Outro dia fui a São Paulo e resolvi
voltar à noite, uma noite de vento sul e chuva, tanto lá como aqui.
Quando vinha para casa de táxi, encontrei um amigo e o trouxe até
Copacabana; e contei a ele que lá em cima, além das nuvens, estava
um luar lindo, de lua cheia; e que as nuvens feias que cobriam a
cidade eram, vistas de cima, enluaradas, colchões de sonho, alvas,
uma paisagem irreal.
Depois que o meu amigo desceu do
carro, o chofer aproveitou um sinal fechado para voltar-se para mim:
— O senhor vai desculpar, eu estava
aqui a ouvir sua conversa. Mas, tem mesmo luar lá em cima?
Confirmei: sim, acima da nossa noite
preta e enlamaçada e torpe havia uma outra — pura, perfeita e
linda.
— Mas, que coisa...
Ele chegou a pôr a cabeça fora do
carro para olhar o céu fechado de chuva. Depois continuou guiando
mais lentamente. Não sei se sonhava em ser aviador ou pensava em
outra coisa.
— Ora, sim senhor...
E, quando saltei e paguei a corrida,
ele me disse um “boa noite” e um “muito obrigado ao senhor”
tão sinceros, tão veementes, como se eu lhe tivesse feito um
presente de rei.
Rio, setembro, 1959.
Rubem Braga, em Ai de ti, Copacabana
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