terça-feira, 30 de setembro de 2025

Cora


Um dia nós conversávamos. Ela nunca foi muito religiosa, nem mesmo depois daquela reunião ao ar livre, no verão, quando o Irmão Whitfield lutou com seu espírito, levou-a à parte e combateu o orgulho em seu coração mortal, e eu lhe disse muitas vezes: "Deus lhe deu filhos para confortá-la em sua miséria e como penhor de Seu próprio sofrimento e amor, pois no amor você os concebeu e os trouxe à luz."
Eu disse isto porque ela não tinha seu amor por Deus e seus deveres para com Ele em muita conta, e tal comportamento não lhe agrada.
Eu disse: "Ele nos deu o dom de elevar nossas vozes em louvor de sua glória imortal", porque, segundo creio, há mais alegria no céu por um pecador arrependido do que por uma centena de pessoas que nunca pecaram.
E eu disse: Minha vida diária é o reconhecimento e expiação de meu pecado", e frisei: "Quem é você para dizer o que é pecado é o que não é pecado? O Senhor é quem julga; compete-nos apelar à Sua misericórdia e ao Seu santo nome em benefício dos nossos Irmãos mortais", porque só ele pode ver no fundo dos corações, e embora a vida de uma mulher pareça direita aos olhos de todos, ela não tem certeza de não haver pecado em seu coração, a não ser que abra o coração ao Senhor e receba Sua graça."
Eu disse: "O fato de ser fiel ao seu mando não é sinal de que não existe pecado em seu coração, e as durezas de sua vida não significam também que a graça do Senhor a esteja absolvendo."
E ela disse: "Conheço meu próprio pecado. Sei que mereço castigo. Não o lamento."
E eu disse: "É por orgulho que você quer julgar o pecado e a salvação em lugar do Senhor. É nosso fado mortal sofrer e elevar nossas vozes em Seu louvor, pois Ele é que julga o pecado e oferece a salvação mediante provações e atribulações, desde o princípio dos séculos amém. Não, você não pode julgar, sobretudo agora depois que o Irmão Whitfield, um santo homem que respira o hálito de Deus, orou por você e lutou como nenhum outro poderia lutar, a não ser ele", eu disse. Porque não nos compete julgar nossos pecados ou saber o que é pecado aos olhos do Senhor. Ela tem tido uma vida atormentada, mas assim é a vida das mulheres. Mas a gente pensaria, pela maneira como ela falava, que sabia mais acerca de pecado e salvação do que o próprio Deus Nosso Senhor, do que os que trabalham e lutam para tirar o pecado deste mundo dos homens. Quando o único pecado que ela cometeu foi o de ser parcial para com Jewel, que nunca a amou — e por isso foi castigada —, em prejuízo de Darl, que foi tocado pela graça de Deus e julgado esquisito por nós, mortais, e que a queria de verdade.
Eu disse: "Eis o seu pecado. E também o seu castigo. Jewel é o seu castigo. Mas onde está sua salvação? E veja que a vida é muito curta para se conquistar a graça eterna. E Deus é um Deus ciumento. Ele, e não nós, é quem julga e oferece recompensa."
"Eu sei", ela disse. "Eu..."
E então ela parou, e eu disse: "Sabe o quê?"
"Nada", ela disse. "Ele é minha cruz e será minha salvação. Ele me salvará da água e do fogo. Mesmo que eu já esteja dormindo o sono eterno, ele me salvará."
"Como é que você tem a certeza disso, sem ter aberto seu coração a Deus e erguido a voz em Seu louvor?", eu disse.
Então, percebi que ela não se referia a Deus. Percebi que, levada pelo orgulho que havia em seu coração, ela falara de forma sacrílega. E eu me ajoelhei ali mesmo. Pedi-lhe para se ajoelhar também e abrir o coração e expulsar dele o demônio do orgulho e entregar-se à misericórdia do Senhor. Mas ela não quis. Continuou sentada, perdida na sua vaidade e no seu orgulho, que lhe tinham fechado o coração a Deus e posto, em Seu lugar, aquele rapaz mortal, cheio de egoísmo. Rezei por aquela pobre mulher cega como nunca tinha orado por mim e por minha família.

William Faulkner, em Enquanto Agonizo

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