quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Cartas para minha avó


No ano seguinte, em 2014, participei de mais uma edição da Simone de Beauvoir Society Conference, que aconteceu em Saint Louis, no Missouri, a cidade natal de Margaret A. Simons. Eu havia conseguido bolsa da Fapesp durante o mestrado e as coisas ficaram mais fáceis, pois havia subsídios para viagens acadêmicas como essa. Foi a terceira vez que saí do Brasil.
Percebe, vó, as primeiras experiências internacionais vieram por causa da universidade, ou seja, até aquele momento eu ainda não havia viajado para fora pra descansar ou simplesmente por lazer. Então decidi que dessa vez eu teria a diversão antes. Como as passagens para Saint Louis estavam muito caras e ultrapassavam o valor que a Fapesp disponibilizava, resolvi pesquisar se havia trens para lá saindo de Chicago, uma cidade que eu sempre quis conhecer por seus tradicionais bares de blues, sobretudo o Blues Chicago.
Eu amo blues e jazz e já cheguei a ficar horas pesquisando sobre o Blues Chicago, um dos primeiros bares a contratar mulheres para cantar. Para minha alegria, não só havia trem, como cabia no orçamento. Como precisava economizar, escolhi o quarto mais barato de um hostel perto do bar. Por uma noite, dividi o quarto com outras nove pessoas, todas desconhecidas. Mas tudo bem, eu realizaria um sonho.
Assim que cheguei em Chicago, saí para explorar a cidade. Fui até a Willis Tower, um dos prédios mais altos da cidade e um dos principais pontos turísticos. Andei bastante, fiz fotos, pedia informações na rua quando não entendia os mapas, e voltei para me arrumar para o grande momento. Ao chegar no quarto, encontrei uma moça sentada, mexendo em seu computador. Tentando fazer o mínimo de barulho possível para não incomodá-la, abri o meu armário e peguei minha mala. Foi quando vi que meu telefone estava ficando sem bateria e eu não tinha um adaptador de tomada para poder recarregá-lo. Precisei quebrar o silêncio e falar com ela, pois não havia a mínima possibilidade de eu ir ao Blues Chicago sem registrar aquele momento único.
Ao perceber meu sotaque, ela me perguntou de onde eu era e passamos a conversar. Ela se chamava Rosario, era peruana e fazia doutorado numa universidade americana. Para minha surpresa, ela também estudava teoria feminista e engatamos na conversa. Rosario estava de férias e havia decidido viajar pelos Estados Unidos de trem. Eu contei a ela o que estava fazendo lá, que participaria de uma conferência em Saint Louis, mas que havia aproveitado a oportunidade para conhecer o Blues Chicago. Ela desconhecia esse ritmo musical, mas aceitou meu convite para ir comigo. Fiquei muito feliz, pois além de Rosario ser agradável, não ficava corrigindo meu inglês como os norte-americanos faziam. E, sobretudo, porque seria bom ter uma companhia numa cidade grande e desconhecida.
Para economizar, fomos a pé. Seria uma caminhada de vinte e cinco minutos, mas quando estávamos na metade do trajeto fomos abordadas por um policial que nos questionou o que fazíamos ali àquela hora da noite. Ele nos aconselhou a não andar sozinhas ali, pois segundo ele seria muito perigoso. Não houve outro jeito, vó, tivemos que rachar um táxi.
Quando chegamos, minha alegria era contagiante. Lembro que, quando assistia aos vídeos sobre o Blues Chicago na internet, em um deles, aparecia um homem negro, com um vozeirão, e dizia algo como: “Bem-vindo ao Blues Chicago” e, em seguida, aparecia uma mulher cantando e dançando. Esse mesmo homem estava na porta cobrando a entrada. Fiquei fascinada quando o vi.
Quando o show começou, eu parecia estar em um sonho. Ao contrário de muitos bares de jazz no Brasil, em que as pessoas ficam sentadas bebendo, lá todos dançavam animados, embalados pela voz maravilhosa de Laretha Weathersby e banda. Eu dancei, cantei, gritei. Rosario foi totalmente tomada pela música e entrou no mesmo clima. Foi catártico. Ainda mais quando, em um momento do show, Laretha perguntou quem havia vindo de outros países. Rosario, eu e mais algumas pessoas levantaram as mãos, e fomos convidados a dançar com Laretha em frente ao palco. No final do show, tiramos foto com a banda, eu comprei o cd de Laretha e quando fomos ao banheiro vimos que havia uma parede na qual as pessoas escreviam seus nomes. Claro que decidimos registrar os nossos na história daquele lugar: “Djamila, do Brasil, e Rosario, do Peru, estiveram aqui”.
No dia seguinte, ambas seguiram suas viagens e seus destinos. Rosario me explicou como ir à estação de trem andando e, apesar de estar com uma mala grande, assim fui para economizar. Ansiava viajar de trem fazia muito tempo. Minha única experiência fora quando criança, quando fomos de Santos a Mongaguá. Havia sido uma viagem incrível, minha mãe estava leve e feliz, praticamente não brigou com a gente e essas é uma das memórias mais doces da minha infância. Depois, o governo encerrou as viagens de trem daquele tipo. Hoje, em Santos, no local onde ficava a estação de trem, há um hipermercado.
Tudo parecia mágico pra mim. Ver o trem, andar até meu vagão, esperar ansiosa pela partida. Fiquei tirando fotos, enviando mensagens para as minhas amigas, relembrando os momentos no Blues Chicago. Durante a viagem, passamos por lugares muito pobres, muitos deles bairros negros. Quando cheguei em Saint Louis, resolvi pegar um táxi. O taxista era um senhor negro extremamente gentil e, ao perguntar de onde eu vinha, começou a fazer perguntas sobre o Brasil.
Lembro de ele ter ficado impressionado quando eu contei que o Brasil havia sido o último país das Américas a abolir a escravidão. Ele, como negro, contou sobre como foi difícil sua infância naquela cidade, que, apesar de ter avançado em algumas questões, ainda era muito racista. “Esse país foi fundado no racismo e isso infelizmente nunca mudará”, disse. Ele me falou dos lugares que eu deveria conhecer, como o Observatório, e me contou mais da história da cidade e do arco enorme que foi construído ali para celebrar a reconquista. Quando estávamos perto do hotel onde eu ficaria, ele disse que as pessoas implicariam com o meu sotaque, mas que eu não deveria dar importância. Declarou também que discordava da política internacional americana, que foi contra a invasão no Iraque e finalizou:
É duro dizer isso, mas nós somos burros. Nosso governo está matando as pessoas e a gente não liga. Enquanto estivermos comprando nossos aparelhos eletrônicos, nos entupindo de coisas que não precisamos, nós não nos revoltaremos. E isso me envergonha. Eu sou um americano antiamericano.”
Nós nos despedimos, ele me deu seu cartão caso eu precisasse novamente de um táxi e lembro de ter entrado no hotel com aquele sorriso que a gente abre apenas quando pode conversar de igual para igual com alguém que tem uma visão crítica do mundo.
A conferência foi sensacional, eu apresentei parte da minha pesquisa de mestrado e fui, mais uma vez, recebida com muito carinho. Rever Margaret A. Simons foi uma experiência linda, e mais uma vez dividi o quarto com Deniz Durmuz, uma amiga turca que havia conhecido na conferência do Oregon. Dessa vez, a Beauvoir Society havia organizado o evento muito plural, em parceria com outros grupos, como o de Filosofia Africana da Universidade de Rhoden Island, da Sartre Society, de grupos relacionados a pesquisas sobre feminismo negro.
Pude conhecer pessoas de várias parte do mundo, algumas que são minhas amigas até hoje. Formamos um grupo muito acolhedor e saímos pra conhecer os pontos turísticos que o gentil taxista havia me indicado. Um dia, as pessoas da organização do evento nos levaram para um bar sensacional, o BB’S Jazz Blues & Soups. Eu me lembro como se fosse hoje do quanto dancei aquela noite. Como estava me sentindo em um ambiente seguro, aproveitei cada segundo, vibrei com as músicas, vivi aquele momento da melhor maneira. Parecia a moça de vinte e um anos no Bar do 3, vó, suada, sem se importar com a maquiagem escorrendo, simplesmente sendo. Todas as pessoas do nosso grande grupo vibravam na mesma energia.
Na ida a Saint Louis, enquanto aguardava o trem, tirei uma foto minha olhando pela janela e postei numa rede social com a seguinte legenda: “A caminho de Saint Louis, no trem, entre a expectativa e a espera”. Mas ali, naquele momento, aplaudindo efusivamente ao final de cada música, não existia mais expectativa, havia entrega. Eu não precisava fingir autenticidade, eu simplesmente podia sentir, deixar sair pelos meus poros todas as situações de angústia por não saber qual caminho seguir, deixar escorrer toda mágoa das coisas que não haviam sido, cada ressentimento pelas situações de solidão. Por um breve momento, olhei para o passado sem nostalgia, somente como contingências que me traziam ao agora. Quando ouvi a banda tocar uma canção de amor, me emocionei, mas não de tristeza por amores do passado ou por situações mal resolvidas no meu casamento. Foi um choro de alívio por eu, apesar de todas as pedras no caminho ou as pedras que me atiraram, não ter desistido de mim para poder estar ali, naquele lugar, naquele exato momento, no BB’S Jazz Blues & Soups, chorando por ouvir uma música despretensiosa de amor.
Aquela mulher de trinta e quatro anos se sentiu plena, como se as asas agora não precisassem mais ser coladas; elas sempre estiveram ali aguardando o momento do voo.
Após dias fantásticos, passei um susto na volta. Havia planejado a minha volta para Chicago no mesmo dia do voo para São Paulo. Eu me programei para sair com bastante antecedência e daria tempo de sobra para chegar em Chicago com calma e ir para o aeroporto. Porém, não contava com os atrasos dos trens nos Estados Unidos — que, descobri, eram muito comuns. Houve um atraso de quase quatro horas e eu, sem dinheiro, já imaginava o terror que seria caso perdesse o voo. Não tinha cartão de crédito, o que eu ganhava da Fapesp servia para pagar parte do aluguel em casa e para me manter estudando. Meu marido ficaria irritado, e eu precisaria passar alguns dias no aeroporto até que tudo pudesse se resolver.
Devo ter perguntado algumas dezenas de vezes para os funcionários do trem o que estava acontecendo, mas todas as respostas eram evasivas. Eu não tinha um plano telefônico internacional, o wi-fi do trem só funcionava em movimento, não tinha como avisar ou ligar na companhia aérea. Foram momentos muito tensos. Quando finalmente o trem partiu, a tensão não diminuiu. Eu não tinha dinheiro para pegar um táxi quando chegasse em Chicago, e eu havia planejado tudo sem contar com imprevistos. O que eu podia fazer era rezar e foi o que fiz.
Quando finalmente desci do trem, corri desesperada para a saída da estação. Eu não fazia a mínima ideia de qual transporte pegar para chegar no aeroporto, pois na ida para Chicago eu tinha ficado no hostel antes e tive tempo de me organizar. Assim que saí da estação, dei de cara com um ponto de ônibus. Assim que o primeiro apareceu, eu dei sinal para pedir informações para o motorista. Ele apontou para a direita dele e disse: “Ali fica a estação de metrô e tem um que vai direto para o aeroporto”. Agradeci e voltei a correr, agora em direção ao metrô. Assim que cheguei lá, me peguei perdida com aquelas máquinas gigantes para comprar o bilhete. Estava tão nervosa que minhas mãos tremiam e não conseguia entender o que estava fazendo. De repente, uma funcionária se aproximou perguntando se eu precisava de ajuda. Contei a situação toda pra ela e perguntei como faria para chegar ao aeroporto. Ela falou para eu ter calma e, gentilmente, perguntou:
De que lugar da África é esse sotaque lindo?”
Não é da África, é do Brasil.”
Brasil! Então também é África, todos nós viemos de lá!”
No momento em que disse isso, uma das moedas que eu segurava caiu no chão:
Está vendo, estamos saudando a nossa terra!”
Com muita calma e paciência, ela me explicou tudo: em qual plataforma eu deveria pegar o metrô, onde deveria descer e como fazer para chegar ao aeroporto. Agradeci emocionada e disse: “Espero que eu não perca o meu voo”. “Não vai”, ela me respondeu.
Fui rezando o caminho todo. Cheguei no aeroporto depois de o despacho de malas já ter sido encerrado — mas pelo menos o avião ainda não tinha partido. Por causa do atraso, minha bagagem precisou ser aberta por uma segurança grosseira, que tirou todos os cremes que eu havia comprado para minhas amigas com mais de 50 ml e tudo o que saía do padrão de uma mala de mão. Senti pelos cremes, mas fiquei feliz da vida por ter conseguido embarcar.
Passado o susto, já sentada no meu assento no avião, agradecendo a todos os orixás, fui entender o que havia acontecido. Antes da minha viagem, um amigo meu havia sonhado comigo. No sonho, ele e eu estávamos numa casa, vestidos com roupas brancas e segurando velas acesas na mão. Num dado momento, nós nos aproximávamos para colocar as velas em um altar. Depois eu saía e ficava esperando esse meu amigo do lado de fora da casa. Assim que ele me encontrava na calçada, ele dizia: “Um homem veio falar comigo e disse que você é a ‘menina dos olhos de Ogum’”. No momento em que ele me contou, eu achei lindo o sonho, mas não dei muita importância. Mas ali, após passar um susto tremendo, o sonho me veio à memória. O motorista do ônibus que me falou onde ficava a estação de metrô era um homem negro retinto que usava uma camisa azul-escura, a cor de Ogum. A senhora que me ajudou na estação de metrô e saudou a África havia dito confiante que eu não perderia o voo. Senti que não estive sozinha, que fui amparada o tempo todo. Você sempre me amparou, vó, tenho certeza de que minhas rezas foram atendidas e que minha linhagem feminina nunca me desamparou.
Sempre fico emocionada quando me lembro dessa história, do quanto vocês me ensinaram que Orixá é vivo. O babalorixá Sidnei Nogueira, um importante sacerdote brasileiro, diz que nós viemos da magia, que somos incomensuráveis como a África, que somos seres espirituais experimentando a matéria. Ao ouvir essas palavras dele, me lembrei de você, vó, das vezes que me livrou de perigos e com rezas me curou de doenças. Você foi o primeiro ser mágico do qual tenho memória. E foi sua magia que me trouxe até aqui.

Djamila Ribeiro, in Cartas para minha avó

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