Mariño
de Lobera
O
cavalo, pelo de ouro e muito brio, decide o rumo e o ritmo. Se quer
galopar, galopa: busca o campo e salta entre os pastos altos, vai até
o arroio e regressa: respeitoso, a trote lento vai e vem pelas ruas
de terra da cidade novinha.
Rédeas
soltas, montado em pelo, Pedro Mariño de Lobera passeia e celebra.
Todo o vinho que havia na Imperial circula por suas veias. De vez em
quando, dá risadas e faz comentários. O cavalo vira a cabeça, olha
e aprova.
Hoje
faz quatro anos que dom Pedro abandonou o séquito do vice-rei em
Lima e empreendeu o longo caminho até o Chile.
– Eu
tenho quatro anos – diz dom Pedro ao cavalo. – Quatro aninhos.
Você é mais velho e mais burro.
Neste
tempo, foi muito o que viu e lutou. Ele diz que destas terras
chilenas brotam alegrias e ouro como as plantas crescem em outras
comarcas. E quando há guerra, que sempre há, a Virgem faz surgir
neblina espessa para cegar os índios e o apóstolo Santiago junta
sua lança e seu cavalo branco às hostes da conquista. Não longe
daqui, faz pouco tempo, estando as esquadras araucanas de costas para
o mar, uma onda gigantesca os arrebatou e tragou.
Dom
Pedro lembra e comenta e o cavalo move a cabeça.
Um
relâmpago escorre, de repente, no céu, e os trovões atordoam a
terra.
– Chove
– comprova dom Pedro. – Chove leite!
O
cavalo ergue a boca e bebe.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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