[…]
E, com o determinado costumeiro, de se
espalhar os de vigia, por todas as quatro bandas, mais o movimento de
procura dum pasto bem fechado e conveniente, tomamos conta de tudo e
entramos naquela casa, para ver o visível e se fazer fogo de
aprontar nosso jantar na fornalha de sua grande cozinha. Virgem! ―
digo ao senhor: o interior dela dava pena, nunca vi nada tão
remexido e roubado.Total o que era de jeito de se carregar, o em
arcas e em trouxas, e que no comum duma casa remediada se acha,
faltava. Não se encontrou uma peça de roupa, uma lamparina de
folha, uma folhinha na parede, um gancho de rede, uma raspadeira, um
cabresto pendurado, uma esteira, uma vasilha, uma coisa alguma em que
se pegar. Eram só as mesas, os catres, os bancos. Tinham limpado a
carne daquele costelame. Por onde andaria o dono? Mas se ficou
sabendo que o nome dele não era em verdade Abrão, mas Habão,
que assim se chamava. Consoante o diploma de patente, que no chão,
num canto, avistei, lavrado preenchido cerimonial, de que esse Habão
era Capitão da Guarda-Nacional, em válidos títulos. Aquele retiro
se chamava oValado. Com pouco mais uns dias que se passassem, o
pessoal do Sucruiú era capaz de desmanchar até o prédio da casa,
por seus esteios e caibros. Para não falar que, de gado, galinhas e
porcos, e cachorros e o mais, nem sinal se divulgava. Sobravam só os
passarinhos, soltos, como de toda parte no igual, que piaram uns
momentos, pelo acabar da tardinha, alegres assim no empobrecido.
Vai, dentro de lá, num quarto, muito
recanto, sediava, no escuro que já fazia, um oratório em
armariozinho, construído pregado na parede; que estava com suas
poucas imagens e um toco para se acender, de vela-benta. Nisso não
tinham desrespeitado de mexer. E nós, então, cada um depois dum,
viemos ao quarto-do-oratório beijar a santa maior, que era no seu
manto como uma boneca muito perfeita, que era a Minha Nossa Senhora
Mãe-de-Todos. Se comeu, se dormiu.
Se acordou, bem o digo. Cada dia é um
dia. E o tempo estava alisado. Triste é a vida do jagunço ― dirá
o senhor. Ah, fico me rindo. O senhor nem não diga nada. Vida é
noção que a gente completa seguida assim, mas só por lei duma
ideia falsa. Cada dia é um dia. Ora, mais, ordens já para antes do
vir da aurora se cumprir, dali Zé Bebelo já tinha dado. E foi se
saber! o Suzarte e o Tipote, e outros, com o João Vaqueiro,
rastreavam redobrados, onde em redor, remedindo o mundo a olho e
faro. Tudo eles achavam, tudo sabiam; em pouquinhas horas, tudo
tradiziam. O chão, em lugares, guardava molde marcado dos cascos de
muitíssimas reses, calcados para um rumo só ― um caminho eito.
Aqueles rastros tinham vigorado por cima da derradeira lama da
derradeira chuva. E ― de quantidade e de quanto tinha chovido ―
eles liam, no capim e nos regos de enxurradas, e na altura da cheia
já rebaixada, a deixa, beiradas do ribeirão. Pelo comido pastado
das reses, também, muito se reconhecia. Aos passos dos cavaleiros e
cachorros. As pessoas da casa tinham viajado para a banda de oestes.
Mas o gado, escolhendo por si e sem tocada, mas depois de solto por
boa regra, pegara ida espaçada mais virante acima, aonde devia
haver, para se lamber, salinas de barreiro. E bastantes outras coisas
eles decifravam assim, vendo espiado o que de graça no geral não se
vê. Capaz de divulgarem até os usos e costumes das criaturas
ausentes, dizer ao senhor se aquele seó Habão era magro ou gordo,
seria forrêta ou mão-aberta, canalha inteirado ou razoável
homem-de-bem. Porque, dos centos milhares de assuntos certos que
parecem mágica de rastreador, só com o Tipote e o Suzarte o senhor
podia rechear livro. E ainda antes do meio-dia subir, desemalocaram
duas gordas novilhas, carneadas fartas para a nossa refeição. Um
bom entendedor, num bando, faz muita necessidade.
E aquele lugar, o Valado, eu aceitei ―
o senhor preste atenção! ―; para ficar, uns meus tempos, ali,
ainda me valia. Senti assim, meu destino. Dormindo com um pano
molhado em cima dos olhos e com a nuca repousada numa folha de faca,
de noite o destino da gente às vezes conversa, sussurra, explica,
até pede para não se atrapalhar o devido, mas ajudar. Crendice? Mas
coração não é meio destino? Permanecer, ao menos ali, eu quis.
Mas Zé Bebelo duvidou de ficar. Zé Bebelo suscitado determinou, que
a gente fosse mais para adiante. Ele concebia medo. Conheci. Estava.
Zé Bebelo pegou a principiar medo!
Por que? Chega um dia, se tem. Medo dele era da bexiga, do risco de
doença e morte! achando que o povo do Sucruiú podiam ter trazido o
mau-ar, e que mesmo o Sucruiú ainda demeava vizinho justo demais.
Tanto ri. Mas ri por de dentro, e procedi sério feito um pau do
campo. Assim mesmo, em errei; disso não sabia. Mas o cabedal é um
só, do misturado viver de todos, que mal varêia, e as coisas
cumprem norma. Alguém estiver com medo, por exemplo, próximo, o
medo dele quer logo passar para o senhor; mas, se o senhor firme
aguentar de não temer, de jeito nenhum, a coragem sua redobra e
tresdobra, que até espanta. Pois Zé Bebelo, que sempre se suprira
certo de si, tendo tudo por seguro, agora bambeava. Eu comecei a
tremeluzir em mim.
Pelo que umas cinco léguas andamos.
De medo, meio, conforme decerto, aquele algum seô Habão também
tinha se ido. Carecíamos? Merecer logo ao menos uma semana de
quieto, é que era justo; pois nenhum não estava mais em sua saúde.
Esses homens do Sucruiú, cercados da banda outra pelos catrumanos,
ei que só podiam achar espaço por estes lados, eles sim. Nós, no
nosso. Eu sei que um se mexer a esmo é sempre fácil; e que com o
cansaço é que se tapa o desânimo. Mas, o que eu queria, real, era
estar sarado de alguma demorada doença, comendo aos poucos o meu
caldo com angú, e, em invernia de chuva fria esfriada, me
esquentando perto do borralho de um fogão, e galo de manhã cantando
em algum terreiro. Era para ir? Fôssemos. Disso deslavava. Descemos
a Vereda do Ouriço-Cuim, que não tinha nome verdadeiro anterior, e
assim chamamos, porque um bicho daqueles por lá cruzou. Chapadas de
ladeira pouca. Depois, uma lomba, com o cerradão. E por fim viemos
esbarrar em lugar de algum cómodo, mas feio, como feio não se vê.
― Tudo é gerais... ― eu pensei, por consolo. Um homem, que com a
machadinha na mão e sua cabaça a tiracol tratava de desmelar
cortiço num pau do mato, esse indicou tudo necessário e deu a
menção de onde é que estávamos. Na Coruja, um retiro taperado.
E ali, redizendo o que foi meu
primeiro pressentimento, eu ponho: que era por minha sina o lugar
demarcado, começo de um grande penar em grandes pecados terríveis.
Ali eu não devia nunca de me ter vindo; lá eu não devia de ter
ficado. Foi o que assim de leve eu mesmo me disse, no avistar o
redondo daquilo, e a velhice da casa. Que mesmo como coruja era ―
mas da orelhuda, mais mor, de tristes gargalhadas; porque a suindara
é tão linda, nela tudo é cor que nem tem comparação nenhuma, por
cima de riscas sedas de brancura. E aquele situado lugar não
desmentia nenhuma tristeza. A vereda dele demorava uma aguinha
chorada, demais. Até os buritís, mesmo, estavam presos. O que é
que burití diz? E: ― Eu sei e não sei... Que é que o boi
diz: ― Me ensina o que eu sabia... Bobice de todos. Só esta
coisa o senhor guarde: meia-légua dali, um outro córgo-vereda,
parado, sua água sem-cor por sobre de barro preto. Essas veredas
eram duas, uma perto da outra; e logo depois, alargadas, formavam um
tristonho brejão, tão fechado de môitas de plantas, tão
apodrecido que em escuro: marimbús que não davam salvação. Elas
tinham um nome conjunto ― que eram as Veredas-Mortas. O senhor
guarde bem. No meio do cerrado, ah, no meio do cerrado, para a gente
dividir de lá ir, por uma ou por outra, se via uma encruzilhada.
Agouro? Eu creio no temor de certos pontos. Tem, onde o senhor
encosta a palma-da-mão em terra, e sua mão treme pra trás ou é a
terra que treme se abaixando. A gente joga um punhado dela nas costas
― e ela esquenta: aquele chão gostaria de comer o senhor; e ele
cheira a outroras... Uma encruzilhada, e pois! ― o senhor vá
guardando... Aí mire e veja! as Veredas Mortas... Ali eu tive
limite certo.
Os ruins dias, o castigo do tempo todo
ficado, em que falhamos na Coruja, conto malmente. A qualquer
narração dessas depõe em falso, porque o extenso de todo sofrido
se escapole da memória. E o senhor não esteve lá. O senhor não
escutou, em cada anoitecer, a lugúgem do canto da mãe-da-lua. O
senhor não pode estabelecer em sua ideia a minha tristeza quinhoã.
Até os pássaros, consoante os lugares, vão sendo muito diferentes.
Ou são os tempos, travessia da gente?
Daí, despropositou o frio, vezmente.
E quase que todos os companheiros já estavam adoecidos.
Refiro ao senhor que, da bexiga-brava,
não. Mas de outras enfermidades. Febres. Em algum trêcho, por falta
de sinal, a gente devia de ter arranchado no sezonático. Agora, a
maior parte dos companheiros tremiam em prazos, com a intermitente.
Remédio que valesse, de todo faltava. Aquilo afracava, no diário;
os homens perdiam a natureza. E um andaço de defluxo, que também me
baqueou. Pior não estive; mas eu, de mim, sei. Todos, de em antes,
me davam por normal, conforme eu era, e agora, instantantemente, de
dia em dia eu ia ficando demudado. Com uma raiva, espalhada em tudo,
frouxa nervosia. ― E do fígado... ― me diziam. Dormia pouco, com
esforços. Nessas horas da noite, em que eu restava acordado, minha
cabeça estava cheia de ideias. Eu pensava, como pensava, como o
quem-quem remexe no esterco das vacas. Tudo o que me vinha, era só
entreter um planejado. Feito num traslo copiado de sonho, eu
preparava os distritos daquilo, que, no começo achei que era
fantasia; mas que, com o seguido dos dias, se encorpava, e ia tomando
conta do meu juízo! aquele projeto queria ser e ação! E, o que
era, eu ainda não digo, mais retardo de relatar. Coisa cravada. Nela
eu pensava, ansiado ou em brando, como a água das beiras do rio
finge que volta para trás, como a baba do boi cai em tantos sete
fios.
[...]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

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