segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Capítulo 4 — 128


Quem tem um “porquê” para viver pode aguentar qualquer “como”.
FRIEDRICH NIETZSCHE

Quando eu tinha 6 anos, minhas três irmãs mais velhas, meu irmão — embora ele raramente estivesse por perto — e eu amávamos ir à escola. Era o nosso paraíso. Ficava bem ao lado de casa e gostávamos muito de lá, principalmente Dianne. Ela amava a escola. Nunca queria faltar.
Estávamos no auge do inverno e não tínhamos aquecimento. Depois, a eletricidade foi cortada. E por fim não tínhamos mais telefone. A coisa continuava piorando. Quando você não tem aquecimento, gás, água quente… o clima fica abaixo de zero. Totalmente gelado. Os canos acabavam congelando, e ficávamos sem água corrente. Nem podíamos dar descarga na privada. Para piorar as coisas, todos nós fazíamos xixi na cama com muita frequência. Nunca faltávamos à escola, mas certo dia ficamos em casa. Lembro-me de passar o dia inteiro na sala de estar no clima abaixo de zero, todos juntinhos, mijados, congelando, observando minha mãe.
Ela estava perdida. Simplesmente perdida. Não sabia o que fazer. Sem água corrente. Canos congelados. Sem aquecimento. Sem telefone. Nós todos juntinhos, tremendo, e de alguma forma, por volta do meio-dia, Dianne se levantou e anunciou:
Vou pra escola.
Ela cuspiu na mão. Tirou as remelas do olho e perguntou:
Como eu estou?
MaMama disse:
Você está bem, Ma. — Usando o termo sulista. — Você está linda, Ma.
Ok. Tudo bem, vou pra escola.
E foi.
O resto de nós ainda estava tremendo quando MaMama disse, por fim:
Vamos tentar conseguir o auxílio de aquecimento.
Vestimos todas as peças de roupa que encontramos. Mesmo em épocas melhores, nunca tínhamos sapatos ou roupas do tamanho certo. Muitas vezes, sequer conseguíamos encontrar meias. Quase nunca tínhamos roupas novas. De vez em quando, íamos a Zayre’s — uma loja de roupas que mais tarde se tornaria a J.C. Penney — comprar parcelado.
Geralmente íamos à Sociedade de São Vicente de Paulo. Amávamos ir lá porque era uma aventura remexer nas coisas usadas por outras pessoas. Tudo parecia ter uma história: livros, brinquedos velhos, patins, tênis, até casacos de pele e móveis.
Naquele dia congelante, vestimos tudo o que tínhamos e saímos no frio. Os escritórios da assistência de aquecimento ficavam no centro de Pawtucket, e precisaríamos atravessar a cidade para chegar lá. Minha mãe, Deloris, Anita e eu caminhamos naquele dia gelado, abaixo de zero. Eu ainda era a mais nova naquela época e chorava por qualquer coisa — era uma bebê chorona. Quando começamos a andar, me desmanchei em lágrimas. Quando passamos pela escola no caminho, a diretora, Sra. Prosser, nos viu. Era uma mulher incrível, alta e magra, com cabelo ruivo brilhante. Ela sempre me parecia tão elegante e era ao mesmo tempo poderosa e gentil. Ela se preocupava comigo.
Quando a Sra. Prosser me chamava em sua sala, eu pensava: Meu Deus. O que foi que eu fiz? Porque eu era uma tremenda encrenqueira. Mesmo quando não tinha feito nada de errado, eu já esperava pela bomba. Mas por vezes ela me chamava na sua sala e me dava um monte de sacolas com coisas que tinham pertencido à filha dela, roupas muito bonitas e bolsinhas. Eu as usava na escola e ficava no pátio durante o recreio, posando com as roupas que ela me dera como se dissesse: Olhem pra mim! Era como se eu estivesse exigindo ou implorando por atenção, atenção positiva, sem querer que as pessoas tocassem nas minhas roupas perfeitamente escolhidas.
A Sra. Prosser sabia da nossa situação. Quando nos viu, gritou da janela:
Sra. Davis, Sra. Davis!
Mama parou. Estávamos juntinhos, tremendo, quando a diretora foi ao nosso encontro. Ela estava tão desesperada para nos alcançar que sequer tinha vestido um casaco.
Sra. Davis, seus filhos não vieram para a escola hoje. O que está acontecendo?
Não temos aquecimento nem eletricidade. Não temos nada. E os canos congelaram. Não tem água corrente. Eles não podem nem tomar banho. Não podemos fazer nada.
Ah, Sra. Davis, eu sinto muito. Sinto muito mesmo. — Os olhos dela se encheram de lágrimas quando nos olhou e tocou meu rosto. — Sinto muito mesmo. Gostaria de poder fazer alguma coisa para ajudar.
Vamos ao centro de Pawtucket ver se consigo que alguém nos ajude a pagar as contas.
Bem, fale conosco se houver algo que possamos fazer. Sinto muito mesmo. Eu só queria saber por que seus filhos não vieram para a escola.
Essa época da minha vida foi permeada pela vergonha. A sensação que você tem quando está com pânico de palco ou passa por uma humilhação pública, aquela era a vergonha da época no 128. A vergonha nos eviscera por completo, destrói qualquer sentimento de orgulho que alguém possa ter.
Uma vez, na aula, eu precisava muito ir ao banheiro e levantei a mão, mas o professor não me deu atenção. Não consegui segurar, então acabei fazendo xixi ali mesmo. Começou a pingar no chão e inundou minha cadeira. Minha professora pegou um par de calças secas para mim da enfermaria, colocou minhas roupas molhadas em um saco de papel e me mandou para casa. Mas a parte mais humilhante foi retornar no dia seguinte e encontrar minha cadeira num canto no fundo da sala de aula com a mesma poça enorme de urina. Ficou lá até secar lentamente. E por quê? O xixi de uma menina de 6 anos era nojento demais até para o zelador da escola limpar.
Eu era constrangida com frequência, e o 128 apenas aumentava a sensação de humilhação. Nosso prédio pegou fogo várias vezes. Da primeira vez, eu estava no primeiro ano. Todas as crianças da escola espiaram pela janela da sala, vendo o caminhão vermelho dos bombeiros na frente do prédio ao lado da escola. Vimos enquanto os bombeiros pegavam a mangueira e jogavam jatos de água no prédio, a fumaça ondulando.
Ouvi uma orquestra de vozes:

Ai, meu Deus!”
Um incêndio!”
Quem mora lá?”
É a casa da Viola.”

A professora, Srta. Picard, me encarou:
Viola, aquela é a sua casa?
Eu estava na sala de aula com meus colegas do primeiro ano, que já me olhavam diferente por eu ser negra, e agora viam minha casa em chamas.
É, sim — respondi, observando os bombeiros correndo para dentro do prédio com mangueiras.
Eu não sabia se era o nosso apartamento que pegara fogo. Era uma metáfora perfeita para a devastação que eu sentia no meu coração. Porque a fonte da minha mais profunda vergonha era agora a fonte de um terrível entretenimento para aquelas pessoas que me excluíam desde o dia que tinham me conhecido.
Quando cheguei em casa naquele dia, o apartamento estava uma completa bagunça. Era mesmo o nosso apartamento que pegara fogo. O dano do incêndio fora grande, mas o dano da água fora ainda maior. A mesma água que os bombeiros jogaram na nossa casa para salvá-la também a destruiu. O chão de linóleo empenou, inchou e ondulou. Olhando para o que restou do nosso apartamento, pensei que nem mesmo os bombeiros tiveram respeito pelo lugar que chamávamos de lar. Eu sabia que ele era uma merda. Mas era a minha merda. Era a minha casa.
Muitos dos incêndios que ocorriam na nossa casa não causavam danos. Eu era acordada no meio da noite, conduzida por uma escadaria escura e esfumaçada, e ficava de pé por um tempão, sonolenta, com meu cabelo enrolado em uma touca. O foco do incêndio era encontrado e a ordem restaurada, então subíamos e voltávamos para a cama.
E havia momentos em que Millie, nossa vizinha, batia na porta.
Dan! Dan! Tire seus filhos de casa! Está pegando fogo!
Millie era negra e tinha uma filha chamada Kim e um filho, Reggie, que estivera no Vietnã. Kim logo se tornou amiga da família. Ela e minha irmã Anita eram especialmente próximas, até que em algum momento se afastaram. Millie era uma dessas mulheres negras de pele clara que fumam, são duronas e mandam todo mundo à merda. Ela também era a arauta da vizinhança.
Dan! Tire seus filhos daí! A porra dessa casa está pegando fogo! Você não pode descer pelas escadas, tem muita fumaça!
Meu pai gritou e nos acordou. Uma fumaça preta estava subindo escada acima, e estávamos no terceiro andar.
Vão para a saída de incêndio!
Meu pai nos empurrou para a varanda e começamos a descer às pressas.
Todos tínhamos experiência em descer escadas de incêndio. Tínhamos experiência com escaladas e descidas em geral. Descíamos escadas de incêndio quando ficávamos trancados para fora de casa. Pulávamos cercas para pegar maçãs, pêssegos e peras do jardim dos vizinhos sem pedir permissão. Mas descer escadas com pressa quando se está convencido de que vai morrer é outra história.
Bem, os caminhões estavam lá e os bombeiros já tinham pegado as mangueiras, pessoas ladeavam a rua, observando e arfando. Minha família desceu a escada de incêndio, um atrás do outro, como Os Incríveis. Apenas um membro solitário da família foi deixado no último degrau: eu.
Fiquei lá, me acabando de chorar.
Mama!
Meus pais e meus irmãos gritavam:
Viola! Pula! Só pula!
Minha mãe estava em pânico. Ela começou a gritar histericamente:
Meu amor! Pule para a mamãe!
Eu me agachei com os braços estendidos, tentando alcançá-la porque estava com muito medo de pular, era muito alto. Imaginei as chamas atrás de mim, prontas para me engolir a qualquer minuto, como Dumbo quando teve que pular fora daquela plataforma, mas eu não tinha as orelhas grandes para me ajudar a voar. Mas, tão certo quanto o fato de que sou negra, vi minha mãe voar.
Ela deu mais ou menos cinco grandes passos para trás, correu e pulou no momento certo, como se fosse Michael Jordan, agarrou meu braço e me puxou para baixo. Caímos juntas no chão de concreto. Ela gritou de dor! Meu pai a ajudou a se levantar e nós simplesmente nos abraçamos, bem apertado. Minhas irmãs bateram na minha cabeça.
Sua burra. Você devia ter pulado! Não era tão alto assim. MaMama quase se machucou.
Eu só observei minha mãe mancar e vi minhas irmãs e meu irmão parecendo completamente chocados, perdidos, esperando que os bombeiros nos limpassem para voltarmos para aquele inferno. Era só um teto sobre nossa cabeça. Não chegava nem perto de um lar.
A verdade é que ninguém liga. Nenhuma daquelas pessoas que observava o incêndio percebeu o meu pequeno “show do Dumbo”, e não havia chamas. Ficamos no 128 por mais dois anos. E, sim, o lugar continuou sem quaisquer medidas de proteção contra incêndios. Mas acredito que ninguém se importa com as condições nas quais os indesejados vivem. Você é invisível, um fator culposo que permite que os mais favorecidos não sejam responsabilizados pelo sofrimento do outro.
No 128, os incêndios apenas se tornavam mais frequentes. Os ratos se multiplicavam. A escadaria do primeiro andar tinha buracos que levavam diretamente ao porão. Uma família de oito crianças sequestradas e duas tutoras se mudou para o segundo andar, e brigas sangrentas, cicatrizes e pontos cirúrgicos viraram parte do nosso dia a dia.
Mesmo assim, no meio da tempestade de merda da minha vida, havia uma pequeníssima luz. Um guia. Um sussurro. Uma voz.
Aquela pergunta da minha Dianne: “O que você quer ser?”

Viola Davis, em Em Busca de Mim

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