domingo, 9 de fevereiro de 2025

Um caso amoroso


Era difícil cuidar da sala de espera e da sala de exame sozinha. Eu tinha que trocar curativos, tirar temperatura e pressão, e ainda tentar receber novos pacientes e atender ligações. Era um grande transtorno, porque, para fazer um eletrocardiograma ou dar assistência durante uma sutura ou um exame preventivo, eu tinha que pedir ao serviço de recados para receber as ligações. A sala de espera ficava cheia, os pacientes se sentiam negligenciados e eu ficava ouvindo os telefones tocando sem parar.
A maioria dos pacientes do dr. B. eram bastante idosos. Muitas das mulheres que faziam exame preventivo eram obesas, com acesso difícil, então o exame demorava mais tempo ainda.
Acho que havia uma lei que dizia que eu tinha que estar presente quando ele estivesse examinando uma paciente do sexo feminino. Eu costumava achar que isso era uma precaução antiquada. Não mesmo. Era impressionante quantas daquelas velhas senhoras eram apaixonadas por ele.
Eu entregava o espéculo a ele e, algum tempo depois, o palito comprido. Depois de colher células do colo do útero, ele as passava na lâmina que eu estava segurando, e eu então a borrifava com uma solução, formando uma película protetora. Em seguida, eu cobria a lâmina com outra lâmina, guardava numa caixa e a etiquetava para ser enviada ao laboratório.
Minha principal tarefa era fazer com que as mulheres botassem as pernas bem no alto dos estribos e o bumbum bem na beira da mesa, onde ele ficaria no mesmo nível que os olhos do médico. Depois, eu estendia um lençol sobre os joelhos delas e deveria ajudá-las a relaxar. Conversar e fazer brincadeiras até que ele entrasse na sala. Essa parte era fácil, a parte da conversa. Eu conhecia as pacientes e elas eram todas muito simpáticas.
A parte difícil era quando ele entrava na sala. Era um homem extremamente tímido, com um problema sério de tremor nas mãos que se manifestava de vez em quando. Sempre quando ele tinha que assinar cheques ou fazer exames preventivos.
Ele se sentava num banquinho, olhos nivelados com as vaginas das pacientes, uma lanterna na testa. Eu lhe entregava o espéculo (aquecido) e, alguns minutos depois, enquanto a paciente arfava e suava, o palito comprido com algodão na ponta. Ele segurava o palito, balançando-o feito uma batuta, enquanto se metia debaixo do lençol, aproximando-se da mulher. Por fim, a mão dele emergia com o palito, agora um metrônomo zonzo apontado para a minha lâmina expectante. Eu ainda bebia nessa época, então a mão com que eu segurava a lâmina tremia visivelmente enquanto eu tentava levá-la de encontro à dele. Mas, enquanto o meu era um tremor nervoso para cima e para baixo, o dele era para a frente e para trás. Até que, finalmente, tchum. Esse procedimento demorava tanto que ele muitas vezes perdia ligações importantes, e claro que as pessoas que estavam na sala de espera ficavam muito impacientes. Uma vez, o sr. Larraby chegou até a bater na porta. O dr. B. levou um susto tão grande que deixou o palito cair no chão. Tivemos que começar tudo de novo. Depois disso, ele concordou em contratar uma recepcionista para trabalhar em meio expediente.
Se algum dia resolver procurar outro emprego, vou pedir um salário bem alto. Se uma pessoa trabalha por tão pouco quanto eu e Ruth trabalhávamos, há algo de muito suspeito.
Ruth nunca tinha trabalhado fora e não precisava trabalhar, o que já era suspeito o bastante. Estava ali por diversão.
Eu achei isso tão fascinante que a convidei para almoçar depois da entrevista. Sanduíches de atum com queijo derretido no Pill Hill Café. Gostei dela de cara. Nunca tinha conhecido ninguém como ela.
Ruth tinha cinquenta anos e estava casada fazia trinta com o seu amor de infância, um contador. Eles tinham dois filhos e três gatos. Os hobbies dela, de acordo com a sua ficha de inscrição, eram “gatos”. Então, o dr. B. sempre perguntava a ela como os seus gatos estavam. Meus hobbies eram “ler”, então ele costumava dizer para mim “Nas margens de Itchee Goomee”, ou “Nunca mais, disse o corvo”.
Sempre que atendia um paciente novo, ele anotava algumas frases nas costas da ficha. Coisas que ele poderia usar para puxar conversa quando entrasse na sala de exame. “Acha que o Texas é a terra de Deus.” “Tem dois poodles toy.” “Consome quinhentos dólares de heroína por dia.” Então, quando entrava na sala para atender, ele dizia coisas como “Bom dia! Tem visitado a terra de Deus ultimamente?” ou “Você está sem sorte se acha que vai conseguir arranjar drogas comigo”.
Durante o almoço, Ruth me contou que tinha começado a se sentir velha e acomodada e que então havia entrado para um grupo de apoio. As Meninas Peraltas, ou M. P., que era na verdade uma referência à Meno Pausa. Ruth sempre dizia essa palavra como se fossem duas. O grupo tinha como objetivo dar mais pique à vida das mulheres. Ele se concentrava nas próprias participantes. A última a ser ajudada tinha sido Hannah. O grupo a convenceu a entrar para os Vigilantes do Peso, a ir para o spa Rancho del Sol, a fazer aulas de dança de salão e depois a fazer uma lipoaspiração e um lifting. Ela ficou com uma aparência maravilhosa, mas agora estava em dois outros grupos. Um para mulheres que fizeram lifting mas continuavam deprimidas e outro para “Mulheres que amam demais”. Ruth soltou um suspiro e disse: “A Hannah sempre foi o tipo de mulher que tem casos com estivadores”.
Estivadores! Ruth usava palavras surpreendentes, como assaz e azáfama. Dizia coisas como estar sentindo falta “daquela fase do mês”. Era sempre uma fase tão quentinha e aconchegante.
As Meninas Peraltas recomendaram a Ruth que fizesse aulas de arranjo floral, entrasse para um grupo de teatro, se filiasse a um clube de entusiastas do jogo Trivial Pursuit e arranjasse um emprego. Ela também deveria ter um caso amoroso, mas ainda não havia pensado sobre isso. Pique a vida dela já tinha. Adorava fazer arranjos florais, e agora elas estavam aprendendo a fazer buquês com ervas e mato. Também fazia uma pontinha, sem cantar, em Oklahoma!
Eu gostava de ter a companhia de Ruth no consultório. Brincávamos muito com os pacientes e falávamos deles como se fossem nossos parentes. Até arquivar ela achava divertido, cantando “Abcdefg hi jk lmnop lmnopqrst uvwxyZ!”, até que eu dizia: “Para, deixa que eu arquivo”.
Agora era mais fácil quando eu estava com pacientes. Mas, na verdade, ela trabalhava muito pouco. Estudava suas cartas do Trivial Pursuit e telefonava muito para as amigas, principalmente para Hannah, que estava tendo um caso com o professor de dança.
Na hora do almoço eu ia com Ruth colher ervas para pôr em buquês, escalando, quente e suada, o barranco ao lado da autoestrada à procura de pés de cenoura selvagem e tabaco. Pedras entravam nos nossos sapatos. Ruth parecia ser uma bela senhora judia de meia-idade como tantas outras, mas havia um quê de selvagem e livre nela. O grito que ela deu quando encontrou uma flor de rúcula rosa no beco atrás do hospital.
Ela e o marido haviam crescido juntos. Suas famílias eram muito próximas, alguns dos poucos judeus numa cidade pequena do Iowa. Desde que ela se lembrava, todo mundo sempre havia esperado que ela e Ephraim se casassem. Eles se apaixonaram de verdade na escola secundária. Ela estudou economia doméstica na faculdade e esperou que ele se formasse em administração e contabilidade. Claro que eles tinham se guardado para o casamento. Foram morar na casa da família dele e cuidavam da mãe inválida de Ephraim. Ela tinha vindo para Oakland com o casal e ainda morava com eles, aos oitenta e seis anos.
Nunca ouvi Ruth reclamar de nada nem de ninguém, nem da velha doente, nem dos filhos, nem de Ephraim. Eu vivia reclamando dos meus filhos, do meu ex-marido, da minha nora e, principalmente, do dr. B. Ele me fazia abrir todos os pacotes que chegavam para ele, temendo que houvesse alguma bomba dentro deles. Se uma abelha ou uma vespa entrasse na sala, ele saía e só voltava depois que eu a tivesse matado. Isso são só as coisas bobas. Ele era mau. Principalmente com Ruth, dizendo coisas como “É isso que eu ganho por contratar deficientes?”. Ele a chamava de “Dislexia”, porque ela trocava a posição dos algarismos de números de telefone. Ela fazia muito isso. Dia sim, dia não ele me dizia para mandá-la embora. Eu falava que nós não podíamos, que não havia motivo para uma demissão, que ela me ajudava muito e que os pacientes gostavam dela. Ela alegrava o ambiente.
Eu não suporto gente alegre”, ele dizia. “Me dá vontade de dar um tapa pra tirar aquele sorriso da cara dela.”
Ela continuou a ser gentil com ele. Achava que ele era como o Heathcliff de O morro dos ventos uivantes ou como o sr. Rochester de Jane Eyre, só que pequeno. “É, muito pequeno”, eu dizia. Mas Ruth nunca ouvia comentários negativos. Acreditava que alguém, em algum momento, havia partido o coração do dr. B. Levava para ele kugel, rugelach e hamantaschen, e vivia inventando desculpas para entrar na sala dele. Eu ainda não tinha me dado conta de que ela havia escolhido o dr. B. para ser seu caso amoroso, até que um dia ele entrou na minha sala e fechou a porta.
Você tem que mandar essa mulher embora! Ela está dando em cima de mim! É inaceitável.”
Bem, por estranho que possa parecer, ela acha o senhor extremamente atraente. Eu ainda preciso dela. É difícil encontrar uma pessoa com quem seja fácil trabalhar. Seja paciente. Por favor, senhor.” O “senhor” o amoleceu, como de costume.
Está bem”, ele disse, soltando um suspiro.
Ela era boa para mim, botava pique na minha vida. Em vez de passar minha hora de almoço remoendo problemas e fumando no beco, eu me sujava e me divertia colhendo buquês com ela. Comecei até a cozinhar, usando algumas das centenas de receitas que ela xerocava o dia inteiro. Cebolas assadas com uma pitada de açúcar mascavo. Ela levava roupas do brechó Schmatta e eu as comprava. Fomos à ópera algumas vezes, quando Ephraim estava cansado demais.
Era maravilhoso ir à ópera com ela, porque no intervalo ela não ficava só lá parada sem fazer nada, com cara de tédio, como todo mundo. Ela me levava até o saguão principal para a gente poder admirar as roupas e as joias. Eu chorei com ela em La traviata. Nossa cena favorita era a ária da velha em A dama de espadas.
Um dia Ruth convidou o dr. B. para ir à ópera. “Não! Que convite inapropriado!”, ele disse.
Que babaca”, eu disse quando ele saiu porta afora. Só o que ela disse foi que médicos simplesmente eram ocupados demais para terem casos amorosos, então ela imaginava que ia ter que ser com o Julius.
Julius era um dentista aposentado que havia feito parte do elenco de Oklahoma!. Era viúvo e gordo. Ela disse que gordura era bom, era quente e confortável.
Perguntei se era porque Ephraim havia perdido o interesse por sexo. “Au contraire!”, disse ela. “É a primeira coisa em que ele pensa todas as manhãs e a última à noite. E se fica em casa durante o dia, ele me persegue nessas horas também. É sério…”
Vi Julius no funeral da mãe de Ephraim na Capela do Vale. A velha tinha morrido tranquilamente enquanto dormia.
Ruth e a família estavam na escada da casa funerária. Dois filhos encantadores, bonitos, simpáticos, reconfortando os pais, Ruth e Ephraim. Ephraim tinha uma beleza sombria. Magro, melancólico, profundo. Ele, sim, parecia Heathcliff. Seus olhos tristes e sonhadores sorriram para os meus. “Obrigado por ser tão generosa com a minha esposa.”
Lá está ele!”, Ruth sussurrou, apontando para um homem de cara vermelha, Julius. Cordões de ouro, um terno azul apertado demais. Ele devia estar mascando Clorets, pois seus dentes estavam verdes.
Você está maluca!”, eu sussurrei para ela.
Ruth tinha escolhido a Capela do Vale porque os agentes funerários de lá eram os nossos favoritos. Volta e meia algum paciente do dr. B morria, então quase todo dia algum agente funerário ia até lá para pedir que ele assinasse o atestado de óbito. Com tinta preta, a lei exigia, mas o dr. B. teimava em assiná-los com caneta azul, então os agentes funerários tinham que tomar café e ficar zanzando por ali até que ele voltasse e os assinasse com caneta preta.
Fiquei parada no fundo da capela, pensando onde iria sentar. Muitas mulheres da Hadassah tinham vindo; a capela estava cheia. Um dos agentes funerários apareceu ao meu lado. “Como você fica bonita de cinza, Lily”, disse ele. O outro agente, com uma flor na lapela, veio andando pela nave e disse com uma voz baixa e pesarosa: “Que gentileza sua ter vindo, querida. Deixe-me encontrar um bom lugar para você”. Eu fui andando atrás dos dois pela nave, me sentindo importante, como se tivesse sido recebida como uma freguesa conhecida num restaurante.
Foi uma cerimônia muito bonita. O rabino leu aquela passagem da Bíblia que diz que uma boa esposa é mais preciosa do que rubis. Ninguém teria pensado isso em relação à velha, acho. Mas tive a impressão de que o panegírico foi sobre Ruth, e Ephraim e Julius também devem ter pensado o mesmo, a julgar pelo modo como os dois ficaram olhando para ela.
Na segunda-feira eu tentei argumentar com ela. “Você é uma mulher que tem tudo. Saúde, beleza, humor. Uma casa nas colinas. Uma faxineira. Um compactador de lixo. Filhos maravilhosos. E Ephraim! Ele é bonito, inteligente, rico. E obviamente te adora!”
Disse também que o grupo a estava conduzindo na direção errada. Ela não devia fazer nada que magoasse Ephraim, devia era agradecer aos céus a sorte que tinha. As M. Ps. só estavam com inveja. Provavelmente tinham maridos alcoólatras ou que só queriam saber de ver futebol na televisão ou que eram impotentes ou infiéis. Os filhos delas devem andar por aí com bipes, devem ter piercings, ser bulímicos, drogados, tatuados.
Eu acho que você sente vergonha de ser tão feliz e vai fazer isso pra ter o que compartilhar com as M. Ps. Eu entendo. Quando eu tinha onze anos, uma tia me deu um diário de presente. Só o que eu escrevia nele era: ‘Fui pra escola. Fiz o dever de casa’. Aí eu comecei a fazer bobagens só pra ter alguma coisa pra escrever no diário.”
Não vai ser um caso sério”, disse ela. “É só pra pôr uma pimentinha.”
Que tal se eu tivesse um caso com o Ephraim? Ia ser uma pimentinha e tanto pra mim. Você ficaria com ciúme e se apaixonaria loucamente por ele de novo.”
Ela sorriu. Um sorriso inocente, como o de uma criança.
O Ephraim jamais faria isso. Ele me ama.”
Achei que ela tinha desistido da ideia de ter um caso, até que, numa sexta-feira, ela trouxe um jornal para o consultório.
Eu vou sair com o Julius hoje à noite, mas vou dizer pro Ephraim que vou sair com você. Você já viu algum desses filmes, pra me contar como é a história?”
Eu falei sobre Ran, principalmente sobre a cena em que a mulher puxa a adaga e sobre quando o bobo chora. Os estandartes azuis entre as árvores, os estandartes vermelhos entre as árvores, os estandartes brancos entre as árvores. Quando eu estava começando a me empolgar, ela disse “Para!” e perguntou aonde iríamos depois do cinema. Eu nos levei, então, ao Café Roma em Berkeley.
Ela e Julius passaram a sair todas as sextas. O romance dos dois foi bom para mim. Normalmente, eu ia para casa depois do trabalho, lia romances e tomava vodca até pegar no sono, todo santo dia. Durante o Caso Amoroso, eu comecei a ir a apresentações de quartetos de cordas, ao cinema, a leituras de Ishiguro ou Leslie Scalapino enquanto Ruth e Julius iam ao The Hungry Tiger ou ao Rusty Scupper.
Eles saíram durante quase dois meses antes de fazer Você Sabe O Quê. Esse acontecimento ia se dar em Big Sur, numa viagem de três dias. O que dizer a Ephraim?
Ah, isso é fácil”, eu disse. “Você e eu vamos fazer um retiro zen. Nada de telefone! Nada a contar porque nós só vamos ficar em silêncio e meditar. Vamos nos banhar em fontes de águas termais sob as estrelas. Vamos ficar na posição de lótus em penhascos de frente para o mar. Ondas sem fim. Sem fim.”
Foi chato não poder sair à vontade naqueles dias, ter que filtrar minhas ligações. Mas funcionou. Ephraim levou os filhos para jantar fora, deu comida para os gatos, regou as plantas e sentiu saudade. Muita, muita saudade.
Na segunda-feira depois da viagem, três grandes buquês de rosas foram entregues no consultório. Um cartão dizia: “Para minha querida esposa com amor”. Outro era do “Seu admirador secreto”. E o outro dizia: “Ela caminha em beleza”. Ruth confessou que tinha enviado esse último para si mesma. Adorava flores. Havia comentado com os dois homens, como quem não quer nada, que adorava rosas, mas nunca imaginou que eles fossem de fatolhe mandar rosas.
Tire esses arranjos fúnebres daqui agora”, disse o dr. B. quando estava a caminho do hospital. Mais cedo, ele tinha me pedido de novo para mandá-la embora e eu de novo havia recusado. Por que ele implicava tanto com ela?
Eu já te falei. Ela é alegre demais.”
Eu também costumo sentir a mesma coisa em relação a pessoas alegres, mas a alegria dela é genuína.”
Céus. Isso é muito deprimente.”
Por favor, dê uma chance a ela. Além do mais, eu tenho a sensação de que ela vai ficar deprimida não demora muito.”
Espero que sim.”
Ephraim passou por lá para levar Ruth para tomar um café. Ela não tinha feito nada a manhã inteira, a não ser conversar com Hannah pelo telefone. Eu percebi que a principal razão por que ele tinha ido até lá era ver se ela tinha gostado das rosas. Ele ficou muito chateado quando viu os outros dois buquês. Ruth disse ao marido que um deles tinha sido enviado por uma paciente chamada Anna Fedaz, mas depois só deu uma risadinha quando ele perguntou do admirador secreto. Coitado do homem. Eu vi o impacto do ciúme acertá-lo em cheio na cara, no coração. Um gancho de esquerda na boca do estômago.
Ele me perguntou se eu tinha gostado do retiro. Odeio mentir, realmente não suporto. Não por razões morais. É que é tão difícil pensar no que você vai dizer. Lembrar do que você disse.
Bem, o lugar era lindo. A Ruth é muito serena e pareceu se adaptar perfeitamente à atmosfera de lá. Eu tenho dificuldade de meditar. Só fico pensando em coisas que me preocupam ou remoendo cada erro que eu cometi na minha vida inteira. Mas foi bom pra deixar a gente mais… eh… centrada. Serena. Agora você e Ruth se mandem daqui. Bom almoço!”
Mais tarde eu soube os detalhes. Big Sur tinha sido a aventura da vida de Ruth. Ela sabia que não ia conseguir contar para as M. P.s sobre fazer Você Sabe O Quê. S. oral pela primeira vez! Bem, sim, ela tinha feito S. Oral em Ephraim, mas ele nunca tinha feito nela. E M-A-C… “Eu sei que tem NH em algum lugar.”
Maconha?”
Shhh! Bom, só me fez tossir e ficar nervosa, mais nada. Mas, sim, foi muito bom, o S. Oral. Mas o jeito como ele ficava me perguntando toda hora ‘Você está pronta?’ me fazia imaginar que a gente ia a algum lugar e estragava o clima.”
Eles iam para Mendocino dali a duas semanas. A história era que ela e eu íamos participar de uma oficina de escritores e de uma feira de livros em Petaluma. Robert Haas ia ser o escritor visitante.
Uma noite, no meio da semana, ela me ligou e perguntou se podia dar um pulo lá em casa. Fiquei esperando feito uma boba, não me dei conta de que ela só tinha me ligado para disfarçar, de que tinha saído para se encontrar com Julius. Então, quando Ephraim ligou, eu pude soar genuinamente irritada por ela ainda não ter chegado, e estava mais irritada ainda quando ele ligou pela segunda vez. “Assim que ela chegar eu falo pra ela ligar pra você.” Depois de algum tempo ele ligou de novo, dessa vez furioso porque ela já tinha voltado para casa, dizendo que eu não tinha dado o recado.
No dia seguinte eu disse a ela que não ia mais fazer nada daquilo. Não tinha problema, ela respondeu, os dois iam retomar as aulas de teatro na segunda-feira.
Você e eu estamos fazendo aulas de arranjo floral às sextas, no Laney College. Só isso.”
Olha, é a última vez. Foi muita sorte sua ele nunca ter perguntado detalhes.”
Claro que ele não faria isso. Ele confia em mim. Mas a minha consciência está limpa agora. Julius e eu não fazemos mais Você Sabe O Quê.”
Então o que é que vocês fazem? Pra que se dar a todo esse trabalho e fazer tanto segredo pra não fazer mais Você Sabe O Quê?”
Descobrimos que nenhum de nós dois é do tipo que gosta de variar de parceiro. Eu gosto muito mais de fazer Você Sabe O quê com o Ephraim, e o Julius não está tão interessado assim. Eu gosto da sensação de agir às escondidas. Ele gosta de me dar presentes e de cozinhar pra mim. O meu momento favorito é quando eu bato na porta de um quarto de motel em Richmond ou seja onde for e aí ele abre a porta e eu entro correndo. O coração batendo forte.”
E o que vocês fazem então?”
Jogamos Trivial Pursuit, vemos vídeos. Às vezes cantamos. Duetos, como ‘Bali Hai’ ou ‘Oh, What a Beautiful Morning’. Saímos para andar na chuva à meia-noite!”
Ande na chuva no seu tempo livre!”, bradou o dr. B. A gente não tinha visto ele entrar.
Ele estava sério. Ficou lá parado enquanto ela juntava todas as suas revistas Bon Appétit, suas cartas de Trivial Pursuit e seu material de tricô. Ele me falou para fazer um cheque para ela no valor de duas semanas de trabalho, mais o que nós lhe devíamos.
Depois que o dr. B. saiu ela ligou para Julius e pediu que ele fosse se encontrar com ela no Denny’s imediatamente.
Minha carreira está arruinada!”, disse ela, chorando.
Ela se despediu de mim com um abraço e foi embora. Eu me mudei para a mesa dela, de onde podia ver a sala de espera.
Ephraim apareceu no vão da porta. Veio andando devagar na minha direção e apertou a minha mão. “Lily”, disse ele, com aquela sua voz grossa e envolvente. Ele me disse que Ruth havia ficado de encontrá-lo no Pill Mill Café para almoçar, mas não tinha aparecido. Contei a ele que ela tinha acabado de ser demitida pelo dr. B., sem nenhuma razão. Era provável que ela tivesse esquecido completamente do almoço e ido para casa. Ou ido fazer compras, talvez.
Ephraim continuou lá parado.
Ela pode arranjar outro emprego muito melhor do que esse aqui. Sou eu que administro o consultório e claro que vou dar uma boa carta de recomendação pra ela. Vou sentir muita falta da Ruth.”
Ele ficou lá, olhando para mim.
E ela vai sentir falta de você.” Ele se debruçou na pequena janela perto da minha mesa. “Foi melhor assim, minha querida. Quero que você saiba que eu entendo. Acredite, eu sinto muito por você.”
O quê?”
Tem muitas coisas que eu não compartilho com ela como você. Literatura, budismo, ópera. A Ruth é uma mulher muito fácil de amar.”
O que você quer dizer?”
Ele segurou a minha mão então e ficou olhando bem no fundo dos meus olhos, enquanto seus amáveis olhos castanhos se enchiam de lágrimas.
Eu sinto falta da minha mulher. Por favor, Lily, deixe a Ruth.”
Lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto. Eu estava me sentindo muito, muito triste. Nossas mãos eram uma pequena pilha quente e úmida no peitoril da janela.
Não se preocupe”, eu disse. “A Ruth só ama você, Ephraim.”

Lucia Berlin, em Manual da faxineira: Contos escolhidos

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