terça-feira, 8 de agosto de 2023

O que é arte? | Capítulo IX

Decamerão (1837), de Franz Xaver Winterhalter

A descrença das altas classes do mundo europeu criou uma situação em que a atividade artística — cujo objetivo era transmitir os mais elevados sentimentos que a humanidade atingiu em sua consciência religiosa — foi substituída por outra cujo objetivo era proporcionar o maior prazer para um certo grupo de pessoas. E, de toda a vasta área da arte, separou-se somente aquilo que proporciona prazer a pessoas de um determinado círculo, e isso passou a ser chamado de arte.
Sem mencionar as consequências morais para a sociedade europeia dessa escolha que reduziu a área da arte e atribuiu importância a uma arte que não merecia tal avaliação, essa deturpação também enfraqueceu a própria arte e quase a levou à ruína. A primeira consequência foi que ela perdeu o conteúdo religioso infinitamente diversificado e profundo que lhe é próprio. A segunda foi que, tendo somente um pequeno círculo de pessoas em mente, acabou perdendo a beleza da forma, tornando-se extravagante e pouco clara; e a terceira e maior consequência foi que deixou de ser sincera e se tornou artificial e cerebral.
A primeira consequência — empobrecimento do conteúdo — ocorreu porque a única verdadeira obra de arte é a que transmite um novo sentimento, ainda não experimentado pelas pessoas. Tal como um produto do pensamento só o é quando transmite novas observações e não repete o que já é sabido, assim também uma obra de arte somente o é quando introduz um novo sentimento (ainda que insignificante) no uso geral da vida humana. A única razão pela qual crianças e adolescentes vivenciam tão fortemente as obras de arte é que estas lhes transmitem pela primeira vez sentimentos que não experimentaram antes.
Um sentimento inteiramente novo, nunca expressado antes por ninguém, tem um efeito igualmente forte sobre adultos. A arte da alta classe, que não avalia sentimentos de acordo com a consciência religiosa, mas pelo grau de prazer que proporciona, privou-se da fonte desses sentimentos. Não há nada mais velho nem mais vulgarizado do que o prazer; e não há nada mais novo do que os sentimentos que emergem da consciência religiosa de uma determinada época. E não poderia ser de outra forma: existe um limite imposto pela natureza ao prazer do homem; mas o avanço da humanidade — que é expresso pela consciência — não tem limite. A cada passo à frente que a humanidade dá — e esses passos são dados por meio de uma crescente clarificação da consciência religiosa —, as pessoas experimentam mais e mais sentimentos novos. E, portanto, é somente com base na consciência religiosa, que revela o mais alto grau de compreensão da vida atingido pelas pessoas de determinada época, que podem emergir sentimentos novos nunca antes experimentados pelos homens. Da antiga consciência religiosa grega surgiram, verdadeiramente, sentimentos novos e infinitamente diversos para os gregos, expressos por Homero e os dramaturgos. O mesmo se deu com os judeus, que atingiram a consciência religiosa do monoteísmo. Essa consciência produziu também os novos e importantes sentimentos expressos pelos profetas. Ainda, o mesmo se deu com o homem medieval, que acreditava na comunidade da Igreja e na hierarquia celeste; e é o mesmo para o homem do nosso tempo que adotou a consciência religiosa do verdadeiro cristianismo — a da fraternidade entre os homens.
A diversidade de sentimentos gerados pela consciência religiosa é nova e infinita, porque tal consciência não é senão a indicação da recente e criativa atitude do homem em relação ao mundo, ao passo que os sentimentos que emanam do desejo de prazer não só não são limitados como já foram experimentados e expressos há muito tempo. E, portanto, a descrença das altas classes europeias as levou a uma arte paupérrima de conteúdo.
Esse empobrecimento de conteúdo se intensificou pelo fato de que, ao deixar de ser religiosa, ela também deixou de ser popular, diminuindo assim ainda mais a amplitude de sentimentos que transmitia, pois a gama de sentimentos vivenciados pelos homens ricos e os governantes — que não conhecem o trabalho que mantém a vida — é muito menor, mais pobre e insignificante do que aquela vivenciada pelos trabalhadores.
As pessoas do nosso círculo, particularmente os estetas, geralmente pensam e dizem o contrário. Eu me recordo do escritor Goncharov, um homem inteligente e culto, ainda que um completo citadino e esteta, quando me contava que, depois das Recordações de um caçador, de Turguênev, não restava mais nada para escrever sobre a vida do povo. Estava tudo gasto. A vida dos trabalhadores parecia a ele tão simples que, depois das histórias de Turguênev, não havia mais nada a descrever. Mas a vida dos ricos, com seus casos de amor e suas insatisfações, lhe parecia cheia de infinito conteúdo. Um herói beijava a palma da mão da sua dama, outro beijava seu cotovelo, um terceiro, de alguma outra forma. Um definha de preguiça, outro, porque não é amado. E parecia a ele que não havia fim da diversidade nessa área. Essa opinião, que a vida dos trabalhadores é pobre em conteúdo, ao passo que a nossa, a dos ociosos, é cheia de coisas interessantes, é compartilhada por muita gente de nosso círculo. A vida dos trabalhadores, com suas formas infinitamente diversas de trabalho e dos perigos relacionados a ele no mar ou sob a terra, com suas viagens, tratos com proprietários, superiores e camaradas, com pessoas de outra fé e nacionalidade, sua luta com a natureza e com os animais selvagens, suas relações com os animais domésticos, o pomar e a horta, suas relações com a mulher e os filhos, não apenas com pessoas próximas e queridas, mas com companheiros de trabalho, ajudantes e substitutos, suas relações com todas as questões econômicas, não como assunto de conversa ou de vaidade, mas como questões vitais para si mesmo e sua família, com seu orgulho em relação à sua autossuficiência e ao serviço prestado a outros, com seu prazer nas horas de folga, tudo isso permeado de uma atitude religiosa em relação a esses fenômenos — para nós, que não temos esses interesses e nenhuma compreensão religiosa, essa vida parece monótona, comparada com nossos pequenos prazeres e as nossas preocupações insignificantes, não as de trabalho e criatividade, mas aquelas que se referem ao uso e destruição daquilo que outros fizeram para nós. Achamos que os sentimentos vivenciados pelas pessoas de nosso próprio tempo e círculo são muito significativos e diversos, mas na realidade se resumem basicamente a três, muito insignificantes e descomplicados: os sentimentos de orgulho, desejo sexual e tédio da vida. E esses três sentimentos, com suas ramificações, formam quase que exclusivamente o conteúdo da arte das classes ricas.
Antigamente, bem no início da separação da arte da classe alta da arte popular, o seu principal conteúdo era o sentimento de orgulho. Assim foi durante e depois da Renascença, uma época em que o tema principal das obras de arte era o louvor aos poderosos — papas, reis e nobres. Odes, madrigais, cantatas e hinos eram escritos em sua homenagem; seus retratos eram pintados e suas estátuas esculpidas, glorificando-os de várias maneiras. Depois, o elemento da concupiscência sexual começou a adentrar a arte mais e mais, tornando-se (com poucas exceções e sem exceção alguma nos romances e peças) a condição necessária de toda obra de arte das classes ricas.
Mais tarde, um terceiro sentimento começou a ser transmitido pela nova arte: o tédio da vida. Esse sentimento foi expresso, no início do século XIX, somente por pessoas excepcionais — Byron, Leopardi e, depois, Heine —, mas recentemente virou moda e é agora expresso pelas pessoas mais banais e comuns. O crítico francês Doumic fala de modo muito certo sobre a principal característica das obras dos novos escritores:

... c’est la lassitude de vivre, le mépris de l’époque presente, le regret d’un autre temps aperçu à travers l’illusion de l’art, le goût du paradoxe, le besoin de se singulariser, une aspiration de raffinés vers la simplicité, l’adoration enfantine du merveilleux, la séduction maladive de la rêverie, l’ébranlement des nerfs, surtout l’appel exaspéré de la sensualité.

E, de fato, desses três sentimentos, a sensualidade — sendo o mais baixo e acessível não só a todas as pessoas, mas também a todos os animais — constitui o assunto principal de todas as obras de arte nos tempos modernos.
De Boccaccio a Marcel Prévost, todos os romances, poemas narrativos e canções invariavelmente transmitem sentimentos de amor sexual em suas várias formas. O adultério não é só o tema favorito, mas o único de todos os romances. Uma performance não é uma performance, a menos que mulheres despidas na parte de cima ou na de baixo apareçam nela, sob algum pretexto. Baladas, canções — todas expressam a concupiscência, em vários níveis de poetização.
A maior parte das pinturas dos artistas franceses retrata a nudez feminina de várias formas. Quase não há página ou poema na moderna literatura francesa que não tenha uma descrição de nudez ou o uso, aqui e ali, adequada ou inadequadamente, da palavra ou do conceito favorito “nu”. Há um certo autor, chamado Remy de Gourmont, que é publicado e considerado talentoso. Para formar uma ideia dos novos escritores, li seu romance Les Chevaux de Diomède. Trata-se da descrição ininterrupta e detalhada das relações sexuais que alguns cavalheiros tiveram com diversas mulheres. Não há uma página sem descrições que excitem a luxúria. Dá-se o mesmo com Aphrodite, livro de sucesso de Pierre Louÿs, e com outro que me veio às mãos recentemente, Certains, de Huysmans, que pretende ser uma crítica sobre pintores. E dá-se o mesmo, com raríssimas exceções, com todos os romances franceses. Essas pessoas aparentemente estão convencidas de que, como sua vida toda está concentrada em lambuzar-se de abominações sexuais — resultado de sua condição mórbida —, isso deve significar que toda a vida no mundo está concentrada na mesma coisa. E o mundo artístico inteiro, da Europa e da América, imita essas pessoas que sofrem de mania erótica.
Assim sendo, como resultado da descrença e da vida exclusiva das classes superiores, a sua arte se tornou empobrecida de conteúdo e foi reduzida à expressão dos sentimentos de vaidade, tédio e, acima de tudo, concupiscência sexual.

Leon Tolstói, in O que é arte?

Nenhum comentário:

Postar um comentário