segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Addie


A tarde, quando a escola fechava e o último aluno saia com seu narizinho sujo, em vez de ir para casa eu descia a colina até a fonte, onde podia ficar tranquila e odiá-los. Tudo ali era tranquilo, com a água fluindo e rumorejando e o sol caindo oblíquo nas árvores e o calmo odor das folhas úmidas e meio podres e da terra nova, principalmente no início da primavera, quando, então, era pior.
Eu só me lembrava, então, de como meu pai costumava dizer que a verdadeira razão de se viver era preparar-se para ficar morto durante muito tempo. E quando eu descobria que tinha de olhar para eles, dia após dia, cada um, homem e mulher, com seus segredos e egoísmos, o sangue de um alheio ao sangue de outro e diferente do meu; e pensava que aquela seria a única maneira de eu me preparar para morrer, eu odiava, então, meu pai por me haver concebido. Eu fazia tudo para apanhá-los em falta e chicoteá-los. Quando o chicote tombava, eu o sentia em minha cama; quando fazia vergões e inchava a pele, era meu sangue que corria, e eu pensava, a cada golpe do chicote: "Agora vocês têm consciência de minha pessoa. Agora eu sou alguma coisa em suas vidas secretas e egoístas, eu que marquei seus sangues com o meu, para todo o sempre."
De modo que aceitei Anse. Eu o vi passar pela escola três ou quatro vezes, antes de saber que fazia uma volta de seis quilômetros para me ver. Observei, então, como ele começava a ficar encurvado, embora sendo alto e moço, de tal maneira que já parecia um pássaro grande, encolhido no inverno, assim sentado no banco da carroça. Passava pela escola, a carroça estalando vagarosamente, e a cabeça virava-se, sem pressa, para olhar a porta da escola, enquanto a carroça passava, até que ele desaparecia na curva. Um dia eu fui à porta e fiquei ali quando ele passava. Ao me ver, olhou rapidamente para ou ira direção e não voltou a olhar a escola.
No início da primavera era pior. Às vezes eu pensava que não ia aguentar aquilo, deitada na cama a noite toda, com os patos selvagens voando para o norte e seus grasnidos chegando nítidos, altos e selvagens, como se saídos da escuridão selvagem, e durante o dia era como se eu mal pudesse esperar que o último aluno saísse, a fim de descer à fonte. Assim, quando ergui os olhos, aquele dia, e vi Anse de pé, em suas roupas domingueiras, amassando o chapéu nas mãos, eu disse: “Se há mulheres em sua casa, então por que diabo não lhe dizem para cortar o cabelo?”
Não tenho nenhuma”, ele disse. Em seguida, acrescentou de súbito, fixando em mim os olhos que pareciam dois cães bravios em terreiro alheio: “Foi por isso que eu vim lhe ver.”
E fazer você endireitar estes ombros”, eu disse. “É verdade que não tem mulher? Mas deve ter uma casa. Disseram-me que você tem casa e uma boa fazenda. E vive sozinho, fazendo tudo sozinho, não é?”
Ele continuava a me olhar, girando o chapéu nas mãos. “Uma casa nova”, eu disse. “Você pretende casar-se?”
E ele disse outra vez, olhando-me com firmeza: “Foi para isto que eu vim lhe ver.”
Mais adiante, confessou: “Não tenho parentes. De forma que, por este lado, você não terá preocupações. Não creio que você possa dizer o mesmo.”
Não. Eu tenho parentes. Em Jefferson.”
Seu rosto emsombreceu-se um pouco. “Bem, possuo uma pequena propriedade. Sou econômico, tenho nome limpo. Sei bem como são as pessoas da cidade, mas talvez, quando me ouvirem…”
Talvez o ouçam”, eu disse. “Mas dificilmente falarão com você.”
Ele me observava o rosto. “Estão no cemitério.”
Mas seus parentes vivos”, ele disse. “Com certeza serão diferentes.”
Serão mesmo?”, eu disse. “Não sei. Nunca tive outros parentes.”
Desse modo, aceitei Anse. E quando soube que ia ter Cash, percebi que viver era terrível e que aquilo era a resposta. Então eu soube que palavras não têm importância; que palavras nunca exprimem o que tentam dizer. Quando ele nasceu, compreendi que a palavra maternidade foi inventada por alguém que precisava de uma palavra para justificar-se, pois os que têm filhos não se preocupam em arranjar palavra para isso. Eu soube que a palavra medo foi inventada por alguém que nunca teve medo; orgulho, por alguém que jamais teve orgulho. Compreendi, então, que a culpa não era de seus narizes sujos, mas de termos de trocar palavras que, como aranhas, pendiam das bocas, por um fio, oscilantes, sem nunca se tocarem; e que, somente por meio de golpes do chicote, meu sangue e o sangue deles poderiam fluir num fluxo único. Compreendi que minha solidão em verdade nunca fora violada, até que Cash chegou . Nem mesmo por Anse, à noite.
Também ele tinha uma palavra. Amor, era como ele a chamava. Só que eu estava acostumada às palavras há muito tempo. Eu sabia que aquela palavra era como as outras: apenas uma forma de preencher uma lacuna; que, quando chegasse a ocasião adequada, não precisaríamos de uma palavra para isso, a exemplo de orgulho ou medo. Cash não precisou dizer-me a palavra, nem eu a ele, e eu pensava: “Anse que a diga, então, se quiser.” Seria, portanto. Anse ou amor; amor ou Anse; pouco importava.
Eu assim pensava, mesmo quando deitada no escuro, ao lado dele, e Cash dormindo no berço, ao alcance de minha mão. Eu pensava, também, que se ele acordasse chorando, teria que dar-lhe de mamar. Anse ou amor: pouco importava. Minha solidão fora violada e restabelecida inteiramente pela violação: tempo, Anse, amor, tudo o que quisessem, fora do circulo.
Depois descobri que estava grávida de novo, que ia ter Darl. A principio, não quis acreditar. Pensei que ia matar Anse. Foi como se ele me tivesse enganado, oculto dentro de uma palavra, como atrás de um biombo de papel, a fim de me atingir pelas costas. Mas então percebi que tinha sido enganada por palavras mais velhas que Anse ou amor, e que a mesma palavra enganara Anse também, e que minha vingança seria a de nunca deixá-lo saber que eu tirava vingança. E quando Darl nasceu, eu exigi de Anse a promessa de me levar a Jefferson quando eu morresse, porque eu sabia que meu pai tinha razão, mesmo que não soubesse que tinha razão, da mesma forma que eu podia não ter sabido que estava enganada.
Bobagem”, disse Anse. “Com apenas dois filhos, você e eu ainda temos muito que fazer.”
Ele não sabia, então, que estava morto. As vezes, deitada junto dele, no escuro, ouvindo a terra que era agora meu sangue e minha carne, eu pensava: “Anse. Por que Anse? Por que você é Anse?” Eu pensava em seu nome até que, dentro em pouco, eu via a palavra tomar uma forma, a de um vaso, e eu o observava liquefazer-se e escorrer, qual melado frio escorrendo na escuridão para o vaso, até que o vaso ficava cheio e imóvel: uma forma cheia de expressão, mas tão sem vida quanto a moldura de uma porta vazia; e, a essa altura, eu descobria que havia esquecido o nome do vaso. Eu pensava: a forma de meu corpo onde eu era virgem é a forma de um... e eu não podia pensar Anse, não conseguia lembrar Anse. Não, porém, que eu fosse capaz de pensar em mim como tendo recobrado a virgindade, porque, agora, eu era três. E quando pensava Cash e Darl, dessa mesma maneira, até seus nomes morrerem para se solidificarem numa forma e depois se desvanecerem, eu dizia: “Muito bem. Não importa. Não importa os nomes que lhes deem.”
Assim, quando Cora Tull me disse que eu não era uma mãe de verdade, pensei em como as palavras sobem retas, numa linha tênue, rápida, inofensiva, enquanto as ações rastejam, pegadas à terra, de forma que, decorrido algum tempo, as duas linhas se distanciam tanto que uma pessoa não pode mais abrangê-las com as pernas; e que o pecado, o amor e o medo não passam de sons que as pessoas que nunca pecaram, amaram ou temeram, empregam para denominar o que nunca sentiram e não poderiam sentir, até que viessem a esquecer as palavras. Como Cora, que nem mesmo aprendeu a cozinhar.
Ela me falava das obrigações que eu devia a meus filhos e a Anse e a Deus. Dei a Anse os filhos. Não os pedi. Nem mesmo pedi-lhe o que ele poderia ter-me dado: o não Anse. Era minha obrigação não lhe pedir isto, e esta obrigação eu cumpri. Eu seria eu mesma; eu o deixaria ser a forma e o eco de sua palavra. Isto ultrapassava o que ele pedia, pois ele não podia pedir tal coisa e, ao mesmo tempo, ser Anse, servindo-se de si próprio por meio de uma palavra.
E, então, ele morreu. Ele não soube que estava morto. Deitada ao seu lado, na escuridão, ouvindo a terra escura falar do amor de Deus e de Sua beleza e de Seu pecado; ouvindo a mudez escura em que urnas palavras são os feitos, e outras palavras não são os feitos, são apenas os espaços vazios do que falta às pessoas, descendo como. gritos de gansos saidos da escuridão selvagem nas terríveis noites de outrora, à procura de ações, como órfãos a quem são apontados, numa multidão, dois rostos, e se diz: "Este é o seu pai. Aquela é sua mãe." Acreditei que havia encontrado. Julguei que a razão era a obrigação para com a coisa viva, para com o sangue terrível, esse fluxo vermelho e amargo que borbulha pela terra. Eu pensava no pecado como pensava nas roupas que vestíamos aos olhos do mundo, por motivos de compostura, uma vez que ele era ele e eu era eu; o pecado supremo e mais terrível, pois ele era o instrumento ordenado de Deus, que havia criado o pecado, para santificar o pecado que havia criado. E enquanto eu o esperava no bosque, enquanto o esperava até que ele me via, eu o imaginava vestido de pecado. Eu pensava que ele me imaginava também vestida de pecado, só que ele estava mais bonito, porque a roupa que havia substituído pelo pecado estava santificada. Eu pensava no pecado como roupas que removíamos a fim de modelar e represar o terrível sangue segundo o eco da palavra morta perdida no ar. Depois, voltava a deitar-me ao lado de Anse — mas sem lhe mentir; apenas me recusava, tal como havia recusado o seio a Cash e a Darl após a fase da amamentação —, ouvindo o discurso inaudível da terra escura.
Eu nada escondia. Não procurava enganar ninguém. Não tinha maiores preocupações. Limitava-me às cautelas que ele julgava necessárias à sua segurança, não à minha, já que eu usava roupas aos olhos do mundo. E, quando Cora me falou, eu pendei até que ponto as mais sublimes palavras mortas parecem perder o significado de seu som morto.
Depois, tudo terminou. Acabou no sentido de que ele foi embora e eu me dei conta de que, embora ainda o quisesse, não voltaria a vê-lo, jamais, aproximar-se rápido e furtivo ao meu encontro, nos bosques, vestido de pecado, como se levasse um galante terno que a rapidez de sua aproximação secreta já estivesse a entreabrir.
Mas, para mim, não havia acabado. Quero dizer, acabado no sentido de começo e fim, porque, para mim não havia começo e fim de coisa alguma. Continuava a repelir Anse, não que pensasse agora, pela primeira vez, em furtar-me ao seu contato, mas como se isto houvesse sempre acontecido entre nós. Meus filhos eram só meus, do sangue selvagem que ferve na terra, meus e de tudo o que está vivo; de ninguém mais e de todos. Então eu descobri que ia ter Jewel. Quando recobrei o senso para ver o que havia acontecido, estava grávida há dois meses.
Meu pai disse que a razão para se viver é preparar-se para ficar morto. Eu sabia, finalmente, o que ele queria dizer, e sabia, também, que ele não poderia ter sabido o que isto significava, porque um homem não entende de limpeza da casa no devido tempo. Portanto, limpei minha casa. Depois que Jewel nasceu — deitada junto à candeia, sustentando minha própria cabeça, eu vi o módico cortar e suturar, antes da criança chorar —, o sangue selvagem espalhou-se e cessou de ferver. Restou somente o leite, quente e tranquilo, e eu, deitada no silêncio vagaroso, também tranquila, aguardava a ocasião de limpar minha casa.
Dei Dewey Dell a Anse, para compensar Jewel. Depois, dei-lhe Vardaman, para substituir o filho que lhe havia roubado. E agora ele tem três filhos que são seus e não meus. E então eu posso preparar-me para morrer.
Certo dia, comecei a conversar com Cora. Ela rezou por mim, porque me julgava cega em relação ao pecado. Queria que eu me ajoelhasse e rezasse também, porque, para as pessoas que julgam o pecado apenas questão de palavras, a salvação também não passa de uma palavra.

William Faulkner, em Enquanto agonizo

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