Era
difícil cuidar da sala de espera e da sala de exame sozinha. Eu
tinha que trocar curativos, tirar temperatura e pressão, e ainda
tentar receber novos pacientes e atender ligações. Era um grande
transtorno, porque, para fazer um eletrocardiograma ou dar
assistência durante uma sutura ou um exame preventivo, eu tinha que
pedir ao serviço de recados para receber as ligações. A sala de
espera ficava cheia, os pacientes se sentiam negligenciados e eu
ficava ouvindo os telefones tocando sem parar.
A
maioria dos pacientes do dr. B. eram bastante idosos. Muitas das
mulheres que faziam exame preventivo eram obesas, com acesso difícil,
então o exame demorava mais tempo ainda.
Acho
que havia uma lei que dizia que eu tinha que estar presente quando
ele estivesse examinando uma paciente do sexo feminino. Eu costumava
achar que isso era uma precaução antiquada. Não mesmo. Era
impressionante quantas daquelas velhas senhoras eram apaixonadas por
ele.
Eu
entregava o espéculo a ele e, algum tempo depois, o palito comprido.
Depois de colher células do colo do útero, ele as passava na lâmina
que eu estava segurando, e eu então a borrifava com uma solução,
formando uma película protetora. Em seguida, eu cobria a lâmina com
outra lâmina, guardava numa caixa e a etiquetava para ser enviada ao
laboratório.
Minha
principal tarefa era fazer com que as mulheres botassem as pernas bem
no alto dos estribos e o bumbum bem na beira da mesa, onde ele
ficaria no mesmo nível que os olhos do médico. Depois, eu estendia
um lençol sobre os joelhos delas e deveria ajudá-las a relaxar.
Conversar e fazer brincadeiras até que ele entrasse na sala. Essa
parte era fácil, a parte da conversa. Eu conhecia as pacientes e
elas eram todas muito simpáticas.
A
parte difícil era quando ele entrava na sala. Era um homem
extremamente tímido, com um problema sério de tremor nas mãos que
se manifestava de vez em quando. Sempre quando ele tinha que assinar
cheques ou fazer exames preventivos.
Ele
se sentava num banquinho, olhos nivelados com as vaginas das
pacientes, uma lanterna na testa. Eu lhe entregava o espéculo
(aquecido) e, alguns minutos depois, enquanto a paciente arfava e
suava, o palito comprido com algodão na ponta. Ele segurava o
palito, balançando-o feito uma batuta, enquanto se metia debaixo do
lençol, aproximando-se da mulher. Por fim, a mão dele emergia com o
palito, agora um metrônomo zonzo apontado para a minha lâmina
expectante. Eu ainda bebia nessa época, então a mão com que eu
segurava a lâmina tremia visivelmente enquanto eu tentava levá-la
de encontro à dele. Mas, enquanto o meu era um tremor nervoso para
cima e para baixo, o dele era para a frente e para trás. Até que,
finalmente, tchum. Esse procedimento demorava tanto que ele muitas
vezes perdia ligações importantes, e claro que as pessoas que
estavam na sala de espera ficavam muito impacientes. Uma vez, o sr.
Larraby chegou até a bater na porta. O dr. B. levou um susto tão
grande que deixou o palito cair no chão. Tivemos que começar tudo
de novo. Depois disso, ele concordou em contratar uma recepcionista
para trabalhar em meio expediente.
Se
algum dia resolver procurar outro emprego, vou pedir um salário bem
alto. Se uma pessoa trabalha por tão pouco quanto eu e Ruth
trabalhávamos, há algo de muito suspeito.
Ruth
nunca tinha trabalhado fora e não precisava trabalhar, o que já era
suspeito o bastante. Estava ali por diversão.
Eu
achei isso tão fascinante que a convidei para almoçar depois da
entrevista. Sanduíches de atum com queijo derretido no Pill Hill
Café. Gostei dela de cara. Nunca tinha conhecido ninguém como ela.
Ruth
tinha cinquenta anos e estava casada fazia trinta com o seu amor de
infância, um contador. Eles tinham dois filhos e três gatos. Os
hobbies dela, de acordo com a sua ficha de inscrição, eram “gatos”.
Então, o dr. B. sempre perguntava a ela como os seus gatos estavam.
Meus hobbies eram “ler”, então ele costumava dizer para mim “Nas
margens de Itchee Goomee”, ou “Nunca mais, disse o corvo”.
Sempre
que atendia um paciente novo, ele anotava algumas frases nas costas
da ficha. Coisas que ele poderia usar para puxar conversa quando
entrasse na sala de exame. “Acha que o Texas é a terra de Deus.”
“Tem dois poodles toy.” “Consome quinhentos dólares de heroína
por dia.” Então, quando entrava na sala para atender, ele dizia
coisas como “Bom dia! Tem visitado a terra de Deus ultimamente?”
ou “Você está sem sorte se acha que vai conseguir arranjar drogas
comigo”.
Durante
o almoço, Ruth me contou que tinha começado a se sentir velha e
acomodada e que então havia entrado para um grupo de apoio. As
Meninas Peraltas, ou M. P., que era na verdade uma referência à
Meno Pausa. Ruth sempre dizia essa palavra como se fossem duas. O
grupo tinha como objetivo dar mais pique à vida das mulheres. Ele se
concentrava nas próprias participantes. A última a ser ajudada
tinha sido Hannah. O grupo a convenceu a entrar para os Vigilantes do
Peso, a ir para o spa Rancho del Sol, a fazer aulas de dança de
salão e depois a fazer uma lipoaspiração e um lifting. Ela ficou
com uma aparência maravilhosa, mas agora estava em dois outros
grupos. Um para mulheres que fizeram lifting mas continuavam
deprimidas e outro para “Mulheres que amam demais”. Ruth soltou
um suspiro e disse: “A Hannah sempre foi o tipo de mulher que tem
casos com estivadores”.
Estivadores!
Ruth usava palavras surpreendentes, como assaz e azáfama. Dizia
coisas como estar sentindo falta “daquela fase do mês”. Era
sempre uma fase tão quentinha e aconchegante.
As
Meninas Peraltas recomendaram a Ruth que fizesse aulas de arranjo
floral, entrasse para um grupo de teatro, se filiasse a um clube de
entusiastas do jogo Trivial Pursuit e arranjasse um emprego. Ela
também deveria ter um caso amoroso, mas ainda não havia pensado
sobre isso. Pique a vida dela já tinha. Adorava fazer arranjos
florais, e agora elas estavam aprendendo a fazer buquês com ervas e
mato. Também fazia uma pontinha, sem cantar, em Oklahoma!
Eu
gostava de ter a companhia de Ruth no consultório. Brincávamos
muito com os pacientes e falávamos deles como se fossem nossos
parentes. Até arquivar ela achava divertido, cantando “Abcdefg hi
jk lmnop lmnopqrst uvwxyZ!”, até que eu dizia: “Para, deixa que
eu arquivo”.
Agora
era mais fácil quando eu estava com pacientes. Mas, na verdade, ela
trabalhava muito pouco. Estudava suas cartas do Trivial Pursuit e
telefonava muito para as amigas, principalmente para Hannah, que
estava tendo um caso com o professor de dança.
Na
hora do almoço eu ia com Ruth colher ervas para pôr em buquês,
escalando, quente e suada, o barranco ao lado da autoestrada à
procura de pés de cenoura selvagem e tabaco. Pedras entravam nos
nossos sapatos. Ruth parecia ser uma bela senhora judia de meia-idade
como tantas outras, mas havia um quê de selvagem e livre nela. O
grito que ela deu quando encontrou uma flor de rúcula rosa no beco
atrás do hospital.
Ela
e o marido haviam crescido juntos. Suas famílias eram muito
próximas, alguns dos poucos judeus numa cidade pequena do Iowa.
Desde que ela se lembrava, todo mundo sempre havia esperado que ela e
Ephraim se casassem. Eles se apaixonaram de verdade na escola
secundária. Ela estudou economia doméstica na faculdade e esperou
que ele se formasse em administração e contabilidade. Claro que
eles tinham se guardado para o casamento. Foram morar na casa da
família dele e cuidavam da mãe inválida de Ephraim. Ela tinha
vindo para Oakland com o casal e ainda morava com eles, aos oitenta e
seis anos.
Nunca
ouvi Ruth reclamar de nada nem de ninguém, nem da velha doente, nem
dos filhos, nem de Ephraim. Eu vivia reclamando dos meus filhos, do
meu ex-marido, da minha nora e, principalmente, do dr. B. Ele me
fazia abrir todos os pacotes que chegavam para ele, temendo que
houvesse alguma bomba dentro deles. Se uma abelha ou uma vespa
entrasse na sala, ele saía e só voltava depois que eu a tivesse
matado. Isso são só as coisas bobas. Ele era mau. Principalmente
com Ruth, dizendo coisas como “É isso que eu ganho por contratar
deficientes?”. Ele a chamava de “Dislexia”, porque ela trocava
a posição dos algarismos de números de telefone. Ela fazia muito
isso. Dia sim, dia não ele me dizia para mandá-la embora. Eu falava
que nós não podíamos, que não havia motivo para uma demissão,
que ela me ajudava muito e que os pacientes gostavam dela. Ela
alegrava o ambiente.
“Eu
não suporto gente alegre”, ele dizia. “Me dá vontade de dar um
tapa pra tirar aquele sorriso da cara dela.”
Ela
continuou a ser gentil com ele. Achava que ele era como o Heathcliff
de O morro dos ventos uivantes ou como o sr. Rochester de Jane
Eyre, só que pequeno. “É, muito pequeno”, eu dizia.
Mas Ruth nunca ouvia comentários negativos. Acreditava que alguém,
em algum momento, havia partido o coração do dr. B. Levava para ele
kugel, rugelach e hamantaschen, e vivia inventando
desculpas para entrar na sala dele. Eu ainda não tinha me dado conta
de que ela havia escolhido o dr. B. para ser seu caso amoroso, até
que um dia ele entrou na minha sala e fechou a porta.
“Você
tem que mandar essa mulher embora! Ela está dando em cima de mim! É
inaceitável.”
“Bem,
por estranho que possa parecer, ela acha o senhor extremamente
atraente. Eu ainda preciso dela. É difícil encontrar uma pessoa com
quem seja fácil trabalhar. Seja paciente. Por favor, senhor.” O
“senhor” o amoleceu, como de costume.
“Está
bem”, ele disse, soltando um suspiro.
Ela
era boa para mim, botava pique na minha vida. Em vez de passar minha
hora de almoço remoendo problemas e fumando no beco, eu me sujava e
me divertia colhendo buquês com ela. Comecei até a cozinhar, usando
algumas das centenas de receitas que ela xerocava o dia inteiro.
Cebolas assadas com uma pitada de açúcar mascavo. Ela levava roupas
do brechó Schmatta e eu as comprava. Fomos à ópera algumas vezes,
quando Ephraim estava cansado demais.
Era
maravilhoso ir à ópera com ela, porque no intervalo ela não ficava
só lá parada sem fazer nada, com cara de tédio, como todo mundo.
Ela me levava até o saguão principal para a gente poder admirar as
roupas e as joias. Eu chorei com ela em La traviata. Nossa cena
favorita era a ária da velha em A dama de espadas.
Um
dia Ruth convidou o dr. B. para ir à ópera. “Não! Que convite
inapropriado!”, ele disse.
“Que
babaca”, eu disse quando ele saiu porta afora. Só o que ela disse
foi que médicos simplesmente eram ocupados demais para terem casos
amorosos, então ela imaginava que ia ter que ser com o Julius.
Julius
era um dentista aposentado que havia feito parte do elenco de
Oklahoma!. Era viúvo e gordo. Ela disse que gordura era bom, era
quente e confortável.
Perguntei
se era porque Ephraim havia perdido o interesse por sexo. “Au
contraire!”, disse ela. “É a primeira coisa em que ele pensa
todas as manhãs e a última à noite. E se fica em casa durante o
dia, ele me persegue nessas horas também. É sério…”
Vi
Julius no funeral da mãe de Ephraim na Capela do Vale. A velha tinha
morrido tranquilamente enquanto dormia.
Ruth
e a família estavam na escada da casa funerária. Dois filhos
encantadores, bonitos, simpáticos, reconfortando os pais, Ruth e
Ephraim. Ephraim tinha uma beleza sombria. Magro, melancólico,
profundo. Ele, sim, parecia Heathcliff. Seus olhos tristes e
sonhadores sorriram para os meus. “Obrigado por ser tão generosa
com a minha esposa.”
“Lá
está ele!”, Ruth sussurrou, apontando para um homem de cara
vermelha, Julius. Cordões de ouro, um terno azul apertado demais.
Ele devia estar mascando Clorets, pois seus dentes estavam verdes.
“Você
está maluca!”, eu sussurrei para ela.
Ruth
tinha escolhido a Capela do Vale porque os agentes funerários de lá
eram os nossos favoritos. Volta e meia algum paciente do dr. B
morria, então quase todo dia algum agente funerário ia até lá
para pedir que ele assinasse o atestado de óbito. Com tinta preta, a
lei exigia, mas o dr. B. teimava em assiná-los com caneta azul,
então os agentes funerários tinham que tomar café e ficar zanzando
por ali até que ele voltasse e os assinasse com caneta preta.
Fiquei
parada no fundo da capela, pensando onde iria sentar. Muitas mulheres
da Hadassah tinham vindo; a capela estava cheia. Um dos agentes
funerários apareceu ao meu lado. “Como você fica bonita de cinza,
Lily”, disse ele. O outro agente, com uma flor na lapela, veio
andando pela nave e disse com uma voz baixa e pesarosa: “Que
gentileza sua ter vindo, querida. Deixe-me encontrar um bom lugar
para você”. Eu fui andando atrás dos dois pela nave, me sentindo
importante, como se tivesse sido recebida como uma freguesa conhecida
num restaurante.
Foi
uma cerimônia muito bonita. O rabino leu aquela passagem da Bíblia
que diz que uma boa esposa é mais preciosa do que rubis. Ninguém
teria pensado isso em relação à velha, acho. Mas tive a impressão
de que o panegírico foi sobre Ruth, e Ephraim e Julius também devem
ter pensado o mesmo, a julgar pelo modo como os dois ficaram olhando
para ela.
Na
segunda-feira eu tentei argumentar com ela. “Você é uma mulher
que tem tudo. Saúde, beleza, humor. Uma casa nas colinas. Uma
faxineira. Um compactador de lixo. Filhos maravilhosos. E Ephraim!
Ele é bonito, inteligente, rico. E obviamente te adora!”
Disse
também que o grupo a estava conduzindo na direção errada. Ela não
devia fazer nada que magoasse Ephraim, devia era agradecer aos céus
a sorte que tinha. As M. Ps. só estavam com inveja. Provavelmente
tinham maridos alcoólatras ou que só queriam saber de ver futebol
na televisão ou que eram impotentes ou infiéis. Os filhos delas
devem andar por aí com bipes, devem ter piercings, ser bulímicos,
drogados, tatuados.
“Eu
acho que você sente vergonha de ser tão feliz e vai fazer isso pra
ter o que compartilhar com as M. Ps. Eu entendo. Quando eu tinha onze
anos, uma tia me deu um diário de presente. Só o que eu escrevia
nele era: ‘Fui pra escola. Fiz o dever de casa’. Aí eu comecei a
fazer bobagens só pra ter alguma coisa pra escrever no diário.”
“Não
vai ser um caso sério”, disse ela. “É só pra pôr uma
pimentinha.”
“Que
tal se eu tivesse um caso com o Ephraim? Ia ser uma pimentinha e
tanto pra mim. Você ficaria com ciúme e se apaixonaria loucamente
por ele de novo.”
Ela
sorriu. Um sorriso inocente, como o de uma criança.
“O
Ephraim jamais faria isso. Ele me ama.”
Achei
que ela tinha desistido da ideia de ter um caso, até que, numa
sexta-feira, ela trouxe um jornal para o consultório.
“Eu
vou sair com o Julius hoje à noite, mas vou dizer pro Ephraim que
vou sair com você. Você já viu algum desses filmes, pra me contar
como é a história?”
Eu
falei sobre Ran, principalmente sobre a cena em que a mulher puxa a
adaga e sobre quando o bobo chora. Os estandartes azuis entre as
árvores, os estandartes vermelhos entre as árvores, os estandartes
brancos entre as árvores. Quando eu estava começando a me empolgar,
ela disse “Para!” e perguntou aonde iríamos depois do cinema. Eu
nos levei, então, ao Café Roma em Berkeley.
Ela
e Julius passaram a sair todas as sextas. O romance dos dois foi bom
para mim. Normalmente, eu ia para casa depois do trabalho, lia
romances e tomava vodca até pegar no sono, todo santo dia. Durante o
Caso Amoroso, eu comecei a ir a apresentações de quartetos de
cordas, ao cinema, a leituras de Ishiguro ou Leslie Scalapino
enquanto Ruth e Julius iam ao The Hungry Tiger ou ao Rusty Scupper.
Eles
saíram durante quase dois meses antes de fazer Você Sabe O Quê.
Esse acontecimento ia se dar em Big Sur, numa viagem de três dias. O
que dizer a Ephraim?
“Ah,
isso é fácil”, eu disse. “Você e eu vamos fazer um retiro zen.
Nada de telefone! Nada a contar porque nós só vamos ficar em
silêncio e meditar. Vamos nos banhar em fontes de águas termais sob
as estrelas. Vamos ficar na posição de lótus em penhascos de
frente para o mar. Ondas sem fim. Sem fim.”
Foi
chato não poder sair à vontade naqueles dias, ter que filtrar
minhas ligações. Mas funcionou. Ephraim levou os filhos para jantar
fora, deu comida para os gatos, regou as plantas e sentiu saudade.
Muita, muita saudade.
Na
segunda-feira depois da viagem, três grandes buquês de rosas foram
entregues no consultório. Um cartão dizia: “Para minha querida
esposa com amor”. Outro era do “Seu admirador secreto”. E o
outro dizia: “Ela caminha em beleza”. Ruth confessou que tinha
enviado esse último para si mesma. Adorava flores. Havia comentado
com os dois homens, como quem não quer nada, que adorava rosas, mas
nunca imaginou que eles fossem de fatolhe mandar rosas.
“Tire
esses arranjos fúnebres daqui agora”, disse o dr. B. quando estava
a caminho do hospital. Mais cedo, ele tinha me pedido de novo para
mandá-la embora e eu de novo havia recusado. Por que ele implicava
tanto com ela?
“Eu
já te falei. Ela é alegre demais.”
“Eu
também costumo sentir a mesma coisa em relação a pessoas alegres,
mas a alegria dela é genuína.”
“Céus.
Isso é muito deprimente.”
“Por
favor, dê uma chance a ela. Além do mais, eu tenho a sensação de
que ela vai ficar deprimida não demora muito.”
“Espero
que sim.”
Ephraim
passou por lá para levar Ruth para tomar um café. Ela não tinha
feito nada a manhã inteira, a não ser conversar com Hannah pelo
telefone. Eu percebi que a principal razão por que ele tinha ido até
lá era ver se ela tinha gostado das rosas. Ele ficou muito chateado
quando viu os outros dois buquês. Ruth disse ao marido que um deles
tinha sido enviado por uma paciente chamada Anna Fedaz, mas depois só
deu uma risadinha quando ele perguntou do admirador secreto. Coitado
do homem. Eu vi o impacto do ciúme acertá-lo em cheio na cara, no
coração. Um gancho de esquerda na boca do estômago.
Ele
me perguntou se eu tinha gostado do retiro. Odeio mentir, realmente
não suporto. Não por razões morais. É que é tão difícil pensar
no que você vai dizer. Lembrar do que você disse.
“Bem,
o lugar era lindo. A Ruth é muito serena e pareceu se adaptar
perfeitamente à atmosfera de lá. Eu tenho dificuldade de meditar.
Só fico pensando em coisas que me preocupam ou remoendo cada erro
que eu cometi na minha vida inteira. Mas foi bom pra deixar a gente
mais… eh… centrada. Serena. Agora você e Ruth se mandem daqui.
Bom almoço!”
Mais
tarde eu soube os detalhes. Big Sur tinha sido a aventura da vida de
Ruth. Ela sabia que não ia conseguir contar para as M. P.s sobre
fazer Você Sabe O Quê. S. oral pela primeira vez! Bem, sim, ela
tinha feito S. Oral em Ephraim, mas ele nunca tinha feito nela. E
M-A-C… “Eu sei que tem NH em algum lugar.”
“Maconha?”
“Shhh!
Bom, só me fez tossir e ficar nervosa, mais nada. Mas, sim, foi
muito bom, o S. Oral. Mas o jeito como ele ficava me perguntando toda
hora ‘Você está pronta?’ me fazia imaginar que a gente ia a
algum lugar e estragava o clima.”
Eles
iam para Mendocino dali a duas semanas. A história era que ela e eu
íamos participar de uma oficina de escritores e de uma feira de
livros em Petaluma. Robert Haas ia ser o escritor visitante.
Uma
noite, no meio da semana, ela me ligou e perguntou se podia dar um
pulo lá em casa. Fiquei esperando feito uma boba, não me dei conta
de que ela só tinha me ligado para disfarçar, de que tinha saído
para se encontrar com Julius. Então, quando Ephraim ligou, eu pude
soar genuinamente irritada por ela ainda não ter chegado, e estava
mais irritada ainda quando ele ligou pela segunda vez. “Assim que
ela chegar eu falo pra ela ligar pra você.” Depois de algum tempo
ele ligou de novo, dessa vez furioso porque ela já tinha voltado
para casa, dizendo que eu não tinha dado o recado.
No
dia seguinte eu disse a ela que não ia mais fazer nada daquilo. Não
tinha problema, ela respondeu, os dois iam retomar as aulas de teatro
na segunda-feira.
“Você
e eu estamos fazendo aulas de arranjo floral às sextas, no Laney
College. Só isso.”
“Olha,
é a última vez. Foi muita sorte sua ele nunca ter perguntado
detalhes.”
“Claro
que ele não faria isso. Ele confia em mim. Mas a minha consciência
está limpa agora. Julius e eu não fazemos mais Você Sabe O Quê.”
“Então
o que é que vocês fazem? Pra que se dar a todo esse trabalho e
fazer tanto segredo pra não fazer mais Você Sabe O Quê?”
“Descobrimos
que nenhum de nós dois é do tipo que gosta de variar de parceiro.
Eu gosto muito mais de fazer Você Sabe O quê com o Ephraim, e o
Julius não está tão interessado assim. Eu gosto da sensação de
agir às escondidas. Ele gosta de me dar presentes e de cozinhar pra
mim. O meu momento favorito é quando eu bato na porta de um quarto
de motel em Richmond ou seja onde for e aí ele abre a porta e eu
entro correndo. O coração batendo forte.”
“E
o que vocês fazem então?”
“Jogamos
Trivial Pursuit, vemos vídeos. Às vezes cantamos. Duetos, como
‘Bali Hai’ ou ‘Oh, What a Beautiful Morning’. Saímos para
andar na chuva à meia-noite!”
“Ande
na chuva no seu tempo livre!”, bradou o dr. B. A gente não tinha
visto ele entrar.
Ele
estava sério. Ficou lá parado enquanto ela juntava todas as suas
revistas Bon Appétit, suas cartas de Trivial Pursuit e seu material
de tricô. Ele me falou para fazer um cheque para ela no valor de
duas semanas de trabalho, mais o que nós lhe devíamos.
Depois
que o dr. B. saiu ela ligou para Julius e pediu que ele fosse se
encontrar com ela no Denny’s imediatamente.
“Minha
carreira está arruinada!”, disse ela, chorando.
Ela
se despediu de mim com um abraço e foi embora. Eu me mudei para a
mesa dela, de onde podia ver a sala de espera.
Ephraim
apareceu no vão da porta. Veio andando devagar na minha direção e
apertou a minha mão. “Lily”, disse ele, com aquela sua voz
grossa e envolvente. Ele me disse que Ruth havia ficado de
encontrá-lo no Pill Mill Café para almoçar, mas não tinha
aparecido. Contei a ele que ela tinha acabado de ser demitida pelo
dr. B., sem nenhuma razão. Era provável que ela tivesse esquecido
completamente do almoço e ido para casa. Ou ido fazer compras,
talvez.
Ephraim
continuou lá parado.
“Ela
pode arranjar outro emprego muito melhor do que esse aqui. Sou eu que
administro o consultório e claro que vou dar uma boa carta de
recomendação pra ela. Vou sentir muita falta da Ruth.”
Ele
ficou lá, olhando para mim.
“E
ela vai sentir falta de você.” Ele se debruçou na pequena janela
perto da minha mesa. “Foi melhor assim, minha querida. Quero que
você saiba que eu entendo. Acredite, eu sinto muito por você.”
“O
quê?”
“Tem
muitas coisas que eu não compartilho com ela como você. Literatura,
budismo, ópera. A Ruth é uma mulher muito fácil de amar.”
“O
que você quer dizer?”
Ele
segurou a minha mão então e ficou olhando bem no fundo dos meus
olhos, enquanto seus amáveis olhos castanhos se enchiam de lágrimas.
“Eu
sinto falta da minha mulher. Por favor, Lily, deixe a Ruth.”
Lágrimas
começaram a escorrer pelo meu rosto. Eu estava me sentindo muito,
muito triste. Nossas mãos eram uma pequena pilha quente e úmida no
peitoril da janela.
“Não
se preocupe”, eu disse. “A Ruth só ama você, Ephraim.”
Lucia Berlin, em Manual da faxineira: Contos escolhidos

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