terça-feira, 21 de outubro de 2025

O Apanhador no Campo de Centeio


23

Telefonei um bocado depressa, porque fiquei com medo de que meus pais me pegassem no meio da conversa. Mas não me pegaram. O Professor Antolini foi muito simpático. Me disse que, se quisesse, podia ir imediatamente para a casa dele. Acho que acordei ele e a mulher, porque demoraram um tempão para atender ao telefone. A primeira coisa que me perguntou foi se tinha acontecido alguma coisa, e respondi que não. Mas contei que tinha levado bomba no Pencey. Achei melhor contar logo a ele. Ele disse “Cruz Credo” quando contei. Tinha um senso de humor muito fino e tudo. Me disse para ir imediatamente para a casa dele, se quisesse.
Acho que ele foi o melhor professor que eu já tive na vida. Era um sujeito ainda bem moço, pouco mais velho que meu irmão D. B., e a gente podia brincar com ele sem perder o respeito. Foi ele quem acabou apanhando do chão aquele menino que se atirou da janela, o James Castle. O Professor Antolini sentiu o pulso dele e tudo e, então, tirou o casaco, cobriu o James Castle e o carregou até a enfermaria. Nem se incomodou do casaco dele ficar todo ensanguentado.
Quando voltei ao quarto do D. B., a Phoebe tinha ligado o rádio. Estava tocando música para dançar. Mas ela tinha ligado baixinho, para não acordar a empregada. Valia a pena ver a Phoebe. Estava sentada bem no meio da cama, em cima das cobertas, com as pernas trançadas como um desses caras que fazem ioga. Estava escutando a música. Não aguento com ela.
Vamos – falei. – Quer dançar?
Fui eu que lhe ensinei a dançar e tudo, quando ela era bem pequenininha. Ela dança muito bem. Eu só tinha ensinado umas coisinhas, o resto ela aprendeu sozinha mesmo. É impossível a gente ensinar tudo a alguém.
Você está de sapato – ela falou.
Eu tiro o sapato. Vamos.
Ela praticamente saltou da cama e ficou esperando enquanto eu descalçava os sapatos. E aí dancei com ela durante algum tempo. Ela é mesmo boa pra burro. Não gosto de ver gente grande dançando com criancinhas porque, em geral, fica horrível. Quer dizer, se a gente está num restaurante qualquer e vê um sujeito velho levar a filhinha para a pista de dança. Quase sempre ficam puxando o vestido da menina para cima, sem querer, e a garota não sabe mesmo dançar droga nenhuma. É horrível. Mas não danço em público com a Phoebe nem nada. Só dançamos em casa e de brincadeira. De qualquer jeito, com a Phoebe é diferente, porque ela sabe dançar. Acompanha qualquer passo que a gente dá. Basta segurar ela bem juntinho para acabar com a diferença de tamanho das pernas. Aí ela segue mesmo a gente. Pode-se dar passo cruzado ou aquelas caídas ridículas, e até um pouco de puladinho, que ela segue a gente o tempo todo. A gente pode até dançar tango, no duro.
Dançamos umas quatro músicas. Nos intervalos ela é gozada pra chuchu. Fica na mesma posição de quando acaba a música. Não fala nem nada. A gente também tem que ficar durinho, no mesmo lugar, esperando que a orquestra comece a tocar outra vez. É infernal. E fica danada se a gente ri ou coisa que o valha.
Dançamos umas quatro músicas e aí desliguei o rádio. Ela pulou de novo na cama e se meteu debaixo das cobertas.
Estou melhorando, não estou? – perguntou.
Puxa, e como!
Me sentei outra vez na cama, pertinho dela. Estava meio sem fôlego. Andava fumando tanto que tinha perdido toda a resistência. Ela nem estava sem fôlego.
Põe a mão na minha testa para ver a temperatura – ela disse de repente.
Por quê?
Põe só. Põe só um pouquinho.
Pus a mão na testa dela, mas não senti nada.
Estou com muita febre?
Não. E era pra estar?
É... tou ficando com febre de propósito. Experimenta de novo.
Experimentei outra vez e continuei sem sentir nada, mas falei:
Acho que agora está começando.
Não queria que ela ficasse com uma droga dum complexo de inferioridade. Ela concordou com a cabeça.
Posso fazer minha temperatura passar do limite do termômetro.
Termômetro. Quem é que te disse isso?
Foi a Alice Holmborg que me ensinou. A gente cruza as pernas, prende a respiração e fica pensando numa coisa bem quente. Um aquecedor ou um troço assim. Aí a testa da gente fica tão quente que queima a mão da outra pessoa.
Essa foi de matar. Tirei depressa a mão da testa dela, como se estivesse correndo perigo de vida.
Obrigado pelo aviso – falei.
Ah, não precisa ficar com medo. Eu não ia queimar a tua mão. Parava antes que ficasse... Psiu!
Aí, dum salto, ela se sentou na cama, empertigada pra diabo. Levei um susto desgraçado.
Quê que houve?
A porta da frente! – ela disse num sussurro alto. – São eles.
Pulei depressa da cama e apaguei a luz da escrivaninha. Aí apaguei o cigarro na sola do sapato e botei a guimba no bolso. Aí comecei a abanar o quarto como um doido, para espalhar a fumaça – puxa, eu não devia era estar fumando lá. Aí apanhei meus sapatos, me meti no armário e fechei a porta. Puxa, meu coração estava batendo como um filho da mãe.
Ouvi minha mãe entrar no quarto.
Phoebe? Vamos parar com essa fita. Eu vi a luz acesa, mocinha.
Olá – ouvi a Phoebe responder. – Não estava conseguindo dormir. Vocês se divertiram muito?
Muito – minha mãe disse, mas via-se logo que não era verdade. Ela não costumava se divertir muito quando saía.
Por que é que você ainda está acordada? Estava bem agasalhada?
Estava bem agasalhada, mas só que não conseguia dormir.
Phoebe, você andou fumando aqui? Diga a verdade, mocinha, por favor, a verdade.
O quê? – Phoebe perguntou.
Você ouviu o que eu disse.
Só acendi um, um pouquinho só. Só dei uma baforada. Aí joguei pela janela.
E por quê? Posso saber a razão?
Não estava conseguindo pegar no sono.
Não gosto disso, Phoebe. Não gosto nem um pouquinho disso – minha mãe falou. – Quer mais um cobertor?
Não, obrigada. Té manhã – Phoebe falou. Era evidente que estava querendo se ver livre dela.
Que tal o filme? – minha mãe perguntou.
Ótimo. Menos a mãe da Alice. Ficou o tempo todo se debruçando por cima de mim e perguntando se a Alice estava constipada. Isso o filme inteirinho. Viemos para casa de táxi.
Deixa eu ver tua temperatura.
Não peguei nada. A Alice não tinha nada. Era só a mãe dela.
Bem, vai dormir agora. Como é que foi o jantar?
Uma droga – Phoebe respondeu.
Seu pai já falou para você não dizer essa palavra. Droga por quê? Tinha uma costeleta deliciosa para você. Andei toda a Avenida Lexington só para...
A costeleta estava boa, mas o negócio é que a Charlene sempre respira em cima de mim quando põe algum troço na mesa. Respira em cima da comida e tudo. Respira por cima de tudo.
Bem, vai dormir. Dá um beijo na sua mãe. Você rezou antes de dormir?
Rezei sim, no banheiro. Té manhã!
Até amanhã. Agora vai dormir direitinho. Estou com uma dor de cabeça de rachar – minha mãe falou.
Ela quase sempre está com dor de cabeça. No duro mesmo.
Toma umas aspirinas – a Phoebe falou. – O Holden vem para casa na quarta-feira, não vem?
Tanto quanto eu saiba. Agora vai entrando embaixo das cobertas. Anda.
Ouvi minha mãe sair e fechar a porta. Esperei uns dois minutos. Aí saí do armário e dei um encontrão com a Phoebe. Estava escuro como breu e ela tinha levantado da cama para vir falar comigo.
Machuquei você? – perguntei.
Agora a gente tinha de cochichar, porque os velhos estavam em casa.
Preciso dar o fora.
Encontrei a beirada da cama no escuro, me sentei e comecei a calçar os sapatos. Estava um bocado nervoso, confesso.
Não vai agora – Phoebe cochichou. – Espera primeiro eles dormirem.
Não. Já, já. Agora é que é a melhor hora. Mamãe vai estar no banheiro e Papai deve estar ouvindo o noticiário ou coisa parecida.
Mal conseguia segurar o cadarço para dar o laço, de tão nervoso que eu estava. Não que fossem me matar nem nada se me pegassem, mas ia ser muito chato.
Onde é que você se meteu? – perguntei. Estava tão escuro que nem conseguia ver a Phoebe.
Aqui – ela respondeu. Estava bem juntinho de mim, mas eu nem tinha visto.
Deixei a droga da bagagem na estação. Escuta. Você tem algum dinheiro, Phoebe? Estou quase duro.
Só o meu dinheiro pro Natal. Para os presentes e tudo. Ainda não fiz nenhuma compra.
Ah.
Não queria ficar com o dinheiro dela pro Natal.
Você quer algum?
- Não quero ficar com teu dinheiro de Natal.
- Posso te emprestar algum.
Aí senti que ela estava remexendo na escrivaninha do D.B., abrindo um milhão de gavetas e tateando por todo o canto. O quarto estava na maior escuridão.
Se você for embora, não vai me ver trabalhar na peça – ela disse. Falou isso com uma voz esquisita.
Vou ver sim. Não vou embora antes disso. Você acha que eu quero perder a peça? Sabe o quê que eu vou fazer? Acho que vou ficar na casa do Professor Antolini até terça-feira de noite, mais ou menos, e aí venho para casa. Se der jeito ligo pra você.
Toma – ela disse. Estava procurando minha mão para me dar o dinheiro, mas não achava.
Onde?
Botou o dinheiro na minha mão.
Ei, não preciso disso tudo. Me dá só uns dois dólares. É sério... toma…
Tentei dar o dinheiro de volta, mas ela não quis receber.
Pode levar tudo e depois você me paga, no dia da peça. Tá bem?
Afinal, quanto é que tem aqui?
Oito dólares e oitenta e cinco cêntimos. Não, sessenta e cinco. Gastei um pouco.
Aí, de repente, comecei a chorar. Não consegui evitar o troço. Chorei baixinho para que ninguém me ouvisse, mas chorei. A Phoebe ficou apavorada quando me viu chorar e veio para perto de mim, me pedindo para parar. Mas depois que a gente começa, não consegue parar assim à toa. Quando comecei a chorar ainda estava sentado na beira da cama, e aí ela passou o braço por trás do meu pescoço e eu também pus o meu em volta dela, mas nem assim consegui parar. Chorei um tempão. Pensei que ia morrer sufocado ou coisa que o valha. Puxa, nunca vi a pobrezinha da Phoebe tão apavorada. A droga da janela estava aberta e a Phoebe estava tremendo e tudo, porque só estava com o pijama em cima da pele. Mandei ela voltar para a cama, mas ela não quis. Até que enfim consegui parar de chorar. Mas custou um bocado. Aí acabei de abotoar o sobretudo e prometi a ela que ia telefonar. Respondeu que, se eu quisesse, podia dormir com ela, mas eu disse que não, que era melhor dar no pé, porque o Professor Antolini estava me esperando e tudo. Aí tirei o chapéu de caça do bolso e dei para ela. Ela gosta desses chapéus malucos. Só a muito custo aceitou. Sou capaz de apostar que dormiu com ele na cabeça. Ela gosta muito mesmo desse tipo de chapéu. Aí eu disse de novo que ligava para ela, se desse jeito, e saí.
Não sei porque, mas foi muito mais fácil sair de casa do que entrar. Uma das razões é que eu já estava pouco ligando de ser apanhado ou não. No duro, mesmo. Se pegassem, pegavam e pronto. De certa maneira, quase desejei que me apanhassem.
Desci a vida toda pela escada, em vez de tomar o elevador. Fui pela escada dos fundos. Por pouco não quebrei o pescoço nuns dez milhões de latas de lixo, mas saí direitinho. O cabineiro nem me viu. Provavelmente, até agora ainda continua pensando que eu estou no apartamento dos Dicksteins.

J. D. Salinger, em O Apanhador no Campo de Centeio

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