terça-feira, 4 de março de 2025

Silêncio


Comecei quieta, morando em cidadezinhas mineradoras nas montanhas, me mudando com frequência demais para fazer amigos. Procurava uma árvore ou uma sala num velho moinho abandonado, para ficar em silêncio.
Minha mãe passava a maior parte do tempo lendo ou dormindo, então eu conversava mais com meu pai. Assim que ele entrava pela porta de casa ou quando ele me levava para o alto das montanhas ou para o fundo escuro de minas, eu falava sem parar.
Então, ele foi para o exterior e nós para El Paso, no Texas, onde fui estudar na escola Vilas. Na terceira série, eu lia bem, mas não sabia fazer contas nem de adição. Usava um colete pesado nas minhas costas tortas. Era alta, mas ainda infantil. Uma esquisitona naquela cidade, como se eu tivesse sido criada no mato por cabras-monteses. Vivia fazendo xixi nas calças, chapinhando, até que me recusei a ir para a escola ou mesmo a conversar com a diretora.
Uma velha professora da minha mãe na escola secundária conseguiu uma bolsa de estudos para mim na exclusiva Radford, uma escola para meninas a duas viagens de ônibus da nossa casa, do outro lado de El Paso. Continuei a ter todos os problemas mencionados acima, só que agora também andava vestida feito uma maltrapilha. Eu morava na parte pobre da cidade e havia alguma coisa particularmente inaceitável no jeito do meu cabelo.
Nunca falei muito sobre essa escola. Não me importo de contar coisas horríveis para as pessoas, desde que consiga torná-las engraçadas. Lá nunca foi engraçado. Uma vez, no recreio, resolvi beber um pouco de água de uma mangueira do jardim e a professora arrancou a mangueira de mim e me chamou de grosseirona.
Mas a biblioteca… Todo dia nós podíamos passar uma hora lá, livres para folhear qualquer livro, todos os livros, para sentar e ler, ou examinar o catálogo de fichas. Quando faltavam quinze minutos para nosso tempo terminar, a bibliotecária nos avisava, para que pudéssemos pegar emprestado algum livro. A bibliotecária tinha — não ria — uma voz muito macia. Não só suave, mas gentil. Ela dizia para você “Aqui é onde ficam as biografias” e então explicava o que era uma biografia.
Aqui ficam os livros de referência. Se houver alguma coisa que você queira saber, basta me perguntar que a gente encontra a resposta num livro.”
Era uma coisa maravilhosa de ouvir, e eu acreditei nela.
Até que a bolsa da srta. Brick, que sempre ficava embaixo da mesa dela, foi roubada. Ela disse que devia ter sido eu quem tinha pegado a bolsa. Então, me mandaram para a sala de Lucinda de Leftwitch Templin. Lucinda de Leftwitch disse que sabia que eu não era de uma família privilegiada como a maioria das meninas da escola e que isso devia ser difícil para mim às vezes. Ela entendia, disse Lucinda, mas o que ela estava dizendo na verdade era “Onde é que está a bolsa?”.
Fui embora. Não voltei nem para pegar o dinheiro do ônibus e o lanche no meu armário. Saí a pé pela cidade, andando todo aquele longo caminho, todo aquele longo dia. Minha mãe estava me esperando na porta de casa com uma vara na mão. Tinham ligado para ela da escola para dizer que eu havia roubado a bolsa e depois fugido. Ela nem sequer me perguntou se eu tinha roubado de fato. “Sua ladrazinha, me humilhando”, vapt, “delinquente, ingrata”, vapt. Lucinda de Leftwitch ligou para ela no dia seguinte para dizer que um faxineiro tinha roubado a bolsa, mas minha mãe nem me pediu desculpa. Disse apenas “Vaca!”, depois de desligar o telefone.
Foi assim que acabei indo para a St. Joseph’s, que eu adorava. Só que as alunas de lá também me odiavam, por todas as razões mencionadas acima, mas agora também por outras razões, sendo uma delas a de que a irmã Cecilia sempre me chamava e eu ganhava estrelas e santinhos e era a queridinha! queridinha!, até que parei de levantar a mão.
Tio John se mandou para Nacogdoches, o que me deixou sozinha com a minha mãe e o meu avô. Tio John sempre comia comigo, ou bebia enquanto eu comia. Conversava comigo enquanto eu o ajudava a consertar móveis, me levava ao cinema e me deixava segurar o olho de vidro gosmento dele. Foi horrível quando ele foi embora. Vovô e Mamie (minha avó) ficavam no consultório dentário dele o dia inteiro e, quando voltavam para casa, Mamie mantinha minha irmã mais nova a salvo levando-a para a cozinha ou para seu próprio quarto. Minha mãe saía, ia para o hospital do Exército prestar serviços como voluntária ou ia jogar bridge. Vovô ia para o clube ou sei lá para onde. A casa ficava vazia e assustadora sem o tio John, e eu tinha que me esconder do vovô e da mamãe quando eles estavam bêbados. Em casa era ruim e na escola também.
Decidi parar de falar. Simplesmente desisti. Fiquei tanto tempo muda que a irmã Cecilia quis rezar comigo no vestiário. Ela queria o meu bem e só estava me tocando para se mostrar solidária, enquanto rezava. Eu fiquei assustada e a empurrei. Ela caiu e eu fui expulsa da escola.
Foi então que conheci Hope.
Como o ano letivo já estava quase terminando, eu ficaria em casa e voltaria para a Vilas no semestre seguinte. Continuei sem falar, mesmo quando minha mãe entornou uma jarra inteira de chá gelado na minha cabeça ou até quando ela me beliscava e torcia minha pele, deixando marcas que pareciam estrelas, a Ursa Maior, a Ursa Menor, a Lira, espalhadas pelos meus braços.
Eu jogava o jogo das pedrinhas no chão de concreto acima dos degraus, torcendo para que a menina síria da casa ao lado me chamasse para brincar com ela. Ela jogava no chão de concreto da varanda deles. Era pequena e magra, mas parecia velha. Não adulta nem madura, mas como uma velhinha-criança. Tinha um cabelo comprido preto e brilhoso, uma franja que lhe caía nos olhos. Para enxergar, ela tinha que inclinar a cabeça para trás. Parecia um filhote de babuíno. No bom sentido, quero dizer. Um rosto pequeno com grandes olhos pretos. Todos os seis filhos da família Haddad eram magricelas, mas os adultos eram imensos, pareciam pesar uns cem quilos ou mais.
Eu sabia que Hope também reparava em mim porque, se eu estava fazendo aquela jogada conhecida como cerejas no cesto, ela também fazia a mesma jogada. Ou se eu estava fazendo meteoros, ela fazia também, com a diferença de que ela nunca deixava nenhuma pedrinha cair, nem mesmo quando estava usando doze. Durante semanas nossas bolas e pedrinhas fizeram um bop bop pá bop bop pá gostoso e ritmado, até que finalmente ela veio até a cerca. Devia ter ouvido minha mãe berrar comigo, porque perguntou:
Você já está falando?”
Eu fiz que não.
Que bom. Falar comigo não conta.”
Pulei a cerca. Naquela noite, eu estava tão feliz por ter uma amiga que, quando fui para a cama, falei em voz alta: “Boa noite!”.
Tínhamos passado horas jogando o jogo das pedrinhas naquele dia e depois ela tinha me ensinado brincadeiras perigosas com uma faca. Fazer a faca dar giros triplos no ar até fincar na grama e, o mais assustador, com a mão aberta apoiada no chão, cravar a faca no espaço entre os dedos. Mais rápido, mais rápido, mais rápido, sangue. Acho que nem falamos nada naquele dia. Raramente falamos aquele verão inteiro. Tudo de que me lembro são as primeiras e últimas palavras dela.
Nunca mais tive uma amiga como Hope, minha uniquíssima amiga de verdade. Aos poucos fui me tornando parte da família Haddad. Acho que, se isso não tivesse acontecido, eu teria virado uma adulta não só neurótica, alcoólatra e insegura, mas seriamente perturbada. Maluca mesmo.
Os seis filhos e o pai falavam inglês. A mãe, a avó e cinco ou seis outras velhas só falavam árabe. Lembrando desse tempo agora, eu tenho a impressão de que passei por uma espécie de orientação. As crianças me observavam enquanto eu aprendia a correr, correr de verdade, e a saltar a cerca, em vez de subir nela. Fiquei craque na faca, no pião e na bolinha de gude. Aprendi gestos obscenos e palavrões em inglês, espanhol e árabe. Para a avó, eu lavava louça, regava plantas, passava ancinho na areia do quintal, batia tapetes com um batedor de bambu trançado, ajudava as velhas a estender massa de pão nas mesas de pingue-pongue do porão. Tardes preguiçosas lavando paninhos sujos de menstruação numa bacia no quintal com Hope e Shahala, a irmã mais velha. Isso não parecia nojento, mas sim mágico, como um rito misterioso. De manhã, eu ficava em fila com as outras meninas para que minhas orelhas fossem lavadas e meu cabelo trançado, para ganhar quibe num pão quentinho. As mulheres gritavam comigo: “Hjaddadinah!”. E me davam beijos e tapas como se eu pertencesse à família. O sr. Haddad deixava que Hope e eu nos sentássemos em sofás e passeássemos pela cidade na carroceria do caminhão da Haddad’s Beautiful Furniture.
Aprendi a roubar. Romãs e figos do quintal do velho cego Guca, perfume Blue Waltz e batom Tangee da loja de departamentos Kress, balas de alcaçuz e refrigerantes do mercado Sunshine. Mercados faziam entregas na época, e um dia o entregador do Sunshine veio trazer compras para as casas de nós duas bem na hora em que Hope e eu estávamos chegando em casa, chupando picolés de banana. Nossas mães estavam ambas do lado de fora.
As suas filhas roubaram aqueles picolés!”, ele disse.
Minha mãe me bateu, vapt, vapt. “Já pra dentro, sua ladra mentirosa, falsa, traiçoeira!” Já a sra. Haddad disse: “Seu cretino mentiroso! Hjaddadinah! Tlajhama! Não se atreva a falar mal dos meus filhos! Nunca mais eu boto os pés naquele seu mercado!”.
E ela nunca mais botou mesmo, passando a pegar um ônibus até Mesa para fazer compras, embora soubesse muito bem que Hope tinha roubado o picolé. Aquilo fez sentido para mim. Eu não queria só que minha mãe acreditasse em mim quando eu era inocente, coisa que ela nunca fazia, mas também que ela me defendesse quando eu era culpada.
Quando compramos patins, Hope e eu desbravamos El Paso, patinávamos pela cidade inteira. Íamos ao cinema, uma fazendo a outra entrar pela porta da saída de incêndio. Pirata dos sete mares. Noite na alma. Chopin se derramando por todas as teclas do piano. Vimos Alma em suplício seis vezes e Os dedos da morte dez.
A hora em que mais nos divertíamos era quando jogávamos cartas. Sempre que podíamos, ficávamos rodeando um dos irmãos de Hope, Sammy, que tinha dezessete anos. Ele e os amigos eram bonitos, durões, atrevidos. Eu já lhe contei sobre Sammy e as cartas. Nós vendíamos rifas de caixas de joias musicais. Levávamos o dinheiro para Sammy e ele nos dava uma comissão. Foi assim que compramos os patins.
Vendíamos rifas em tudo quanto era lugar. Em hotéis, na estação de trem, na filial da United Service Organization, em Juárez. Mas até mesmo os bairros residenciais eram mágicos. Você andava por uma rua, passando por casas e quintais, e às vezes no fim da tarde você via pessoas comendo ou sentadas por lá, e dava para ter uma boa visão de como elas viviam. Hope e eu entramos em centenas de casas. As duas com sete anos de idade, meio esquisitas cada uma à sua maneira, as pessoas gostavam de nós e eram amáveis conosco. “Entrem. Tomem uma limonada.” Vimos quatro gatos siameses que usavam o banheiro de verdade e até davam descarga. Vimos papagaios e uma pessoa de mais de duzentos quilos que não saía de casa fazia vinte anos. Mas gostávamos mais ainda de todas as coisas bonitas que víamos: pinturas, pastoras de porcelana, espelhos, relógios de cuco e de pêndulo, colchas de retalhos e tapetes de muitas cores. Gostávamos de ficar sentadas em cozinhas mexicanas cheias de canários, tomando suco de laranja de verdade e comendo pan dulce. Hope era tão inteligente que aprendeu espanhol só de ouvir as pessoas falando pelo bairro, para poder conversar com as velhinhas.
Ficávamos radiantes quando Sammy nos elogiava, nos abraçava. Ele fazia sanduíches de mortadela para nós e nos deixava sentar perto deles na grama. Falávamos para eles sobre as pessoas que tínhamos conhecido. Ricas, pobres, chinesas, negras, até que o fiscal da estação nos fez sair da sala de espera das pessoas de cor. Só encontramos uma pessoa má, o homem com os cachorros. Ele não fez nem disse nada, só nos assustou horrores com a cara pálida e debochada dele.
Quando Sammy comprou o carro velho, Hope entendeu tudo na mesma hora. Ninguém ia ganhar caixa de joia musical nenhuma.
Enfurecida, ela saltou a cerca em direção ao meu quintal, berrando, o cabelo voando como o de um guerreiro índio de cinema. Abriu sua faca, fez grandes cortes nos nossos dedos indicadores e os apertou, pingando, um contra o outro.
Eu nunca mais vou falar com o Sammy”, disse ela. “Fala!”
Eu nunca mais vou falar com o Sammy”, eu disse.
Eu exagero muito e misturo ficção com realidade, mas nunca chego de fato a mentir. Não estava mentindo quando fiz aquela promessa. Sabia que Sammy tinha nos usado, mentido para nós e enganado todas aquelas pessoas. Eu não ia mais falar com ele.
Algumas semanas depois, eu estava subindo a colina em direção à Upson Drive, perto do hospital. Estava quente. (Viu só? Estou tentando justificar o que aconteceu. Sempre estava quente.) Sammy parou ao meu lado no velho carro conversível azul, o carro que Hope e eu tínhamos trabalhado para pagar. É verdade também que, tendo vindo de cidadezinhas nas montanhas, raras vezes na minha vida eu havia andado de carro, fora algumas viagens de táxi.
Entra. Vamos dar uma volta.”
Algumas palavras me deixam maluca. Ultimamente, não há artigo de jornal que não mencione um “marco”, um “divisor de águas” ou um “ícone”. Pelo menos uma dessas expressões deve se aplicar àquele momento da minha vida.
Eu era uma menininha; não creio que fosse de fato uma atração sexual. Mas eu estava fascinada com a beleza física de Sammy, com seu magnetismo. Seja qual for a justificativa… Bom, está bem, não há justificativa para o que eu fiz. Eu falei com ele. Entrei no carro.
Foi maravilhoso andar no carro sem capota. O vento nos refrescava enquanto andávamos em alta velocidade em torno da Plaza, passando pelo teatro Wigwam, pelo Del Norte, pela Popular Dry Goods Company, depois subindo a Mesa em direção à Upson. Eu ia pedir para que ele me deixasse saltar alguns quarteirões antes de casa quando vi Hope em cima de uma figueira, no terreno baldio da esquina da Upson com a Randolph.
Hope gritou. Sentada na árvore, ficou brandindo o punho para mim e me amaldiçoando em árabe sírio. Talvez tudo o que aconteceu comigo desde então tenha sido resultado dessa maldição. Faz sentido.
Saí do carro, desconsolada, trêmula, subi a escada de casa como se fosse uma velhinha e desabei no balanço da varanda.
Sabia que era o fim da nossa amizade e sabia que eu estava errada.
Cada dia era interminável. Hope passava por mim como se eu fosse invisível, brincava do outro lado da cerca como se o nosso quintal não existisse. Ela e as irmãs só falavam em árabe sírio agora. Alto, se estavam do lado de fora. Eu entendia muitas das coisas ruins que elas falavam. Hope passava horas jogando o jogo das pedrinhas sozinha na varanda, cantando músicas tristes em árabe, lindas; sua voz rouca e plangente me fazia chorar de saudade dela.
Salvo Sammy, nenhum dos Haddad falava mais comigo. A mãe de Hope cuspia em mim e brandia o punho. Sammy me chamava do carro dele, longe da nossa casa. Pedia desculpas. Tentava ser amável, dizendo que sabia que no fundo ela ainda continuava sendo minha amiga e pedindo que eu não ficasse triste. Dizia que entendia por que eu não podia falar com ele e pedia, por favor, que o perdoasse. Eu virava para o outro lado para não vê-lo enquanto ele falava.
Nunca me senti tão sozinha na vida. Foi um marco de solidão. Os dias não tinham fim, acompanhados pelo som da bola de Hope batendo no chão de concreto hora após hora sem parar, pelo assobio da sua faca furando a grama, pelas cintilações da lâmina.
Não havia nenhuma outra criança na nossa vizinhança. Durante semanas nós brincamos sozinhas. Ela aperfeiçoava manobras com a faca na grama deles. Eu coloria e lia, deitada no balanço da varanda.
Ela foi embora de vez pouco antes de as aulas começarem. Sammy e o pai carregaram a cama dela, a mesinha de cabeceira e uma cadeira até o enorme caminhão de móveis. Hope subiu na carroceria e se sentou ereta na cama, para poder olhar para fora. Não olhou para mim. Parecia minúscula dentro daquele caminhão enorme. Fiquei olhando até ela desaparecer. Sammy gritou para mim da cerca, disse que ela tinha ido para Odessa, no Texas, para morar com alguns parentes. Digo Odessa, no Texas, porque uma vez uma pessoa me disse: “Esta é a Olga; ela é de Odessa”. E eu pensei “E daí?”. Acabou que ela era de Odessa, na Ucrânia. Eu pensava que a única Odessa que existia era aquela para onde Hope tinha ido.

As aulas começaram e não foi tão ruim. Eu não me importava de ficar sempre sozinha e de ser alvo de riso. O colete que eu usava para a coluna estava ficando pequeno demais e as minhas costas doíam. Que bom, eu pensava, eu mereço.
Tio John voltou. Cinco minutos depois de entrar pela porta, ele disse para a minha mãe: “O colete dela está pequeno demais!”.
Fiquei bem feliz de vê-lo. Ele preparou para mim uma tigela de cereal com leite, umas seis colheres de açúcar e pelo menos três colheres de baunilha. Sentou na minha frente na mesa da cozinha e ficou tomando uísque enquanto eu comia. Contei para ele sobre a minha amiga Hope, sobre tudo. Contei até sobre os meus problemas na escola. Quase tinha me esquecido deles. Ele grunhia ou dizia “Cacete!” enquanto eu falava. E entendeu tudo, principalmente a história com Hope.
Ele nunca dizia coisas como “Não se preocupe, tudo vai se ajeitar”. Na verdade, uma vez Mamie disse: “Podia ser pior”.
Pior?”, ele disse. “Porra, podia ser estupidamente melhor!”. Ele também era alcoólatra, mas a bebida só o deixava mais carinhoso, ao contrário deles. Ou ele se mandava, ia para o México, para Nacogdoches ou para Carlsbad, para a prisão às vezes, tenho consciência agora.
Ele era bonito, moreno como vovô, com só um olho azul, já que vovô tinha atirado no outro. Seu olho de vidro era verde. Eu sei que é verdade que vovô atirou nele, mas a história de como isso aconteceu tem umas dez versões. Quando tio John estava em casa, ele dormia num barracão do lado de fora, perto de onde ele tinha feito o meu quarto, na varanda dos fundos.
Tio John usava chapéu e botas de caubói e era como um valente caubói de cinema algumas horas; outras horas, ele era apenas um bêbado chorão e digno de pena.
Doentes de novo”, Mamie dizia, referindo-se a eles.
Bêbados, Mamie”, eu dizia.
Eu tentava me esconder quando vovô estava bêbado porque ele me pegava e me balançava. Uma vez, ele estava fazendo isso na cadeira de balanço grande, me segurando com força no colo dele, a cadeira quicando a poucos centímetros da estufa em brasa, o treco dele futucando e futucando meu traseiro. Ele estava cantando “Old Tin Pan with a Hole in the Bottom”. Alto. Arfando e grunhindo. Sentada perto dali, Mamie lia a Bíblia, enquanto eu gritava: “Mamie! Me ajuda!”. Tio John apareceu, bêbado e sujo. Ele me arrancou do colo do vovô, agarrou o velho pela camisa e disse que, na próxima vez, o mataria de porrada. Depois, fechou com violência a Bíblia de Mamie.
Lê de novo, mãe. Você entendeu errado, aquela parte sobre dar a outra face. Isso não vale pra quando alguém está fazendo mal a uma criança.”
Chorando, ela disse que ele queria partir o coração dela.
Enquanto eu terminava a tigela de cereal, ele me perguntou se vovô andava me importunando. Eu disse que não. Disse também que ele tinha feito aquilo com Sally, uma vez, que eu tinha visto.
Com a pequena Sally? E o que você fez?”
Nada.” Eu não tinha feito nada. Tinha ficado olhando com um misto de sentimentos: medo, excitação, ciúme, raiva. John veio para perto de mim, puxou uma cadeira e me sacudiu, com força. Estava furioso.
Isso foi abominável! Está me ouvindo? Onde a Mamie estava?”
Regando as plantas. A Sally estava dormindo antes, mas acordou.”
Quando eu não estou aqui, você é a única pessoa nesta casa que tem um pouco de juízo. Você tem que proteger a sua irmã. Está ouvindo?”
Eu fiz que sim, envergonhada. Mas estava com mais vergonha ainda de como eu tinha me sentido quando aquilo aconteceu. Ele percebeu isso, de alguma forma. Sempre entendia aquelas coisas que você não conseguia nem organizar direito na cabeça, quanto mais falar sobre elas.
Você acha que a Sally está com tudo. Sente ciúme dela porque a Mamie está sempre dando atenção a ela. Então, mesmo se o que ele fazia com você era ruim, pelo menos era uma coisa ruim que ele fazia só com você, não é verdade? Claro que você tem motivo pra sentir ciúme da Sally, minha querida. Ela é muito bem tratada. Mas lembra da raiva que você sentiu da Mamie? De como você implorou pela ajuda dela? Responde!”
Lembro.”
Bem, você foi tão má quanto a Mamie. Pior! O silêncio pode ser uma coisa ruim, muito, muito ruim. Você fez mais alguma coisa errada, além de trair a sua irmã e a sua amiga?”
Eu roubei. Bala e…”
Não, eu estou falando de magoar as pessoas.”
Não.”
Ele disse que ia ficar em casa por um tempo, me botar na linha, botar a oficina de consertos de móveis antigos dele para funcionar antes do inverno.
Eu trabalhava para ele nos fins de semana e depois da escola, no barracão e no quintal dos fundos. Lixando, lixando ou esfregando madeira com um pano encharcado de óleo de linhaça e terebintina. Dois amigos dele, Tino e Sam, às vezes vinham ajudá-lo a empalhar, estofar, dar acabamento. Se a minha mãe ou o meu avô estavam em casa, eles saíam pela porta dos fundos, porque Tino era mexicano e Sam era negro. Mamie, no entanto, gostava deles e sempre levava brownies ou biscoitos de aveia lá para fora quando estava em casa.
Uma vez, Tino trouxe uma moça mexicana, Mecha. Ela era praticamente uma menina ainda, muito bonita, com anéis e brincos, sombra nos olhos e unhas compridas, um vestido verde brilhante. Ela não falava inglês, mas me perguntou com gestos se podia me ajudar a pintar um banco de cozinha. Eu fiz que sim, claro. Tio John falou para eu me apressar, pintar rápido antes que a tinta acabasse, e acho que Tino disse a mesma coisa em espanhol para Mecha. A gente estava passando os pincéis furiosamente pelas travessas e pelas pernas do banco, o mais rápido que conseguia, enquanto os três homens, com a mão na barriga, davam risada. Nós duas percebemos o que estava acontecendo mais ou menos ao mesmo tempo e começamos a rir também. Mamie veio ver qual era a razão de toda aquela algazarra. Ela chamou tio John para perto dela. Estava furiosa por causa da mulher, disse que era um absurdo ela estar ali. John fez que sim e coçou a cabeça. Quando Mamie foi lá para dentro, ele voltou para perto de nós e, depois de um tempo, disse: “Bem, vamos parar por aqui hoje”.
Enquanto estávamos limpando os pincéis, ele me explicou que a mulher era prostituta, que Mamie tinha percebido isso pela maneira como a moça estava vestida e pintada. Acabou me explicando uma porção de coisas que me intrigavam. Fiquei entendendo melhor os meus pais, o vovô, os filmes e os cachorros. Mas, como ele se esqueceu de me dizer que prostitutas cobravam pelo que faziam, eu continuei confusa em relação às prostitutas.
A Mecha é legal. Eu odeio a Mamie”, eu disse.
Não diga essa palavra! Além do mais, você não odeia a Mamie coisa nenhuma. Você sente raiva dela porque ela não gosta de você. Ela vê você perambulando pelas ruas, andando com sírios e com o tio John, e conclui que você é uma causa perdida, uma Moynihan nata. Você queria que ela te amasse, só isso. Toda vez que você achar que odeia uma pessoa, o melhor que você faz é rezar por ela. Experimente, você vai ver. E enquanto estiver ocupada rezando por ela, você poderia também tentar ajudá-la de vez em quando. Dar a ela algum tipo de razão pra gostar de uma pirralha emburrada que nem você.”
Às vezes, nos fins de semana, ele me levava para corridas de cachorros em Juárez ou para pontos de jogo espalhados pela cidade. Eu adorava as corridas e levava jeito para escolher vencedores. Só gostava de ir a jogos de cartas quando ele jogava com ferroviários, num vagão de funcionários no pátio de manobras. Eu subia a escada até o teto do vagão e ficava vendo os trens indo e vindo, trocando de linha, se conectando. O problema era que a maior parte dos jogos de cartas acontecia nos fundos de lavanderias chinesas. Eu ficava horas sentada na parte da frente da lavanderia, lendo, enquanto em algum lugar lá dos fundos ele jogava pôquer. O calor e o cheiro de solvente misturado com lã chamuscada e suor me deixavam enjoada. Houve algumas vezes em que tio John saiu pela porta dos fundos e me esqueceu lá, de modo que só quando ia fechar as portas era que o gerente da lavanderia me encontrava dormindo numa cadeira. Eu tinha que voltar sozinha e no escuro para casa, que ficava longe, e quase sempre não tinha ninguém lá. Mamie levava Sally com ela quando ia às reuniões do coral e da Eastern Star e quando ia fazer curativos em soldados.
Mais ou menos uma vez por mês, íamos a um barbeiro. Sempre um barbeiro diferente. Tio John pedia que fizessem a barba e cortassem o cabelo dele. Eu ficava sentada numa cadeira, lendo Argosy, enquanto o barbeiro trabalhava, só esperando a parte da barba. Tio John ficava inclinado lá para trás na cadeira e, bem na hora em que o barbeiro estava terminando de barbeá-lo, perguntava: “Escuta, por acaso você tem algum colírio aí?”, coisa que eles sempre tinham. O barbeiro se debruçava sobre ele e pingava colírio nos seus olhos. Então, o olho de vidro verde começava a girar e o barbeiro berrava de susto. Depois todo mundo ria.
Se eu tivesse entendido o tio John só metade do que ele sempre me entendia, eu poderia ter percebido quanto ele sofria e por que se esforçava tanto para fazer as pessoas rirem. Ele realmente fazia todo mundo rir. Comíamos em vários cafés de Juárez e El Paso que eram como casas de pessoas. Apenas uma porção de mesas espalhadas pela sala de uma casa normal, com boa comida. Todo mundo conhecia o tio John e as garçonetes sempre riam quando ele perguntava se o café era requentado.
Não, claro que não!”
Bom, então o que você fez para ele ficar tão quente?”
Geralmente eu conseguia perceber quão bêbado ele estava e, se ele estava muito bêbado, eu inventava alguma desculpa e voltava para casa a pé ou de bonde. Um dia, porém, eu tinha ficado dormindo na cabine do caminhão e só acordei depois que ele já tinha entrado e dado partida. Estávamos na Rim Road, andando cada vez mais rápido. Ele estava com uma garrafa de bebida entre as coxas, dirigindo com os cotovelos enquanto contava o dinheiro que estava segurando em leque em cima do volante.
Vai mais devagar!”
Eu estou cheio da grana, meu bem!”
Vai mais devagar! Segura o volante direito!”
O caminhão deu um baque, saltou e depois deu outro baque contra o chão. O dinheiro saiu voando pela cabine inteira. Eu olhei pelo vidro de trás. Um garotinho estava parado na rua, com o braço sangrando. Um collie estava estirado no chão ao lado dele, todo ensanguentado, tentando se levantar.
Para! Para o caminhão. A gente tem que voltar. Tio John!”
Eu não posso!”
Diminui a velocidade. Você tem que voltar!” Eu estava chorando histericamente.
Em frente de casa, ele esticou o braço por cima de mim e abriu a porta do meu lado. “Vai pra dentro.”
Não sei se parei de falar com ele. Ele não voltou para casa. Nem naquela noite, nem durante dias, semanas, meses. Eu rezei por ele.

A guerra terminou e meu pai voltou para casa. Nós nos mudamos para a América do Sul.
Tio John acabou indo parar na sarjeta em Los Angeles, virou um beberrão realmente imprestável. Até que ele conheceu Dora, que tocava trompete na banda do Exército da Salvação. Ela o fazia ir para o abrigo e tomar sopa e conversava com ele. Mais tarde, ela contou que ele a fazia rir. Eles se apaixonaram e se casaram e ele nunca mais bebeu. Quando fiquei mais velha, fui visitá-los em Los Angeles. Dora estava trabalhando como operária rebitadora na Lockheed e tio John tinha uma oficina de consertos de móveis antigos na garagem. Eles eram, talvez, as duas pessoas mais carinhosas que já conheci na vida; carinhosas uma com a outra, quero dizer. Fomos ao cemitério Forest Lawn, aos poços de piche de La Brea e ao restaurante Grotto. Mas, a maior parte do tempo, fiquei ajudando tio John na oficina, lixando móveis, polindo-os com um pano encharcado de terebintina e óleo de linhaça. Conversamos sobre a vida, contamos piadas. Nenhum dos dois sequer mencionou El Paso. Claro que, a essa altura, eu já tinha percebido todas as razões de ele não ter parado o caminhão naquele dia, porque a essa altura eu era alcoólatra.

Lucia Berlin, em Manual da faxineira: Contos escolhidos

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