terça-feira, 30 de setembro de 2025

Poema de jacaré

Eu me ajoelhei
na beira da água,
e se os pássaros brancos parados
nos topos das árvores assobiaram algum aviso
eu não entendi,
bebi até o momento exato em que ele veio
desembestado até mim,
sua cauda se debatendo
como um feixe de espadas,
golpeando a grama,
e o lado de dentro da sua boca como berço
escancarado,
e com uma orla de dentes —
e foi assim que eu quase morri
de bobeira
na beleza da Flórida.
Mas não morri.
Eu saltei para o lado, e caí,
e ele passou por mim em jorro, esmagando tudo no seu caminho
ao descer chispando até a água
e se jogar para dentro,
e, no final,
este não é um poema sobre bobeiras
mas sobre como eu me levantei do chão
e vi o mundo como se fosse a segunda vez,
do jeito que ele é de verdade.
A água, aquele círculo de vidro estilhaçado,
se curou com um murmúrio lento
e se deitou
com a luz de fundo de aço polido,
e os pássaros, nas cachoeiras sem fim das árvores,
abriram às sacudidas as pregas nevadas das suas asas, e saíram pairando,
enquanto, como recordação, e para me firmar,
eu estendi a mão,
eu colhi as flores silvestres da grama ao meu redor—
jasmins-estrela
e trombetas escarlates
em longos caules verdes —
por horas nas minhas mãos trêmulas elas reluziram
como fogo.

Mary Oliver, publicado na revista The Paris Review em 1991, no número 120 (tradução de Yuri Amaury)

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