sexta-feira, 31 de outubro de 2025

1. Uma festa inesperada


[…]


E é claro que eles não fizeram nenhuma dessas coisas horríveis, mas foram limpando tudo e guardando a louça em segurança, rápidos feito raio, enquanto o hobbit ficava de lá para cá na cozinha tentando ver o que estavam fazendo. Então voltaram para a sala de estar e encontraram Thorin, com os pés esticados perto da lareira, fumando um cachimbo. Estava bafejando enormíssimos anéis de fumaça, e, aonde quer que ele mandasse um deles ir, o anel ia — subia a chaminé, ou passava atrás do relógio na cornija da lareira, ou debaixo da mesa, ou dava voltas no teto; mas, aonde quer que fosse, não era rápido o suficiente para escapar de Gandalf. Puff! mandava ele um anel de fumaça menor, saído de seu cachimbo curto de barro, que atravessava cada um dos anéis de Thorin. Então o anel de fumaça de Gandalf ficava verde e voltava a pairar sobre a cabeça do mago. Já havia uma nuvem desses em volta dele e, naquela luz fraca, faziam-no parecer estranho e cheio de feitiçaria. Bilbo ficou parado, observando aquilo — ele adorava anéis de fumaça — e então enrubesceu ao pensar como ficara orgulhoso, na manhã do dia anterior, dos anéis de fumaça que lançara ao vento sobre A Colina.
Agora, um pouco de música!”, disse Thorin. “Peguem os instrumentos!”
Kili e Fili se apressaram a pegar suas sacolas e tiraram delas pequenas rabecas; Dori, Nori e Ori tiraram flautas de algum lugar dentro de seus casacos; Bombur veio do salão de entrada com um tambor; Bifur e Bofur também saíram e voltaram com clarinetas que tinham deixado junto com seus bastões de viagem. Dwalin e Balin disseram: “Com licença, deixamos as nossas na entrada!” “Aproveitem e tragam a minha com vocês!”, disse Thorin. Voltaram com violas de gamba tão grandes quanto eles e com a harpa de Thorin embrulhada num tecido verde. Era uma linda harpa dourada e, quando Thorin a tangeu, a música começou de improviso, tão repentina e doce que Bilbo esqueceu todo o resto e foi arrastado para terras escuras sob luas estranhas, muito além d’O Água e muito longe de sua toca de hobbit sob A Colina.
A escuridão chegava à sala vinda da pequena janela que se abria na encosta d’A Colina; o fogo bruxuleava — era abril —, e eles continuavam a tocar, enquanto a sombra da barba de Gandalf oscilava contra a parede.
A escuridão encheu toda a sala, e o fogo foi morrendo, e as sombras se perderam, e eles continuavam a tocar. E, de repente, primeiro um deles e depois outro e mais outro começaram a cantar enquanto tocavam, o canto vindo do fundo da garganta dos anãos, nos lugares fundos de seus antigos lares; e este é como que um fragmento de sua canção, se é que pode ser como a canção deles sem sua música.

Além dos montes em nevoeiro
Pras masmorras sem prisioneiro
Vamos embora, antes da aurora,
Buscar nosso ouro feiticeiro.

De anãos antigos a magia
Em seus martelos se fazia
Numa cava a treva sonhava,
No oco salão da encosta fria.

Pro nobre elfo e rei antigo
Ao brilho belo do ouro amigo
Deram forma, co’ a luz que adorna
Joias que em arma têm abrigo.

Em colar de prata puseram
Astros em flor, laurel fizeram
Com luz feroz de draco atroz,
O sol e a lua em fio trançaram.

Além dos montes em nevoeiro
Pras masmorras sem prisioneiro
Vamos embora, antes da aurora,
Lembrai-vos d’ouro feiticeiro!

No breu moldaram muitos cálices,
Harpas d’ouro; canções multíplices
Feitas ali, sem gente ouvir,
Elfo ou homem, só os aurífices.

Pinhais rugiam nas alturas,
Ventos gemiam nas lonjuras.
Rubro o fogo, sem desafogo,
Fez de tochas as copas duras.

Sinos soaram no valão
E os homens viram o clarão;
Do draco a ira, fera pira,
Torres e casas pôs no chão.

Ardeu o monte sob a lua;
Aos anãos coube a sina sua.
Foi-se o salão de supetão
Aos pés do monstro sob a lua.

Além dos frios montes escuros
Pros grandes calabouços duros
Vamos embora, antes da aurora,
Recobrar ouro em nossos muros!

Enquanto cantavam, o hobbit sentia o amor pelas coisas belas feitas por mão e por engenho e por magia atiçando-se em suas entranhas, um amor feroz e ciumento, o desejo dos corações dos anãos. Então alguma coisa típica dos Tûks despertou dentro de Bilbo, e ele desejou partir, e ver as grandes montanhas, e ouvir os pinheiros e as quedas-d’água, e explorar as cavernas, e usar uma espada em vez de um bastão de caminhada. Olhou para fora pela janela. As estrelas tinham aparecido no céu escuro acima das árvores. Pensou nas joias dos anãos brilhando em cavernas escuras. De repente, na mata além d’O Água, uma chama saltou — provavelmente alguém acendendo uma fogueira — e ele imaginou dragões saqueadores pousando em sua Colina tranquila e devorando-a com suas chamas. Estremeceu; e, mais do que depressa, voltou a ser o simples Sr. Bolseiro de Bolsão, Soto-Monte, outra vez.
Levantou-se tremendo. Tinha menos que meia intenção de pegar a lamparina, e mais do que meia intenção de fingir que ia fazer isso e se esconder atrás dos barris de cerveja na adega, e não sair dali até que todos os anãos tivessem ido embora. De repente, percebeu que a música e o canto tinham parado e que todos estavam olhando para ele com olhos que luziam no escuro.
Aonde está indo?”, disse Thorin, num tom que parecia mostrar que adivinhara ambas as meias intenções do hobbit.
Que tal um pouco de luz?”, disse Bilbo, como quem se desculpa.
Gostamos do escuro”, disseram todos os anãos. “Escuro para negócios obscuros! Ainda há muitas horas antes da aurora.”
É claro!”, disse Bilbo, e se sentou apressado. Não mirou direito no banco e acabou se apoiando na grade da lareira, derrubando o atiçador e a pá com estardalhaço.
Silêncio!”, disse Gandalf. “Deixe Thorin falar!” E foi assim que Thorin começou.
Gandalf, anãos e Sr. Bolseiro! Estamos reunidos na casa de nosso amigo e companheiro conspirador, este mui excelente e audacioso hobbit — que os cabelos de seus dedos dos pés nunca caiam! Todo louvor a seu vinho e cerveja!” Ele fez uma pausa para tomar fôlego e para que o hobbit fizesse um comentário educado, mas os elogios praticamente foram jogados fora no caso do pobre Bilbo Bolseiro, que estava mexendo a boca em protesto por ser chamado de audacioso e, pior de tudo, de companheiro conspirador, embora nenhum som saísse, já que ele estava tão desacorçoado. Assim, Thorin continuou:
Encontramo-nos para discutir nossos planos, nossos métodos, meios, abordagens eestratégias. Havemos de começar em breve, antes que rompa a manhã, nossa longa jornada, uma jornada da qual alguns de nós, ou talvez todos nós (exceto nosso amigo e conselheiro, o engenhoso mago Gandalf), podem nunca retornar. É um momento solene. Nosso objetivo é, creio eu, bem conhecido de todos nós. Para o estimado Sr. Bolseiro, e talvez para um ou dois dos anãos mais jovens (acho que seria correto mencionar Kili e Fili, por exemplo), a situação exata neste momento pode requerer uma brevíssima explicação…”
Esse era o estilo de Thorin. Ele era um anão importante. Se lhe tivesse sido permitido, provavelmente continuaria nessa toada até ficar sem fôlego, sem contar a ninguém ali nada que já não fosse sabido. Mas foi rudemente interrompido. O pobre Bilbo não conseguia mais suportar a conversa. Ao ouvir aquele podem nunca retornar, começou a sentir um grito subindo de dentro dele, e logo o grito explodiu feito o apito de uma locomotiva saindo de um túnel. Todos os anãos se puseram de pé, derrubando a mesa. Gandalf acendeu uma luz azul na ponta de seu cajado mágico e, naquela luz de fogo de artifício, o pobre hobbit podia ser visto ajoelhado no tapete da lareira, tremendo feito geleia que está derretendo. Então desabou no assoalho e ficou repetindo “Atingido por relâmpago, atingido por relâmpago!” sem parar; e isso foi tudo o que conseguiram extrair dele durante muito tempo. Então o pegaram, e o puseram no sofá da sala de visitas com uma bebida a seu lado, e voltaram a seus negócios obscuros.
Camaradinha agitado”, disse Gandalf quando se sentaram de novo. “Tem esses ataques esquisitos e engraçados, mas é um dos melhores, um dos melhores — tão feroz quanto um dragão encurralado.”
Se você já viu um dragão encurralado, vai perceber que isso era só exagero poético se aplicado a qualquer hobbit, até mesmo no caso do tio-bisavô do Velho Tûk, Berratouro, que era tão enorme (para um hobbit) que conseguia montar um cavalo. Ele lançou uma investida contra as fileiras dos gobelins do Monte Gram na Batalha dos Campos Verdes e arrancou a cabeça do rei deles, Golfimbul, com um taco de madeira. A cabeça saiu voando pelos ares por cem jardas3 e caiu num buraco de coelho, e desse modo a batalha foi vencida, e o jogo de golfe foi inventado no mesmo momento.
Enquanto isso, entretanto, o descendente mais gentil de Berratouro estava voltando a si na sala de visitas. Depois de algum tempo, após tomar uma bebida, ele se esgueirou nervosamente até a porta da sala de estar. Isto foi o que ouviu. Gloin fez “Humpf!” (ou algum grunhido mais ou menos desse tipo). “Vocês acham que ele vai servir? Gandalf pode muito bem dizer que esse hobbit é feroz, mas um só grito daqueles num momento de empolgação seria suficiente para despertar o dragão e todos os seus parentes e matar a todos nós. Acho que soou mais como pânico do que como empolgação! Aliás, se não fosse pelo sinal na porta, eu teria certeza de que tínhamos chegado à casa errada. Assim que botei os olhos no camaradinha balançando e bufando no tapete tive minhas dúvidas. Parece mais um quitandeiro que um gatuno!”
Então o Sr. Bolseiro girou a maçaneta e entrou. O lado Tûk tinha vencido. De repente, sentiu que toparia ficar sem dormir e sem o café da manhã para que o achassem feroz. Quanto a camaradinha balançando no tapete, isso quase o fez ficar feroz de verdade. Muitas vezes, mais tarde, o lado Bolseiro, arrependido do que ele fez naquela hora, costumava lhe dizer: “Bilbo, você foi um bobo; entrou de cabeça e se deu mal.”
Perdão,” disse, “se fiquei ouvindo o que vocês estavam dizendo. Não posso dizer que entendi do que estavam falando, ou as suas referências a gatunos, mas acho que não erro se acreditar” (isso é o que ele chamava de manter sua dignidade) “que vocês acham que eu não valho nada. Pois vou lhes mostrar. Não tenho sinais na minha porta — ela foi pintada faz uma semana — e estou bastante certo de que vieram à casa errada. Assim que vi suas caras engraçadas na soleira da porta tive minhas dúvidas. Mas podem considerar que vieram à casa certa. Digam-me o que querem que eu faça, e vou tentar, mesmo se tiver de andar daqui até o Leste do Leste e lutar com as Grãs-Serpes4 Selvagens no Último Deserto. Certa vez, o meu tio-tataravô Berratouro Tûk…”
Sim, sim, mas isso foi há muito tempo”, disse Gloin. “Eu estava falando de você. E lhe asseguro que há uma marca nesta porta — a marca comum nesse ramo, ou costumava ser. Gatuno deseja um bom trabalho, um bocado de Empolgação e Recompensa razoável é como essa marca normalmente é lida. Pode dizer Caçador de Tesouros Especializado em vez de Gatuno, se preferir. Alguns deles preferem. Dá na mesma para nós. Gandalf nos contou que havia um sujeito desse tipo nestas partes procurando um trabalho imediato e que ele tinha arrumado um encontro com ele na hora do chá nesta quarta-feira.”
Claro que há uma marca”, disse Gandalf. “Eu mesmo a pus lá. Por razões muito boas. Vocês me pediram para achar o décimo-quarto homem da sua expedição, e eu escolhi o Sr. Bolseiro. Quero só ver alguém dizendo que escolhi o homem errado ou a casa errada, e vocês podem ficar com apenas treze homens e ter toda a má sorte que quiserem, ou então voltar a minerar carvão.”
Olhou tão feio para Gloin que o anão se encostou de novo na sua cadeira; e, quando Bilbo tentou abrir a boca para fazer uma pergunta, Gandalf se virou para ele, e franziu o cenho, e projetou suas sobrancelhas frondosas, até que Bilbo fechou bem a boca com um estalo. “É isso mesmo”, disse Gandalf. “Chega de discussão. Escolhi o Sr. Bolseiro, e isso deveria ser suficiente para todos vocês. Se digo que ele é um Gatuno, um Gatuno é o que ele é, ou será, quando a hora chegar. Há muito mais nele do que vocês acham, e um bocado mais do que ele próprio imagina. Vocês todos ainda hão de viver (possivelmente) para me agradecer por isso. Agora, Bilbo, meu rapaz, pegue a lamparina, e lancemos alguma luz sobre isto!”
Sobre a mesa, à luz de uma grande lamparina com um anteparo vermelho, ele abriu um pedaço de pergaminho que lembrava um mapa.

J. R. R. Tolkien,em O Hobbit

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