“O
paraíso de Maomé”
Rodam
os dados. Uma índia segura o candeeiro. Despida será levada por
quem a ganhe, porque sem roupas a apostou quem a perde.
No
Paraguai, as índias são os troféus das rodas de dados ou de
baralho, a presa das expedições da selva, a causa dos duelos e dos
assassinatos. Embora existam muitas, a mais feia vale tanto como um
toucinho ou um cavalo. Os conquistadores das Índias e das índias
acodem à missa seguidos de manadas de mulheres. Nesta terra estéril
de ouro e prata, alguns têm oitenta ou cem, que durante o dia moem
cana e pela noite tecem algodão e se deixam amar, para dar a seus
senhores mel, roupas, filhos: elas ajudam a esquecer as riquezas
sonhadas que a realidade negou e as distantes noivas que na Espanha
envelhecem esperando.
– Cuidado.
Vão para a cama com ódio – adverte Domingo Martínez, pai de
infinitos mestiços e futuro frade. Ele diz que são índias
rancorosas e teimosas, sempre ávidas por regressar aos montes onde
foram caçadas, e que não se lhes pode confiar nem uma onça de
algodão porque o escondem ou queimam ou dão, que sua glória é
outra a não ser pôr a perder os cristãos e destruir tudo que
existe. Algumas se mataram enforcando-se ou comendo terra e tem
as que negam o peito a seus filhos recém-nascidos. E a índia
Juliana matou uma noite o conquistador Nuño de Cabrera e, aos
gritos, incitou as outras para que seguissem seu exemplo.
Eduardo Galeano, em Os Nascimentos
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