Um auto de fé em Lima
O vento leva as cinzas de três
ingleses luteranos, capturados na ilha de Puná. Um deles, Henry
Oxley, foi queimado vivo porque não quis renegar a sua fé.
Flameia a fumaça no centro de um
círculo de altas lanças, enquanto delira a multidão e o Tribunal
do Santo Ofício dita penas de açoites e outras dores e humilhações.
Vários sofrem castigo por serem
casados duas vezes ou pela simples formação e outros delitos
em razão do pecado da carne. São condenados, por solicitantes de
monjas, um frade dominicano, um franciscano, um agostinho e um
jesuíta Juan de la Portilla, soldado por jurar pelas orelhas de
Deus. Isabel de Angulo, mulher de soldado porque para que a
quisessem os homens recitava em voz baixa as palavras da Consagração.
Bartolomé de Lagares, marinheiro, por afirmar que sendo
solteiro e pagando, não se comete pecado. Lorenzo de la Pena,
barbeiro, que disse que se tomavam o assento de sua mulher na
igreja que se acontecia assim, é que não havia Deus.
Sai com mordaça rumo a dez anos de
cárcere o sevilhano Pedro Luís Enríquez, por ter afirmado que
levando um galo a um campo onde não houvesse ruído de cães,
cortando-lhe a cabeça à meia-noite se achava dentro uma pedrinha
como uma avelã, com a qual esfregando os próprios lábios, a
primeira mulher formosa que visse, ao falar-lhe, morreria de amor por
quem isso fizesse, e que matando um gato no mês de janeiro e
metendo-lhe uma fava em cada junta e enterrando-o, as favas que assim
nascessem, indo as mordendo, olhando-se em um espelho, tinham virtude
de fazer a quem isso fizesse que se tornasse invisível, e porque
declarou que era sacana e cumprimentador, e que em sinal disso tinha
uma cruz no peito e outra no céu da boca, e referiu que na prisão
via resplendores e sentia suavíssima fragrância.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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