sexta-feira, 6 de outubro de 2023

1519 – Tenochtitlán | Montezuma

Grandes montanhas chegaram, movendo-se pelo mar, até a costa de Yucatán. O deus Quetzalcóatl está de volta. Os índios beijam as proas dos barcos.
O imperador Montezuma desconfia de sua sombra.
O que farei? Onde me esconderei?
Montezuma quisera converter-se em pedra ou pau. Os bufões da Corte não conseguem distraí-lo. Quetzalcóatl, o deus barbudo, o que tinha emprestado a terra e as bonitas canções, veio a exigir o que lhe pertence.
Nos antigos tempos, Quetzalcóatl tinha ido para o oriente, depois de queimar sua casa de ouro e sua casa de coral. Os mais belos pássaros voaram abrindo-lhe caminho. Faz-se ao mar em uma balsa de serpentes e se perdeu de vista navegando rumo ao amanhecer. De lá, regressa agora. O deus barbudo, a serpente emplumada, voltou com fome.
Trepida o solo. Nos caldeirões, bailam os pássaros enquanto são fervidos. Ninguém haverá de ficar, havia pressentido o profeta. Ninguém, ninguém, ninguém de verdade vive na terra.
Montezuma enviou grandes oferendas de ouro ao deus Quetzalcóatl, capacetes cheios de pó de ouro, patos de ouro, cães de ouro, tigres de ouro, colares e varas e arcos e flechas de ouro, mas quanto mais ouro come o deus, mais ouro deseja; e ansioso avança para Tenochtitlán. Marcha entre os grandes vulcões e atrás dele vêm outros deuses barbudos. Das mãos dos invasores brotam trovões que atordoam e fogos que matam.
O que farei? Onde irei me meter?
Montezuma vive com a cabeça escondida entre as mãos.
Há dois anos, quando já se haviam multiplicado os presságios do regresso e da vingança, Montezuma enviou seus magos à gruta de Huémac, o rei dos mortos. Os magos desceram às profundidades de Chapultepec, acompanhados por uma comitiva de anões e corcundas, e entregaram a Huémac, enviada pelo imperador, uma oferenda de peles de presos recém-pelados. Huémac mandou dizer a Montezuma:
Não tenha ilusões. Aqui não há descanso nem alegria.
Ordenou-lhe um jejum de manjares e dormir sem mulher.
Montezuma obedeceu. Fez penitência longa. Os eunucos trancaram a pedra e pau as habitações de suas esposas e os cozinheiros esqueceram seus pratos preferidos.
Mas então foi pior. Os corvos da angústia se precipitaram sobre ele. Montezuma perdeu o amparo de Tlazoltéotl, a deusa do amor que é também a deusa da merda, a que come nossa porcaria para que o amor seja possível; e assim a alma do imperador se inundou, em solidão, de lixo e negrura. Enviou novos mensageiros a Huémac, uma e outra vez, carregados de súplicas e presentes, até que no fim o rei dos mortos prometeu-lhe uma audiência.
Na noite combinada, Montezuma foi ao encontro. A barca deslizou até Chapultepec. O imperador ia em pé na proa, e a névoa da lagoa abria caminho a seu radiante penacho de plumas de flamingo.
Pouco antes de chegar ao pé do morro, Montezuma escutou um rumor de remos. Uma canoa irrompeu, veloz, e alguém resplandeceu por um instante na bruma negra, ia despido e solitário na canoa e erguia o remo como uma lança.
És tu, Huémac?
O da canoa aproximou-se até quase roçá-lo. Olhou os olhos do imperador, como ninguém pode. Disse a ele: “Covarde”. E desapareceu.

Eduardo Galeano, in Os Nascimentos

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