segunda-feira, 3 de fevereiro de 2025

1556 – Assunção do Paraguai

O paraíso de Maomé”

Rodam os dados. Uma índia segura o candeeiro. Despida será levada por quem a ganhe, porque sem roupas a apostou quem a perde.
No Paraguai, as índias são os troféus das rodas de dados ou de baralho, a presa das expedições da selva, a causa dos duelos e dos assassinatos. Embora existam muitas, a mais feia vale tanto como um toucinho ou um cavalo. Os conquistadores das Índias e das índias acodem à missa seguidos de manadas de mulheres. Nesta terra estéril de ouro e prata, alguns têm oitenta ou cem, que durante o dia moem cana e pela noite tecem algodão e se deixam amar, para dar a seus senhores mel, roupas, filhos: elas ajudam a esquecer as riquezas sonhadas que a realidade negou e as distantes noivas que na Espanha envelhecem esperando.
Cuidado. Vão para a cama com ódio – adverte Domingo Martínez, pai de infinitos mestiços e futuro frade. Ele diz que são índias rancorosas e teimosas, sempre ávidas por regressar aos montes onde foram caçadas, e que não se lhes pode confiar nem uma onça de algodão porque o escondem ou queimam ou dão, que sua glória é outra a não ser pôr a perder os cristãos e destruir tudo que existe. Algumas se mataram enforcando-se ou comendo terra e tem as que negam o peito a seus filhos recém-nascidos. E a índia Juliana matou uma noite o conquistador Nuño de Cabrera e, aos gritos, incitou as outras para que seguissem seu exemplo.

Eduardo Galeano, em Os Nascimentos

Nenhum comentário:

Postar um comentário