sexta-feira, 28 de março de 2025

Mechéu

 

Esses tontos companheiros

que me fazem companhia…

Meio de moda.


Isto não é vida!…

É fase de metamorfose.

Do Entreespelho.


Muito chovendo e querendo os moços de fora qualquer espécie nova de recreio, puseram-lhe atenção: feito sob lente e luz espiassem o jogo de escamas de uma cobra, o arruivar das folhas da urtiga, o fim de asas de uma vespa. De enga­no em distância, aparecia-lhes exótico, excluso. Era o sujeito.

Tinha-se no caso de notar e troçar. Reapareceu, passou, pelo terreiro de frente da fazenda, atolava-se pelejando na lama lhôfa do curral. Mechéu, por nome Hermenegildo; explicou-o o fazendeiro Sãsfortes.

Semi-imbecil trabalhava, vivia, moscamurro, raivancudo, se­não de si não gostando de ninguém. Ante tudo enfuriava-se pron­to às mínimas e niglingas — rasgadela na roupa, esbarro involuntário ou nele fixarem olhar, pisar-lhe um porco o pé na hora da ração. Dava-se de não responsável de todo malfeito seu, desordem, descuido. Exigia para si o bom respeito das coisas.

Topou em toco, por exemplo, certa danada vez, quando leva­va aos camaradas na roça o almoço, desceu então o caixote da cabeça, feroz, de fera: para castigar o toco, voltou pela espingarda; já a comida é que mais não achou, que por bichos devorada! — e culpou de tudo a cozinheira. Sempre via o mal em carne e osso. Se quebrava xícara, atribuía-o à guilha da que coara o café; se do prato lavado em água fria não saía a gordura, incriminava o sangrador do suíno ou o salgador do toucinho; se o leite talhava, era por conta de quem buscara as vacas.

Melhor consigo mesmo se entendia, a meio de rangidos e resmungos. — Xiapo montão! — xingava, por diabo grande, gago, descompletado; proseava de ter uma só palavra. Entufava o aspecto, para tantas importâncias; feiancho, mais feio ficava. Opunha ao mundo as orelhas caramujas, comuns, olhos fundos — o esquerdo divergente. Com que, não era um ordinário rosto, fisionomia normal de homem, caricatura? De braços e peito peludos, fechada a barba: o que é ter a natureza na cara. Só se tardada errada em escopo. Seja que imperfeito alorpado.

Ainda abaixo dele, bobo, bem, meio idiota papudo era ou­tro, o que de alcunha o Gango; tolo tanto, que cheirava as coi­sas, mas nem sabia temer as cobras e os lagartos. Simiava-o esse, obediente mirava por modelo ao Mechéu, maramau, que o tra­tava de menor, sem estimação, exigia do Gango uma ideal excelência, forçando-o à lida, quisesse-o sacado pronto do ovo da estupidez.

Descalço — não suportava as botinas — punha Mechéu nos dias de serviço chapéu de palha; e de lebre, igual ao do Patrão, aos domingos, quando vestia roupa limpa, fazia a barba e saía a passear, a pé, ou, mau cavaleiro, a cavalo. Tinha o seu próprio, Supra-Vento, e arreios, jamais emprestados. Não ia à missa, não, nem bebia cachaça, jurava pelos venenos nas flores, repelia a longe os animais. Sentava-se, se o não viam, comendo às tripas insensatas. Superstição sua única era a de que não varressem ou lhe jogassem água nos pés, o que o impediria de casar. Irava-se, então entonces. Somente aceitava roupa feita para ele especial; modo algum, mesmo nova, a cosida para outro: referia os pelos do peito a ter usado camisa do Neca Velho, vizinho fazendeiro e também hirsuto, nunca porém vestira camisa do Neca. Mechéu, o firme. — Ele faz demais questão de continuar sendo sempre ele mesmo... — um dos moços observou.

Também de fora viera a menina, nenem, ooó, menininha de inéditos gestos, olhava para ela o Gango só a apreciar e bater cabeça. Mechéu pois disse: — Ele é meu parente não! — e a Menininha disse: — Você é bobo não, você é bom... — e mais a Meninazinha formosa então cantou: — Michéu, bambéu... Mi­chéu... bambéu... — pouquinho só, coisa de muita monta, ele se regalou, arredando dali o Gango, impante, fez fiau nele.

Sumo prazia-lhe ouvir debicarem alguém: que fulano fora à casa de baiano e a moça de lá não lhe abrira a porta; beltrano não ia à Vila à noite, por medo dos lobos; sicrano surrara peixa­no que sapecara terciano que sovara marrano, sucessos eis fa­ziam-no rir a pagar, não risada gargalhal, somenos chiada entre quentes dentes, vai vezes engasgava-se até, da ocasiãozada. Malvadezas contra outros o confortavam. A seguir, vigiava, suspeitoso de que sobre ele mesmo também viessem. Mais o exas­perava chamarem-lhe Tatú, apodo herdado do pai.

Tomava-se por infalível nôivo de toda e qualquer derradeira sacudida moça vista, marcava coió o casamento, que em do­min­go fatal sem falta: — Bimingo um... bimingo dois... bimingo três! — dedo e dedo contava. Assaz queria viver mais, e depois dos ou­tros, fora de morte, ficar para semente. Apare­ciam-lhe os cabe­los brancos, e renegava seus fossem, sim de um cavalo ruço do Patrão, por nome Vapor. De si mesmo, de nada nanja duvidava.

Lento o tempo, Mechéu descascava e debulhava milhos no paiol, fazia o Gango fazer. Ele agora estava irado com a chuva, e com o Patrão, que nela não dava jeito. Mas acatava ordens: quando lhe mandaram que viesse, veio. — Louvem-no — e reprovem alguém, outro — que ele de gozo empofa... — ensinou Sãsfortes, fazendeiro.

Mechéu marchava com desajeito, bamba bailava-lhe a perna direita, puxada pela esquerda. Soturno sáfio ante aqueles parou, turvava-se seu ar de desconfiança, inveja, queixa. — Será já em si o “eu” uma contradição? — sob susto e espanto um dos de fora proferiu. Mas, pensavam consigo mesmos, não para o Me­chéu — ilota e especulário. Deixaram-no de lado.

Tardiamente apenas se soube o que a seu respeito valesse; depois, anos.

Mechéu assim, a vida vira assim... — conta a fazendeira, Dona Joaquina, inesquecível, branquinhos os cabelos, azúis o­lhos bondosos.

Tudo o comum, copiado; do borrão do viver.

No que houve que o Gango morreu, chifrado de vaca.

Enquanto entanto o corpo estando presente, Mechéu nem fez caso, ele não tinha pelo Gango nenhum encarecimento, nunca o deixava botar mão no que de seu, nem entrar no cômodo em que assistia, debaixo da casa. Vez ou vez, mandasse o Gango cantarolar, para as escutar, simplórias parlendas, o canto sen­do dele o nome Mechéu mesmo, em falsete, o Gango tal afinado papagaio.

Mas, enterrado aquele, Mechéu aos tentos se estramontou, se cuspindo, se sumia, o boi em transtorno, desacertado do trabalho. — Está andando meio exercitado por aí, não se vê o que ele quer... — vinham dizer, pareceu que descabisbaixo indo obrar o demo em dobro.

Só da patroa Dona Joaquina se aproximou, de vira vez, perguntou ou afirmou: — A menininha não morre, não, nunca! De dó, a Senhora confirmou: — Nunca! — não sabia que menina. De saudade ou falta do Gango, ele houve pingos nos olhos, inqui­riu: — Nem eu!? Rezingava, pois assim, gueta, pataratices, mais frases: sobre os passarinhos, bem apresentados, o sol nas roças, o Supra-Vento, cavalo, ao qual por prima vez agradecesse.

Mas mesmo enfermou, daí, pessoalmente, de novembro para diante, repuxado e esmorecido, se esforçava com um tremor, sua pesadume remédios não paliavam. Ora fim que enfim se fechou no escuro cômodo, por mais de um dia, surgindo no seguinte aceitou o caneco com chá amargo, restava guedelhudado, rebarbado, os olhos mais cavos, demudado das feições.

Decerto não aguentava o que lhe vinha para pensar, nem vencia achar o de que precisava, só sacudia as pálpebras, com tantas rotações no pescoço: gesticulava para nenhum interlocutor; rodou, rodou, no mesmo lugar, passava as mãos nas árvores.

Muito devagar, sempre com cheio o caneco seguro direiti­nho, veio para junto do paredão do bicame, lá sozinho ficou pa­rado um tempo, até ao entardecer. Estava bem diferente, etc., es­perando um tudo diferente.

Não falemos mais dele.

Guimarães Rosa, em Tutameia

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