quinta-feira, 21 de setembro de 2023

Piloto de Guerra | XXVI


É fácil fundar a ordem de uma sociedade sobre a submissão de cada um a regras fixas. É fácil moldar um homem cego que aceite, sem protestar, um mestre ou um Alcorão. Mas o sucesso que consiste em, para libertar o homem, fazê-lo reinar sobre si mesmo, é maior.
Mas o que é libertar? Se eu liberto, no deserto, um homem que não sente nada, o que significa a sua liberdade? Só há liberdade de “alguém” que vai a algum lugar. Libertar para esse homem seria ensinar-lhe a sede e traçar-lhe uma rota até um poço. Somente assim se proporiam a ele passos aos quais não faltaria significado. Libertar uma pedra não significa nada se não houver peso. Pois a pedra, uma vez livre, não irá a lugar algum.
No entanto, minha civilização tentou fundar as relações humanas sobre o culto do Homem além do indivíduo, a fim de que o comportamento de cada um frente a si mesmo ou a outrem não fosse mais conformismo cego aos costumes do cupinzeiro, mas livre exercício do amor.
A tendência invisível do peso libera a pedra. As inclinações invisíveis do amor liberam o homem. Minha civilização tentou fazer de cada homem o Embaixador de um mesmo príncipe… Ela considerou o indivíduo como caminho ou mensagem de algo maior do que ele mesmo, ofereceu à liberdade de sua ascensão direções imantadas…
Conheço bem a origem desse campo de forças. Durante séculos, minha civilização contemplou Deus através dos homens. O homem era criado à imagem de Deus. Respeitava-se Deus no homem. Os homens eram irmãos em Deus. Esse reflexo de Deus conferia uma dignidade inalienável ao homem. As relações do homem com Deus fundavam com evidência os deveres de cada um frente a si mesmo ou a outrem.
Minha civilização é herdeira dos valores cristãos. Eu refletirei sobre a construção da catedral, a fim de compreender melhor a sua arquitetura.
A contemplação de Deus fundava os homens iguais, porque iguais em Deus. E essa igualdade tinha um significado claro. Pois só se pode ser igual em alguma coisa. O soldado e o capitão são iguais na nação. A igualdade não passa de uma palavra vazia de sentido se não houver nada a que ligar essa igualdade.

Entendo claramente por que essa igualdade, que era a igualdade dos direitos de Deus através dos indivíduos, proibia limitar a ascensão de um indivíduo: Deus podia decidir tomá-lo por caminho. Mas como se tratava também da igualdade dos direitos de Deus “sobre” os indivíduos, entendo por que os indivíduos, fossem quem fossem, eram submetidos aos mesmos deveres e ao mesmo respeito às leis. Exprimindo Deus, eles eram iguais em seus direitos. Servindo Deus, eram iguais em seus deveres.
Entendo por que uma igualdade estabelecida em Deus não acarretava nem contradição nem desordem. A demagogia intromete-se quando, por falta de denominador comum, o princípio de igualdade se abastarda em princípio de identidade. Então o soldado recusa a saudação do capitão, pois o soldado, saudando o capitão, honraria um indivíduo, e não a Nação.

Minha civilização, herdando de Deus, fez os homens iguais no Homem.

Entendo a origem do respeito dos homens, de uns para com os outros. O sábio devia respeito ao próprio taifeiro, pois, através do taifeiro, ele respeitava Deus, de quem o taifeiro também era Embaixador. Quaisquer que fossem o valor de um e a mediocridade do outro, nenhum homem podia pretender reduzir outro à escravidão. Não se humilha um Embaixador. Mas esse respeito pelo homem não levava à prosternação degradante diante da mediocridade do indivíduo, diante da estupidez ou da ignorância, já que primeiro honrava-se essa qualidade de Embaixador de Deus. Assim, o amor de Deus fundava, entre os homens, as relações nobres, tratando os negócios de Embaixador para Embaixador, acima da qualidade dos indivíduos.

Minha civilização, herdeira de Deus, fundou o respeito ao homem através dos indivíduos.

Entendo a origem da fraternidade dos homens. Os homens eram irmãos em Deus. Só se pode ser irmão em alguma coisa. Se não há nó que os una, os homens ficam justapostos e não ligados. Não se pode ser irmão simplesmente. Meus camaradas e eu somos irmãos “no” Grupo 2/33. Os franceses “na” França.

Minha civilização, herdeira de Deus, fez os homens irmãos no Homem.

Entendo o significado dos deveres de caridade que me eram pregados. A caridade servia a Deus através do indivíduo. Era devida a Deus, qualquer que fosse a mediocridade do indivíduo. Essa caridade não humilhava o beneficiário, nem o atava pelas amarras da gratidão, pois não é a ele, mas a Deus, que a doação era feita. O exercício dessa caridade, entretanto, jamais foi homenagem à mediocridade, à estupidez ou à ignorância. O médico devia engajar sua vida nos cuidados com o mais vulgar dos pestilentos. Ele servia a Deus. Não era diminuído pela noite em claro, passada à cabeceira do ladrão.

Minha civilização, herdeira de Deus, fez assim, da caridade, dom ao Homem através do indivíduo.

Entendo a significação profunda da Humildade exigida do indivíduo. Ela não se rebaixava. Ela se elevava. Ela o esclarecia sobre seu papel de Embaixador. Assim como o obrigava a respeitar Deus através de outrem, ela o obrigava a respeitar-se a si mesmo, a fazer-se mensageiro de Deus, no caminho para Deus. Ela lhe impunha esquecer-se para crescer, pois se o indivíduo se exalta sobre sua própria importância, o caminho logo se transforma em muralha.

Minha civilização, herdeira de Deus, pregou também o respeito de si mesmo, isto é, o respeito do Homem através de si mesmo.

Compreendo, enfim, por que o amor de Deus estabeleceu os homens responsáveis uns pelos outros e lhes impôs a Esperança como uma virtude. Pois, de cada um, ela fazia o Embaixador do mesmo Deus, nas mãos de cada um repousava a salvação de todos. Ninguém tinha o direito de se desesperar, pois era mensageiro de alguém superior. O desespero era a renegação do próprio Deus. O dever da Esperança poderia ter-se traduzido por: “Tu te julgas tão importante? Que fatuidade há em teu desespero!”.

Minha civilização, herdeira de Deus, fez cada um responsável por todos os homens e todos os homens responsáveis por cada um. Um indivíduo deve se sacrificar pela salvação de uma coletividade, mas não se trata aqui de uma aritmética imbecil. Trata-se do respeito do Homem através do indivíduo. A grandeza, com efeito, de minha civilização, é que cem mineiros devem arriscar suas vidas pelo salvamento de um só mineiro soterrado. Eles salvam o Homem.

Entendo claramente, sob essa luz, o significado da liberdade. Ela é liberdade do crescimento de árvore no campo de força de seu grão. Ela é clima de ascensão do homem. É semelhante a um vento favorável. Pela simples graça do vento, os veleiros estão livres, no mar.

Um homem assim construído disporia do poder da árvore. Quanto espaço não cobriria com suas raízes! Que massa humana ela não absorveria para desabrochar ao sol!

Antoine de Saint-Exupéry, in Piloto de Guerra

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