quarta-feira, 9 de agosto de 2023

Piloto de Guerra | XVIII

Nada impede que essa guerra, afora o sentido espiritual que a tornava necessária para nós, nos tenha aparecido, na prática, como uma guerra de mentira. A palavra nunca me envergonhou. Mal declaramos guerra, começávamos a esperar, por estarmos sem condições de atacar, e já quiseram nos aniquilar.
Feito.
Dispúnhamos de germes de trigo para vencer tanques. Os germes de trigo de nada adiantaram. E hoje, o aniquilamento está consumado. Não há mais nem exército, nem reservas, nem ligações, nem material.
No entanto, prossigo meu voo com uma seriedade imperturbável. Mergulho em direção ao exército alemão a oitocentos quilômetros por hora e a três mil e quinhentas rotações por minuto. Para quê? Olha! Para assustá-lo! Para que ele evacue o território! Já que as informações desejadas de nós são inúteis, essa missão não pode ter outro objetivo.
Guerra de mentira.
Estou exagerando, aliás. Perdi muita altitude. Os comandos e os manetes descongelaram. Eu retomei, nos pedais, minha velocidade normal. Avanço sobre o exército alemão a quinhentos e trinta quilômetros por hora somente, e a duas mil e duzentas rotações por minuto. É uma pena. Eu lhe darei muito menos medo.
Vão nos recriminar por chamar esta guerra uma guerra de mentira!
Somos nós que chamamos esta guerra de “guerra de mentira”! Pior ainda é achá-la “engraçada”. Temos o direito de brincar como queremos, porque todos os sacrifícios são por nossa conta. Eu tenho o direito de brincar com a minha morte, se a brincadeira me agrada. Dutertre também. Tenho o direito de saborear os paradoxos. Pois, por que as vilas ainda estão queimando? Por que essa população está jogada em massa na calçada? Por que nós avançamos com uma convicção inabalável para um abatedouro automático?
Tenho todos os direitos, pois, neste segundo, bem sei o que estou fazendo. Aceito a morte. Não é o risco que aceito. Não é o combate que aceito. É a morte. Aprendi uma grande verdade. A guerra não é a aceitação do risco. Não é a aceitação do combate. É, em alguns momentos, para o combatente, a aceitação pura e simples da morte.

Esses dias, quando a opinião estrangeira julgava insuficientes nossos sacrifícios, eu me perguntei, olhando partir e aniquilarem-se as tripulações: “Ao que nos consagramos, quem nos paga mesmo?”.
Pois nós morremos. Pois cento e cinquenta mil franceses foram mortos em quinze dias. Esses mortos não ilustram, talvez, uma resistência extraordinária. Eu não celebro uma resistência extraordinária. Ela é impossível. Mas há contingentes de infantaria que se deixam massacrar numa fazenda indefensável. Há grupos de aviação que derretem feito cera atirada ao fogo.
Assim, nós, do Grupo 2/33, por que mesmo ainda aceitamos morrer? Pela estima do mundo? Mas a estima implica a existência de um juiz. Quem, dentre nós, atribui a quem quer que seja o direito de julgar? Lutamos em nome de uma causa que estimamos ser causa comum. A liberdade não somente da França, mas do mundo, está em jogo: consideramos confortável demais a função de árbitro. Somos nós que julgamos os árbitros. Os do meu Grupo 2/33 julgam os árbitros. Que não nos venham dizer, a nós que partimos sem uma palavra com uma chance em três de voltar (quando a missão é fácil) — nem aos de outros grupos — nem àquele amigo cujo rosto foi desfigurado pela explosão de um obus e renunciou para sempre encantar uma mulher, privado de um direito fundamental tanto quanto se está privado atrás das grades de uma prisão, bem protegido em sua feiura, bem instalado em sua virtude, atrás da muralha de sua feiura, que não nos venham dizer que os espectadores nos julgam! Os toureiros vivem para os espectadores, nós não somos toureiros. Se afirmassem a Hochedé: “Você tem de partir porque as testemunhas o consideram”, Hochedé responderia: “Errado. Sou eu, Hochedé, que considero as testemunhas…”.
Pois, afinal, por que ainda combatemos? Pela Democracia? Se morremos pela Democracia, somos solidários às Democracias. Que elas combatam então conosco! Porém a mais poderosa, a que poderia, sozinha, salvar-nos, recusou-se ontem, e ainda se recusa. Bom. É seu direito. Mas ela então nos dá a entender que combatemos unicamente por nossos interesses. Ora, sabemos muito bem que tudo está perdido. Então por que ainda morremos?
Por desespero? Mas não há desespero! Vocês não saberão nada de uma derrota se nela esperarem descobrir desespero.

Há uma verdade maior que os enunciados da inteligência. Alguma coisa passa através de nós e nos governa, que sinto sem apreender por enquanto. Uma árvore não tem linguagem. Nós pertencemos a uma árvore. Há verdades que são evidentes, ainda que informuláveis. Não morrerei para opor-me à invasão, pois não há abrigo onde me esconder com os que amo. Não morrerei para salvar uma honra que nego estar em jogo: recuso os juízes. Tampouco morrerei por desespero. Não obstante, Dutertre, que consulta o mapa, tendo calculado que Arras fica ali, em algum lugar a cento e setenta e cinco graus, me dirá, eu pressinto, em menos de trinta segundos:
Vire a cento e setenta e cinco, Capitão…
E eu aceitarei.

Antoine de Saint-Exupéry, in Piloto de Guerra

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