domingo, 12 de outubro de 2025

Capítulo 3 | Central Falls




Central Falls! Central Falls! Valente, corajoso e ousado!
Vida longa ao nosso nome e vida longa à nossa glória e
que por muito tempo nosso legado seja contado.
LEMA DA CENTRAL FALLS HIGH SCHOOL

Dois meses depois do meu nascimento, meus pais se mudaram para Central Falls, levando consigo as três filhas mais jovens, Anita, Delores e eu, e deixando os dois filhos mais velhos, Dianne e John, com os pais da minha mãe. Dianne e John foram criados por meus avós por anos, até que minha mãe não aguentou mais ouvir histórias sobre eles apanhando na escola. Meus pais então os levaram para viver conosco em Central Falls.
Central Falls, em Rhode Island, era uma cidade de dois quilômetros quadrados conhecida apenas por ser uma das mais populosas por metro quadrado dos Estados Unidos. Central Falls também tinha uma grande quantidade de bares e igrejas. Em 1985, a cidade foi eleita a capital da cocaína porque um dos maiores esquemas de drogas de todos os tempos aconteceu em suas ruas.
A história encantadora, a história idílica, é que um dia a cidade foi chamada de Chocolândia por causa da quantidade de fábricas de chocolate que abrigava. A primeira vista, Central Falls parecia bucólica. Havia inúmeros parques, mas nosso parquinho era o Jenks Park, por causa da Cogswell Tower, local onde observadores pertencentes aos povos originários norte-americanos testemunharam a chegada do capitão Michael Pierce. Esse episódio foi um acontecimento essencial na guerra do rei Phillip, uma batalha armada que ocorreu entre 1675 e 1678 entre os povos originários norte-americanos e colonos da Nova Inglaterra.
Nós nos mudamos para lá porque dois dos maiores hipódromos do país ficavam em Rhode Island. Havia o Lincoln Downs, em Lincoln, e o Hipódromo Narragansett, em Narragansett, que era carinhosamente chamado de Gansett.
Lojas de família ladeavam as ruas de Central Falls. O restaurante Sarah’s tinha grandes e fascinantes bancos de madeira de encostos altos nas cabines. Serviam arroz-doce caseiro, bolinhos de milho fritos em montes de manteiga e os melhores hambúrgueres da cidade. A Sociedade de São Vicente de Paulo (que faz um trabalho similar ao do Exército de Salvação), localizada na Washington Street, vendia roupas, sapatos, brinquedos, bugigangas e móveis usados. Era nosso lugar preferido para comprar sobras acessíveis.
Do outro lado da rua da Sociedade de São Vicente de Paulo ficava a Gabe’s ou, como chamávamos, Antar’s. Temos inúmeras boas memórias daquela loja, mas algumas complicadas também. Boas porque Gabe Antar, o dono, era sírio e era muito gentil com nossa família. Era uma mercearia maravilhosa, cheia de tudo o que alguém pudesse precisar. Quando estávamos passando por tempos muito difíceis, ele nos deixava comprar fiado para que não nos faltasse o que comer. Mas era complicado, porque por vezes meus pais pediam dinheiro emprestado a Gabe.
Gabe tinha um caderno que ficava embaixo da caixa registradora e nele havia um registro das várias famílias da vizinhança que lhe deviam. Algumas das minhas memórias mais constrangedoras são de ir à loja com um pedaço de papel, no qual minha mãe anotara de quanto dinheiro precisava. Às vezes, o constrangimento era tanto que minha irmã Deloris e eu rasgávamos o papel e nos recusávamos a ir falar com ele. Em vez disso, dizíamos à minha mãe que Gabe negara o empréstimo. E, às vezes, quando pedíamos, ele jogava o dinheiro em nós, frustrado porque meus pais não haviam pagado os débitos anteriores. Aquele homem gentil ficava tomado de fúria e gritava: “Caiam fora daqui!” Pegávamos o dinheiro do chão, humilhadas, e saíamos completamente arrasadas.
No entanto, quando estávamos com muita fome, a Gabe’s era a loja mais fácil de roubar comida. Muito mais tarde na vida, descobri que Gabe perdera o filho no Vietnã. Isso provavelmente explicava a frustração e a tristeza nos olhos dele. Também deve ter sido o motivo de sua gentileza conosco quando crianças e a razão pela qual nos ajudava ao testemunhar nossa precariedade. Nossa relação com ele era preenchida de amor e admiração misturada à vergonha de ter que se agarrar tão desesperadamente à sua bondade, a qual muitas vezes nos salvava. Quando você está lutando para sobreviver, a moralidade vai para o espaço.
Nós éramos pobres “de marré deci”. Isso é ainda mais pobre do que pobre. Ouvi alguns amigos dizerem: “Nós também éramos pobres, mas só me dei conta disso depois de mais velho.” Nós éramos pobres e sabíamos disso. Não havia como negar. Estava refletido no prédio em que morávamos, onde comprávamos roupas e móveis — na loja da Sociedade de São Vicente de Paulo —, no vale-refeição que nunca era suficiente para nos alimentar e no cheque que recebíamos da previdência social. Éramos pobres “de marré deci”. Quase nunca tínhamos acesso a um telefone. Com frequência não tínhamos água quente nem gás. Precisávamos usar um fogão elétrico de mesa, o que aumentava a conta de energia. O encanamento era de má qualidade, então as privadas não davam descarga. Na verdade, não me lembro de ter privadas funcionando no nosso apartamento. Fiquei muito habilidosa em encher um balde e despejá-lo na privada para dar descarga. E como nosso gás era cortado constantemente pela falta de pagamento, não tomávamos banho ou só nos limpávamos com água fria. E mesmo nos limpar era difícil, porque por vezes não tínhamos toalha, sabonete, xampu… Eu com certeza não sabia a diferença entre uma toalha de rosto e uma de banho.
Um dos nossos primeiros apartamentos ficava no número 128 da Washington Street. Em tom de agouro, eu e minhas irmãs nos referíamos a ele como “128”. O 128 era para nós o mesmo que inferno! Quando nos mudamos, era um apartamento normal. Eu tinha 5 anos na época. No térreo, ficava um alfaiate. E havia uma varandinha agradável no terceiro andar, onde morávamos. O prédio era antigo, provavelmente construído nos anos 1920 ou 1930, mas fora mantido em boas condições. Então o alfaiate fechou a loja, e o prédio ficou condenado muito rapidamente.
O ateliê do alfaiate foi fechado com tábuas. Sem manutenção, as instalações elétricas se tornaram perigosamente instáveis. Houve vários incêndios, e o prédio logo ficou infestado de ratos. Na verdade, os ratos eram um problema tão grave que chegaram a comer o rosto das minhas bonecas. Eu nunca, nunca, entrava na cozinha. Os ratos também haviam tomado conta dos armários e da bancada. Era comum parte do reboco de gesso cair das paredes, revelando as tábuas de madeira que mantinham tudo em pé.
Tínhamos que ir à lavanderia lavar roupas. Mas a combinação de falta de dinheiro, cinco filhos e um clima congelante significava que na maior parte do tempo a roupa suja ficava sem lavar por semanas. Isso, junto com o xixi na cama, deixava a casa com um cheiro horrível. Os armários e os espaços embaixo das camas estavam cheios de sapatos, poeira e itens variados. Tínhamos até medo de limpar, porque talvez os ratos estivessem se esgueirando em meio à bagunça. No primeiro dia do mês chegava o vale-refeição e fazíamos uma enorme compra de mantimentos no supermercado BIG G. Mas em menos de duas semanas a comida acabava.
Pouco depois de nos mudarmos, lembro que o prefeito Bessette entrou no apartamento e fez um grande discurso na nossa sala de estar, dizendo que estava nos dando aquele lugar para morar. Não precisaríamos pagar aluguel. Mas isso foi porque o prédio estava condenado. Dentro de um ano, a prefeitura planejava derrubá-lo para construir uma escola. O prefeito Bessette enviou um funcionário para fazer um buraco em uma das paredes que dava no apartamento ao lado, criando uma passagem improvisada. O apartamento ao lado nunca teve aquecimento ou eletricidade. Nunca. Mesmo nos curtos períodos em que o nosso teve aquecimento e eletricidade, o do lado nunca teve. Mas aquele espaço se tornou nosso. Nós o utilizamos como quartos, passando extensões elétricas pelo apartamento que tinha energia.
Meses depois, fui até a casa do prefeito Bessette para cantar canções de Natal. Era do outro lado da cidade, na parte onde moravam os ricos, ou as pessoas que tinham um pouco mais de dinheiro. A casa dele tinha um pé-direito de 12 metros, lareira, uma escadaria enorme e a árvore de Natal era a maior que eu já vira na vida. O aquecimento da casa soprou em nosso rosto; nós, que estávamos tremendo no frio congelante.
O apelido “128” também poderia ser código para “a masmorra” entre mim e minhas irmãs, embora também tenhamos algumas boas memórias daquele período. Minha irmã mais velha, Dianne, tinha ficado na Carolina do Sul com meus avós. Ela estava crescendo em escolas segregadas onde a educação era abaixo do padrão, e estudantes retintos costumavam ser espancados com varas até sangrar apenas por terem “se recusado” a nascer com a pele clara.
Dois anos depois de nos mudarmos para Central Falls, meus pais enfim disseram: “Precisamos criar nossos filhos”, e economizaram dinheiro para que minha irmã Dianne e John fossem morar com a gente. Dianne tinha 9 anos quando entrou na Broadstreet School, a mesma escola onde eu fazia o jardim de infância. A escola ia do jardim de infância até o sexto ano. MaMama foi até lá com Dianne para matriculá-la no quarto ano.
Depois de fazer um teste, as habilidades de leitura e matemática dela foram classificadas como tão abaixo do padrão que ela sequer poderia entrar no quarto ano. O Sr. Fortin, professor daquele ano, que sempre usava um bom terno, óculos de armação preta e cabelo lambido para trás, disse que a escola matricularia Dianne no terceiro ano.
Dianne se lembra de dizer ao Sr. Fortin:
Se você estudar comigo todo dia depois da escola, prometo que mostrarei que posso ficar no quarto ano.
E o Sr. Fortin respondeu:
Tudo bem, vou te ensinar.
E manteve a promessa. Todo dia depois da aula, Dianne ficava na escola, e ele se sentava lá com ela.
Dianne nos disse:
Como sou a mais velha, vou ensinar tudo o que aprender quando chegar em casa, assim vocês estarão adiantados.
Compramos uma carteira escolar de segunda mão na Sociedade de São Vicente de Paulo. A cadeira era presa à mesa e tinha pequenos feixes na pintura. Na verdade, eles a tinham comprado para mim. Eu me sentava nela enquanto Dianne nos ensinava o que aprendera na escola. Eu acabei me tornando uma aluna desagradável na escola porque ficava entediada.
Eu dizia:
Já sei fazer isso. Minha irmã Dianne já me ensinou a tabuada de multiplicação. — Entediada, eu queria conversar, queria brincar. — Já aprendi a escrever com letra cursiva. Minha irmã Dianne me ensinou.
Dianne tinha outro dom. Ela era uma contadora de histórias incrível, como nosso pai, e podia transportar qualquer um a outra realidade apenas com o poder das palavras. Nós nos sentávamos e batíamos palmas: “Dianne, conte uma história. Conte uma história.” Ela ficava diante de nós e nos cativava. Muitas das histórias dela eram anedotas sobre a vida no Sul, sobre como era lá. Outras eram fábulas que ela inventava, similares àquelas contadas no Sul, fábulas sobre haints, bruxas e folclore antigo. Nós acreditávamos em tudo.
A história que ela mais nos contava era:
Uma noite, ouvimos algo no bosque atrás da casa da minha avó — começava Dianne. Nós estávamos todos sentados no chão da cozinha no apartamento do número 128. Ela sempre ficava de pé. — Eu podia ouvir a coisa entre as árvores. Fui até lá pra ver o que era porque todo mundo estava com medo. Estava tão escuro que não dava pra gente ver as mãos na frente do rosto. Nem sei o que estava no bosque.
Essa parte sempre me assustava.
Ouvi uma batida e olhei para cima, para baixo e vi gotas de sangue por toda a parte! Fui mais adiante e vi o tio Arnold. — Tio Arnold era nosso tio mais próximo. — As pernas dele estavam lá longe! Os braços estavam mais longe ainda. O corpo dele estava partido ao meio e a cabeça nem estava presa ao pescoço. Fiquei em choque! Comecei a gritar e então coloquei a mão na cintura, olhei pra cabeça dele e disse: “Arnold! Ponha a cabeça no lugar!”
Quando ouvíamos a piada, morríamos de rir. Eu sempre gritava:
De novo, Dianne! Conte de novo!
Quando conheci Dianne, foi numa rara ocasião em que tínhamos água quente. Eu devia ter uns 5 anos. Dianne tinha 9 quando entrou em nossa vida em Central Falls. Lembro-me perfeitamente dela: usava um bom casaco, tinha dinheiro e cheirava bem. Eu estava tomando banho e, dizem, enrolando para me vestir, quando ouvi Dianne dizer:
Cadê minha irmãzinha?
Ela entrou no banheiro. Olhei para ela e ela olhou para mim. Foi amor instantâneo. No meu cérebro infantil, parte do amor surgiu porque Dianne se ofereceu para comprar doces para mim na loja do Gabe. Mas hoje, já adulta, reconheço que havia algo mais importante que me fazia amá-la.
Dianne olhou ao redor do apartamento bagunçado.— Viola, você não quer viver assim quando for mais velha, quer? — perguntou baixinho. Ela não queria que minha mãe ouvisse.
Não, Dianne.
Você precisa ter uma ideia muito nítida do que vai fazer se não quiser ser pobre pelo resto da vida. Precisa decidir o que quer ser. E então tem que trabalhar muito — sussurrou.
Lembro-me de pensar: Eu só quero doce. Não consegui entender a parte abstrata do que ela disse. Era muito nova. Mas algo que eu ainda não tinha as palavras para expressar, mas conseguia sentir, mudou dentro de mim. “O que eu quero ser?” A primeira semente fora plantada.
Havia um jeito de escapar?
Conquistar algo, me tornar “alguém”, virou meu propósito de vida. Senti que as conquistas poderiam limpar a parte ruim. Limparia a pobreza. Limparia o fato de que me sentia inferior, como membro da única família negra de Central Falls. Eu poderia renascer como uma pessoa bem-sucedida. Queria conquistar mais do que minha mãe conquistara.
Desde os 5 anos, por causa de Dianne, recriar, reinventar e redefinir se tornou minha missão, embora eu não pudesse ter articulado isso naquela época. Ela simplesmente era minha aliada sobrenatural. Muito mais tarde, depois da faculdade, da Juilliard, dos palcos da Broadway; depois de ser indicada a prêmios — Emmy, Oscar, Tony —, enfim pude colocar em palavras o que foi aquele grande momento, incentivado por minha irmã naquele dia. Foi o catalisador ou o agente que provocou uma pergunta maior: “Eu não sou alguém AGORA?” O que eu precisava fazer para ser digna? Aquele momento, aquela revelação, foi o verdadeiro começo do meu chamado para a aventura.

Viola Davis, em Em busca de mim

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