sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Memória que eu tenho de mim próprio

Leio El Porvenir es Largo, a autobiografia de Althusser, impiedosa e descarnada, como só a poderia ter escrito quem, como ele, havendo passado pela experiência de um nada psiquiátrico, se preparasse, lucidamente, para a entrada na morte, no nada absoluto, depois de uma vida durante muito tempo assombrada pela consciência angustiante de ser nada. Leio e, inevitavelmente, sou levado a pensar no meu Livro das Tentações, sempre anunciado e sempre adiado: que não será um livro de memórias, respondo eu, quando me perguntam acerca dele, mas sim, como declarei ao José Manuel Mendes, na entrevista à Setembro, um livro do qual eu possa vir a dizer: “Esta é a memória que eu tenho de mim próprio.” A questão, então, estará em saber se me contentarei com devanear aprazivelmente pela superfície lisa da memória aparente ou se, como Althusser fez, serei capaz de remover e varrer essa camada neutra, composta de reordenamentos de imagens e de sensações, de condescendências e desculpas, de distorções, intencionais ou involuntárias, para cavar fundo e continuar cavando, até à medula oculta dos factos e dos actos. Provavelmente, a maior de todas as tentações, hoje, é a de calar-me.

José Saramago, em Cadernos de Lanzarote

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