domingo, 9 de fevereiro de 2025

1556 – A Imperial

Mariño de Lobera

O cavalo, pelo de ouro e muito brio, decide o rumo e o ritmo. Se quer galopar, galopa: busca o campo e salta entre os pastos altos, vai até o arroio e regressa: respeitoso, a trote lento vai e vem pelas ruas de terra da cidade novinha.
Rédeas soltas, montado em pelo, Pedro Mariño de Lobera passeia e celebra. Todo o vinho que havia na Imperial circula por suas veias. De vez em quando, dá risadas e faz comentários. O cavalo vira a cabeça, olha e aprova.
Hoje faz quatro anos que dom Pedro abandonou o séquito do vice-rei em Lima e empreendeu o longo caminho até o Chile.
Eu tenho quatro anos – diz dom Pedro ao cavalo. – Quatro aninhos. Você é mais velho e mais burro.
Neste tempo, foi muito o que viu e lutou. Ele diz que destas terras chilenas brotam alegrias e ouro como as plantas crescem em outras comarcas. E quando há guerra, que sempre há, a Virgem faz surgir neblina espessa para cegar os índios e o apóstolo Santiago junta sua lança e seu cavalo branco às hostes da conquista. Não longe daqui, faz pouco tempo, estando as esquadras araucanas de costas para o mar, uma onda gigantesca os arrebatou e tragou.
Dom Pedro lembra e comenta e o cavalo move a cabeça.
Um relâmpago escorre, de repente, no céu, e os trovões atordoam a terra.
Chove – comprova dom Pedro. – Chove leite!
O cavalo ergue a boca e bebe.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

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