[…]
Naquela
hora, o senhor reparasse, que é que notava? Nada, mesmo. O senhor
mal conhece esta gente sertaneja. Em tudo, eles gostam de alguma
demora. Por mim, vi! assim serenados assim, os cabras estavam
desejando querendo o sério divertimento. Mas, os chefes cabecilhas,
esses, ao que menos! expunham um certo se aborrecer, segundo seja?
Cada um conspirava suas ideias a respeito do prosseguir, e cumpriam
seus manejos no geral, esses com suas responsabilidades. Uns
descombinavam dos outros, no sutil. Eles pensavam. Conforme vi. Sô
Candelário duma banda de Joca Ramiro, com Titão Passos e João
Goanhá; o Ricardão da outra, com o Hermógenes. Atual Zé Bebelo
foi começando a conversar comprido, na taramelagem como de seu gosto
― aí o Ricardão armou um bocêjo; e Titão Passos se desacocorou,
com a mão num ombro, que devia de ter algum machucado. O Hermógenes
fez beiço. João Goanhá, aquele ar sonsado, quase de tolo, no
grosso do semblante. O Hermógenes botava pontas de olhar, some
escuro, nuns visos. Só Candelário, ficado em pé, sacudia o moroso
das pernas.
Joca
Ramiro deve de ter percebido aquele repiquete. Porque ele sobre se
virou, para Só Candelário, ao de indagar:
― Meu
compadre, que é que se acha?
Só
Candelário fungou, e logo abriu naqueles sestros que tinha,
movimental. Sendo por ele querer se desengonçar e não podendo: como
era alto e magro duro aquele homem! Sarre os onhos olhos amarelos de
gavião, dele, hem. Não achou as palavras para dizer, disse:
― Ao
que a ver! Ao que estou, compadre chefe meu...
A
lesto que Joca Ramiro assentiu, com cabeça, conforme se Só
Candelário tivesse afirmado coisas de sincera importância. Zé
Bebelo abriu muito a boca, tirando um ronco, como que de propósito.
Alguns, mais riram dele.
Em
menos Joca Ramiro esperou um instante:
― A
gente pode principiar a acusação.
Aprovaram,
os todos, todos. Até Zé Bebelo mesmo. Assim Joca Ramiro refalou,
normal, seguro de sua estança, por mais se impor, uma fala que ele
drede avagarava. Dito disse que ali, sumetido diante, só estava um
inimigo vencido em combates, e que agora ia receber continuação de
seu destino. Julgamento, já. Ele mesmo, Joca Ramiro, como de lei,
deixava para dar opinião no fim, baixar sentença. Agora, quem
quisesse, podia referir acusação, dos crimes que houvesse, de todas
as ações de Zé Bebelo, seus motivos: e propor condena.
Rés
o que começasse, quem? O Hermógenes limpou a goela. De primeira
entrada eu vinha sabendo ― esse Hermógenes precisava de muitas
vinganças.
Ele
era sujeito vindo saindo de brejos, pedras e cachoeiras, homem todo
cruzado. De uns assim, tudo o que escapa vai em retinge de medo ou de
ódio. Observei, digo ao senhor. Carece de não se perder sempre o
vezo da cara do outro; os olhos. Advertido que pensei! e se eu
puxasse meu revólver, berrasse fogo nele? Se acabava um Hermógenes
― estava ali, são no vão, e num átimo se via era papas de sangue
― ele voltava para o inferno! Que era que me acontecia? Eu tomava
castigo mortal, de mão de todos? Deixasse que tomasse. Medo não
tive. Só que a ideia boa passou muito fraca por mim, entrada por
saída. Fiquei foi querendo ouvir e ver, o que vinha mais. Demarcava
que iam acontecendo grandes fatos. Desde, Diadorim, conseguindo
caminho por entre o povo, aí chegou, se encostou em mim; tão junto,
mesmo sem conversar, mas respirava, como era com a boca tão
cheirosa. Há-de haja! ― o Hermógenes tinha levantado, para falar!
― Acusação,
que a gente acha, é que se devia de amarrar este cujo, feito porco.
O sangrante... Ou então botar atravessado no chão, a gente todos
passava a cavalo por riba dele ― a ver se vida sobrava, para não
sobrar!
― Quá?!
― Zé Bebelo debicou, esticando o pescoço e batendo com a cabeça
para diante, diversas vezes, feito pica-pau em seu ofício em árvore.
Mas o Hermógenes com aquilo não somou; foi pondo!
― Cachorro
que é, bom para a faca. O tanto que ninguém não provocou, não era
inimigo nosso, não se buliu com ele. Assaz que veio, por si, para
matar, para arrasar, com sobejidão de cacundeiros. Dele é este
Norte? Veio a pago do Governo. Mais cachorro que os soldados
mesmos... Merece ter vida não. Acuso é isto, acusação de morte. O
diacho, cão!
― Ih!
Arre! ― foi o que Zé Bebelo ponteou. Assim contracenando, todo o
tempo ― medo do Hermógenes remedou, de feias caretas.
― E
o que eu acho! E o que eu acho! ― o Hermógenes então quase
gritou, por terminar ― Sujeito que é um tralha!
― Posso
dar uma resposta, Chefe? ― Zé Bebelo perguntou, sério, a Joca
Ramiro. Joca Ramiro concedeu.
― Mas,
para falar, careço que não me deixem com as mãos amarradas...
Nisso
não havendo razão ou dúvida. E Joca Ramiro deu ordem. João Frio,
que de perto dele não se apartava, veio de lá, cortou e desatou a
manupeia nas juntas dos pulsos. Que era que Zé Bebelo ia poder
fazer? Isto:
― Praqui
mais praqui, por este mais este cotovelo!... ― disse, batendo mão
e mão, com o acionado de desplante. E riu chiou feito um sõim, o
caretejo. Parecia mesmo querer fazer raiva no outro, em vez de tomar
cautela? Vi que tudo era enfinta; mas podia dar em mal. O Hermógenes
pulou passo, fez menção de reluzir faca. Se teve mão em si, foi
por forte costume. E Joca Ramiro também tinha atalhado, com uma
aspação: ― Tento e paz, compadre mano-velho. Não vê que ele
ainda está é azuretado...
― Ei!
Com seu respeito, discordo, Chefe, maximé! ― Zé Bebelo falou. ―
Retenho que estou frio em juízo legal, raciocínios. Reajo é com
protesto. Rompo embargos! Porque acusação tem de ser em sensatas
palavras ― não é com afrontas de ofensa de insulto... ― Encarou
o Hermógenes: ― Homem: não abusa homem! Não alarga a voz!...
Mas
o Hermógenes, arriçado, crível que estivesse todo no poder bravo
de uma coceira, falou para Joca Ramiro ― e para todos que estávamos
lá ― falou, numa voz rachada em duas, voz torta entortada!
― Tibes
trapo, o desgraçado desse canalha, que me agravou! Me agravou, mesmo
estando assim vencido nosso e preso... Meu direito é acabar com ele,
Chefe!
Vi
a mão do perigo. Muitos homens resmungaram em aprôvo, ali rodeando,
os tantos, dez ou vinte círculos, anéis de gente. Rentes os do
bando do Hermógenes chegaram a dar altas palavras, de calca pá.
Questionou-se a respeito disso? Tinham barulhos na voz. Mesmo os
chefes entre si cochicharam. Mas Joca Ramiro sabia represar os
excessos, Joca Ramiro era mesmo o tutumumbuca, grande maioral.
Temperou somente!
― Mas
ele não falou o nome-da-mãe, amigo...
E
era verdade. Todo o mundo concordou, pelo que vi de todos. Só para o
nome-da-mãe ou de ladrão era que não havia remédio, por ser a
ofensa grave. Com Joca Ramiro explicar assim, não havia jagunço que
não aceitasse o razoável da ponderação, o relembrado. O
Hermógenes mesmo se melou na atrapalhação das ligeirezas, e aí
tinha de condizer. Nada ele não disse! mas abriu quadrada a boca, em
careta de quem provou pedra de sal. E Zé Bebelo mesmo aproveitou
para mudar o aspecto ― para uma certa circunspecção. Se via que
ele pensava a curto ganho no estreito, por detrás daquele sonsar.
Trabalho de ideia em aperto, pelo pão de salvar sua vida da
estrosca.
Imediato,
Joca Ramiro deu a vez a Sô Candelário, não deixando frouxura de
tempo para mais motim! ― Hê, e você, compadre? Qual é a acusação
que se tem?
Sobre
o que, sobreveio Sô Candelário, arre avante, aos priscos, a figura
muita, o gibão desombrado. Sobrava fala! ― Com efeito! Com
efeito!... ― falou. Vai, vai, forteou mais a voz! ― Só quero
pergunta! se ele convém em nós dois resolvermos isto à faca!
Pergunto para briga de duelo... E o que acho! Carece mais de
discussão não... Zé Bebelo e eu ― nós dois, na faca!…
Só
Candelário mais longe não conseguia de dizer, só repetia aquilo,
desafio, e no mais se mexer, feito com são-guido ou escaravelho. Sem
raiva quase nenhuma ― notei; mas também sem nenhuma paciência. Só
Candelário sendo assim. Mas aí Joca Ramiro remediou, dizendo,
resistencioso, e escondeu o de que ria:
― Resultado
e condena, a gente deixa para o fim, compadre. Demore, que logo vai
ver. Agora é a acusação das culpas. Que crimes o compadre indica
neste homem?
― Crime?...
Crime não vejo. E o que acho, por mim é o que declaro: com a
opinião dos outros não me assopro. Que crime? Veio guerrear, como
nós também. Perdeu, pronto! A gente não é jagunços? A pois:
jagunço com jagunço ― aos peitos, papos. Isso é crime? Perdeu,
está aí feito umbuzeiro que boi comeu por metade... Mas brigou
valente, mereceu... Crime, que sei, é fazer traição, ser ladrão
de cavalos ou de gado... não cumprir a palavra...
― Sempre
eu cumpro a palavra dada! ― gritou de lá Zé Bebelo.
Só
Candelário olhou encarado para ele, rente repente, como se nos
instantes antes não soubesse que ele estava ali a três passos. Só
assim mesmo prosseguiu:
― ...Pois,
sendo assim, o que acho é que se deve de tornar a soltar este homem,
com a compromisso de ir ajuntar outra vez seu pessoal dele e voltar
aqui no Norte, para a guerra poder continuar mais, perfeita,
diversificada…
Ressaltados,
os homens, ouvindo isso, rosnaram de bem, cá e lá: coragem sempre
agradava. Diadorim apertou meu braço, como sussurrou: ― Doideira,
dele. Riobaldo, Só Candelário está doido varrido... Aí podia ser.
Mas eu tinha relanceado um afio de onde ódio que ele mirou no
Hermógenes, enquanto falando; e entendi! Sô Candelário não
gostava do Hermógenes! Sendo que ele podia até nem saber disso, não
ter noção firme de que não gostava; mas era a maior verdade.
Sucinto, só por conta disso, eu apreciei demais aquele rompante.
Sô
Candelário esbarrou de falar, secado. Só aos bufos, surdo de se ver
que ele tinha feito o grande esforço todo, sopitante. Se afundava
para os altos.
― Apraz
ao senhor, compadre Ricardão? ― Joca Ramiro solicitou, passando a
vez.
[…]
Guimarães Rosa, in Grande sertão: veredas
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