Era assim o trabalho dele: acordava às
cinco na fria manhã escura e lavava o rosto com água morna se o
aquecedor estivesse funcionando e com água fria se o aquecedor não
estivesse funcionando. Barbeava-se cuidadosamente, conversando com a
mulher que estava lá na cozinha, preparando presunto e ovos ou
panquecas ou o que quer que fosse naquela manhã. Às seis horas,
estava no trânsito rumo ao trabalho, sozinho, e estacionava o carro
no grande pátio onde todos os outros homens estacionavam seus carros
enquanto o sol estava nascendo. As cores do céu naquela hora da
manhã eram laranja e azul e violeta e algumas vezes muito vermelho e
algumas vezes amarelo ou uma cor clara como água sobre pedra branca.
Em algumas manhãs, ele podia ver sua respiração no ar e, em
algumas manhãs, não podia. Mas quando o sol ainda estava se
levantando, ele batia o punho na lateral do caminhão verde, e seu
motorista, sorrindo e dizendo olá, entrava no outro lado do
caminhão, e eles saíam pela grande cidade e desciam todas as ruas
até chegarem ao lugar onde começavam a trabalhar. Algumas vezes, no
caminho, paravam para tomar café puro e depois continuavam, a
quentura ainda dentro deles. E começavam o trabalho, o que
significava que ele saltava em frente a cada casa e apanhava as latas
de lixo e as trazia de volta e tirava suas tampas e as batia contra a
borda da caçamba, fazendo as cascas de laranja e de melão e pó de
café caírem e baterem no fundo e começarem a encher o caminhão
vazio. Sempre havia ossos de bisteca e cabeças de peixe e pedaços
de cebolinha e salsão apodrecido. Se o lixo era novo, não era tão
ruim, mas se era muito velho, era ruim. Ele não tinha certeza se
gostava ou não do trabalho, mas era um trabalho e ele o fazia bem,
algumas vezes falando muito sobre ele e algumas vezes nem pensando
nele. Alguns dias, o trabalho era maravilhoso, pois você levantava
cedo e o ar era frio e fresco até que você tivesse trabalhado por
muito tempo e o sol ficasse quente e o lixo começasse a exalar
vapor. Mas, em grande parte, era um emprego importante o suficiente
para mantê-lo ocupado e calmo e olhando para as casas e os gramados
aparados por que passava e vendo como todo mundo vivia e, uma ou duas
vezes por mês, ficava surpreso ao descobrir que adorava seu trabalho
e que era o melhor trabalho do mundo.
Foi assim por muitos anos. E então,
de repente, o trabalho mudou para ele. Mudou em um único dia. Mais
tarde, ele frequentemente se perguntava como um trabalho podia mudar
tanto em tão poucas horas.
***
Ele entrou no apartamento e não viu a
esposa nem ouviu a voz dela, mas ela estava lá, e ele andou até uma
poltrona e deixou a mulher ficar longe dele, observando-o, enquanto
ele tocava a poltrona e se sentava nela sem dizer palavra. Ele ficou
sentado ali por um longo tempo.
“O que há de errado?”
Finalmente a voz dela chegou até ele.
Ela deve ter perguntado três ou quatro vezes.
“Errado?”
Ele olhou para essa mulher e, sim, era
sua esposa, tudo bem, era alguém que conhecia, e este era o
apartamento deles, com o pé-direito alto e o carpete gasto.
“Algo aconteceu no trabalho hoje”,
ele disse.
Ela esperou que ele terminasse.
“Em meu caminhão de lixo, aconteceu
algo.”
Sua língua se movimentava secamente
sobre os lábios e seus olhos fechados bloquearam sua visão até que
tudo se tornou escuridão, sem nenhuma luz de nenhum tipo, e era como
estar sozinho em um quarto quando você levanta da cama no meio de
uma noite escura.
“Acho que vou largar meu emprego.
Tente compreender.”
“Compreender!”, ela gritou.
“Não se pode evitar. Tudo isso é a
coisa mais danada de estranha que já aconteceu comigo em minha
vida.” Ele abriu os olhos e ficou ali sentado, sentindo as mãos
frias quando esfregava o polegar e os indicadores juntos. “A coisa
que aconteceu foi estranha.”
“Bom, mas não fique só sentado
aí!”
Ele tirou um pedaço de jornal do
bolso de sua jaqueta de couro.
“Este é o jornal de hoje”, ele
disse. “Dez de dezembro de mil, novecentos e cinquenta e um, Los
Angeles Times. Boletim da Defesa Civil. Diz que eles estão
comprando rádios para nossos caminhões de lixo.”
“Bom, o que há de tão ruim em um
pouco de música?”
“Sem música. Você não entende.
Sem música.”
Ele abriu a mão calejada e desenhou
com uma das unhas limpas, tentando colocar tudo ali onde ele poderia
ver e ela poderia ver.
“Neste artigo, o prefeito diz que
vão colocar um aparelho de transmissão e recepção em cada
caminhão de lixo da cidade.” Ele apertou os olhos olhando para a
mão. “Depois que as bombas atômicas atingirem nossa cidade,
aqueles rádios vão falar conosco. E então nossos caminhões de
lixo vão sair e recolher os corpos.”
“Ora, parece prático. Quando...”
“Os caminhões de lixo”, ele
disse, “sair e recolher todos os corpos.”
“Você não pode simplesmente deixar
os corpos por aí, pode? Você tem de levá-los e...”
A esposa fechou a boca muito
lentamente. Ela piscou, uma vez apenas, e fez isso muito lentamente
também. Ele observou aquele piscar único e lento de seus olhos.
Então, com um giro do corpo, como se outra pessoa o tivesse virado
para ela, ela andou até uma poltrona, parou, pensou como fazer e
sentou-se, muito ereta e rígida. Não disse nada. Ele escutava o
tique-taque de seu relógio de pulso, mas apenas com uma pequena
parte de sua atenção. Finalmente, ela riu.
“Eles estavam brincando!”
Ele balançou a cabeça. Sentiu sua
cabeça se movendo da esquerda para a direita e da direita para a
esquerda, tão lentamente quanto tudo o mais que havia acontecido.
“Não. Colocaram um receptor em meu
caminhão hoje. Disseram, no alerta, que se você estiver
trabalhando, deve despejar seu lixo em qualquer lugar. ‘Quando o
chamarmos no rádio, entre e remova os mortos’.”
A água na cozinha levantou fervura
fazendo barulho. Ela deixou-a ferver por cinco segundos e então
segurou o braço da poltrona com uma das mãos e se levantou e
encontrou a porta e saiu. O som da fervura parou. Ela ficou na porta
e então caminhou de volta para onde ele ainda estava sentado, sem se
mexer, a cabeça na mesma posição.
“Está tudo planejado agora. Eles
têm esquadrões, sargentos, capitães, cabos, tudo”, ele disse.
“Sabemos até mesmo para onde trazer os corpos.”
“Então você tem pensado nisso o
dia todo”, ela disse.
“O dia todo, desde a manhã. Pensei:
Quem sabe agora eu não queira mais ser lixeiro. Costumava ser Tom e
eu nos divertindo com uma espécie de jogo. Você tem de fazer isso.
Lixo é ruim. Mas se você trabalha com isso, pode fazer um jogo. Tom
e eu fazíamos isso. Observávamos o lixo das pessoas. Víamos que
tipo elas tinham. Ossos de bisteca em casas ricas, alface e cascas de
laranja nas pobres. Certamente é uma tolice, mas um sujeito tem de
tornar seu trabalho tão bom quanto puder e fazer valer a pena; se
não for assim, por que diabos trabalhar? E, de certa forma, você é
seu próprio chefe em um caminhão. Sai cedo de manhã, e é um
emprego ao ar livre, de qualquer jeito; você vê o sol nascer e vê
a cidade acordar, e isso não é ruim de jeito nenhum. Mas agora,
hoje, de repente, não é mais o tipo de emprego para mim.”
A esposa começou a falar rapidamente.
Ela citou um monte de coisas e falou sobre muitas outras mais, mas,
antes de ela ir muito longe, ele a interrompeu delicadamente.
“Eu sei, eu sei, as crianças e a
escola, nosso carro, eu sei”, ele disse. “E contas e dinheiro e
dívidas. Mas e aquela fazenda que papai nos deixou? Por que não nos
mudamos para lá, longe das cidades? Eu entendo um pouco de fazenda.
Poderíamos fazer um estoque, armazená-lo, ter o bastante para viver
durante meses se algo acontecesse.”
Ela não dizia nada.
“Sei que todos os nossos amigos
estão aqui na cidade”, ele continuou, racionalmente. “E cinema e
espetáculos e os amigos das crianças e...”
Ela deu um suspiro profundo.
“Não podemos pensar nisso por mais
alguns dias?”
“Não sei. Tenho medo disso. Tenho
medo de que, se pensar nisso, em meu caminhão e meu novo trabalho,
vou me acostumar. E, ah, Deus, não parece nada certo que um homem,
um ser humano, deva se acostumar a uma ideia como essa.”
Ela balançou a cabeça devagar,
olhando para as janelas, as paredes cinza, os quadros escuros nas
paredes. Apertou as mãos. Começou a abrir a boca.
“Pensarei esta noite”, ele disse.
“Ficarei acordado mais um pouco. Até a manhã saberei o que
fazer.”
“Tenha cuidado com as crianças. Não
é bom que elas saibam disso tudo.”
“Terei cuidado.”
“Então, vamos parar de falar nisso.
Vou terminar o jantar!” Ela se levantou de um salto e colocou as
mãos no rosto e depois olhou para as mãos e para a luz do sol nas
janelas. “Ora, as crianças vão chegar a qualquer minuto.”
“Não estou com muita fome.”
“Você tem de comer, não pode
simplesmente continuar assim.”
Ela saiu apressada, deixando-o no meio
da sala onde nem uma brisa soprava as cortinas e sobre ele havia
apenas o teto com uma lâmpada solitária e apagada, como uma velha
lua em um céu. Ele estava quieto. Massageava o rosto com ambas as
mãos. Levantou-se e ficou de pé sozinho na porta da sala de jantar,
andou para a frente e se sentiu sentar e continuar sentado em uma
cadeira da sala de jantar. Viu suas mãos se espalharem na toalha de
mesa branca, abertas e vazias.
“A tarde toda”, ele disse, “estive
pensando.”
Ela se movimentava pela cozinha,
chacoalhando utensílios, batendo panelas contra o silêncio que
estava em toda parte.
“Fico pensando”, ele disse, “se
você põe os corpos no caminhão de comprido ou atravessados, com as
cabeças para a direita ou os pés para a direita. Homens e mulheres
juntos ou separados? Crianças em um caminhão ou misturadas com
homens e mulheres? Cães em caminhões especiais ou simplesmente
deixados onde estão? Fico pensando quantos corpos cabem em um
caminhão. Fico pensando, e se você os empilhar, um em cima do
outro, finalmente sabendo que você simplesmente precisa fazer isso.
Não consigo imaginar. Não consigo calcular. Tento, mas não dá
para adivinhar, não dá para adivinhar mesmo quantos você poderia
empilhar em um único caminhão.”
Ficou sentado pensando como era no fim
do dia em seu trabalho, com o caminhão cheio e a lona puxada sobre o
grande volume de lixo de modo que o volume dava à lona a forma de um
monte irregular. E como era se você de repente puxasse a lona e
olhasse lá dentro. E por uns poucos segundos, você via as coisas
brancas como macarrão, só que as coisas brancas estavam vivas e
fervilhando, milhões delas. E quando as coisas brancas sentiam o sol
quente sobre elas, encolhiam-se e desapareciam na alface e na carne
moída podre e na borra de café e nas cabeças de peixe branco.
Depois de dez segundos de luz solar, as coisas brancas que pareciam
macarrão sumiam, e o grande monte de lixo ficava silencioso e não
se mexia, e você jogava a lona sobre o monte e via como a lona
cobria irregularmente a coleta escondida e, por baixo, você sabia
que estava escuro, e as coisas começando a se mover como sempre
deviam se mover quando ficava escuro novamente.
Ele ainda estava sentado ali, na sala
vazia, quando a porta da frente do apartamento se escancarou. Seu
filho e sua filha entraram correndo, rindo e viram-no ali sentado, e
pararam.
A mãe deles correu para a porta da
cozinha, segurou-se rapidamente na borda dela e contemplou sua
família. Eles viram o rosto dela e ouviram sua voz:
“Sentem-se, meninos, sentem-se!”
Levantou uma das mãos e a estendeu em direção a eles. “Vocês
chegaram bem na hora.”
Ray Bradbury, em A cidade inteira dorme e outros contos breves

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