segunda-feira, 13 de outubro de 2025

1592 – Lima

Um auto de fé em Lima

O vento leva as cinzas de três ingleses luteranos, capturados na ilha de Puná. Um deles, Henry Oxley, foi queimado vivo porque não quis renegar a sua fé.
Flameia a fumaça no centro de um círculo de altas lanças, enquanto delira a multidão e o Tribunal do Santo Ofício dita penas de açoites e outras dores e humilhações.
Vários sofrem castigo por serem casados duas vezes ou pela simples formação e outros delitos em razão do pecado da carne. São condenados, por solicitantes de monjas, um frade dominicano, um franciscano, um agostinho e um jesuíta Juan de la Portilla, soldado por jurar pelas orelhas de Deus. Isabel de Angulo, mulher de soldado porque para que a quisessem os homens recitava em voz baixa as palavras da Consagração. Bartolomé de Lagares, marinheiro, por afirmar que sendo solteiro e pagando, não se comete pecado. Lorenzo de la Pena, barbeiro, que disse que se tomavam o assento de sua mulher na igreja que se acontecia assim, é que não havia Deus.
Sai com mordaça rumo a dez anos de cárcere o sevilhano Pedro Luís Enríquez, por ter afirmado que levando um galo a um campo onde não houvesse ruído de cães, cortando-lhe a cabeça à meia-noite se achava dentro uma pedrinha como uma avelã, com a qual esfregando os próprios lábios, a primeira mulher formosa que visse, ao falar-lhe, morreria de amor por quem isso fizesse, e que matando um gato no mês de janeiro e metendo-lhe uma fava em cada junta e enterrando-o, as favas que assim nascessem, indo as mordendo, olhando-se em um espelho, tinham virtude de fazer a quem isso fizesse que se tornasse invisível, e porque declarou que era sacana e cumprimentador, e que em sinal disso tinha uma cruz no peito e outra no céu da boca, e referiu que na prisão via resplendores e sentia suavíssima fragrância.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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