Central Falls! Central Falls!
Valente, corajoso e ousado!
Vida longa ao nosso nome e vida
longa à nossa glória e
que por muito tempo nosso legado
seja contado.
— LEMA DA CENTRAL FALLS HIGH SCHOOL
Dois meses depois do meu nascimento,
meus pais se mudaram para Central Falls, levando consigo as três
filhas mais jovens, Anita, Delores e eu, e deixando os dois filhos
mais velhos, Dianne e John, com os pais da minha mãe. Dianne e John
foram criados por meus avós por anos, até que minha mãe não
aguentou mais ouvir histórias sobre eles apanhando na escola. Meus
pais então os levaram para viver conosco em Central Falls.
Central Falls, em Rhode Island, era
uma cidade de dois quilômetros quadrados conhecida apenas por ser
uma das mais populosas por metro quadrado dos Estados Unidos. Central
Falls também tinha uma grande quantidade de bares e igrejas. Em
1985, a cidade foi eleita a capital da cocaína porque um dos maiores
esquemas de drogas de todos os tempos aconteceu em suas ruas.
A história encantadora, a história
idílica, é que um dia a cidade foi chamada de Chocolândia por
causa da quantidade de fábricas de chocolate que abrigava. A
primeira vista, Central Falls parecia bucólica. Havia inúmeros
parques, mas nosso parquinho era o Jenks Park, por causa da Cogswell
Tower, local onde observadores pertencentes aos povos originários
norte-americanos testemunharam a chegada do capitão Michael Pierce.
Esse episódio foi um acontecimento essencial na guerra do rei
Phillip, uma batalha armada que ocorreu entre 1675 e 1678 entre os
povos originários norte-americanos e colonos da Nova Inglaterra.
Nós nos mudamos para lá porque dois
dos maiores hipódromos do país ficavam em Rhode Island. Havia o
Lincoln Downs, em Lincoln, e o Hipódromo Narragansett, em
Narragansett, que era carinhosamente chamado de Gansett.
Lojas de família ladeavam as ruas de
Central Falls. O restaurante Sarah’s tinha grandes e fascinantes
bancos de madeira de encostos altos nas cabines. Serviam arroz-doce
caseiro, bolinhos de milho fritos em montes de manteiga e os melhores
hambúrgueres da cidade. A Sociedade de São Vicente de Paulo (que
faz um trabalho similar ao do Exército de Salvação), localizada na
Washington Street, vendia roupas, sapatos, brinquedos, bugigangas e
móveis usados. Era nosso lugar preferido para comprar sobras
acessíveis.
Do outro lado da rua da Sociedade de
São Vicente de Paulo ficava a Gabe’s ou, como chamávamos,
Antar’s. Temos inúmeras boas memórias daquela loja, mas algumas
complicadas também. Boas porque Gabe Antar, o dono, era sírio e era
muito gentil com nossa família. Era uma mercearia maravilhosa, cheia
de tudo o que alguém pudesse precisar. Quando estávamos passando
por tempos muito difíceis, ele nos deixava comprar fiado para que
não nos faltasse o que comer. Mas era complicado, porque por vezes
meus pais pediam dinheiro emprestado a Gabe.
Gabe tinha um caderno que ficava
embaixo da caixa registradora e nele havia um registro das várias
famílias da vizinhança que lhe deviam. Algumas das minhas memórias
mais constrangedoras são de ir à loja com um pedaço de papel, no
qual minha mãe anotara de quanto dinheiro precisava. Às vezes, o
constrangimento era tanto que minha irmã Deloris e eu rasgávamos o
papel e nos recusávamos a ir falar com ele. Em vez disso, dizíamos
à minha mãe que Gabe negara o empréstimo. E, às vezes, quando
pedíamos, ele jogava o dinheiro em nós, frustrado porque meus pais
não haviam pagado os débitos anteriores. Aquele homem gentil ficava
tomado de fúria e gritava: “Caiam fora daqui!” Pegávamos o
dinheiro do chão, humilhadas, e saíamos completamente arrasadas.
No entanto, quando estávamos com
muita fome, a Gabe’s era a loja mais fácil de roubar comida. Muito
mais tarde na vida, descobri que Gabe perdera o filho no Vietnã.
Isso provavelmente explicava a frustração e a tristeza nos olhos
dele. Também deve ter sido o motivo de sua gentileza conosco quando
crianças e a razão pela qual nos ajudava ao testemunhar nossa
precariedade. Nossa relação com ele era preenchida de amor e
admiração misturada à vergonha de ter que se agarrar tão
desesperadamente à sua bondade, a qual muitas vezes nos salvava.
Quando você está lutando para sobreviver, a moralidade vai para o
espaço.
Nós éramos pobres “de marré
deci”. Isso é ainda mais pobre do que pobre. Ouvi alguns amigos
dizerem: “Nós também éramos pobres, mas só me dei conta disso
depois de mais velho.” Nós éramos pobres e sabíamos
disso. Não havia como negar. Estava refletido no prédio em que
morávamos, onde comprávamos roupas e móveis — na loja da
Sociedade de São Vicente de Paulo —, no vale-refeição que nunca
era suficiente para nos alimentar e no cheque que recebíamos da
previdência social. Éramos pobres “de marré deci”. Quase nunca
tínhamos acesso a um telefone. Com frequência não tínhamos água
quente nem gás. Precisávamos usar um fogão elétrico de mesa, o
que aumentava a conta de energia. O encanamento era de má qualidade,
então as privadas não davam descarga. Na verdade, não me lembro de
ter privadas funcionando no nosso apartamento. Fiquei muito
habilidosa em encher um balde e despejá-lo na privada para dar
descarga. E como nosso gás era cortado constantemente pela falta de
pagamento, não tomávamos banho ou só nos limpávamos com água
fria. E mesmo nos limpar era difícil, porque por vezes não tínhamos
toalha, sabonete, xampu… Eu com certeza não sabia a diferença
entre uma toalha de rosto e uma de banho.
Um dos nossos primeiros apartamentos
ficava no número 128 da Washington Street. Em tom de agouro, eu e
minhas irmãs nos referíamos a ele como “128”. O 128 era para
nós o mesmo que inferno! Quando nos mudamos, era um apartamento
normal. Eu tinha 5 anos na época. No térreo, ficava um alfaiate. E
havia uma varandinha agradável no terceiro andar, onde morávamos. O
prédio era antigo, provavelmente construído nos anos 1920 ou 1930,
mas fora mantido em boas condições. Então o alfaiate fechou a
loja, e o prédio ficou condenado muito rapidamente.
O ateliê do alfaiate foi fechado com
tábuas. Sem manutenção, as instalações elétricas se tornaram
perigosamente instáveis. Houve vários incêndios, e o prédio logo
ficou infestado de ratos. Na verdade, os ratos eram um problema tão
grave que chegaram a comer o rosto das minhas bonecas. Eu nunca,
nunca, entrava na cozinha. Os ratos também haviam tomado conta dos
armários e da bancada. Era comum parte do reboco de gesso cair das
paredes, revelando as tábuas de madeira que mantinham tudo em pé.
Tínhamos que ir à lavanderia lavar
roupas. Mas a combinação de falta de dinheiro, cinco filhos e um
clima congelante significava que na maior parte do tempo a roupa suja
ficava sem lavar por semanas. Isso, junto com o xixi na cama, deixava
a casa com um cheiro horrível. Os armários e os espaços embaixo
das camas estavam cheios de sapatos, poeira e itens variados.
Tínhamos até medo de limpar, porque talvez os ratos estivessem se
esgueirando em meio à bagunça. No primeiro dia do mês chegava o
vale-refeição e fazíamos uma enorme compra de mantimentos no
supermercado BIG G. Mas em menos de duas semanas a comida acabava.
Pouco depois de nos mudarmos, lembro
que o prefeito Bessette entrou no apartamento e fez um grande
discurso na nossa sala de estar, dizendo que estava nos dando aquele
lugar para morar. Não precisaríamos pagar aluguel. Mas isso foi
porque o prédio estava condenado. Dentro de um ano, a prefeitura
planejava derrubá-lo para construir uma escola. O prefeito Bessette
enviou um funcionário para fazer um buraco em uma das paredes que
dava no apartamento ao lado, criando uma passagem improvisada. O
apartamento ao lado nunca teve aquecimento ou eletricidade. Nunca.
Mesmo nos curtos períodos em que o nosso teve aquecimento e
eletricidade, o do lado nunca teve. Mas aquele espaço se tornou
nosso. Nós o utilizamos como quartos, passando extensões elétricas
pelo apartamento que tinha energia.
Meses depois, fui até a casa do
prefeito Bessette para cantar canções de Natal. Era do outro lado
da cidade, na parte onde moravam os ricos, ou as pessoas que tinham
um pouco mais de dinheiro. A casa dele tinha um pé-direito de 12
metros, lareira, uma escadaria enorme e a árvore de Natal era a
maior que eu já vira na vida. O aquecimento da casa soprou em nosso
rosto; nós, que estávamos tremendo no frio congelante.
O apelido “128” também poderia
ser código para “a masmorra” entre mim e minhas irmãs, embora
também tenhamos algumas boas memórias daquele período. Minha irmã
mais velha, Dianne, tinha ficado na Carolina do Sul com meus avós.
Ela estava crescendo em escolas segregadas onde a educação era
abaixo do padrão, e estudantes retintos costumavam ser espancados
com varas até sangrar apenas por terem “se recusado” a nascer
com a pele clara.
Dois anos depois de nos mudarmos para
Central Falls, meus pais enfim disseram: “Precisamos criar nossos
filhos”, e economizaram dinheiro para que minha irmã Dianne e John
fossem morar com a gente. Dianne tinha 9 anos quando entrou na
Broadstreet School, a mesma escola onde eu fazia o jardim de
infância. A escola ia do jardim de infância até o sexto ano.
MaMama foi até lá com Dianne para matriculá-la no quarto ano.
Depois de fazer um teste, as
habilidades de leitura e matemática dela foram classificadas como
tão abaixo do padrão que ela sequer poderia entrar no quarto ano. O
Sr. Fortin, professor daquele ano, que sempre usava um bom terno,
óculos de armação preta e cabelo lambido para trás, disse que a
escola matricularia Dianne no terceiro ano.
Dianne se lembra de dizer ao Sr.
Fortin:
— Se você estudar comigo todo dia
depois da escola, prometo que mostrarei que posso ficar no quarto
ano.
E o Sr. Fortin respondeu:
— Tudo bem, vou te ensinar.
E manteve a promessa. Todo dia depois
da aula, Dianne ficava na escola, e ele se sentava lá com ela.
Dianne nos disse:
— Como sou a mais velha, vou ensinar
tudo o que aprender quando chegar em casa, assim vocês estarão
adiantados.
Compramos uma carteira escolar de
segunda mão na Sociedade de São Vicente de Paulo. A cadeira era
presa à mesa e tinha pequenos feixes na pintura. Na verdade, eles a
tinham comprado para mim. Eu me sentava nela enquanto Dianne nos
ensinava o que aprendera na escola. Eu acabei me tornando uma aluna
desagradável na escola porque ficava entediada.
Eu dizia:
— Já sei fazer isso. Minha irmã
Dianne já me ensinou a tabuada de multiplicação. — Entediada, eu
queria conversar, queria brincar. — Já aprendi a escrever com
letra cursiva. Minha irmã Dianne me ensinou.
Dianne tinha outro dom. Ela era uma
contadora de histórias incrível, como nosso pai, e podia
transportar qualquer um a outra realidade apenas com o poder das
palavras. Nós nos sentávamos e batíamos palmas: “Dianne, conte
uma história. Conte uma história.” Ela ficava diante de nós e
nos cativava. Muitas das histórias dela eram anedotas sobre a vida
no Sul, sobre como era lá. Outras eram fábulas que ela inventava,
similares àquelas contadas no Sul, fábulas sobre haints,
bruxas e folclore antigo. Nós acreditávamos em tudo.
A história que ela mais nos contava
era:
— Uma noite, ouvimos algo no bosque
atrás da casa da minha avó — começava Dianne. Nós estávamos
todos sentados no chão da cozinha no apartamento do número 128. Ela
sempre ficava de pé. — Eu podia ouvir a coisa entre as árvores.
Fui até lá pra ver o que era porque todo mundo estava com medo.
Estava tão escuro que não dava pra gente ver as mãos na frente do
rosto. Nem sei o que estava no bosque.
Essa parte sempre me assustava.
— Ouvi uma batida e olhei para cima,
para baixo e vi gotas de sangue por toda a parte! Fui mais adiante e
vi o tio Arnold. — Tio Arnold era nosso tio mais próximo. — As
pernas dele estavam lá longe! Os braços estavam mais longe ainda. O
corpo dele estava partido ao meio e a cabeça nem estava presa ao
pescoço. Fiquei em choque! Comecei a gritar e então coloquei a mão
na cintura, olhei pra cabeça dele e disse: “Arnold! Ponha a cabeça
no lugar!”
Quando ouvíamos a piada, morríamos
de rir. Eu sempre gritava:
— De novo, Dianne! Conte de novo!
Quando conheci Dianne, foi numa rara
ocasião em que tínhamos água quente. Eu devia ter uns 5 anos.
Dianne tinha 9 quando entrou em nossa vida em Central Falls.
Lembro-me perfeitamente dela: usava um bom casaco, tinha dinheiro e
cheirava bem. Eu estava tomando banho e, dizem, enrolando para me
vestir, quando ouvi Dianne dizer:
— Cadê minha irmãzinha?
Ela entrou no banheiro. Olhei para ela
e ela olhou para mim. Foi amor instantâneo. No meu cérebro
infantil, parte do amor surgiu porque Dianne se ofereceu para comprar
doces para mim na loja do Gabe. Mas hoje, já adulta, reconheço que
havia algo mais importante que me fazia amá-la.
Dianne olhou ao redor do apartamento
bagunçado.— Viola, você não quer viver assim quando for mais
velha, quer? — perguntou baixinho. Ela não queria que minha mãe
ouvisse.
— Não, Dianne.
— Você precisa ter uma ideia muito
nítida do que vai fazer se não quiser ser pobre pelo resto da vida.
Precisa decidir o que quer ser. E então tem que trabalhar muito —
sussurrou.
Lembro-me de pensar: Eu só quero
doce. Não consegui entender a parte abstrata do que ela disse.
Era muito nova. Mas algo que eu ainda não tinha as palavras para
expressar, mas conseguia sentir, mudou dentro de mim. “O que eu
quero ser?” A primeira semente fora plantada.
Havia um jeito de escapar?
Conquistar algo, me tornar “alguém”,
virou meu propósito de vida. Senti que as conquistas poderiam limpar
a parte ruim. Limparia a pobreza. Limparia o fato de que me sentia
inferior, como membro da única família negra de Central Falls. Eu
poderia renascer como uma pessoa bem-sucedida. Queria conquistar mais
do que minha mãe conquistara.
Desde os 5 anos, por causa de Dianne,
recriar, reinventar e redefinir se tornou minha missão, embora eu
não pudesse ter articulado isso naquela época. Ela simplesmente era
minha aliada sobrenatural. Muito mais tarde, depois da faculdade, da
Juilliard, dos palcos da Broadway; depois de ser indicada a prêmios
— Emmy, Oscar, Tony —, enfim pude colocar em palavras o que foi
aquele grande momento, incentivado por minha irmã naquele dia. Foi o
catalisador ou o agente que provocou uma pergunta maior: “Eu não
sou alguém AGORA?” O que eu precisava fazer para ser digna? Aquele
momento, aquela revelação, foi o verdadeiro começo do meu chamado
para a aventura.
Viola Davis, em Em busca de mim

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