terça-feira, 18 de fevereiro de 2025

A timidez

A verdade é que vivi muitos de meus primeiros anos, e talvez de meus segundos e de meus terceiros, como uma espécie de surdo-mudo.
Ritualmente vestido de negro desde muito jovem, como se vestiam os verdadeiros poetas do século passado, tinha uma vaga impressão de não estar tão mal de aspecto. Porém, em vez de me aproximar das moças, certo de que tartamudearia ou enrubesceria diante delas, preferia passar ao largo e distanciar-me, mostrando um desinteresse que estava muito longe de sentir. Todas eram um grande mistério para mim. Queria morrer abrasado nessa fogueira secreta, me afogar nesse poço de profundidade enigmática, mas não me atrevia a atirar-me no fogo ou na água. E como não encontrava ninguém que me desse um empurrão, passava pelas margens da fascinação sem olhar sequer e muito menos sorrir.
O mesmo acontecia com os adultos, gente humilde, empregados da estrada de ferro ê dos correios e suas “senhoras esposas”, assim chamadas porque a pequena burguesia se escandaliza, intimidada, ante a palavra mulher. Eu escutava as conversas na mesa de meu pai. Mas, no dia seguinte, se esbarrava na rua com os que haviam jantado à noite anterior em minha casa, não me atrevia a saudá-los e até mudava de calçada para evitar o mau pedaço.
A timidez é uma condição estranha da alma, uma categoria e uma dimensão que se abre para a solidão. Também é um sofrimento inseparável, como se a gente tivesse duas epidermes e a segunda pele interior se irritasse e se contraísse diante da vida. Entre as estruturações do homem, esta qualidade ou este defeito são parte do amálgama que vai fundamentando, numa longa circunstância, a perpetuidade do ser.
Meu excessivo acanhamento, meu ensimesmamento prolongado durou mais que o necessário. Quando cheguei à capital fiz aos poucos amigos e amigas. Quanto menos importância me concediam, mais facilmente lhes dava minha amizade. Não tinha nesse tempo grande curiosidade pelo gênero humano. Não posso chegar a conhecer todas as pessoas deste mundo, me dizia. Mesmo assim surgia em certos meios uma curiosidade pálida por este novo poeta de pouco mais de 16 anos, rapaz reticente e solitário, a quem viam chegar e partir sem dar bom dia nem se despedir. Além do que, eu vestia uma longa capa espanhola que me fazia parecer um espantalho. Ninguém suspeitava que minha vistosa indumentária era diretamente produzida por minha pobreza.
Entre as pessoas que me procuravam estavam dois grandes esnobes da época: Pilo Yañez e sua mulher Mina. Encarnavam o exemplo perfeito da bela ociosidade em que eu gostaria de viver, mais distante que um sonho. Pela primeira vez entrei numa casa com calefação, luzes suaves, poltronas confortáveis, paredes repletas de livros cujas lombadas multicores significavam uma primavera inacessível. Os Yañez me convidaram muitas vezes, gentis e discretos, sem fazer caso de minhas diversas camadas de mutismo e isolamento. Voltava contente de sua casa, eles o notavam e voltavam a me convidar.
Naquela casa vi pela primeira vez quadros cubistas e entre eles um Juan Gris. Disseram-me que Juan Gris havia sido amigo da família em Paris. Porém o que mais me chamou a atenção foi o pijama de meu amigo. Aproveitava toda ocasião para olhá-lo de soslaio, com admiração intensa. Estávamos no inverno e aquele era um pijama de fazenda grossa, como de tecido de bilhar, mas de um azul ultramarino. Eu não concebia então outros pijamas que não fossem os listados como os de uniforme dos presos. O de Pilo Yañez fugia de todos os padrões. Sua fazenda espessa e seu azul resplandecente excitavam a inveja de um poeta pobre que vivia nos subúrbios de Santiago. Porém, em verdade, jamais em cinqüenta anos encontrei um pijama como aquele.
Perdi de vista os Yaüez por muitos anos. Ela abandonou o marido, abandonando igualmente as luminárias suaves e as poltronas excelentes, pelo acrobata de um circo russo que passou por Santiago. Mais tarde vendeu entradas, da Austrália às Ilhas Britânicas, para colaborar com as exibições do acrobata que a deslumbrou. Por fim foi Rosacruz ou algo parecido num acampamento mistico do sul da França.
Quanto a Pilo Yañez, o marido, mudou de nome para Juan Emar e se converteu com o tempo em um escritor poderoso e secreto. Fomos amigos toda a vida. Silencioso e gentil, porém pobre, assim morreu. Seus numerosos livros ainda não foram publicados mas sua germinação é certa.
Finalizarei sobre Pilo Yañez ou Juan Emar (e voltarei à minha timidez) recordando que, durante a época estudantil, meu amigo Pilo se empenhou em apresentar-me a seu pai. “Conseguirá para ti uma viagem à Europa com toda certeza”, disse. Nessa época todos os poetas e pintores latino-americanos tinham os olhos fixos em Paris. O pai de Pilo era uma pessoa muito importante, um senador. Vivia numa dessas casas enormes e feias, numa rua perto da praça principal e do palácio da presidência, sem dúvida o lugar onde ele teria preferido viver.
Meus amigos ficaram na antessala, depois de despojar-me de minha capa para que eu parecesse mais normal. Abriram-me a porta da sala do senador e a fecharam às minhas costas. Era uma sala imensa, talvez em outros tempos um grande salão de recepções, mas estava vazia. Só lá no fundo, no extremo do aposento, debaixo de um abajur de pé, distingui uma poltrona com o senador em cima. As páginas do jornal que lia ocultavam-no totalmente como um biombo.
Ao dar o primeiro passo sobre o assoalho polido e criminosamente encerado, resvalei como um esquiador. Minha velocidade crescia vertiginosamente. Freava para me deter e somente lograva dar solavancos e cair várias vezes. Minha última queda foi justamente aos pés do senador que me observava agora com olhos frios, sem soltar o jornal.
Consegui sentar-me em uma cadeirinha a seu lado. O grande homem me examinou com um olhar de entomologista fatigado a quem trouxessem um exemplar que já conhece de memória, uma aranha inofensiva. Perguntou-me vagamente por meus projetos. Eu, depois da queda, era ainda mais tímido e menos eloquente do que de costume.
Não sei o que lhe disse. Ao cabo de vinte minutos me estendeu uma mão pequenina em sinal de despedida. Pensei ouvi-lo prometer, com uma voz muito suave, que me daria notícias suas. Depois voltou a tomar seu jornal e empreendi o regresso, através do perigoso piso, exagerando nas precauções que deveria ter tido quando entrei. É claro que nunca o senador, pai de meu amigo, me procurou. Por outro lado, uma revolta militar, estúpida e reacionária por certo o fez saltar mais tarde de seu assento juntamente com seu jornal interminável. Confesso que me alegrei.

Pablo Neruda, em Confesso que vivi

Nenhum comentário:

Postar um comentário