No
ano seguinte, em 2014, participei de mais uma edição da Simone de
Beauvoir Society Conference, que aconteceu em Saint Louis, no
Missouri, a cidade natal de Margaret A. Simons. Eu havia conseguido
bolsa da Fapesp durante o mestrado e as coisas ficaram mais fáceis,
pois havia subsídios para viagens acadêmicas como essa. Foi a
terceira vez que saí do Brasil.
Percebe,
vó, as primeiras experiências internacionais vieram por causa da
universidade, ou seja, até aquele momento eu ainda não havia
viajado para fora pra descansar ou simplesmente por lazer. Então
decidi que dessa vez eu teria a diversão antes. Como as passagens
para Saint Louis estavam muito caras e ultrapassavam o valor que a
Fapesp disponibilizava, resolvi pesquisar se havia trens para lá
saindo de Chicago, uma cidade que eu sempre quis conhecer por seus
tradicionais bares de blues, sobretudo o Blues Chicago.
Eu
amo blues e jazz e já cheguei a ficar horas pesquisando sobre o
Blues Chicago, um dos primeiros bares a contratar mulheres para
cantar. Para minha alegria, não só havia trem, como cabia no
orçamento. Como precisava economizar, escolhi o quarto mais barato
de um hostel perto do bar. Por uma noite, dividi o quarto com outras
nove pessoas, todas desconhecidas. Mas tudo bem, eu realizaria um
sonho.
Assim
que cheguei em Chicago, saí para explorar a cidade. Fui até a
Willis Tower, um dos prédios mais altos da cidade e um dos
principais pontos turísticos. Andei bastante, fiz fotos, pedia
informações na rua quando não entendia os mapas, e voltei para me
arrumar para o grande momento. Ao chegar no quarto, encontrei uma
moça sentada, mexendo em seu computador. Tentando fazer o mínimo de
barulho possível para não incomodá-la, abri o meu armário e
peguei minha mala. Foi quando vi que meu telefone estava ficando sem
bateria e eu não tinha um adaptador de tomada para poder
recarregá-lo. Precisei quebrar o silêncio e falar com ela, pois não
havia a mínima possibilidade de eu ir ao Blues Chicago sem registrar
aquele momento único.
Ao
perceber meu sotaque, ela me perguntou de onde eu era e passamos a
conversar. Ela se chamava Rosario, era peruana e fazia doutorado numa
universidade americana. Para minha surpresa, ela também estudava
teoria feminista e engatamos na conversa. Rosario estava de férias e
havia decidido viajar pelos Estados Unidos de trem. Eu contei a ela o
que estava fazendo lá, que participaria de uma conferência em Saint
Louis, mas que havia aproveitado a oportunidade para conhecer o Blues
Chicago. Ela desconhecia esse ritmo musical, mas aceitou meu convite
para ir comigo. Fiquei muito feliz, pois além de Rosario ser
agradável, não ficava corrigindo meu inglês como os
norte-americanos faziam. E, sobretudo, porque seria bom ter uma
companhia numa cidade grande e desconhecida.
Para
economizar, fomos a pé. Seria uma caminhada de vinte e cinco
minutos, mas quando estávamos na metade do trajeto fomos abordadas
por um policial que nos questionou o que fazíamos ali àquela hora
da noite. Ele nos aconselhou a não andar sozinhas ali, pois segundo
ele seria muito perigoso. Não houve outro jeito, vó, tivemos que
rachar um táxi.
Quando
chegamos, minha alegria era contagiante. Lembro que, quando assistia
aos vídeos sobre o Blues Chicago na internet, em um deles, aparecia
um homem negro, com um vozeirão, e dizia algo como: “Bem-vindo ao
Blues Chicago” e, em seguida, aparecia uma mulher cantando e
dançando. Esse mesmo homem estava na porta cobrando a entrada.
Fiquei fascinada quando o vi.
Quando
o show começou, eu parecia estar em um sonho. Ao contrário de
muitos bares de jazz no Brasil, em que as pessoas ficam sentadas
bebendo, lá todos dançavam animados, embalados pela voz maravilhosa
de Laretha Weathersby e banda. Eu dancei, cantei, gritei. Rosario foi
totalmente tomada pela música e entrou no mesmo clima. Foi
catártico. Ainda mais quando, em um momento do show, Laretha
perguntou quem havia vindo de outros países. Rosario, eu e mais
algumas pessoas levantaram as mãos, e fomos convidados a dançar com
Laretha em frente ao palco. No final do show, tiramos foto com a
banda, eu comprei o cd de Laretha e quando fomos ao banheiro vimos
que havia uma parede na qual as pessoas escreviam seus nomes. Claro
que decidimos registrar os nossos na história daquele lugar:
“Djamila, do Brasil, e Rosario, do Peru, estiveram aqui”.
No
dia seguinte, ambas seguiram suas viagens e seus destinos. Rosario me
explicou como ir à estação de trem andando e, apesar de estar com
uma mala grande, assim fui para economizar. Ansiava viajar de trem
fazia muito tempo. Minha única experiência fora quando criança,
quando fomos de Santos a Mongaguá. Havia sido uma viagem incrível,
minha mãe estava leve e feliz, praticamente não brigou com a gente
e essas é uma das memórias mais doces da minha infância. Depois, o
governo encerrou as viagens de trem daquele tipo. Hoje, em Santos, no
local onde ficava a estação de trem, há um hipermercado.
Tudo
parecia mágico pra mim. Ver o trem, andar até meu vagão, esperar
ansiosa pela partida. Fiquei tirando fotos, enviando mensagens para
as minhas amigas, relembrando os momentos no Blues Chicago. Durante a
viagem, passamos por lugares muito pobres, muitos deles bairros
negros. Quando cheguei em Saint Louis, resolvi pegar um táxi. O
taxista era um senhor negro extremamente gentil e, ao perguntar de
onde eu vinha, começou a fazer perguntas sobre o Brasil.
Lembro
de ele ter ficado impressionado quando eu contei que o Brasil havia
sido o último país das Américas a abolir a escravidão. Ele, como
negro, contou sobre como foi difícil sua infância naquela cidade,
que, apesar de ter avançado em algumas questões, ainda era muito
racista. “Esse país foi fundado no racismo e isso infelizmente
nunca mudará”, disse. Ele me falou dos lugares que eu deveria
conhecer, como o Observatório, e me contou mais da história da
cidade e do arco enorme que foi construído ali para celebrar a
reconquista. Quando estávamos perto do hotel onde eu ficaria, ele
disse que as pessoas implicariam com o meu sotaque, mas que eu não
deveria dar importância. Declarou também que discordava da política
internacional americana, que foi contra a invasão no Iraque e
finalizou:
“É
duro dizer isso, mas nós somos burros. Nosso governo está matando
as pessoas e a gente não liga. Enquanto estivermos comprando nossos
aparelhos eletrônicos, nos entupindo de coisas que não precisamos,
nós não nos revoltaremos. E isso me envergonha. Eu sou um americano
antiamericano.”
Nós
nos despedimos, ele me deu seu cartão caso eu precisasse novamente
de um táxi e lembro de ter entrado no hotel com aquele sorriso que a
gente abre apenas quando pode conversar de igual para igual com
alguém que tem uma visão crítica do mundo.
A
conferência foi sensacional, eu apresentei parte da minha pesquisa
de mestrado e fui, mais uma vez, recebida com muito carinho. Rever
Margaret A. Simons foi uma experiência linda, e mais uma vez dividi
o quarto com Deniz Durmuz, uma amiga turca que havia conhecido na
conferência do Oregon. Dessa vez, a Beauvoir Society havia
organizado o evento muito plural, em parceria com outros grupos, como
o de Filosofia Africana da Universidade de Rhoden Island, da Sartre
Society, de grupos relacionados a pesquisas sobre feminismo negro.
Pude
conhecer pessoas de várias parte do mundo, algumas que são minhas
amigas até hoje. Formamos um grupo muito acolhedor e saímos pra
conhecer os pontos turísticos que o gentil taxista havia me
indicado. Um dia, as pessoas da organização do evento nos levaram
para um bar sensacional, o BB’S Jazz Blues & Soups. Eu me
lembro como se fosse hoje do quanto dancei aquela noite. Como estava
me sentindo em um ambiente seguro, aproveitei cada segundo, vibrei
com as músicas, vivi aquele momento da melhor maneira. Parecia a
moça de vinte e um anos no Bar do 3, vó, suada, sem se importar com
a maquiagem escorrendo, simplesmente sendo. Todas as pessoas do nosso
grande grupo vibravam na mesma energia.
Na
ida a Saint Louis, enquanto aguardava o trem, tirei uma foto minha
olhando pela janela e postei numa rede social com a seguinte legenda:
“A caminho de Saint Louis, no trem, entre a expectativa e a
espera”. Mas ali, naquele momento, aplaudindo efusivamente ao final
de cada música, não existia mais expectativa, havia entrega. Eu não
precisava fingir autenticidade, eu simplesmente podia sentir, deixar
sair pelos meus poros todas as situações de angústia por não
saber qual caminho seguir, deixar escorrer toda mágoa das coisas que
não haviam sido, cada ressentimento pelas situações de solidão.
Por um breve momento, olhei para o passado sem nostalgia, somente
como contingências que me traziam ao agora. Quando ouvi a banda
tocar uma canção de amor, me emocionei, mas não de tristeza por
amores do passado ou por situações mal resolvidas no meu casamento.
Foi um choro de alívio por eu, apesar de todas as pedras no caminho
ou as pedras que me atiraram, não ter desistido de mim para poder
estar ali, naquele lugar, naquele exato momento, no BB’S Jazz Blues
& Soups, chorando por ouvir uma música despretensiosa de amor.
Aquela
mulher de trinta e quatro anos se sentiu plena, como se as asas agora
não precisassem mais ser coladas; elas sempre estiveram ali
aguardando o momento do voo.
Após
dias fantásticos, passei um susto na volta. Havia planejado a minha
volta para Chicago no mesmo dia do voo para São Paulo. Eu me
programei para sair com bastante antecedência e daria tempo de sobra
para chegar em Chicago com calma e ir para o aeroporto. Porém, não
contava com os atrasos dos trens nos Estados Unidos — que,
descobri, eram muito comuns. Houve um atraso de quase quatro horas e
eu, sem dinheiro, já imaginava o terror que seria caso perdesse o
voo. Não tinha cartão de crédito, o que eu ganhava da Fapesp
servia para pagar parte do aluguel em casa e para me manter
estudando. Meu marido ficaria irritado, e eu precisaria passar alguns
dias no aeroporto até que tudo pudesse se resolver.
Devo
ter perguntado algumas dezenas de vezes para os funcionários do trem
o que estava acontecendo, mas todas as respostas eram evasivas. Eu
não tinha um plano telefônico internacional, o wi-fi do trem só
funcionava em movimento, não tinha como avisar ou ligar na companhia
aérea. Foram momentos muito tensos. Quando finalmente o trem partiu,
a tensão não diminuiu. Eu não tinha dinheiro para pegar um táxi
quando chegasse em Chicago, e eu havia planejado tudo sem contar com
imprevistos. O que eu podia fazer era rezar e foi o que fiz.
Quando
finalmente desci do trem, corri desesperada para a saída da estação.
Eu não fazia a mínima ideia de qual transporte pegar para chegar no
aeroporto, pois na ida para Chicago eu tinha ficado no hostel antes e
tive tempo de me organizar. Assim que saí da estação, dei de cara
com um ponto de ônibus. Assim que o primeiro apareceu, eu dei sinal
para pedir informações para o motorista. Ele apontou para a direita
dele e disse: “Ali fica a estação de metrô e tem um que vai
direto para o aeroporto”. Agradeci e voltei a correr, agora em
direção ao metrô. Assim que cheguei lá, me peguei perdida com
aquelas máquinas gigantes para comprar o bilhete. Estava tão
nervosa que minhas mãos tremiam e não conseguia entender o que
estava fazendo. De repente, uma funcionária se aproximou perguntando
se eu precisava de ajuda. Contei a situação toda pra ela e
perguntei como faria para chegar ao aeroporto. Ela falou para eu ter
calma e, gentilmente, perguntou:
“De
que lugar da África é esse sotaque lindo?”
“Não
é da África, é do Brasil.”
“Brasil!
Então também é África, todos nós viemos de lá!”
No
momento em que disse isso, uma das moedas que eu segurava caiu no
chão:
“Está
vendo, estamos saudando a nossa terra!”
Com
muita calma e paciência, ela me explicou tudo: em qual plataforma eu
deveria pegar o metrô, onde deveria descer e como fazer para chegar
ao aeroporto. Agradeci emocionada e disse: “Espero que eu não
perca o meu voo”. “Não vai”, ela me respondeu.
Fui
rezando o caminho todo. Cheguei no aeroporto depois de o despacho de
malas já ter sido encerrado — mas pelo menos o avião ainda não
tinha partido. Por causa do atraso, minha bagagem precisou ser aberta
por uma segurança grosseira, que tirou todos os cremes que eu havia
comprado para minhas amigas com mais de 50 ml e tudo o que saía do
padrão de uma mala de mão. Senti pelos cremes, mas fiquei feliz da
vida por ter conseguido embarcar.
Passado
o susto, já sentada no meu assento no avião, agradecendo a todos os
orixás, fui entender o que havia acontecido. Antes da minha viagem,
um amigo meu havia sonhado comigo. No sonho, ele e eu estávamos numa
casa, vestidos com roupas brancas e segurando velas acesas na mão.
Num dado momento, nós nos aproximávamos para colocar as velas em um
altar. Depois eu saía e ficava esperando esse meu amigo do lado de
fora da casa. Assim que ele me encontrava na calçada, ele dizia: “Um
homem veio falar comigo e disse que você é a ‘menina dos olhos de
Ogum’”. No momento em que ele me contou, eu achei lindo o sonho,
mas não dei muita importância. Mas ali, após passar um susto
tremendo, o sonho me veio à memória. O motorista do ônibus que me
falou onde ficava a estação de metrô era um homem negro retinto
que usava uma camisa azul-escura, a cor de Ogum. A senhora que me
ajudou na estação de metrô e saudou a África havia dito confiante
que eu não perderia o voo. Senti que não estive sozinha, que fui
amparada o tempo todo. Você sempre me amparou, vó, tenho certeza de
que minhas rezas foram atendidas e que minha linhagem feminina nunca
me desamparou.
Sempre
fico emocionada quando me lembro dessa história, do quanto vocês me
ensinaram que Orixá é vivo. O babalorixá Sidnei Nogueira, um
importante sacerdote brasileiro, diz que nós viemos da magia, que
somos incomensuráveis como a África, que somos seres espirituais
experimentando a matéria. Ao ouvir essas palavras dele, me lembrei
de você, vó, das vezes que me livrou de perigos e com rezas me
curou de doenças. Você foi o primeiro ser mágico do qual tenho
memória. E foi sua magia que me trouxe até aqui.
Djamila Ribeiro, in Cartas para minha avó
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