejados de um apartamento em Chelsea, em maio de 1850, por não pagarem o aluguel, encontraram abrigo temporário na casa de um negociante de rendas judeu em Dean Street, Soho, onde passaram o verão de maneira miserável, a equilibrar-se no limiar da privação, antes de se mudarem para um apartamento um pouco melhor mais acima, na mesma rua. Engels veio-lhes em resgate, sacrificou as próprias ambições jornalísticas em Londres e retornou ao escritório da Ermen & Engels em Manchester, onde permaneceria pelos próximos 20 anos. Embora a razão fosse em grande parte o intuito de sustentar um amigo brilhante e necessitado, ele agiria como uma espécie de agente infiltrado nas linhas inimigas, enviando a Marx detalhes confidenciais sobre o comércio de algodão e análises especializadas sobre a situação dos mercados internacionais – além de remessas regulares de dinheiro surrupiado da caixa registradora ou retirado de modo fraudulento da conta bancária da companhia.
Mesmo com essas subvenções, a família Marx vivia em grande miséria e iminente desespero. A mobília do apartamento de dois cômodos estava totalmente quebrada, esfarrapada ou rasgada e coberta por uma grossa camada de pó. A família toda – pais, crianças e empregada – dormia em um pequeno quarto nos fundos, enquanto o outro aposento servia de gabinete de estudos, quarto de brincar e cozinha. Um espião da polícia prussiana que conseguiu entrar no apartamento relatou a seus superiores em Berlim:

Marx leva a vida de um verdadeiro boêmio intelectual…. Embora frequentemente fique à toa durante um bom tempo, trabalha dia e noite com persistência incansável ao se defrontar com uma grande quantidade de afazeres. Não tem horário fixo para dormir ou acordar. Em geral fica acordado a noite toda e então se deita completamente vestido no sofá e dorme até a noite seguinte, sem se incomodar com o vaivém dos demais.

Essa existência caótica era pontuada por constantes tragédias familiares. O filho mais novo de Marx, Guido, morreu subitamente de um ataque de convulsões em novembro de 1850; sua filha Franziska faleceu, com apenas um ano, na Páscoa de 1852, depois de um severo surto de bronquite. Outro filho, seu querido Edgar, morreu de tuberculose em março de 1855. Atormentado pela dor, Marx cambaleava à beira da cova, enquanto o caixão baixava à terra, fazendo com que grande parte dos presentes se convencesse de que tinha a intenção de atirar-se sobre o esquife. Por precaução, um braço firme o amparou.
Se ao menos”, escreveu Engels em sua carta de condolências pelo falecimento de Franziska, “houvesse uma maneira de você e sua família se mudarem para uma residência mais espaçosa, em um distrito mais salubre.” Não é possível afirmar que a penúria tenha matado Franziska, mas com certeza dominava a vida de seus pais. Credores enfurecidos – açougueiros, usurários e oficiais de justiça – batiam continuamente à porta de entrada exigindo pagamento. “Há uma semana atingi o ponto aprazível que me impossibilita de sair porque meus casacos estão penhorados, e não mais posso comer carne pela falta de crédito”, escreveu Marx em fevereiro de 1852. Ainda no mesmo ano, revelaria a Engels: “Durante os últimos oito ou dez dias tenho alimentado minha família unicamente com pão e batatas, e não é garantido que consiga algo hoje…. Como poderei sair de toda essa desordem infernal?” Naquele momento, Marx recebia uma remuneração regular como correspondente do New York Daily Tribune, ao qual submetia dois artigos por semana a duas libras cada. Isso, porém, mesmo somado ao subsídio extra de Engels, não era suficiente – e, é claro, proporcionava mais um motivo para os lapsos de concentração em seu trabalho.
Apesar de tudo, a coisa se aproxima célere do fim”, escreveu em junho de 1851. “Chega uma hora em que se deve forçosamente parar.” Isso mostra uma risível falta de autoconhecimento: Marx podia com alegria romper com amigos e associações políticas, mas não tinha a mesma facilidade para abandonar o trabalho – em especial esta obra, um vasto compêndio de estatísticas, história e filosofia que afinal desnudaria os vergonhosos segredos do capitalismo. Quanto mais pesquisava e escrevia, mais distante parecia do fim. “O principal”, Engels alertou em novembro de 1851, “é que você possa outra vez fazer uma aparição pública com um grande livro…. É absolutamente essencial romper o silêncio provocado por sua prolongada ausência do mercado editorial alemão.”
Contudo, o projeto foi mais uma vez deixado de lado, vítima de outras “constantes interrupções”. Imediatamente após o golpe de dezembro de 1851 na França, Marx escreveu O 18 Brumário de Luís Bonaparte a pedido de um semanário norte-americano que acabara de ser criado, o Die Revolution. Os anos seguintes foram desperdiçados em contendas e polêmicas contra companheiros de exílio. Marx argumentava que, mais que manifestações de ressentimento, eram necessárias intervenções políticas essenciais, uma vez que os falsos messias socialistas – caso não desmascarados – seriam muito mais atraentes às massas que os legítimos monarcas. “Estou engajado em uma luta de vida ou morte contra os falsos liberais”, declarou.
O que eventualmente o trouxe de volta aos estudos econômicos foi a aparente chegada do tão aguardado cataclismo financeiro internacional no outono de 1857. A crise começou com um colapso bancário em Nova York e depois espalhou-se por Áustria, Alemanha, França e Inglaterra como um apocalipse galopante. Engels, que convalescia de uma enfermidade, voltou às pressas ao seu posto em Manchester para testemunhar a diversão – preços em queda, falências diárias e pânico selvagem. “Aqui, a aparência geral do comércio [do algodão] é verdadeiramente agradável”, relatou ele. “Os colegas estão completamente enfurecidos por meu súbito e inexplicável acesso de bom humor.” Marx também estava infectado pelo espírito melodramático do momento. Ao longo do inverno de 1857-58, sentava-se todas as noites em seu gabinete até quatro horas da manhã examinando suas anotações econômicas “para poder ao menos traçar claramente os contornos antes do dilúvio”. A inundação jamais veio; Marx continuou a construir sua arca, convencido de que, cedo ou tarde, ela seria necessária. Quando sua aritmética rudimentar provou-se inadequada para fórmulas econômicas complexas, fez um rápido curso de revisão de álgebra explicando que, “para o benefício do público, é absolutamente essencial examinar a matéria a fundo”.
Seus rabiscos noturnos, que chegavam a mais de 800 páginas, permaneceram desconhecidos até que o Instituto Marx-Engels de Moscou os divulgasse em 1939. E só se tornaram amplamente disponíveis em 1953, com a publicação da edição alemã dos Esboços de uma crítica da economia política. A despeito de sua vasta extensão, os Esboços são uma obra fragmentária – descrita por Marx como uma verdadeira mixórdia –, que pode no entanto ser compreendida como o elo entre os manuscritos de Paris, de 1844, e o primeiro volume do Capital, de 1867. Há longas seções sobre significado de dinheiro, alienação e dialética que reverberam passagens dos manuscritos de 1844. A diferença que mais chama a atenção é que ele passa a mesclar filosofia e economia, enquanto antes ambas eram tratadas como disciplinas estanques. (Como o escritor alemão Ferdinand Lassalle ressaltou, Marx era “um Hegel que se tornou economista, um Ricardo que virou socialista”.) Em determinada parte, a análise da força de trabalho e da mais-valia parece um rascunho da completa exposição dessas teorias no Capital.
-Marx geralmente se referia a seu trabalho nesse período como “a porcaria econômica”, uma frase desdenhosa em que havia, sem dúvida, um resquício de culpa. Já em 1845 ele alegava que o tratado sobre economia política estava quase terminado, mas ao longo dos 13 anos seguintes repetiu e enriqueceu a mentira tantas vezes que a expectativa de seus amigos foi alçada a um nível quase insuportável. A julgar pelo tempo despendido, eles presumiam que a obra deveria de fato apresentar uma enorme carga explosiva que destruiria instantaneamente os falsos alicerces do edifício capitalista. Os comunicados regulares enviados a Engels em Manchester mantinham o mito de que a conclusão estava próxima. “Acabei de demolir a teoria do lucro tal como foi até agora formulada”, anunciou radiante em janeiro de 1858. Na verdade, porém, tudo que tinha a mostrar após aqueles dias inteiros no Museu Britânico e as longas noites sentado à sua escrivaninha era uma pilha instável de anotações não-publicáveis, repletas de apontamentos fortuitos.
No início de 1858, Ferdinand Lassalle se ofereceu para arranjar para Marx um contrato com um editor berlinense chamado Duncker (cuja esposa era curiosamente uma das amantes de Lassalle). Marx informou ao editor que sua “exposição crítica do sistema da economia burguesa” se dividiria em seis livros, que deveriam ser publicados em fascículos: “1. O capital (com alguns capítulos introdutórios). 2. A propriedade territorial. 3. O trabalho assalariado. 4. O Estado. 5. O comércio internacional. 6. O mercado mundial.” O primeiro volume estaria pronto para impressão em maio daquele ano, o segundo sairia em poucos meses e assim por diante. Entretanto, como era comum acontecer ao enfrentar prazos apertados para entregar seus escritos, o corpo de Marx rebelava-se em protesto. “Estive tão doente esta semana por causa do meu problema biliar que estou incapacitado de pensar, escrever ou, na verdade, de fazer qualquer outra coisa”, confidenciou a Engels em abril de 1858. Acossado por dores no fígado, descobriu que sempre que se sentava e escrevia por algumas horas tinha de se deitar completamente imóvel por alguns dias.
Aquela era uma lamúria já usual. “Santo Deus, como estávamos acostumados àquelas desculpas para a não-finalização da obra”, comentou Engels muitos anos depois ao reler algumas cartas antigas. Como o próprio Marx admitiu: “Minha doença sempre se origina na mente.” Mas as outras distrações em nada eram psicológicas: uma tosse colossal prostrou sua filha Eleanor; os nervos de sua esposa estavam “em ruínas”; o penhorista e o cobrador reclamavam pagamento. Como afirmou Marx, com irônica amargura, “não creio que alguém jamais tenha escrito algo sobre ‘dinheiro’ com tão pouco dele a seu dispor”. Mesmo sem ter escrito quase nada ao longo do verão, prometeu no final de setembro de 1858 que o manuscrito estaria terminado “em duas semanas” – mas confessou um mês depois: “Muitas semanas ainda são necessárias para que eu esteja pronto a enviá-lo.” Tudo conspirava contra. Até a crise econômica mundial, que fracassara cedo demais, provocou-lhe uma indisposição que lhe deu, em consequência, “a mais terrível dor de dente”.
Em meados de novembro, seis meses depois do prazo proposto a princípio, Lassalle gentilmente perguntou-lhe, em nome do editor berlinense, se o livro estava próximo do final. Marx respondeu que o atraso “simplesmente representava o esforço de retribuir com o melhor valor o seu dinheiro”. Como explicou:

O estilo de tudo que escrevi parecia manchado de problemas biliares. E tenho um duplo motivo para não permitir que esta obra se estrague por razões médicas.
É o produto de mais de 15 anos de pesquisa, isto é, os melhores anos de minha vida.
Nela, uma importante visão das relações sociais é exposta pela primeira vez em termos científicos. Não posso consentir, portanto, em respeito ao partido, que seja desfigurada por essa espécie de estilo pesado e canhestro tão próprio a um fígado doentio….
Dentro de quatro semanas terei terminado, tendo só agora começado a escrever da maneira correta.

Isso deve ter sido uma surpresa para Lassalle, a quem, ainda em fevereiro, assegurara que o texto estava nos “estágios finais”. Engels também ficou chocado. Finalmente, depois de enviar uma parte a Berlim em janeiro de 1859, Marx lhe disse: “O manuscrito soma cerca de 12 folhas (192 páginas) de impressão (três fascículos), e – não se espante com isso –, embora intitulado ‘Capital em geral’, esses fascículos ainda nada contêm sobre o tema do capital.” Depois de todas as ruidosas e prolongadas bravatas, Marx produzira nada mais que um pequeno volume. A metade era simplesmente um resumo das teorias de outros economistas. A única parte de fato autêntica era um prefácio autobiográfico que descrevia como a leitura de Hegel e a experiência jornalística na Gazeta Renana o haviam levado à conclusão de que “a anatomia da sociedade civil deve ser buscada na economia política”.
À medida que se aproximava o dia da publicação, Marx imaginava um exagerado sucesso de vendas, prevendo que o livro – agora intitulado Contribuição à crítica da economia política – seria traduzido e admirado em todo o mundo civilizado. Mas seus amigos estavam perplexos: o socialista alemão Wilhelm Liebknecht disse que nunca um livro o desapontara tanto. Raras foram as resenhas. “As esperanças secretas que alentamos por tanto tempo em relação ao livro de Karl foram todas reduzidas a pó pelo silêncio conspiratório dos alemães”, queixou-se Jenny Marx. “O segundo fascículo deverá demover os apáticos da letargia.”
O fascículo seguinte estava previsto para alguns meses depois da publicação do primeiro. Marx agora ajustara um pouco o prazo final, impondo dezembro de 1859 como “limite máximo” para concluir sua tese sobre o capital, que fora tão inexplicavelmente omitida da Crítica. Entretanto, seus cadernos de economia permaneceriam fechados sobre a mesa pelos próximos anos, enquanto ele persistia em sua contenda com Karl Vogt, da Universidade de Berna, com artigos de jornal, ações difamatórias e um livro inteiro. A contenda só chegaria a um termo quando o rei da Prússia, que acabara de assumir, celebrou sua coroação com uma anistia para emigrados políticos, despertando em Marx a esperança de retornar à sua casa e encontrar um jornal nos moldes da Nova Gazeta Renana. Isso motivou uma longa e infrutífera viagem à Alemanha na primavera de 1861, financiada por Ferdinand Lassalle, com o objetivo de angariar recursos. Marx depois retribuiu a hospitalidade quando Lassalle decidiu retornar a Londres para a segunda Exposição Internacional, em 1862. “O companheiro desperdiçou meu tempo”, resmungou Marx durante a terceira semana daquela provação, “e, além do mais, o palerma opinou que, como não me engajei até agora em qualquer ‘negócio’, mas simplesmente em uma ‘obra teórica’, posso gastar meu tempo com ele!”
A zombaria de Lassalle sobre a “teoria” representou a alfinetada que Marx precisava para finalizar seu trabalho tão calamitosamente interrompido pelo duelo com Vogt. Com poucos encargos jornalísticos para distraí-lo, refugiou-se outra vez na sala de leitura do Museu Britânico e reuniu munição para seu assalto final ao capitalismo. As anotações que fez em 1862 e 1863 preenchiam mais de 1.500 páginas. “Estou expandindo este volume, já que aqueles salafrários alemães estimam o valor de um livro de acordo com sua capacidade cúbica”, explicou. Os problemas teóricos que o haviam derrotado até aquele momento eram agora tão claros e revigorantes como um copo de gim. Tome-se, por exemplo, a questão dos arrendamentos fundiários – ou o “imundo negócio dos arrendamentos”, como Marx chamava. “Acalentei por muito tempo apreensões a respeito da absoluta exatidão da teoria de Ricardo, e, ao final, cheguei à essência do engano.” David Ricardo simplesmente confundiu valor e preço de custo. Os preços dos produtos agrícolas eram maiores que os seus valores verdadeiros (medidos pelo tempo de trabalho neles cristalizado), e o grande proprietário rural embolsava a diferença na forma de uma renda maior; mas, sob um sistema socialista, esse excedente seria redistribuído em benefício dos trabalhadores. Ainda que o preço de mercado fosse o mesmo, o valor dos bens – seu “caráter social” – mudaria completamente.
O prazer de Marx com seu progresso provocou um elevado otimismo. No final de 1862, um admirador de Hanôver, o dr. Ludwig Kugelmann, escreveu-lhe para perguntar quando se poderia esperar a sequência de Contribuição à crítica da economia política. “A segunda parte está agora finalmente concluída, a não ser pela falta de uma cópia legível e do polimento final antes de seguir para a impressão”, respondeu Marx. Ele também revelou pela primeira vez que o embaraçoso título do trabalho, Para a crítica da economia política, volume II, fora abandonado. Por alguma lógica inversa, grandes livros mereceriam nomes curtos, e assim “aparecerá isoladamente com o título O Capital”.
Na verdade, seria necessária ainda muita carpintaria antes que a madeira bruta estivesse pronta para o “polimento final”; e em breve uma nova distração o atrairia para longe desse trabalho. Marx recusara todos os convites para participar de novos grupos políticos desde o colapso da Liga Comunista em 1850: “Convenci-me de que meus estudos teóricos eram mais importantes para a classe trabalhadora que minha participação em associações cuja hora já passara.” Mas em setembro de 1864 a curiosidade levou a melhor sobre ele. Recebeu um convite para o encontro inaugural da Associação Internacional de Trabalhadores, uma aliança anglo-francesa de sindicalistas e socialistas. Embora sua participação se restringisse a uma silenciosa observação, ao final da noite ele foi cooptado para o Conselho Geral – e em 1865 se tornaria de facto o líder da organização.
Tal compromisso lhe consumia ainda mais tempo. Uma carta a Engels em março de 1865 descreve uma típica semana de trabalho de Marx naquele período: a noite de terça foi dedicada ao Conselho Geral, que deliberou até depois da meia-noite; no dia seguinte houve um comício em Covent Garden para assinalar o aniversário da insurreição polonesa; sábado e domingo foram devotados aos encontros do comitê, que se prolongaram até uma hora da madrugada, para tratar “da questão francesa”; e assim até terça, com outra longa altercação entre integrantes ingleses e franceses no Conselho Geral. Em meio a todos esses compromissos, havia pessoas que faziam tudo para vê-lo em uma conferência sobre o sufrágio, a ser realizada na semana seguinte. “Que desperdício de tempo!”, suspirava ele. Engels concordava. Por que seu amigo despendia tantas horas assinando cartões de filiação e debatendo com os irascíveis homens do comitê quando poderia estar na escrivaninha escrevendo O Capital? “Sempre acreditei que a fraternité ingênua na Associação Internacional não duraria muito”, advertiu Engels pouco depois de outra destrutiva e barulhenta disputa com os franceses. “Haverá muitos outros momentos como este na associação que lhe tomarão uma grande quantidade de tempo.”
Ao longo do verão de 1865, Marx vomitava todos os dias (“pelo clima cálido e o consequente problema biliar”) e encontrava-se infestado de furúnculos. Um súbito influxo de hóspedes em casa – o irmão de Jenny veio da Alemanha, o cunhado de Marx chegou da África do Sul, uma sobrinha que morava em Maastricht apareceu – causava novas interrupções que não eram bem-vindas. Havia também a já mencionada fila de credores “batendo à porta, mais e mais insuportável a cada dia”. No entanto, no núcleo desse redemoinho, sua obra-prima ignorada estava próxima da conclusão. No final do mesmo ano, O Capital era um manuscrito de 1.200 páginas, repleto de rasuras confusas e rabiscos ininteligíveis que lhe davam a aparência de um borrão. No ano-novo de 1866, sentou-se para passá-lo a limpo, “lambendo o filhote após longas dores de parto”. Demorou quase um ano. Nem mesmo o problema biliar e os furúnculos poderiam impedi-lo: quando uma crise de hemorroidas o impediu de sentar-se, escreveu de pé diante da escrivaninha as poucas páginas que faltavam. (O arsênico, anestésico usual, “entorpece demais meu pensamento, e eu preciso manter a cabeça no lugar”.) O olhar experiente de Engels de imediato vislumbrava certas passagens no texto em que os furúnculos deixavam suas marcas, e Marx concordava que eles talvez tivessem dado à prosa uma tonalidade mais esmaecida. “Em todo caso, espero que a burguesia se lembre de meus furúnculos até o dia de sua morte”, praguejou. “Como são desprezíveis!”
Os furúnculos desapareceram tão logo terminou a última página. “Sempre tive a sensação”, afirmou-lhe Engels, de “que esse livro desgraçado, que o acompanhou durante tanto tempo, estava por trás de seu infortúnio, e que você não iria nem poderia jamais se desembaraçar de tudo até que o tirasse de suas costas.” Sentindo-se “tão avidamente disposto como 500 porcos”, Marx partiu para Hamburgo em abril de 1867 a fim de entregar o manuscrito e supervisionar a impressão. Nem mesmo a notícia de que o editor aguardava os próximos dois volumes antes do final do ano podia abalar sua boa disposição. “Espero e confio que em um ano o terei finalizado”, previu. As reações daqueles que tiveram a oportunidade de entrever algumas partes da obra o encorajaram a esperar que seu nome ressoasse por toda a Europa. Nas palavras de Johann Georg Eccarius, um antigo aliado da Liga Comunista e da Associação Internacional de Trabalhadores: “O profeta em pessoa vê publicada nesse exato momento a quintessência de toda sua sabedoria.”

Francis Wheen, em O Capital de Marx – Uma Biografia

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