sábado, 8 de fevereiro de 2025

As viúvas


Vauvenargues diz que nos jardins públicos há aleias frequentadas principalmente pela ambição decepcionada, pelos inventores infelizes, pelas glórias abortadas, pelos corações partidos, por todas essas almas tumultuosas e fechadas, em que retumbam ainda os últimos suspiros de uma tempestade e que recuam para longe do olhar insolente dos alegres e dos ociosos. Esses retiros umbrosos são os pontos de encontro dos aleijados da vida.
É sobretudo para esses lugares que o poeta e o filósofo gostam de dirigir suas ávidas conjecturas. Há aí alimento certo. Pois se há lugar que desprezam visitar, como eu insinuava há pouco, é sobretudo a alegria dos ricos. Essa turbulência no vazio nada tem que os atraia. Ao contrário, sentem-se irresistivelmente arrastados para tudo o que é fraco, arruinado, contristado, órfão.
Um olho experiente não se engana nunca com isso. Em traços rígidos ou abatidos, em olhos cavos e opacos, ou que brilham com os últimos lampejos da luta, em rugas profundas e numerosas, em passos tão lentos ou tão bruscos, ele decifra de imediato as inumeráveis lendas do amor enganado, do devotamento ignorado, dos esforços não recompensados, da fome e do frio humildemente, silenciosamente suportados.
Você alguma vez já viu viúvas nesses solitários bancos, viúvas pobres? Que estejam ou não de luto, é fácil reconhecê-las. De resto, há sempre no luto do pobre alguma coisa que falta, uma ausência de harmonia que o torna mais penoso. Ele é obrigado a economizar em relação a sua dor. O rico traz a sua conforme o figurino.
Qual é a viúva mais triste e mais entristecedora, a que arrasta pela mão uma criança com quem não pode partilhar seu devaneio ou a que está inteiramente só? Não sei… Aconteceu-me certa vez de seguir por longas horas uma velha afligida desse tipo; dura, ereta, sob um pequeno xale gasto, ela trazia em todo o seu ser um orgulho estoico.
Estava evidentemente condenada, pela solidão absoluta, a hábitos de velho solteiro, e o caráter masculino de seus hábitos acrescentava algo provocante e misterioso a sua austeridade. Não sei em que miserável café e de que modo ela almoçou. Segui-a ao gabinete de leitura; e a espiei por muito tempo enquanto ela procurava nas gazetas, com olhos ativos, outrora queimados por lágrimas, notícias de forte interesse pessoal.
Enfim, à tarde, sob um céu de outono encantador, um desses céus de onde descem em multidão pesares e lembranças, sentou-se, isolada, num jardim, para ouvir, longe da multidão, um desses concertos cuja música de regimentos gratifica o povo parisiense.
Era aquele sem dúvida o pequeno desregramento dessa velha inocente (ou dessa velha purificada), o consolo merecido de um desses pesados dias sem amigo, sem conversa, sem alegria, sem confidente, que Deus deixava cair sobre ela, havia uns bons anos talvez! trezentas e sessenta e cinco vezes por ano.
Outra ainda:
Nunca posso deixar de lançar um olhar, se não de universal simpatia, pelo menos curioso, à multidão de párias que se amontoam em torno do local de um concerto público. A orquestra lança pela noite cantos de festa, de triunfo ou de volúpia. Os vestidos arrastam-se rebrilhando; os olhares cruzam-se; os ociosos, cansados de nada terem feito, se balançam, fingindo degustar indolentemente a música. Aqui, só há riqueza e felicidade; nada que não respire e não inspire despreocupação e o prazer de se deixar viver; nada, exceto o aspecto dessa turba que se apoia na cerca exterior, agarrando grátis, ao sabor do vento, um farrapo de música, e olhando a cintilante fornalha interior.
É sempre interessante esse reflexo da alegria do rico no fundo do olho do pobre. Todavia, nesse dia, em meio ao povo vestido de batas e chita, entrevi uma criatura cuja nobreza contrastava gritantemente com toda a trivialidade circundante.
Era uma mulher alta, majestosa, e tão nobre em todo o seu porte, que não tenho lembrança de ter visto uma igual nas coleções das aristocráticas belezas do passado. Um perfume de altiva virtude emanava de toda a sua pessoa. Seu rosto, triste e emagrecido, estava em perfeita concordância com o luto pesado de que se cobria. Como a plebe a que estava misturada, e que ela não via, também ela olhava o mundo luminoso com um olhar profundo e escutava oscilando suavemente a cabeça.
Singular visão! “Sem dúvida”, pensei, “essa pobreza, se é que se trata de pobreza, não deve admitir a economia sórdida; é o que me diz um rosto tão nobre. Por que então ela fica, por sua vontade, num meio de que evidentemente se distingue?”
Todavia, ao passar com curiosidade perto dela, julguei perceber a razão disso. A imponente viúva trazia pela mão uma criança vestida de preto, tal como ela; por mais módico que fosse o preço da entrada, esse preço era suficiente talvez para pagar algo de que a pequena criatura necessitasse ou, melhor ainda, algo supérfluo, um brinquedo.
E ela terá voltado a pé, meditando e sonhando, sozinha, sempre sozinha; pois uma criança é turbulenta, egoísta, sem doçura e sem paciência; e não pode, como o puro animal, como o cão e o gato, servir de confidente para as dores solitárias.

Charles Baudelaire, em O spleen de Paris – Pequenos poemas em prosa

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