Margie geralmente começava a tocar
noturnos de Chopin quando o sol se punha. Morava numa casa grande,
recuada da rua, e ao pôr do sol já estava alta de conhaque e
uísque. Aos 43 anos, ainda tinha um corpo esbelto, o rosto delicado.
O marido morrera jovem, cinco anos antes, e ela vivia em aparente
solidão. O marido tinha sido médico, dera sorte no mercado de
ações, e o dinheiro investido dava a ela uma renda fixa de dois mil
dólares por mês. Boa parte dos dois mil ia para conhaque ou uísque.
Desde a morte do marido, ela tivera
dois amantes, mas os dois casos tinham sido vagos e breves. Os homens
pareciam sem magia, a maioria era de maus amantes, sexual e
espiritualmente. Seus interesses pareciam concentrar-se em novos
carros, esportes e televisão. Pelo menos Harry, seu falecido marido,
levava-a de vez em quando a um concerto. Deus sabe que Mehta era um
regente muito ruim, mas era melhor que ver TV. Margie simplesmente
resignara-se a uma existência sem o animal macho. Vivia uma vida
tranquila, com seu piano, seu conhaque e seu uísque. E quando o sol
se punha, ela precisava muito de seu piano, seu Chopin e seu uísque
e/ou conhaque. Começava a acender um cigarro atrás do outro quando
chegava a noite.
Margie tinha uma diversão. Um novo
casal mudara-se para a casa ao lado. Só que dificilmente seriam um
casal. Ele era vinte anos mais velho que a mulher, barbudo, fortão,
violento, e parecia meio louco. A mulher com quem vivia também era
estranha – macambúzia, indiferente. Quase em estado de sonho. Os
dois pareciam ter certa afinidade um com o outro, mas era como se
dois inimigos tivessem sido postos juntos. Brigavam continuamente.
Margie em geral ouvia primeiro a voz da mulher, depois, de repente e
muito alta, ouvia a voz do homem, e a voz do homem gritava umas
sórdidas indecências. Às vezes as vozes eram seguidas pelo som de
vidro quebrado. Mais frequentemente, porém, via-se o homem sair em
seu carro velho, e a vizinhança ficava tranquila por dois ou três
dias, até a volta dele. Duas vezes a polícia levara o homem, mas
ele sempre voltava.
Um dia Margie viu a foto dele no
jornal – o homem era o poeta Marx Renoffski. Ela ouvira falar da
obra dele. Foi à livraria no outro dia e comprou todos os livros
dele que encontrou. Naquela tarde, misturou a poesia dele com o
conhaque e quando escureceu naquela noite ela esqueceu de tocar seus
noturnos de Chopin. Depreendeu de alguns poemas de amor que ele vivia
com a escultora Karen Reeves. Por algum motivo, Margie não se sentiu
tão solitária quanto antes.
A casa era de Karen, e havia muitas
festas. Sempre durante as festas, quando a música e as risadas
atingiam o auge, ela via o vulto grandão e barbudo de Marx Renoffski
emergir do fundo da casa. Ele sentava-se sozinho no quintal com sua
garrafa de cerveja, ao luar. Era então que Margie se lembrava de
seus poemas de amor e desejava conhecê-lo.
Numa sexta à noite, várias semanas
depois de ela ter comprado os livros dele, ouviu-os discutindo aos
gritos. Marx estivera bebendo, e a voz de Karen foi-se tornando cada
vez mais esganiçada. “Escuta” – ela ouviu a voz de Marx,
“qualquer hora que eu quiser uma porra de um drinque, eu tomo uma
porra de um drinque!” “Você é a coisa mais desagradável que já
aconteceu em minha vida”, ela ouviu Karen dizer. Depois, vieram
sons de uma briga. Margie apagou as luzes e colou-se na janela.
“Porra”, ouviu Marx dizer, “continue me atacando que eu lhe dou
um pau!”
Viu Marx sair pela porta da frente com
sua máquina de escrever. Não era portátil, mas um modelo padrão,
e Marx cambaleou pela escada abaixo carregando-a, quase caindo várias
vezes. “Vou me livrar de sua cabeça”, gritou Karen. “Vou jogar
sua cabeça fora.” “À vontade”, disse Marx, “jogue fora.”
Ela viu Marx pôr a máquina de
escrever no carro, e depois um grande e pesado objeto, evidentemente
a cabeça, sair voando pela ponta da varanda e cair em seu pátio. O
objeto saltou e parou bem debaixo de uma grande roseira. Marx partiu
em seu carro. Todas as luzes se apagaram na casa de Karen Reeves, e
fez-se silêncio.
Quando Margie acordou na manhã
seguinte, eram quinze para as nove. Ela fez sua toalete, pôs dois
ovos para cozinhar e tomou um café traçado com conhaque. Foi à
janela da frente. O grande objeto de argila continuava debaixo da
roseira. Ela voltou, tirou os ovos, esfriou-os debaixo d’água e
descascou-os. Sentou-se para comê-los e abriu um exemplar do último
livro de poemas de Marx Renoffski, Um, Dois, Três, Sim. Eu me Amo
a Mim. Abriu-o quase no meio:
oh, eu tenho esquadrões
de dor
batalhões, exércitos de
dor
continentes de dor
ha, ha, ha,
e
tenho você.
Margie acabou os ovos, pôs conhaque
no segundo café, bebeu-o, vestiu a calça verde listrada, o suéter
amarelo, e mais ou menos com a aparência que tinha Katharine Hepburn
aos 43 anos, enfiou as sandálias vermelhas e saiu para o pátio da
frente. O carro de Marx não estava ali na rua e a casa de Karen
parecia muito tranquila. Ela foi até a roseira. A cabeça esculpida
jazia de cara para baixo no pé da roseira. Margie sentiu o coração
palpitar. Rolou a cabeça com o pé e o rosto olhou-a do chão. Não
havia dúvida de que era Marx Renoffski. Ela pegou Marx e,
segurando-o cuidadosamente contra o suéter amarelo claro, levou-o
para dentro de casa. Colocou-o em cima do piano, serviu-se um
conhaque com água, sentou-se e ficou olhando-o enquanto bebia. Marx
era áspero e feio, mas muito real. Karen Reeves era uma boa
escultora. Margie sentia-se grata a Karen Reeves. Continuou a
examinar a cabeça de Marx, via tudo ali: bondade, ódio, medo,
loucura, amor, humor, mas via sobretudo amor e humor. Quando a KSUK
entrou no ar com o programa de música clássica ao meio-dia, ela pôs
o rádio a todo volume e passou a beber com verdadeiro prazer.
Lá pelas quatro horas, ainda tomando
conhaque, pôs-se a conversar com ele. “Marx, eu compreendo você.
Podia lhe dar uma verdadeira felicidade.”
Marx não respondeu, apenas continuou
ali em cima do piano. “Marx, eu li seus livros. Você é um homem
sensível e talentoso, Marx, e muito engraçado. Eu entendo você,
querido, não sou como aquela... aquela outra mulher.”
Marx apenas continuou sorrindo,
olhando-a com seus olhinhos rasgados.
“Marx, eu podia tocar Chopin pra
você... os noturnos, os études.”
Margie sentou-se ao piano e começou a
tocar. Ele estava bem ali. A gente simplesmente sabia que Marx jamais
via rúgbi na televisão. Provavelmente via Shakespeare, Ibsen e
Checov no Canal 28. E como em seus poemas, era um grande amante. Ela
serviu-se outro conhaque e continuou tocando. Marx Renoffski ouvia.
Quando Margie acabou seu concerto,
olhou para Marx. Ele tinha gostado. Estava certa disso. Levantou-se.
Tinha a cabeça de Marx à altura da sua. Curvou-se e deu-lhe um
beijinho. Recuou. Ele sorria, sorria o seu sorriso delicioso. Ela
tornou a pôr a boca na dele e deu-lhe um beijo lento, apaixonado.
Na manhã seguinte, Marx continuava
sobre o piano. Marx Renoffski, poeta, poeta moderno, vivo, adorável
e sensível. Ela olhou pela janela da frente. O carro de Marx ainda
não estava lá. Ele ia ficar longe. Ia ficar longe daquela...
cadela.
Margie voltou-se e falou com ele.
“Marx, você precisa de uma boa mulher.” Foi à cozinha, pôs
dois ovos para cozinhar, traçou o café com uísque. Cantarolou para
si mesma. O dia era idêntico ao anterior. Só que melhor. Parecia
melhor. Ela leu mais um pouco da obra de Marx. Chegou a escrever um
poema:
esse diviníssimo acidente
nos reuniu
juntou
mesmo que você seja barro
e eu carne
nós nos tocamos
de algum modo nos tocamos
Às quatro da tarde a campainha da
porta tocou. Ela foi abrir. Era Marx Renoffski. Estava bêbado.
– Boneca – disse –, sabemos que
você pegou a cabeça. Que vai fazer com minha cabeça?
Margie não conseguiu responder. Marx
forçou a entrada.
– Tudo bem, onde está a porra dessa
coisa? Karen quer ela de volta.
A cabeça estava na sala de música.
Marx andou em volta.
– Bela casa você tem aqui. Mora
sozinha, não mora?
– Sim.
– Que é que há, tem medo de homem?
– Não.
– Escuta, da próxima vez que Karen
me expulsar, acho que venho pra cá. Está bem?
Margie não respondeu.
– Você não respondeu. Isso quer
dizer tudo bem. Bem, ótimo. Mas ainda tenho de levar a cabeça.
Escuta, eu ouço você tocando Chopin quando o sol se põe. Você tem
classe. Gosto de donas de classe. Aposto que bebe conhaque, não?
– Sim.
– Me sirva um conhaque. Três goles
em meio copo d’água.
Margie foi à cozinha. Quando voltou
com a bebida ele estava na sala de música. Encontrara a cabeça.
Encostava-se nela, o cotovelo apoiado no tampo do crânio. Ela
entregou-lhe o drinque.
– Obrigado. É..., classe, você tem
classe. Você pinta, escreve, compõe? Faz alguma coisa além de
tocar Chopin?
– Não.
– Ah – ele disse, erguendo o
drinque e virando metade dele. – Aposto que faz.
– Faço o quê?
– Fode. Aposto que é uma grande
foda.
– Não sei.
– Bem, eu sei. E não devia
desperdiçar isso. Não quero ver você desperdiçar isso.
Marx Renoffski acabou seu drinque e
colocou-o em cima do piano junto à cabeça. Aproximou-se dela e
agarrou-a. Cheirava a vômito, vinho barato e bacon. Pelos de sua
barba, parecendo agulhas, espetaram o rosto dela, quando a beijou.
Depois ele afastou o rosto e olhou-a com seus olhos miúdos.
– Não vai querer perder a vida,
boneca! – Margie sentiu o pênis dele levantar-se contra ela. –
Também chupo xoxota. Nunca chupei até os cinquenta anos. Karen me
ensinou. Agora sou o melhor do mundo.
– Não gosto de ser apressada –
disse Karen, debilmente.
– Ah, isso é ótimo! É isso que eu
gosto: espírito! Chaplin se apaixonou por Paulette Goddard quando
viu ela mordendo uma maçã. Aposto que você morde uma maçã do
caralho! Aposto que sabe fazer outras coisas com a boca, sim, sim!
Tornou a beijá-la. Quando se separou,
perguntou a Margie:
– Onde é o quarto?
– Por quê?
– Por quê? Porque é onde vamos
fazer!
– Fazer o quê?
– Foder, claro!
– Saia de minha casa!
– Não está falando sério?
– Estou falando sério.
– Quer dizer que não quer foder?
– Exatamente.
– Escuta, dez mil mulheres querem ir
pra cama comigo.
– Eu não sou uma delas.
– Tudo bem, me sirva outro drinque
que eu vou embora.
– Feito.
Margie foi à cozinha, pôs três
goles de conhaque em meio copo d’água, voltou e entregou-o a ele.
– Escuta, você sabe quem sou eu?
– Sei.
– Eu sou o poeta Marx Renoffski.
– Eu disse que sabia quem era você.
– Oh – disse Marx, e esvaziou o
copo. – Bem, preciso ir. Karen não confia em mim.
– Diga a Karen que eu a acho uma
ótima escultora.
– Ah, ééé, claro...
Marx pegou a cabeça, atravessou a
sala e dirigiu-se à porta. Margie seguiu-o. Marx parou na porta.
– Escuta, algumas vezes você fica
excitada?
– Claro.
– Que é que faz?
– Me masturbo.
Marx empertigou-se.
– Madame, isso é um crime contra a
natureza, e, mais importante ainda, contra mim.
Fechou a porta. Ela ficou a observá-lo
descer cuidadosamente a calçada levando sua cabeça. Depois ele
dobrou e subiu a trilha para a casa de Karen Reeves.
Margie foi à sala de música.
Sentou-se ao piano. O sol se punha. Estava bem na hora. Começou a
tocar Chopin. Tocou Chopin melhor do que jamais antes.
Charles Bukowski, em Numa Fria

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