Comecei
quieta, morando em cidadezinhas mineradoras nas montanhas, me mudando
com frequência demais para fazer amigos. Procurava uma árvore ou
uma sala num velho moinho abandonado, para ficar em silêncio.
Minha
mãe passava a maior parte do tempo lendo ou dormindo, então eu
conversava mais com meu pai. Assim que ele entrava pela porta de casa
ou quando ele me levava para o alto das montanhas ou para o fundo
escuro de minas, eu falava sem parar.
Então,
ele foi para o exterior e nós para El Paso, no Texas, onde fui
estudar na escola Vilas. Na terceira série, eu lia bem, mas não
sabia fazer contas nem de adição. Usava um colete pesado nas minhas
costas tortas. Era alta, mas ainda infantil. Uma esquisitona naquela
cidade, como se eu tivesse sido criada no mato por cabras-monteses.
Vivia fazendo xixi nas calças, chapinhando, até que me recusei a ir
para a escola ou mesmo a conversar com a diretora.
Uma
velha professora da minha mãe na escola secundária conseguiu uma
bolsa de estudos para mim na exclusiva Radford, uma escola para
meninas a duas viagens de ônibus da nossa casa, do outro lado de El
Paso. Continuei a ter todos os problemas mencionados acima, só que
agora também andava vestida feito uma maltrapilha. Eu morava na
parte pobre da cidade e havia alguma coisa particularmente
inaceitável no jeito do meu cabelo.
Nunca
falei muito sobre essa escola. Não me importo de contar coisas
horríveis para as pessoas, desde que consiga torná-las engraçadas.
Lá nunca foi engraçado. Uma vez, no recreio, resolvi beber um pouco
de água de uma mangueira do jardim e a professora arrancou a
mangueira de mim e me chamou de grosseirona.
Mas
a biblioteca… Todo dia nós podíamos passar uma hora lá, livres
para folhear qualquer livro, todos os livros, para sentar e ler, ou
examinar o catálogo de fichas. Quando faltavam quinze minutos para
nosso tempo terminar, a bibliotecária nos avisava, para que
pudéssemos pegar emprestado algum livro. A bibliotecária tinha —
não ria — uma voz muito macia. Não só suave, mas gentil. Ela
dizia para você “Aqui é onde ficam as biografias” e então
explicava o que era uma biografia.
“Aqui
ficam os livros de referência. Se houver alguma coisa que você
queira saber, basta me perguntar que a gente encontra a resposta num
livro.”
Era
uma coisa maravilhosa de ouvir, e eu acreditei nela.
Até
que a bolsa da srta. Brick, que sempre ficava embaixo da mesa dela,
foi roubada. Ela disse que devia ter sido eu quem tinha pegado a
bolsa. Então, me mandaram para a sala de Lucinda de Leftwitch
Templin. Lucinda de Leftwitch disse que sabia que eu não era de uma
família privilegiada como a maioria das meninas da escola e que isso
devia ser difícil para mim às vezes. Ela entendia, disse Lucinda,
mas o que ela estava dizendo na verdade era “Onde é que está a
bolsa?”.
Fui
embora. Não voltei nem para pegar o dinheiro do ônibus e o lanche
no meu armário. Saí a pé pela cidade, andando todo aquele longo
caminho, todo aquele longo dia. Minha mãe estava me esperando na
porta de casa com uma vara na mão. Tinham ligado para ela da escola
para dizer que eu havia roubado a bolsa e depois fugido. Ela nem
sequer me perguntou se eu tinha roubado de fato. “Sua ladrazinha,
me humilhando”, vapt, “delinquente, ingrata”, vapt. Lucinda de
Leftwitch ligou para ela no dia seguinte para dizer que um faxineiro
tinha roubado a bolsa, mas minha mãe nem me pediu desculpa. Disse
apenas “Vaca!”, depois de desligar o telefone.
Foi
assim que acabei indo para a St. Joseph’s, que eu adorava. Só que
as alunas de lá também me odiavam, por todas as razões mencionadas
acima, mas agora também por outras razões, sendo uma delas a de que
a irmã Cecilia sempre me chamava e eu ganhava estrelas e santinhos e
era a queridinha! queridinha!, até que parei de levantar a mão.
Tio
John se mandou para Nacogdoches, o que me deixou sozinha com a minha
mãe e o meu avô. Tio John sempre comia comigo, ou bebia enquanto eu
comia. Conversava comigo enquanto eu o ajudava a consertar móveis,
me levava ao cinema e me deixava segurar o olho de vidro gosmento
dele. Foi horrível quando ele foi embora. Vovô e Mamie (minha avó)
ficavam no consultório dentário dele o dia inteiro e, quando
voltavam para casa, Mamie mantinha minha irmã mais nova a salvo
levando-a para a cozinha ou para seu próprio quarto. Minha mãe
saía, ia para o hospital do Exército prestar serviços como
voluntária ou ia jogar bridge. Vovô ia para o clube ou sei lá para
onde. A casa ficava vazia e assustadora sem o tio John, e eu tinha
que me esconder do vovô e da mamãe quando eles estavam bêbados. Em
casa era ruim e na escola também.
Decidi
parar de falar. Simplesmente desisti. Fiquei tanto tempo muda que a
irmã Cecilia quis rezar comigo no vestiário. Ela queria o meu bem e
só estava me tocando para se mostrar solidária, enquanto rezava. Eu
fiquei assustada e a empurrei. Ela caiu e eu fui expulsa da escola.
Foi
então que conheci Hope.
Como
o ano letivo já estava quase terminando, eu ficaria em casa e
voltaria para a Vilas no semestre seguinte. Continuei sem falar,
mesmo quando minha mãe entornou uma jarra inteira de chá gelado na
minha cabeça ou até quando ela me beliscava e torcia minha pele,
deixando marcas que pareciam estrelas, a Ursa Maior, a Ursa Menor, a
Lira, espalhadas pelos meus braços.
Eu
jogava o jogo das pedrinhas no chão de concreto acima dos degraus,
torcendo para que a menina síria da casa ao lado me chamasse para
brincar com ela. Ela jogava no chão de concreto da varanda deles.
Era pequena e magra, mas parecia velha. Não adulta nem madura, mas
como uma velhinha-criança. Tinha um cabelo comprido preto e
brilhoso, uma franja que lhe caía nos olhos. Para enxergar, ela
tinha que inclinar a cabeça para trás. Parecia um filhote de
babuíno. No bom sentido, quero dizer. Um rosto pequeno com grandes
olhos pretos. Todos os seis filhos da família Haddad eram
magricelas, mas os adultos eram imensos, pareciam pesar uns cem
quilos ou mais.
Eu
sabia que Hope também reparava em mim porque, se eu estava fazendo
aquela jogada conhecida como cerejas no cesto, ela também fazia a
mesma jogada. Ou se eu estava fazendo meteoros, ela fazia também,
com a diferença de que ela nunca deixava nenhuma pedrinha cair, nem
mesmo quando estava usando doze. Durante semanas nossas bolas e
pedrinhas fizeram um bop bop pá bop bop pá gostoso e ritmado, até
que finalmente ela veio até a cerca. Devia ter ouvido minha mãe
berrar comigo, porque perguntou:
“Você
já está falando?”
Eu
fiz que não.
“Que
bom. Falar comigo não conta.”
Pulei
a cerca. Naquela noite, eu estava tão feliz por ter uma amiga que,
quando fui para a cama, falei em voz alta: “Boa noite!”.
Tínhamos
passado horas jogando o jogo das pedrinhas naquele dia e depois ela
tinha me ensinado brincadeiras perigosas com uma faca. Fazer a faca
dar giros triplos no ar até fincar na grama e, o mais assustador,
com a mão aberta apoiada no chão, cravar a faca no espaço entre os
dedos. Mais rápido, mais rápido, mais rápido, sangue. Acho que nem
falamos nada naquele dia. Raramente falamos aquele verão inteiro.
Tudo de que me lembro são as primeiras e últimas palavras dela.
Nunca
mais tive uma amiga como Hope, minha uniquíssima amiga de verdade.
Aos poucos fui me tornando parte da família Haddad. Acho que, se
isso não tivesse acontecido, eu teria virado uma adulta não só
neurótica, alcoólatra e insegura, mas seriamente perturbada. Maluca
mesmo.
Os
seis filhos e o pai falavam inglês. A mãe, a avó e cinco ou seis
outras velhas só falavam árabe. Lembrando desse tempo agora, eu
tenho a impressão de que passei por uma espécie de orientação. As
crianças me observavam enquanto eu aprendia a correr, correr de
verdade, e a saltar a cerca, em vez de subir nela. Fiquei craque na
faca, no pião e na bolinha de gude. Aprendi gestos obscenos e
palavrões em inglês, espanhol e árabe. Para a avó, eu lavava
louça, regava plantas, passava ancinho na areia do quintal, batia
tapetes com um batedor de bambu trançado, ajudava as velhas a
estender massa de pão nas mesas de pingue-pongue do porão. Tardes
preguiçosas lavando paninhos sujos de menstruação numa bacia no
quintal com Hope e Shahala, a irmã mais velha. Isso não parecia
nojento, mas sim mágico, como um rito misterioso. De manhã, eu
ficava em fila com as outras meninas para que minhas orelhas fossem
lavadas e meu cabelo trançado, para ganhar quibe num pão quentinho.
As mulheres gritavam comigo: “Hjaddadinah!”. E me davam
beijos e tapas como se eu pertencesse à família. O sr. Haddad
deixava que Hope e eu nos sentássemos em sofás e passeássemos pela
cidade na carroceria do caminhão da Haddad’s Beautiful Furniture.
Aprendi
a roubar. Romãs e figos do quintal do velho cego Guca, perfume Blue
Waltz e batom Tangee da loja de departamentos Kress, balas de alcaçuz
e refrigerantes do mercado Sunshine. Mercados faziam entregas na
época, e um dia o entregador do Sunshine veio trazer compras para as
casas de nós duas bem na hora em que Hope e eu estávamos chegando
em casa, chupando picolés de banana. Nossas mães estavam ambas do
lado de fora.
“As
suas filhas roubaram aqueles picolés!”, ele disse.
Minha
mãe me bateu, vapt, vapt. “Já pra dentro, sua ladra mentirosa,
falsa, traiçoeira!” Já a sra. Haddad disse: “Seu cretino
mentiroso! Hjaddadinah! Tlajhama! Não se atreva a falar mal
dos meus filhos! Nunca mais eu boto os pés naquele seu mercado!”.
E
ela nunca mais botou mesmo, passando a pegar um ônibus até Mesa
para fazer compras, embora soubesse muito bem que Hope tinha roubado
o picolé. Aquilo fez sentido para mim. Eu não queria só que minha
mãe acreditasse em mim quando eu era inocente, coisa que ela nunca
fazia, mas também que ela me defendesse quando eu era culpada.
Quando
compramos patins, Hope e eu desbravamos El Paso, patinávamos pela
cidade inteira. Íamos ao cinema, uma fazendo a outra entrar pela
porta da saída de incêndio. Pirata dos sete mares. Noite na
alma. Chopin se derramando por todas as teclas do piano. Vimos
Alma em suplício seis vezes e Os dedos da morte dez.
A
hora em que mais nos divertíamos era quando jogávamos cartas.
Sempre que podíamos, ficávamos rodeando um dos irmãos de Hope,
Sammy, que tinha dezessete anos. Ele e os amigos eram bonitos,
durões, atrevidos. Eu já lhe contei sobre Sammy e as cartas. Nós
vendíamos rifas de caixas de joias musicais. Levávamos o dinheiro
para Sammy e ele nos dava uma comissão. Foi assim que compramos os
patins.
Vendíamos
rifas em tudo quanto era lugar. Em hotéis, na estação de trem, na
filial da United Service Organization, em Juárez. Mas até mesmo os
bairros residenciais eram mágicos. Você andava por uma rua,
passando por casas e quintais, e às vezes no fim da tarde você via
pessoas comendo ou sentadas por lá, e dava para ter uma boa visão
de como elas viviam. Hope e eu entramos em centenas de casas. As duas
com sete anos de idade, meio esquisitas cada uma à sua maneira, as
pessoas gostavam de nós e eram amáveis conosco. “Entrem. Tomem
uma limonada.” Vimos quatro gatos siameses que usavam o banheiro de
verdade e até davam descarga. Vimos papagaios e uma pessoa de mais
de duzentos quilos que não saía de casa fazia vinte anos. Mas
gostávamos mais ainda de todas as coisas bonitas que víamos:
pinturas, pastoras de porcelana, espelhos, relógios de cuco e de
pêndulo, colchas de retalhos e tapetes de muitas cores. Gostávamos
de ficar sentadas em cozinhas mexicanas cheias de canários, tomando
suco de laranja de verdade e comendo pan dulce. Hope era tão
inteligente que aprendeu espanhol só de ouvir as pessoas falando
pelo bairro, para poder conversar com as velhinhas.
Ficávamos
radiantes quando Sammy nos elogiava, nos abraçava. Ele fazia
sanduíches de mortadela para nós e nos deixava sentar perto deles
na grama. Falávamos para eles sobre as pessoas que tínhamos
conhecido. Ricas, pobres, chinesas, negras, até que o fiscal da
estação nos fez sair da sala de espera das pessoas de cor. Só
encontramos uma pessoa má, o homem com os cachorros. Ele não fez
nem disse nada, só nos assustou horrores com a cara pálida e
debochada dele.
Quando
Sammy comprou o carro velho, Hope entendeu tudo na mesma hora.
Ninguém ia ganhar caixa de joia musical nenhuma.
Enfurecida,
ela saltou a cerca em direção ao meu quintal, berrando, o cabelo
voando como o de um guerreiro índio de cinema. Abriu sua faca, fez
grandes cortes nos nossos dedos indicadores e os apertou, pingando,
um contra o outro.
“Eu
nunca mais vou falar com o Sammy”, disse ela. “Fala!”
“Eu
nunca mais vou falar com o Sammy”, eu disse.
Eu
exagero muito e misturo ficção com realidade, mas nunca chego de
fato a mentir. Não estava mentindo quando fiz aquela promessa. Sabia
que Sammy tinha nos usado, mentido para nós e enganado todas aquelas
pessoas. Eu não ia mais falar com ele.
Algumas
semanas depois, eu estava subindo a colina em direção à Upson
Drive, perto do hospital. Estava quente. (Viu só? Estou tentando
justificar o que aconteceu. Sempre estava quente.) Sammy parou ao meu
lado no velho carro conversível azul, o carro que Hope e eu tínhamos
trabalhado para pagar. É verdade também que, tendo vindo de
cidadezinhas nas montanhas, raras vezes na minha vida eu havia andado
de carro, fora algumas viagens de táxi.
“Entra.
Vamos dar uma volta.”
Algumas
palavras me deixam maluca. Ultimamente, não há artigo de jornal que
não mencione um “marco”, um “divisor de águas” ou um
“ícone”. Pelo menos uma dessas expressões deve se aplicar
àquele momento da minha vida.
Eu
era uma menininha; não creio que fosse de fato uma atração sexual.
Mas eu estava fascinada com a beleza física de Sammy, com seu
magnetismo. Seja qual for a justificativa… Bom, está bem, não há
justificativa para o que eu fiz. Eu falei com ele. Entrei no carro.
Foi
maravilhoso andar no carro sem capota. O vento nos refrescava
enquanto andávamos em alta velocidade em torno da Plaza, passando
pelo teatro Wigwam, pelo Del Norte, pela Popular Dry Goods Company,
depois subindo a Mesa em direção à Upson. Eu ia pedir para que ele
me deixasse saltar alguns quarteirões antes de casa quando vi Hope
em cima de uma figueira, no terreno baldio da esquina da Upson com a
Randolph.
Hope
gritou. Sentada na árvore, ficou brandindo o punho para mim e me
amaldiçoando em árabe sírio. Talvez tudo o que aconteceu comigo
desde então tenha sido resultado dessa maldição. Faz sentido.
Saí
do carro, desconsolada, trêmula, subi a escada de casa como se fosse
uma velhinha e desabei no balanço da varanda.
Sabia
que era o fim da nossa amizade e sabia que eu estava errada.
Cada
dia era interminável. Hope passava por mim como se eu fosse
invisível, brincava do outro lado da cerca como se o nosso quintal
não existisse. Ela e as irmãs só falavam em árabe sírio agora.
Alto, se estavam do lado de fora. Eu entendia muitas das coisas ruins
que elas falavam. Hope passava horas jogando o jogo das pedrinhas
sozinha na varanda, cantando músicas tristes em árabe, lindas; sua
voz rouca e plangente me fazia chorar de saudade dela.
Salvo
Sammy, nenhum dos Haddad falava mais comigo. A mãe de Hope cuspia em
mim e brandia o punho. Sammy me chamava do carro dele, longe da nossa
casa. Pedia desculpas. Tentava ser amável, dizendo que sabia que no
fundo ela ainda continuava sendo minha amiga e pedindo que eu não
ficasse triste. Dizia que entendia por que eu não podia falar com
ele e pedia, por favor, que o perdoasse. Eu virava para o outro lado
para não vê-lo enquanto ele falava.
Nunca
me senti tão sozinha na vida. Foi um marco de solidão. Os dias não
tinham fim, acompanhados pelo som da bola de Hope batendo no chão de
concreto hora após hora sem parar, pelo assobio da sua faca furando
a grama, pelas cintilações da lâmina.
Não
havia nenhuma outra criança na nossa vizinhança. Durante semanas
nós brincamos sozinhas. Ela aperfeiçoava manobras com a faca na
grama deles. Eu coloria e lia, deitada no balanço da varanda.
Ela
foi embora de vez pouco antes de as aulas começarem. Sammy e o pai
carregaram a cama dela, a mesinha de cabeceira e uma cadeira até o
enorme caminhão de móveis. Hope subiu na carroceria e se sentou
ereta na cama, para poder olhar para fora. Não olhou para mim.
Parecia minúscula dentro daquele caminhão enorme. Fiquei olhando
até ela desaparecer. Sammy gritou para mim da cerca, disse que ela
tinha ido para Odessa, no Texas, para morar com alguns parentes. Digo
Odessa, no Texas, porque uma vez uma pessoa me disse: “Esta é a
Olga; ela é de Odessa”. E eu pensei “E daí?”. Acabou que ela
era de Odessa, na Ucrânia. Eu pensava que a única Odessa que
existia era aquela para onde Hope tinha ido.
As
aulas começaram e não foi tão ruim. Eu não me importava de ficar
sempre sozinha e de ser alvo de riso. O colete que eu usava para a
coluna estava ficando pequeno demais e as minhas costas doíam. Que
bom, eu pensava, eu mereço.
Tio
John voltou. Cinco minutos depois de entrar pela porta, ele disse
para a minha mãe: “O colete dela está pequeno demais!”.
Fiquei
bem feliz de vê-lo. Ele preparou para mim uma tigela de cereal com
leite, umas seis colheres de açúcar e pelo menos três colheres de
baunilha. Sentou na minha frente na mesa da cozinha e ficou tomando
uísque enquanto eu comia. Contei para ele sobre a minha amiga Hope,
sobre tudo. Contei até sobre os meus problemas na escola. Quase
tinha me esquecido deles. Ele grunhia ou dizia “Cacete!” enquanto
eu falava. E entendeu tudo, principalmente a história com Hope.
Ele
nunca dizia coisas como “Não se preocupe, tudo vai se ajeitar”.
Na verdade, uma vez Mamie disse: “Podia ser pior”.
“Pior?”,
ele disse. “Porra, podia ser estupidamente melhor!”. Ele também
era alcoólatra, mas a bebida só o deixava mais carinhoso, ao
contrário deles. Ou ele se mandava, ia para o México, para
Nacogdoches ou para Carlsbad, para a prisão às vezes, tenho
consciência agora.
Ele
era bonito, moreno como vovô, com só um olho azul, já que vovô
tinha atirado no outro. Seu olho de vidro era verde. Eu sei que é
verdade que vovô atirou nele, mas a história de como isso aconteceu
tem umas dez versões. Quando tio John estava em casa, ele dormia num
barracão do lado de fora, perto de onde ele tinha feito o meu
quarto, na varanda dos fundos.
Tio
John usava chapéu e botas de caubói e era como um valente caubói
de cinema algumas horas; outras horas, ele era apenas um bêbado
chorão e digno de pena.
“Doentes
de novo”, Mamie dizia, referindo-se a eles.
“Bêbados,
Mamie”, eu dizia.
Eu
tentava me esconder quando vovô estava bêbado porque ele me pegava
e me balançava. Uma vez, ele estava fazendo isso na cadeira de
balanço grande, me segurando com força no colo dele, a cadeira
quicando a poucos centímetros da estufa em brasa, o treco dele
futucando e futucando meu traseiro. Ele estava cantando “Old Tin
Pan with a Hole in the Bottom”. Alto. Arfando e grunhindo. Sentada
perto dali, Mamie lia a Bíblia, enquanto eu gritava: “Mamie! Me
ajuda!”. Tio John apareceu, bêbado e sujo. Ele me arrancou do colo
do vovô, agarrou o velho pela camisa e disse que, na próxima vez, o
mataria de porrada. Depois, fechou com violência a Bíblia de Mamie.
“Lê
de novo, mãe. Você entendeu errado, aquela parte sobre dar a outra
face. Isso não vale pra quando alguém está fazendo mal a uma
criança.”
Chorando,
ela disse que ele queria partir o coração dela.
Enquanto
eu terminava a tigela de cereal, ele me perguntou se vovô andava me
importunando. Eu disse que não. Disse também que ele tinha feito
aquilo com Sally, uma vez, que eu tinha visto.
“Com
a pequena Sally? E o que você fez?”
“Nada.”
Eu não tinha feito nada. Tinha ficado olhando com um misto de
sentimentos: medo, excitação, ciúme, raiva. John veio para perto
de mim, puxou uma cadeira e me sacudiu, com força. Estava furioso.
“Isso
foi abominável! Está me ouvindo? Onde a Mamie estava?”
“Regando
as plantas. A Sally estava dormindo antes, mas acordou.”
“Quando
eu não estou aqui, você é a única pessoa nesta casa que tem um
pouco de juízo. Você tem que proteger a sua irmã. Está ouvindo?”
Eu
fiz que sim, envergonhada. Mas estava com mais vergonha ainda de como
eu tinha me sentido quando aquilo aconteceu. Ele percebeu isso, de
alguma forma. Sempre entendia aquelas coisas que você não conseguia
nem organizar direito na cabeça, quanto mais falar sobre elas.
“Você
acha que a Sally está com tudo. Sente ciúme dela porque a Mamie
está sempre dando atenção a ela. Então, mesmo se o que ele fazia
com você era ruim, pelo menos era uma coisa ruim que ele fazia só
com você, não é verdade? Claro que você tem motivo pra sentir
ciúme da Sally, minha querida. Ela é muito bem tratada. Mas lembra
da raiva que você sentiu da Mamie? De como você implorou pela ajuda
dela? Responde!”
“Lembro.”
“Bem,
você foi tão má quanto a Mamie. Pior! O silêncio pode ser uma
coisa ruim, muito, muito ruim. Você fez mais alguma coisa errada,
além de trair a sua irmã e a sua amiga?”
“Eu
roubei. Bala e…”
“Não,
eu estou falando de magoar as pessoas.”
“Não.”
Ele
disse que ia ficar em casa por um tempo, me botar na linha, botar a
oficina de consertos de móveis antigos dele para funcionar antes do
inverno.
Eu
trabalhava para ele nos fins de semana e depois da escola, no
barracão e no quintal dos fundos. Lixando, lixando ou esfregando
madeira com um pano encharcado de óleo de linhaça e terebintina.
Dois amigos dele, Tino e Sam, às vezes vinham ajudá-lo a empalhar,
estofar, dar acabamento. Se a minha mãe ou o meu avô estavam em
casa, eles saíam pela porta dos fundos, porque Tino era mexicano e
Sam era negro. Mamie, no entanto, gostava deles e sempre levava
brownies ou biscoitos de aveia lá para fora quando estava em casa.
Uma
vez, Tino trouxe uma moça mexicana, Mecha. Ela era praticamente uma
menina ainda, muito bonita, com anéis e brincos, sombra nos olhos e
unhas compridas, um vestido verde brilhante. Ela não falava inglês,
mas me perguntou com gestos se podia me ajudar a pintar um banco de
cozinha. Eu fiz que sim, claro. Tio John falou para eu me apressar,
pintar rápido antes que a tinta acabasse, e acho que Tino disse a
mesma coisa em espanhol para Mecha. A gente estava passando os
pincéis furiosamente pelas travessas e pelas pernas do banco, o mais
rápido que conseguia, enquanto os três homens, com a mão na
barriga, davam risada. Nós duas percebemos o que estava acontecendo
mais ou menos ao mesmo tempo e começamos a rir também. Mamie veio
ver qual era a razão de toda aquela algazarra. Ela chamou tio John
para perto dela. Estava furiosa por causa da mulher, disse que era um
absurdo ela estar ali. John fez que sim e coçou a cabeça. Quando
Mamie foi lá para dentro, ele voltou para perto de nós e, depois de
um tempo, disse: “Bem, vamos parar por aqui hoje”.
Enquanto
estávamos limpando os pincéis, ele me explicou que a mulher era
prostituta, que Mamie tinha percebido isso pela maneira como a moça
estava vestida e pintada. Acabou me explicando uma porção de coisas
que me intrigavam. Fiquei entendendo melhor os meus pais, o vovô, os
filmes e os cachorros. Mas, como ele se esqueceu de me dizer que
prostitutas cobravam pelo que faziam, eu continuei confusa em relação
às prostitutas.
“A
Mecha é legal. Eu odeio a Mamie”, eu disse.
“Não
diga essa palavra! Além do mais, você não odeia a Mamie coisa
nenhuma. Você sente raiva dela porque ela não gosta de você. Ela
vê você perambulando pelas ruas, andando com sírios e com o tio
John, e conclui que você é uma causa perdida, uma Moynihan nata.
Você queria que ela te amasse, só isso. Toda vez que você achar
que odeia uma pessoa, o melhor que você faz é rezar por ela.
Experimente, você vai ver. E enquanto estiver ocupada rezando por
ela, você poderia também tentar ajudá-la de vez em quando. Dar a
ela algum tipo de razão pra gostar de uma pirralha emburrada que nem
você.”
Às
vezes, nos fins de semana, ele me levava para corridas de cachorros
em Juárez ou para pontos de jogo espalhados pela cidade. Eu adorava
as corridas e levava jeito para escolher vencedores. Só gostava de
ir a jogos de cartas quando ele jogava com ferroviários, num vagão
de funcionários no pátio de manobras. Eu subia a escada até o teto
do vagão e ficava vendo os trens indo e vindo, trocando de linha, se
conectando. O problema era que a maior parte dos jogos de cartas
acontecia nos fundos de lavanderias chinesas. Eu ficava horas sentada
na parte da frente da lavanderia, lendo, enquanto em algum lugar lá
dos fundos ele jogava pôquer. O calor e o cheiro de solvente
misturado com lã chamuscada e suor me deixavam enjoada. Houve
algumas vezes em que tio John saiu pela porta dos fundos e me
esqueceu lá, de modo que só quando ia fechar as portas era que o
gerente da lavanderia me encontrava dormindo numa cadeira. Eu tinha
que voltar sozinha e no escuro para casa, que ficava longe, e quase
sempre não tinha ninguém lá. Mamie levava Sally com ela quando ia
às reuniões do coral e da Eastern Star e quando ia fazer curativos
em soldados.
Mais
ou menos uma vez por mês, íamos a um barbeiro. Sempre um barbeiro
diferente. Tio John pedia que fizessem a barba e cortassem o cabelo
dele. Eu ficava sentada numa cadeira, lendo Argosy, enquanto o
barbeiro trabalhava, só esperando a parte da barba. Tio John ficava
inclinado lá para trás na cadeira e, bem na hora em que o barbeiro
estava terminando de barbeá-lo, perguntava: “Escuta, por acaso
você tem algum colírio aí?”, coisa que eles sempre tinham. O
barbeiro se debruçava sobre ele e pingava colírio nos seus olhos.
Então, o olho de vidro verde começava a girar e o barbeiro berrava
de susto. Depois todo mundo ria.
Se
eu tivesse entendido o tio John só metade do que ele sempre me
entendia, eu poderia ter percebido quanto ele sofria e por que se
esforçava tanto para fazer as pessoas rirem. Ele realmente fazia
todo mundo rir. Comíamos em vários cafés de Juárez e El Paso que
eram como casas de pessoas. Apenas uma porção de mesas espalhadas
pela sala de uma casa normal, com boa comida. Todo mundo conhecia o
tio John e as garçonetes sempre riam quando ele perguntava se o café
era requentado.
“Não,
claro que não!”
“Bom,
então o que você fez para ele ficar tão quente?”
Geralmente
eu conseguia perceber quão bêbado ele estava e, se ele estava muito
bêbado, eu inventava alguma desculpa e voltava para casa a pé ou de
bonde. Um dia, porém, eu tinha ficado dormindo na cabine do caminhão
e só acordei depois que ele já tinha entrado e dado partida.
Estávamos na Rim Road, andando cada vez mais rápido. Ele estava com
uma garrafa de bebida entre as coxas, dirigindo com os cotovelos
enquanto contava o dinheiro que estava segurando em leque em cima do
volante.
“Vai
mais devagar!”
“Eu
estou cheio da grana, meu bem!”
“Vai
mais devagar! Segura o volante direito!”
O
caminhão deu um baque, saltou e depois deu outro baque contra o
chão. O dinheiro saiu voando pela cabine inteira. Eu olhei pelo
vidro de trás. Um garotinho estava parado na rua, com o braço
sangrando. Um collie estava estirado no chão ao lado dele, todo
ensanguentado, tentando se levantar.
“Para!
Para o caminhão. A gente tem que voltar. Tio John!”
“Eu
não posso!”
“Diminui
a velocidade. Você tem que voltar!” Eu estava chorando
histericamente.
Em
frente de casa, ele esticou o braço por cima de mim e abriu a porta
do meu lado. “Vai pra dentro.”
Não
sei se parei de falar com ele. Ele não voltou para casa. Nem naquela
noite, nem durante dias, semanas, meses. Eu rezei por ele.
A
guerra terminou e meu pai voltou para casa. Nós nos mudamos para a
América do Sul.
Tio
John acabou indo parar na sarjeta em Los Angeles, virou um beberrão
realmente imprestável. Até que ele conheceu Dora, que tocava
trompete na banda do Exército da Salvação. Ela o fazia ir para o
abrigo e tomar sopa e conversava com ele. Mais tarde, ela contou que
ele a fazia rir. Eles se apaixonaram e se casaram e ele nunca mais
bebeu. Quando fiquei mais velha, fui visitá-los em Los Angeles. Dora
estava trabalhando como operária rebitadora na Lockheed e tio John
tinha uma oficina de consertos de móveis antigos na garagem. Eles
eram, talvez, as duas pessoas mais carinhosas que já conheci na
vida; carinhosas uma com a outra, quero dizer. Fomos ao cemitério
Forest Lawn, aos poços de piche de La Brea e ao restaurante Grotto.
Mas, a maior parte do tempo, fiquei ajudando tio John na oficina,
lixando móveis, polindo-os com um pano encharcado de terebintina e
óleo de linhaça. Conversamos sobre a vida, contamos piadas. Nenhum
dos dois sequer mencionou El Paso. Claro que, a essa altura, eu já
tinha percebido todas as razões de ele não ter parado o caminhão
naquele dia, porque a essa altura eu era alcoólatra.
Lucia Berlin, em Manual da faxineira: Contos escolhidos

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