[…]
Como que o senhor visse os catrumanos
rir! O da fôice tornou a apanhar a fôice, o no jegue ficou
segurando o chapéu em respeito, o velho beobôbo sumiu seu dobrão
de prata em alguma algibeira. A mais eles todos riram, as tantas
grandes bocas, e não tinham quase nenhum dente. Riam, sem motivo
justo, agora mas para nos agradar. Cônscio, o da fôice criou ânimo,
mesmo indagou!
― O que mal não pergunto! mas donde
será que ossenhor está servido de estando vindo, chefe cidadão,
com tantos agregados e pertences?
― Ei, do Brasil, amigo! ― Zé
Bebelo cantou resposta, alta graça. ― Vim departir alçada e foro!
outra lei ― em cada esconso, nas toesas deste sertão...
O velho agiu o pelo-sinal. Ia
remenicar alguma outra coisa. Mas Zé Bebelo, completo de escutar e
ver, deu não com a mão, e abriu a marcha. Tocamos. Ora vi as
derradeiras caras daqueles catrumanos, que mostravam por nossa causa
muitos pasmos de admiração, e a cobiça que tinham de fazer
cento-e-dobro de perguntas, que por receio de atrevimento nunca
perguntavam. Só dos rifles! ― Uixe-te, isto é lazarinha
moderna?... Donde um deles, o montado no jegue, ainda gritou um
conselho! que a gente então principiasse volta, no buritizal duma
lagoazinha, da banda da mão direita ― por via de se evitar de
passar por dentro do Sucruiú ― e que, retomada a estrada, no
quebrar da mão esquerda, num vau perto da mata virgem, era só se
andar as sete léguas, num sítio se chegava, de um tal de seôr
Abrão, que era hospitaleiro... Isso aquele homem recomendou, não
por serviço de préstimo, eu pelo tom e jeito bem entendi! gritou,
no fim assim, a fito somente de que os seus outros vissem que ele bem
possuía coragem também de dar voz, perante presença nossa, de
tantos grandes jagunços donos de arejo d armas. Mas Zé Bebelo,
descrendo de temer o que eles anunciavam, do arraial onde estava
alastrando a varíola reinante, deu ordem de seguirmos, em reto em
diante em frente.
Rir, o que se ria. De mesmo com as
penúrias e descômodos, a gente carecia de achar os ases naquele
povo de sujeitos, que viviam só por paciência de remedar coisas que
nem conheciam. As criaturas.
Mas eu não ri. Ah, daí, não ri
honesto nunca mais, em minha vida. Como que marquei: que a gente ter
encontrado aqueles catrumanos, e conversado com eles, desobedecido a
eles ― isso podia não dar sorte. A hora tinha de ser o começo de
muita aflição, eu pressentia. Raça daqueles homens era diverseada
distante, cujos modos e usos, mal ensinada. Esses, mesmo no trivial,
tinham capacidade para um ódio tão grosso, de muito alcance, que
não custava quase que esforço nenhum deles; e isso com os poderes
da pobreza inteira e apartada; e de como assim estavam menos
arredados dos bichos do que nós mesmos estamos: porque nenhumas más
artes do demônio regedor eles nem divulgavam. Só o mau fato de se
topar com eles, dava soloturno sombrio. Apunha algum quebranto. Mas
mais que, por conosco não avirem medida, haviam de ter rogado praga.
De pensar nisso, eu até estremecia; o que estremecia em mim: terreno
do corpo, onde está a raiz da alma. Aqueles homens eram orelhudos,
que a regra da lua tomava conta deles, e dormiam farejando. E para
obra e malefícios tinham muito governo. Aprendi dos antigos.
Capatazia de soprar quente qualquer ódio nas folhas, e secar a
árvore; ou de rosnar palavras em buraco pequeno que abriam no chão,
tapando depois: para o caminho esperar a passagem de alguém, e a ele
fazer mal; ou guardavam um punhado de terra no fechado da mão, no
prazo de três noites e três dias, sem abrir, sem largar: e quando
jogavam fora aquela terra, em algum lugar, nele com data de três
meses ficava sendo uma sepultura... De homem que não possui nenhum
poder nenhum, dinheiro nenhum, o senhor tenha todo medo! O que mais
digo: convém nunca a gente entrar no meio de pessoas muito
diferentes da gente. Mesmo que maldade própria não tenham, eles
estão com vida cerrada no costume de si, o senhor é de externos, no
sutil o senhor sofre perigos. Tem muitos recantos de muita pele de
gente. Aprendi dos antigos. O que assenta justo é cada um fugir do
que bem não se pertence. Parar o bom longe do ruim, o são longe do
doente, o vivo longe do morto, o frio longe do quente, o rico longe
do pobre. O senhor não descuide desse regulamento, e com as suas
duas mãos o senhor puxe a rédea. Numa o senhor põe ouro, na outra
prata; depois, para ninguém não ver, elas o senhor fecha bem. E foi
o que eu pensei. Aqueles catrumanos pedindo por maldição, como era
que eu podia deixar de pensar neles? Há-de, que se eles tivessem me
pegado sozinho, eu apeado e precisado, decerto me matavam, para
roubar minhas armas, as coisas e minhas roupas. Amargo que acabavam
comigo, sem escrúpulos, hom essa, que nem tinham, porquanto eu era
desconhecido e forasteiro. De doente, ou ferido perdendo meu sangue,
que eu estivesse, algum deles ia ser capaz de me ceder gole duma cuia
dágua? Draste eu duvidava deles. Duvidava dos fojos do mundo. E por
que era que há de haver no mundo tantas qualidades de pessoas ―
uns já finos de sentir e proceder, acomodados na vida, tão perto de
outros, que nem sabem de seu querer, nem da razão bruta do que por
necessidades fazem e desfazem. Por que? Por sustos, para vigiação
sem descanso, por castigos? E de repente aqueles homens podiam ser
montão, montoeira, aos milhares mís e centos milhentos, vinham se
desentocando e formando, do brenhal, enchiam os caminhos todos,
tomavam conta das cidades. Como é que iam saber ter poder de serem
bons, com regra e conformidade, mesmo que quisessem ser? Nem achavam
capacidade disso. Haviam de querer usufruir depressa de todas as
coisas boas que vissem, haviam de uivar e desatinar. Ah, e bebiam,
seguro que bebiam as cachaças inteirinhas da Januária. E pegavam as
mulheres, e puxavam para as ruas, com pouco nem se tinha mais ruas,
nem roupinhas de meninos, nem casas. Era preciso de mandar tocar
depressa os sinos das igrejas, urgência implorando de Deus o
socorro. E adiantava? Onde é que os moradores iam achar grotas e
fundões para se esconderem ― Deus me diga? Nem me diga o senhor
que não ― aí foi que eu pensei o inferno feio deste mundo! que
nele não se pode ver a força carregando nas costas a justiça, e o
alto poder existindo só para os braços da maior bondade. Isso foi o
que eu pensei, muito redoído, no estufo do calor vingante. E foi por
durante quase uma hora, montado no meu cavalo ruim chamado
Padrim-Selorico, a passo por aqueles ruins campos, até se chegar
perto do povoado do Sucruiú, onde que estava arranchada a horrorosa
doença, por cima da pior miséria. Bobeia minha? Porque os
companheiros, indo cuidando de seu ramerrão comum, nenhum não punha
tento em dessas ideias. Então era só eu? Era. Eu, que estava
mal-invocado por aqueles catrumanos do sertão. Do fundo do sertão.
O sertão! o senhor sabe.
Mas em tanto, então levantei o meu
entender para Zé Bebelo ― dele emprestei uma esperança, apreciei
uma luz. Dei tino. Zé Bebelo, em testa, chefe como chefe, como
executava nossa ida. Da marca de um homem solidado assim, que era
sempre alvissareiro. Por ele eu crescia admiração, e que era estima
e fiança, respeito era. Da pessoa dele, da grande cabeça dele, era
só que podia se repor nossa guarda de amparo e completa proteção,
eu via. Porque Zé Bebelo previa de vir, cá em baixo, no escuro
sertão, e, o que ele pensava, queria, e mandava! tal a guerra, por
confrontação; e para o sertão retroceder, feito pusesse o sertão
para trás! E era o que íamos realizar de fazer. Para mim, ele
estava sendo feito o canoeiro mestre, com o remo na mão, no
atravessar o rebelo dum rio cheio. ― Carece de ter coragem...
Carece de ter muita coragem... ― eu relembrei. Eu tinha.
Diadorim vindo do meu lado, rosável mocinho antigo, sofrido de tudo
mas firme, duro de temporal, naquelas constâncias. Sei que amava,
não amava? Os outros, os companheiros outros, semelhavam no rigor
umas pobres infâncias na relega ― que deles a gente precisasse de
tomar conta. Com Zé Bebelo da minha mão direita, e Diadorim da
minha banda esquerda! mas, eu, o que é que eu era? Eu ainda não era
ainda. Se ia, se ia. O cavalo pombo de Zé Bebelo era o de mais
armada vista, o maior de todos. Cavalo selado, montado, e muito chão
adiante. Viajar! ― mas de outras maneiras! transportar o sim desses
horizontes!…
[…]
Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas

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