Ricardo
e Roberto aos poucos foram se habituando à nova vida. Os meses
substituíram aquele verão escaldante por um friozinho até de certo
modo impertinente.
Não
era tão agradável levantarem-se às cinco e meia, tomar um café
mais ou menos magro e se encaminharem para a estação, onde pegavam
o trem de seis e meia, um Maria-Fumaça que saía de Bangu e oferecia
a oportunidade de viajarem sentados e juntos. Os outros, os que
vinham de Campo Grande e Santa Cruz, surgiam lotados, com gente até
pendurada nas plataformas.
Hoje,
porém, o dia surgira de um modo todo especial. Juntos no mesmo banco
olhavam a paisagem do trem. Muitos já se conheciam de vista ou então
formavam amizades. Conversavam os seus problemas, retificavam as
dificuldades da vida ou simplesmente se queixavam sem solução
alguma.
Roberto
olhou de relance o rosto calmo e grave do irmão. Certamente pensaria
os mesmos pensamentos ao mesmo tempo que os seus.
– Ricardo,
o que você achou da novidade?
A
resposta custou a vir e assim mesmo com um balançar de ombros,
indiferente.
– Não
consegui nem dormir direito essa noite.
– Eu
notei.
– É
tudo quanto você me diz?
– Precisamos
pensar com calma no assunto. Muita calma mesmo. Seria melhor pensar
durante o dia e na volta a gente conversar sem pressa...
Nada
mais disse, mas a frase de Rômulo martelava o seu ouvido, o ouvido
da sua estupefação.
“Estamos
ricos de novo. Poderemos dentro de uma semana voltar para a cidade.
Basta de pobreza!...”
Revia
na memória o irmão torcendo os dedos de alegria.
“Voltaremos
em breve à civilização. Basta de rua descalça, de gente suja, de
verão sufocante. De poeira e lama.”
Roberto
não se conteve e tornou a interrogar o irmão.
– Seriamente,
Ricardo, você acha que Mabel voltará a ser a mesma?
Sorriu
antes da resposta.
– Certamente
sim.
Meu
Deus! Aqueles meses deveriam ter modificado ao menos certas atitudes
da mãe. Não. A mesma, a mesma, não poderia ser. Alguma coisa de
mais profundo deveria ter personificado e atingido o íntimo de
Mabel. Ela teria descoberto tudo de falso e negativo da vida.
Entretanto, não olvidava o seu sorriso de satisfação, quando
Rômulo anunciou o que qualificaria de boa-nova.
– Amigos.
Chegou o momento. O aneurisma de tio Hermes arrebentou. Vamos ter
dinheiro aos montes.
Depois,
cinicamente, continuou:
– Nunca
rezei, implorei e desejei tanto na vida que um aneurisma estourasse.
Ricardo
o olhara duramente, sem comentar. Roberto ficou perplexo. Mas o
sorriso de Mabel não desapareceu do seu rosto por todo o resto da
noite.
O
trem andava, parava, apitava e recomeçava a marcha contando os
dormentes da estrada. Em Realengo, o trem tornava-se tão cheio que
parecia voltar de novo o calor do verão. Isso porque todo mundo
viajava de janelas arreadas para evitar a invasão do carvão. No
verão ainda era pior, porque a roupa clara de brim se sujava
incrivelmente e Mabel não parava de se lamuriar. Reclamava seus
dedos gastos no tanque e a grosseria de calos que existiam nas palmas
de sua mão.
– Baleiro.
Baleiro. Quem quer mariola. Paçoquinha de amendoim. Balas, caramelos
e chocolates!
Pedia
licença e empurrava o cestinho por entre o amontoado de gente no
corredor do trem.
A
professora, que ao lado de outra professora fazia um tricô feio e
marrom, parecia não se incomodar com o resto da humanidade e muito
menos com o gritar-me-nino do vendedor de balas. Não se lembrava que
o garoto levantara-se antes do sol, atravessara ruas descalças a pé,
pegara o seu tabuleiro de mercadoria barata e se arriscava à ira dos
fiscais, para amealhar uns míseros tostões e ajudar a mãe ou o
pai.
– Juro
que eu não rezei para que o aneurisma de tio Hermes rebentasse. Nem
ao menos desejei isso. Embora algumas vezes pensasse em voltar para a
cidade e viver uma vida mais humana e menos cansativa.
Ricardo
cutucou o seu braço.
– Você
está pensando em voz alta. Eu também não desejei isso.
– Mas
Rômulo declarou abertamente.
– Rômulo
é assim mesmo. Sempre foi assim.
Retornou
o pensamento a Mabel. Será que a mãe também rezara para que
“aquilo” acontecesse? Mas não queria fazer mau juízo.
Do
outro lado, mais para a frente, surgiu uma discussão danada. Era uma
voz esganiçada de mulher quase aos brados.
– O
senhor bem que poderia fechar essa janela. Tá pensando que é dono
do mundo?
– Num
penso em nada, viu? A gente é que está morrendo de calor e
abafamento.
– É
melhor morrer de calor do que ficar com os olhos cheios de carvão,
engraçadinho. O senhor porque usa bicicleta em cima dos olhos não
liga.
– Ora,
dona, engraçadinho é a avó. Eu sou pai de oito filhos e não ando
de trem pra passear. São oito bocas pra alimentar. Gente pra calçar.
Escola pra comprar uniforme, papel e livros, viu?
– Não
estou especulando a vida de ninguém, mas se o senhor fosse um
cavalheiro fechava a janela e já.
– E
se a senhora fosse uma dama comprava um Buick e viajava sozinha.
Aí
a discussão esquentou mais. Encorpou até. A mulherzinha não
calava. Tinha de ganhar a briga.
– Se
pudesse comprar um Buick comprava antes um manual de boa educação
para o senhor.
– Os
incomodados é que se mudam.
Uma
criancinha principiou a chorar. E a turma do “deixa disso” entrou
em cena.
– Calma,
minha gente. Calma. Discutir por uma bobagem dessas.
Ouviu-se
o ruído da janela levantando o vidro. A criança parou de chorar aos
poucos e a mulher regougou ainda algumas coisinhas e tudo voltou ao
que era antes. Com mais calor e menos carvão.
Tio
Hermes tinha deixado uma herança enorme. Seria dividida entre Mabel
e tia Clarissa. Enquanto montava o legado, Roberto nem imaginava. Mas
Rômulo manifestara tamanha alegria que a coisa deveria andar por
alto.
O
trem avançava o seu destino, só que suas rodas gritavam nos trilhos
uma palavra que só Roberto entendia:
– Copacabana!
Copacabana! Co-pa-ca-ba-na!!!
Passou
a mão sobre a fronte suada. E agora? Voltar à mesma vida. Ora todos
voltariam, se voltariam. Era como se viessem de uma viagem em redor
do mundo. Entrariam no mesmo nível social com a cara mais limpa,
mais lambida. E com o dinheiro de novo, novos jantares, novas
reuniões, novos baralhos e roletas vivas durante noites e noites.
Passou
um aleijado que sempre subia em Deodoro e saltava em Bento Ribeiro.
Era o esmoler das terças-feiras. Já tinha até a freguesia certa.
Empurrava,
espremia a multidão e lá ia com a sua muleta e sem uma perna. Ao se
afastar, muita gente comentava.
– Dê
não, moça. Ele tem até uma porção de casa. Pede por vício. É
como aquele cego cearense lá do Engenho de Dentro. Dizem até que dá
uma porcentagem pro cobrador...
– Mas
o que dou é tão pouco que nem ajuda.
– Pois
aí é que está. Esse pouco poderia ajudar a quem mesmo precisasse.
O
trem encheu mais. E apareceu mais gente comprimida. Dessa vez uma
turma que carregava marmita dentro de pasta, porque a economia era
maior do que comer no batente. Engraçada a alegria com que
conversavam. Na certa continuavam a conversa principiada na espera da
estação.
– Esse
tal de Pimenta não entende é de nada de futebol. Onde já se viu
colocar esse tal de Lopes na ponta-direita do selecionado nacional?
– Mas
dizem que o homem é bom mesmo.
– Vocês
já viram esse homem jogar alguma vez? Já ouviram falar dele antes
disso tudo?
– Não.
Mas por mim eu emendava a linha do Flamengo com Romeu. Botava Valido,
Romeu, Leônidas, Perácio e um ponta-esquerda qualquer.
– Isso
é que não. Tem o Patesko que joga com o Perácio no Botafogo.
– Por
mim, não. Sapecava mesmo a linha do Fluminense: Bioró, Romeu,
Sandro, Tim e Hércules. Tá?
– Sim.
Mas tu sisquicia do Diamante. Sem Diamante Negro, linha de ataque não
é de nada.
Veio
o cobrador das passagens no seu uniforme azul-marinho com riscas
douradas no quepe e no colarinho.
– Passagem,
faz favor.
Triquete-triquete-triquete.
Picoteava a passagem. Ou recolhia ou devolvia a quem continuava até
à Central. Veio se intrometendo no meio da gente toda e se
debruçando sobre os bancos.
Uma
voz resmungou.
– Peste
desse Brozoário! Faz uma semana que ele não aparece e logo hoje,
que entrei pela linha e não comprei passagem, ele vem.
Ricardo
riu da expressão. Na certa aquele homem nem sabia o que vinha a ser
Brozoário. Ouvira de alguma parte e para ele aquilo era tão forte
como um palavrão.
Na
sua frente o distinto cavalheiro que lia um livro o tempo todo abriu
o paletó e retirou do bolsinho do colete o bilhete. Recebeu-o de
volta sem tirar os olhos do livro. A capa conservadíssima tal o
acuro que o dono lhe dispensava: O Judeu Errante.
Pois
foi junto do distinto cavalheiro à sua frente que se deu uma vaga em
Marechal Hermes. Tratava-se de um senhor gordo, de testa suarenta e
sobretudo um pescoço se enforcando numa gravata velha, derramando
banha pela gola do batido paletó. Colocou a pasta da marmita sobre o
colo e abanou-se com as mãos roliças e pequeninas.
– Uff!
Até que às vezes Deus tem pena da gente. Tava com meus calos que
pareciam brasa de vulcão.
Ricardo
sorriu olhando o homem. Era daqueles que não paravam de falar a
viagem inteira. O homem dirigiu-se ao distinto cavalheiro que lia a
seu lado.
– Se
eu não pegasse essa beira acho que desmaiava de cansaço. Fui dormir
quase na hora de levantar. Quebrou o pau lá em casa, sô. A vizinha
tem um bandão de galinha, mas não cerca elas. Resultado, as bichas
invadiram o fundo do quintal da patroa e ciscaram as mudas de
hortaliças que tinham acabado de ser plantadas. Foi um bate-língua
dos diabos. A patroa que tem maus bofes sentou varada de bambu nas
galinhas. Quando cheguei tava o rolo formado. Entrei de frente.
Resultado, fomos parar na delegacia.
– Hum...
Ricardo
sorriu bondosamente, mas o homem queria mesmo era conversar com o
distinto. Olhou para o irmão, mas ele nem notava o que se passava.
Estava perdido na conversa, em frente de duas professoras bem usadas,
para não dizer velhuscas. A que contava a história fazia dengues na
voz.
– Juro
que não sei o que fazer. Mas é um moreno de botar Clark Gable no
chinelo. Um tipão de ombros largos. Remador do Flamengo. Uns olhos
verdes enormes. Um bigode fininho. Um cabelo negro e liso que cai
para a frente...
– E
daí?
– Daí
não sei que fazer...
– Mas,
se o senhor pensa que ficou só na coisa da galinha, está
redondamente enganado. A gente foi se deitar pertinho da meia-noite.
E quem é que dormia? Todo mundo nervoso dentro de casa. Tomando água
de flor de laranjeira. Indo lá fora na casinha, abrindo a porta da
cozinha que rangia pra burro.
– Hum...
– Um
tipo assim e com aquele sorriso tira a serenidade de qualquer mulher.
Fala com a gente, devorando a gente com aquele modo de sorrir. Sabe o
que ele me propôs?
– Não.
Mas você vai contar.
– Claro.
Te conto tudo na vida. Não fosse você minha amiga de infância.
Bem, ele me convidou para irmos sábado na sessão das quatro no
Metro-Passeio. Nem sei se devo ir.
– Se
fosse eu ia de olhos fechados...
– Além
daquele rebuliço dentro de casa, o calor danou-se mesmo. O lençol,
a cama, tudo esquentava que nem fogo. Eu pensei abrir a janela. Mas a
patroa reclamou que entrava mosquito. Falei que a gente abria e
botava flit. Mas aí quem pegou fogo foi ela. Se eu estava doido.
Logo hoje que ela tivera um trabalho dos diabos para passar cera no
soalho...
– Imagine
ficar numa fila às quatro na cidade. Fila que não acaba mais.
Chamando a atenção ao lado daquele atleta bronzeado, maravilhoso.
De repente passa um conhecido. E os comentários vão na certa se
espalhar.
– Ora,
querida. Que importa? É você quem dá o duro pegando trem de
madrugada. Se sacrificando. Que falem. Mesmo sem a gente fazer nada
na vida falam, quanto mais...
– Porque
na verdade a prefeitura só espia pra cidade mesmo. Copacabana é um
luxo. O carnaval leva rios de dinheiro e agora até estádios
milionários para um bandão de homem de calça curta correr atrás
de uma bola. Um bando de marmanjos que não tem mais o que fazer. O
mundo está mesmo perdido. E o resultado é esse: o capim cresce
comendo os cantos da rua. Quando chove a rua vira lama pura. E junto
ao capinzal se formam poças de água podre e os mosquitos nascem à
vontade. Vida, santo Deus!
– Hum...
– Você
iria?
– Com
um homem desses eu ia até à lua.
– Não
sei. Fico com medo porque não sei as suas intenções...
– E
quando a gente ia pegando no sono depois de tanta encrenca. Era mais
uma modorra que sono mesmo. Sabe o que aconteceu, moço? Uns
vagabundos que não têm nada que fazer ficaram discutindo a formação
do selecionado brasileiro. Era um tal de pôr Romeu e tirar Luisinho.
Um tal de entrar Diamante Negro e colocar Perácio que não acabava
mais. É de deixar qualquer cristão enlouquecido...
– Hum...
– Como
um homem pode botar a cabeça da gente a perder. Só penso nisso. Até
quando eu estou dando aulas enxergo os seus olhos dentro do
quadro-negro.
– Como
é que ele se chama?
– Ramon.
Ah! Ramon dos meus pecados!...
– Aí
eu não me guentei mesmo. Pulei da cama e abri a janela com estrondo.
“Vocês não têm mais o que fazer? E vêm logo perturbar o sono de
quem trabalha e tem que se levantar de madrugada? Por que não vão
conversar lá na esquina?” Sabe o que eles me responderam, sabe?
Xingaram o nome da minha santa mãe que descansa no céu e ainda me
mandaram tomar no fiofó...
Aí
deu-se a surpresa. O homem distinto do Judeu Errante virou o
rosto para o gordo e em vez do hum soltou toda a sua bílis.
– Quer
saber de uma coisa? Quer? Pois bem. Lá em casa aconteceu algo de
parecido. Só que em vez de galinhas eram perus. Até que na sua rua
o povo ainda é muito bondoso e pacato. Além de gente conversando
sobre futebol, o senhor sabe como fui acordado? Mas sabe mesmo? Com
Orlando Silva fazendo uma serenata para mim. Imagine só. Orlando
Silva às quatro e meia da manhã cantando “Rosa”, de
Pixinguinha, para me acordar. Tá?
O
gordo descontrolou-se todo e nem soube responder. O distinto voltou
impassível seus olhos para a continuação da viagem do Judeu.
Felizmente
o trem já tinha atravessado Bento Ribeiro, Oswaldo Cruz e chegava em
Madureira, onde o gordo se levantou com a sua pasta de couro
preto-russa.
Rapidamente
em seu lugar se postou um indivíduo mais ou menos moço, muito
perfumado e de cabelos bastante encaracolados, fugindo da moda,
porque a moda era alisar ao máximo os cabelos, como o fazia George
Raft. Mal o trem rodou nos trilhos, pôs-se a cantarolar baixinho um
bolero da moda, com uma sofrível vozinha de falsete.
– Vou?
– Vá.
– Depende.
– Do
quê?
– Não
sei. Mas já estamos chegando a Cascadura. De Cascadura até Engenho
de Dentro eu te digo se vou.
Alguém
comentou em Cascadura.
– Não
é mesmo que estão começando a instalar as redes elétricas para os
novos trens? Vai ser um luxo de matar.
– Besteira.
É mesmo que dar pérolas aos porcos. É só botar trem mais
maneirinho e limpo que o povo rebenta em dois tempos.
Surgiu
a estação de Quintinho.
– Vou?
– Pois
claro, mulher.
Encantado
apareceu na sua estação apinhada.
– Acho
que vou mesmo. Tudo indica que vá.
– Se
não for me dê o endereço que eu vou voando.
Engenho
de Dentro apareceu bem perto. Ela se levantou e foi tentar abrir o
público no corredor do trem.
Pela
última vez perguntou.
– Vou
mesmo?
– Claro
que deve ir. Não é sempre que se encontra um homem assim na vida.
– O
que pode a força de uns olhos verdes. Até amanhã.
Mas
ao passar por um mulatão de quase dois metros sentiu-se agarrada no
braço por uma mão calejada e forte. Olhou o mulato espavorida. Ele
sorria cinicamente nos dentes de ouro.
– Sabe,
dona, se eu fosse a senhora ia. Mas ia agora e ficava esperando até
sábado. Porque na vida a senhora nunca viu uma coisa dessas. Um
homem desse tipo não existe nem pra Gata Borralheira. Quanto mais
pra senhora. Se aparecesse um homem desses, de verdade, eu acho que
até eu ia voando...
Ela
se esgueirou nervosa e o mulato riu gostosamente. Sabia que naquele
aperto e na pressa de descer não estava se arriscando a levar com a
sombrinha pelas fuças.
[•••]
José Mauro de Vasconcelos, in Rua Descalça

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