Quem tem um “porquê” para
viver pode aguentar qualquer “como”.
— FRIEDRICH NIETZSCHE
Quando eu tinha 6 anos, minhas três
irmãs mais velhas, meu irmão — embora ele raramente estivesse por
perto — e eu amávamos ir à escola. Era o nosso paraíso. Ficava
bem ao lado de casa e gostávamos muito de lá, principalmente
Dianne. Ela amava a escola. Nunca queria faltar.
Estávamos no auge do inverno e não
tínhamos aquecimento. Depois, a eletricidade foi cortada. E por fim
não tínhamos mais telefone. A coisa continuava piorando. Quando
você não tem aquecimento, gás, água quente… o clima fica abaixo
de zero. Totalmente gelado. Os canos acabavam congelando, e ficávamos
sem água corrente. Nem podíamos dar descarga na privada. Para
piorar as coisas, todos nós fazíamos xixi na cama com muita
frequência. Nunca faltávamos à escola, mas certo dia ficamos em
casa. Lembro-me de passar o dia inteiro na sala de estar no clima
abaixo de zero, todos juntinhos, mijados, congelando, observando
minha mãe.
Ela estava perdida. Simplesmente
perdida. Não sabia o que fazer. Sem água corrente. Canos
congelados. Sem aquecimento. Sem telefone. Nós todos juntinhos,
tremendo, e de alguma forma, por volta do meio-dia, Dianne se
levantou e anunciou:
— Vou pra escola.
Ela cuspiu na mão. Tirou as remelas
do olho e perguntou:
— Como eu estou?
MaMama disse:
— Você está bem, Ma. — Usando o
termo sulista. — Você está linda, Ma.
— Ok. Tudo bem, vou pra escola.
E foi.
O resto de nós ainda estava tremendo
quando MaMama disse, por fim:
— Vamos tentar conseguir o auxílio
de aquecimento.
Vestimos todas as peças de roupa que
encontramos. Mesmo em épocas melhores, nunca tínhamos sapatos ou
roupas do tamanho certo. Muitas vezes, sequer conseguíamos encontrar
meias. Quase nunca tínhamos roupas novas. De vez em quando, íamos a
Zayre’s — uma loja de roupas que mais tarde se tornaria a J.C.
Penney — comprar parcelado.
Geralmente íamos à Sociedade de São
Vicente de Paulo. Amávamos ir lá porque era uma aventura remexer
nas coisas usadas por outras pessoas. Tudo parecia ter uma história:
livros, brinquedos velhos, patins, tênis, até casacos de pele e
móveis.
Naquele dia congelante, vestimos tudo
o que tínhamos e saímos no frio. Os escritórios da assistência de
aquecimento ficavam no centro de Pawtucket, e precisaríamos
atravessar a cidade para chegar lá. Minha mãe, Deloris, Anita e eu
caminhamos naquele dia gelado, abaixo de zero. Eu ainda era a mais
nova naquela época e chorava por qualquer coisa — era uma bebê
chorona. Quando começamos a andar, me desmanchei em lágrimas.
Quando passamos pela escola no caminho, a diretora, Sra. Prosser, nos
viu. Era uma mulher incrível, alta e magra, com cabelo ruivo
brilhante. Ela sempre me parecia tão elegante e era ao mesmo tempo
poderosa e gentil. Ela se preocupava comigo.
Quando a Sra. Prosser me chamava em
sua sala, eu pensava: Meu Deus. O que foi que eu fiz? Porque
eu era uma tremenda encrenqueira. Mesmo quando não tinha feito nada
de errado, eu já esperava pela bomba. Mas por vezes ela me chamava
na sua sala e me dava um monte de sacolas com coisas que tinham
pertencido à filha dela, roupas muito bonitas e bolsinhas. Eu as
usava na escola e ficava no pátio durante o recreio, posando com as
roupas que ela me dera como se dissesse: Olhem pra mim! Era
como se eu estivesse exigindo ou implorando por atenção, atenção
positiva, sem querer que as pessoas tocassem nas minhas roupas
perfeitamente escolhidas.
A Sra. Prosser sabia da nossa
situação. Quando nos viu, gritou da janela:
— Sra. Davis, Sra. Davis!
Mama parou. Estávamos juntinhos,
tremendo, quando a diretora foi ao nosso encontro. Ela estava tão
desesperada para nos alcançar que sequer tinha vestido um casaco.
— Sra. Davis, seus filhos não
vieram para a escola hoje. O que está acontecendo?
— Não temos aquecimento nem
eletricidade. Não temos nada. E os canos congelaram. Não tem água
corrente. Eles não podem nem tomar banho. Não podemos fazer nada.
— Ah, Sra. Davis, eu sinto muito.
Sinto muito mesmo. — Os olhos dela se encheram de lágrimas quando
nos olhou e tocou meu rosto. — Sinto muito mesmo. Gostaria de poder
fazer alguma coisa para ajudar.
— Vamos ao centro de Pawtucket ver
se consigo que alguém nos ajude a pagar as contas.
— Bem, fale conosco se houver algo
que possamos fazer. Sinto muito mesmo. Eu só queria saber por que
seus filhos não vieram para a escola.
Essa época da minha vida foi permeada
pela vergonha. A sensação que você tem quando está com pânico de
palco ou passa por uma humilhação pública, aquela era a vergonha
da época no 128. A vergonha nos eviscera por completo, destrói
qualquer sentimento de orgulho que alguém possa ter.
Uma vez, na aula, eu precisava muito
ir ao banheiro e levantei a mão, mas o professor não me deu
atenção. Não consegui segurar, então acabei fazendo xixi ali
mesmo. Começou a pingar no chão e inundou minha cadeira. Minha
professora pegou um par de calças secas para mim da enfermaria,
colocou minhas roupas molhadas em um saco de papel e me mandou para
casa. Mas a parte mais humilhante foi retornar no dia seguinte e
encontrar minha cadeira num canto no fundo da sala de aula com a
mesma poça enorme de urina. Ficou lá até secar lentamente. E por
quê? O xixi de uma menina de 6 anos era nojento demais até para o
zelador da escola limpar.
Eu era constrangida com frequência, e
o 128 apenas aumentava a sensação de humilhação. Nosso prédio
pegou fogo várias vezes. Da primeira vez, eu estava no primeiro ano.
Todas as crianças da escola espiaram pela janela da sala, vendo o
caminhão vermelho dos bombeiros na frente do prédio ao lado da
escola. Vimos enquanto os bombeiros pegavam a mangueira e jogavam
jatos de água no prédio, a fumaça ondulando.
Ouvi uma orquestra de vozes:
“Ai, meu Deus!”
“Um incêndio!”
“Quem mora lá?”
“É a casa da Viola.”
A professora, Srta. Picard, me
encarou:
— Viola, aquela é a sua casa?
Eu estava na sala de aula com meus
colegas do primeiro ano, que já me olhavam diferente por eu ser
negra, e agora viam minha casa em chamas.
— É, sim — respondi, observando
os bombeiros correndo para dentro do prédio com mangueiras.
Eu não sabia se era o nosso
apartamento que pegara fogo. Era uma metáfora perfeita para a
devastação que eu sentia no meu coração. Porque a fonte da minha
mais profunda vergonha era agora a fonte de um terrível
entretenimento para aquelas pessoas que me excluíam desde o dia que
tinham me conhecido.
Quando cheguei em casa naquele dia, o
apartamento estava uma completa bagunça. Era mesmo o nosso
apartamento que pegara fogo. O dano do incêndio fora grande, mas o
dano da água fora ainda maior. A mesma água que os bombeiros
jogaram na nossa casa para salvá-la também a destruiu. O chão de
linóleo empenou, inchou e ondulou. Olhando para o que restou do
nosso apartamento, pensei que nem mesmo os bombeiros tiveram respeito
pelo lugar que chamávamos de lar. Eu sabia que ele era uma merda.
Mas era a minha merda. Era a minha casa.
Muitos dos incêndios que ocorriam na
nossa casa não causavam danos. Eu era acordada no meio da noite,
conduzida por uma escadaria escura e esfumaçada, e ficava de pé por
um tempão, sonolenta, com meu cabelo enrolado em uma touca. O foco
do incêndio era encontrado e a ordem restaurada, então subíamos e
voltávamos para a cama.
E havia momentos em que Millie, nossa
vizinha, batia na porta.
— Dan! Dan! Tire seus filhos de
casa! Está pegando fogo!
Millie era negra e tinha uma filha
chamada Kim e um filho, Reggie, que estivera no Vietnã. Kim logo se
tornou amiga da família. Ela e minha irmã Anita eram especialmente
próximas, até que em algum momento se afastaram. Millie era uma
dessas mulheres negras de pele clara que fumam, são duronas e mandam
todo mundo à merda. Ela também era a arauta da vizinhança.
— Dan! Tire seus filhos daí! A
porra dessa casa está pegando fogo! Você não pode descer pelas
escadas, tem muita fumaça!
Meu pai gritou e nos acordou. Uma
fumaça preta estava subindo escada acima, e estávamos no terceiro
andar.
— Vão para a saída de incêndio!
Meu pai nos empurrou para a varanda e
começamos a descer às pressas.
Todos tínhamos experiência em descer
escadas de incêndio. Tínhamos experiência com escaladas e descidas
em geral. Descíamos escadas de incêndio quando ficávamos trancados
para fora de casa. Pulávamos cercas para pegar maçãs, pêssegos e
peras do jardim dos vizinhos sem pedir permissão. Mas descer escadas
com pressa quando se está convencido de que vai morrer é outra
história.
Bem, os caminhões estavam lá e os
bombeiros já tinham pegado as mangueiras, pessoas ladeavam a rua,
observando e arfando. Minha família desceu a escada de incêndio, um
atrás do outro, como Os Incríveis. Apenas um membro solitário da
família foi deixado no último degrau: eu.
Fiquei lá, me acabando de chorar.
— Mama!
Meus pais e meus irmãos gritavam:
— Viola! Pula! Só pula!
Minha mãe estava em pânico. Ela
começou a gritar histericamente:
— Meu amor! Pule para a mamãe!
Eu me agachei com os braços
estendidos, tentando alcançá-la porque estava com muito medo de
pular, era muito alto. Imaginei as chamas atrás de mim, prontas para
me engolir a qualquer minuto, como Dumbo quando teve que pular fora
daquela plataforma, mas eu não tinha as orelhas grandes para me
ajudar a voar. Mas, tão certo quanto o fato de que sou negra, vi
minha mãe voar.
Ela deu mais ou menos cinco grandes
passos para trás, correu e pulou no momento certo, como se fosse
Michael Jordan, agarrou meu braço e me puxou para baixo. Caímos
juntas no chão de concreto. Ela gritou de dor! Meu pai a ajudou a se
levantar e nós simplesmente nos abraçamos, bem apertado. Minhas
irmãs bateram na minha cabeça.
— Sua burra. Você devia ter pulado!
Não era tão alto assim. MaMama quase se machucou.
Eu só observei minha mãe mancar e vi
minhas irmãs e meu irmão parecendo completamente chocados,
perdidos, esperando que os bombeiros nos limpassem para voltarmos
para aquele inferno. Era só um teto sobre nossa cabeça. Não
chegava nem perto de um lar.
A verdade é que ninguém liga.
Nenhuma daquelas pessoas que observava o incêndio percebeu o meu
pequeno “show do Dumbo”, e não havia chamas. Ficamos no 128 por
mais dois anos. E, sim, o lugar continuou sem quaisquer medidas de
proteção contra incêndios. Mas acredito que ninguém se importa
com as condições nas quais os indesejados vivem. Você é
invisível, um fator culposo que permite que os mais favorecidos não
sejam responsabilizados pelo sofrimento do outro.
No 128, os incêndios apenas se
tornavam mais frequentes. Os ratos se multiplicavam. A escadaria do
primeiro andar tinha buracos que levavam diretamente ao porão. Uma
família de oito crianças sequestradas e duas tutoras se mudou para
o segundo andar, e brigas sangrentas, cicatrizes e pontos cirúrgicos
viraram parte do nosso dia a dia.
Mesmo assim, no meio da tempestade de
merda da minha vida, havia uma pequeníssima luz. Um guia. Um
sussurro. Uma voz.
Aquela pergunta da minha Dianne: “O
que você quer ser?”
Viola Davis, em Em Busca de Mim

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