Ao
deixarmos o lindo palácio do poeta Iezid pouco faltava para a hora
do ars(1). Ao passarmos pelo marabu de Ramih ouvi o suave gorjear de
pássaros entre os ramos de uma velha figueira.
— Eis,
com certeza, um dos libertos de hoje — observei. — É um conforto
ouvi-lo traduzir, nas melodias do canto, a alegria da liberdade
conquistada!
Beremiz,
porém, naquele momento não se interessava pelo canto da passarada
que esvoaçava entre os ramos, ao pôr do sol. Absorvia-lhe a atenção
um grupo de meninos que se divertiam na rua a pequena distância.
Dois dos pequenos suspendiam, pelas extremidades, um pedaço de corda
fina que devia ter quatro ou cinco côvados(2) de comprimento. Os
outros esforçavam-se por transpor, de um salto, a corda colocada ora
mais baixo, ora mais alto, conforme a agilidade do saltador.
— Repara
na corda, ó Bagdali — disse o calculista segurando-me pelo braço.
— Observa a curva perfeita. Não achas o caso digno de estudo?
— Que
caso? Que curva? — exclamei. — Não vejo nada de extraordinário
naquele ingênuo e banal brinquedo de crianças que aproveitam as
últimas horas do dia para um recreio inocente.
— Pois,
meu amigo — tornou Beremiz —, convence-te de que os teus olhos
são cegos para as maiores belezas e maravilhas da natureza. Quando
os meninos erguem a corda, segurando-a pelas extremidades, e
deixando-a cair livremente sob a ação do próprio peso, ela forma
uma curva que deve ser notável, pois surge como resultante de forças
naturais. Já tive ocasião de observar essa curva — que o sábio
Nô-Elin chamava maraçã(3) — nas teias e na forma que apresenta a
corcova de certos dromedários! Terá tal curva alguma analogia com
as derivadas da parábola? Futuramente, se Alá quiser, os geômetras
descobrirão meios de traçar essa curva, ponto por ponto, e
estudar-lhe-ão com absoluto rigor todas as propriedades.
— Há
porém — prosseguiu — muitas outras curvas mais importantes. Em
primeiro lugar devo citar o círculo(4). Pitágoras, filósofo e
geômetra grego, considerava o círculo como a curva mais perfeita
ligando, assim, o círculo à perfeição. E o círculo, sendo a mais
perfeita, é, entre todas, a que tem o traçado mais simples.
Beremiz,
nesse momento, interrompendo a dissertação apenas iniciada, sobre
as curvas, apontou para um rapaz que se achava a pequena distância e
gritou:
— Harim
Namir!
O
jovem voltou rápido o rosto e encaminhou-se alegre ao nosso
encontro. Verifiquei logo que se tratava de um dos três irmãos que
encontráramos a discutir, certo dia, no deserto, por causa de uma
herança de 35 camelos — partilha complicada, cheia de terços e
nonos, que Beremiz resolveu por meio de um artifício curioso e a que
já tive ocasião de aludir.
— Mac
Allah! — exclamou Harim, dirigindo-se a Beremiz. — Foi o destino
que mandou agora o grande calculista ao nosso encontro. Meu irmão
Hamed acha-se atrapalhado com uma conta de 60 melões que ninguém
sabe resolver.
E
Harim levou-nos até uma pequena casa, onde se achava o seu irmão
Hamed Namir em companhia de vários mercadores.
Mostrou-se
Hamed muito satisfeito ao ver Beremiz e, voltando-se para os
mercadores, disse-lhes:
— Este
homem que acaba de chegar é um grande matemático. Graças ao seu
valioso auxílio já conseguimos obter a solução perfeita de um
problema que nos parecia impossível: dividir 35 camelos por três
pessoas! Estou certo de que ele poderá explicar, em poucos minutos,
a diferença encontrada na venda dos 60 melões.
Era
preciso que Beremiz fosse minuciosamente informado do caso. Um dos
mercadores tomou a palavra e narrou o seguinte:
— Os
dois irmãos Harim e Hamed encarregaram-se de vender no mercado duas
partidas de melões. Harim entregou-me 30 melões, que deviam ser
vendidos à razão de 3 por 1 dinar; Hamed entregou-me, também, 30
melões para os quais estipulou preço mais caro, isto é, à razão
de 2 por 1 dinar. Era claro que, efetuada a venda, Harim devia
receber 10 e seu irmão 15 dinares. O total de venda seria, portanto,
de 25 dinares.
Ao
chegar, porém, à feira, uma dúvida surgiu-me no espírito.
Se
eu começar a venda pelos melões mais caros, pensei, perderei a
freguesia; se iniciar o negócio pelos melões mais baratos,
encontrarei, depois, dificuldade em vender os outros trinta. O melhor
que tenho a fazer (a única solução para o caso) é vender as duas
partidas ao mesmo tempo.
Tendo
chegado a essa conclusão reuni os 60 melões e comecei a vendê-los
aos grupos de 5 por 2 dinares. O negócio era justificado por um
raciocínio muito simples:
— Se
eu devia vender 3 por 1 e depois 2 também por 1 dinar, seria mais
simples vender, logo, 5 por 2 dinares.
Vendidos
os 60 melões em 12 lotes de cinco cada um, apurei 24 dinares.
Como
pagar aos dois irmãos, se o primeiro devia receber 10 e o segundo,
15 dinares?
Havia
uma diferença de 1 dinar; não sei como explicar, pois o negócio
foi feito, como disse, com o máximo cuidado.
Vender
3 por 1 dinar e, depois, vender 2 por 1 não é a mesma coisa que
vender logo 5 por 2 dinares?
— O
caso não teria, afinal, importância alguma — interveio Hamed
Namir — se não fosse a intervenção absurda do vequil(5) que
superintende a feira. Esse vequil, ouvido sobre o caso, não soube
explicar a diferença na conta, e apostou 5 dinares como essa
diferença era proveniente de falta de um melão que fora roubado por
ocasião da venda.
— O
vequil não tem razão alguma — acudiu Beremiz — e deve ser
obrigado a pagar a aposta. A diferença a que chegou o vendedor
resultou do seguinte:
A
partida de Harim compunha-se de 10 lotes de 3 melões cada um. Cada
lote devia ser vendido por 1 dinar. O total da venda seria de 10
dinares.
A
partida de Hamed compunha-se de 15 lotes (com 2 melões cada um) que,
vendido a 1 dinar cada lote, dariam o total de 15 dinares.
Reparem
que o número de lotes de uma partida não é igual ao número de
lotes da outra.
Para
vender os melões em lotes de cinco cada, só os 10 primeiros lotes
poderiam ser vendidos à razão de 5 por 2 dinares; vendidos esses 10
lotes, restam ainda 10 melões que pertencem exclusivamente à
partida de Hamed e que, sendo de preço mais elevado, deveriam ser
vendidos à razão de 2 por 1 dinar.
A
diferença de um resultou, pois, da venda dos 10 últimos melões!
Não houve roubo algum! Da desigualdade de preço entre as partilhas
resultou o prejuízo de 1 dinar, que se verificou no resultado final.
Nesse
momento fomos obrigados a interromper a reunião. A voz do muezim,
cujo eco vibrava no espaço, chamava os fiéis para a prece da tarde!
— Hai
al el-salah(6). al el-salah!
Cada um de nós procurou, sem perda de tempo, fazer segundo determina o Livro Santo, a guci do ritual (7).
O
sol já se achava na linha do horizonte. Era chegada a hora do
mogreb.
Da
terceira almenara da mesquita de Omar, o muezim cego, com voz pausada
e rouca, chamava os crentes à oração:
— Alá
é grande e Maomé, o profeta, é o verdadeiro enviado de Deus! Vinde
à prece, ó muçulmanos! Vinde à prece! Lembrai-vos de que tudo é
pó, exceto Alá!
Os
mercadores, precedidos por Beremiz, estenderam os seus tapetes
coloridos, retiraram as sandálias, voltaram-se em direção da
Cidade Santa e exclamaram:
— Alá,
Clemente e Misericordioso! Louvado seja o Onipotente Criador dos
mundos visíveis e invisíveis! Conduz-nos pelo caminho certo, pelo
caminho daqueles que são amparados e abençoados por ti(8)!
NOTAS
(1)
Prece da tarde.
(2)
Antiga medida de comprimento. Equivalia a três palmos mais ou menos.
(3)
Essa curva é hoje perfeitamente conhecida. Chama-se catenária.
A tradução de maraçã ou maraçon, segundo o
dicionarista Frei João de Souza, é corda ou cordel.
Vem do verbo árabe maraça, que significa “ligar com um
cordel”. Deu origem à palavra baraço.
(4)
Em linguagem vulgar, ou mesmo nas obras literárias, a palavra
círculo designa a curva, isto é, a circunferência.
(5)
Intendente. Encarregado da administração de um bairro.
(6)
Preparai-vos para a prece! Em geral o muezim acrescentava:
“Lembrai-vos de que tudo é pó, exceto Alá!”
(7)
Ablução do ritual.
(8)
São essas as primeiras palavras do Alcorão.
Malba Tahan, em O Homem que Calculava


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