42.
Não compreendo senão como uma
espécie de falta de asseio esta inerte permanência em que jazo da
minha mesma e igual vida, ficada como pó ou porcaria na superfície
de nunca mudar.
Assim como lavamos o corpo deveríamos
lavar o destino, mudar de vida como mudamos de roupa — não para
salvar a vida, como comemos e dormimos, mas por aquele respeito
alheio por nós mesmos, a que propriamente chamamos asseio.
Há muitos em quem o desasseio não é
uma disposição da vontade, mas um encolher de ombros da
inteligência. E há muitos em quem o apagado e o mesmo da vida não
é uma forma de a quererem, ou uma natural conformação com o não
tê-la querido, mas um apagamento da inteligência de si mesmos, uma
ironia automática do conhecimento.
Há porcos que repugnam a sua própria
porcaria, mas se não afastam dela, por aquele mesmo extremo de um
sentimento, pelo qual o apavorado se não afasta do perigo. Há
porcos de destino, como eu, que se não afastam da banalidade
quotidiana por essa mesma atração da própria impotência.
São aves fascinadas pela ausência de
serpente; moscas que pairam nos troncos sem ver nada, até chegarem
ao alcance viscoso da língua do camaleão.
Assim passeio lentamente a minha
inconsciência consciente, no meu tronco de árvore do usual. Assim
passeio o meu destino que anda, pois eu não ando; o meu tempo que
segue, pois eu não sigo. Nem me salva da monotonia senão estes
breves comentários que faço a propósito dela.
Contento-me com a minha cela ter
vidraças por dentro das grades, e escrevo nos vidros, no pó do
necessário, o meu nome em letras grandes, assinatura quotidiana da
minha escritura com a morte.
Com a morte? Não, nem com a morte.
Quem vive como eu não morre: acaba, murcha, desvegeta-se. O lugar
onde esteve fica sem ele ali estar, a rua por onde andava fica sem
ele lá ser visto, a casa onde morava é habitada por não-ele. É
tudo, e chamamos-lhe o nada; mas nem essa tragédia da negação
podemos representar com aplauso, pois nem ao certo sabemos se é
nada, vegetais da verdade como da vida, pó que tanto está por
dentro como por fora das vidraças, netos do Destino e enteados de
Deus, que casou com a Noite Eterna quando ela enviuvou do Caos que
nos procriou.
Partir da Rua dos Douradores para o
Impossível... Erguer-me da carteira para o Ignoto... Mas isto
intersecionado com a Razão — o Grande Livro que diz que fomos.
Fernando Pessoa, em Livro do Desassossego
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